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Tarde de domingo, lucida e serena como um crystal da Bohemia. O Sado dorme n’um azul tranquillo, n’um leito de saphira, que a menor aragem não agita, o que poucas vezes succede. O Campo do Bomfim immobilisa-se n’uma grande quietação bucolica, e os arvoredos circumjacentes recortam-se n’um fundo de stereoscópo longamente pittoresco...
As Rodartes foram passeiar a Brancannes: Hilda e Maria Ignez, de braço dado; Salomé guiando, como sempre, o avô,—Antigone que vae conduzindo Œdipo.
Habituadas á vida placida da Messejana, sentiam-se bem na solidão dos campos, mais convidativos ali do que na sua arida provincia do Alemtejo.
O velho Padre Eterno não queria outra felicidade que a de vêr-se rodeado pelo grupo encantador das suas tres Graças: onde ellas estivessem, estava o céo.
Nenhum dos cavalheiros serventes tinha apparecido ainda, e não faziam falta a ninguem, nem mesmo ás tres damas, que elles n’aquella tarde pareciam ter esquecido.
Salomé e o avô conversavam sobre negocios da administração da casa, porque aquella neta era o secretario particular do velho Rodarte: toda a correspondencia com os feitores e caseiros corria pela sua mão.
Hilda e Maria Ignez fallavam de coisas frivolas, assumptos de Setubal, que lhes serviam para ir matando o tempo.
—A andaluza foi com o pae a Lisboa, dizia Maria Ignez.
—Como sabes tu isso? perguntou Hilda.
—Porque m’o disse hoje o banheiro na praia.
—Ah! por isso, replicou Hilda, ninguem ainda viu nenhum dos seus pagens! Ou foram tambem para Lisboa ou estão mettidos em casa a chorar de saudade...
E riram ambas, sem despeito, apenas com a alegre ironia, que é uma feição caracteristica dos espiritos moços e despreoccupados.
—O sueco é que desappareceu da circulação!
—E o Lemos tambem!
—Não. O Lemos estava outro dia sentado á porta do café quando nós passamos.
—Parece que não está bem comnosco!
—Porquê?
—Eu sei lá! Deixal-o estar.
—E o jornalista?
O avô e Salomé haviam-se calado momentos antes.
—O jornalista, disse o velho Rodarte, mandou-me hoje a sua Trombeta.
—A da Fama, avôsinho? perguntou Maria Ignez.
—Não, a d’elle, a Trombeta Ullyssiponense.
—Por signal, accrescentou Salomé, que vem lá uns versos d’elle, que não são feios.
—Como são? perguntou Hilda. Tu que tens boa memoria, dize lá como são.
—Parece-me que sei apenas o principio. Intitulam-se Noites ao norte.
Noite fria, noite branca,
Noite da Russia polar,
És como a imagem da morte,
Ó longa noite do norte,
Feita de neve e luar.
—Dize lá o resto.
—Não sei. Tive de escrever para a Messejana uma carta que o avôsinho queria, e puz logo o jornal de parte.
—Esses versos fazem frio! disse rindo o avô.
—Frio e mêdo! accrescentou Hilda.
—Se elle faz d’esses versos á señorita, constipa-a, disse Maria Ignez.
O avô e as duas outras meninas riram muito da phrase.
—Coitados! continuou o Rodarte. Chega a ser comico esse cortejo da hespanhola! Tirados os nossos dois patricios, que são alegres, mas excellentes pessoas e proprietarios abastados, tudo o mais não vale um caracol.
—E D. Ramon? perguntou Maria Ignez.
—Quem sabe lá o que elle é! É um emigrado, que me não parece um forte sustentaculo da monarchia, nem um inimigo poderoso da republica.
—E o Vianninha? perguntou Hilda.
—O Vianninha é um pobre escripturario de fazenda, respondeu Araujo Rodarte, que anda a estudar o modo de não morrer de fome.
—Não, avôsinho! replicou Hilda. Elle anda a estudar o meio de conquistar a señorita.
—Está ella feliz com esse pretendente!
—Pois assim pobre como é, disse Maria Ignez, está apaixonada por elle a Sequeira. Dizem até que tem deitado sangue pela bôcca.
—Pobre rapariga! que tão mal empregou o seu coração! ponderou o Rodarte. E elle é um tolo, porque o pae da Sequeira tem alguma coisa de seu, possue duas marinhas em Alcacer, e é um homem que trabalha muito. De mais a mais, boa gente.
E Maria Ignez interrompeu a conversação, exclamando:
—Sabem quem vem acolá? São os nossos patricios.
—Antes elles do que os outros, disse o avô.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas vinham effectivamente subindo para Brancannes, onde sabiam que iam encontrar as tres lindas patricias.
A sua chegada trouxe maior animação ao dialogo.
—Então que vae lá por esse mundo da praia? perguntou o velho Rodarte.
—Algumas novidades ha.
—Novidades! Quaes?
—A andaluza foi com o pae para Lisboa, disse o morgado de Reguengos.
—Os nossos sentimentos... replicou Hilda.
O morgado fez-se purpurino.
—Ó minha senhora! disse elle. Tanto eu como este meu companheiro estamos aqui a banhos e queremos divertir-nos. Olhamos para tudo isto como se estivessemos no theatro. A andaluza tem sido a peça que está em scena: assistimos ao espectaculo e divertimo-nos a nosso modo.
—Assim é, confirmou o proprietario das Alcaçovas.
—Pois que hão de elles fazer! ponderou Araujo Rodarte. E mais?
—O conselheiro anda fazendo as suas despedidas. Já nos foi deixar bilhete.
—Mas elle contava ainda demorar-se! observou Araujo Rodarte.
—Lá estão commentando no Lapido a resolução do conselheiro.
—Mas ainda ha mais novidades! lembrou o morgado de Reguengos.
—Digam sempre.
—O Lemos planeou agora um espectaculo de curiosos em favor do Asylo. Parece que querem representar uma comedia escripta pelo Goes.
—Mas quem representa? perguntou Maria Ignez.
—Elles esperam que v. ex.ᵃˢ entrem.
—Nós! conclamaram as tres meninas.
—Ellas! exclamou simultaneamente o avô.
—Mas a mim consta-me por linhas travessas, disse o proprietario das Alcaçovas, que o pae do Lemos está furioso com a demora d’elle em Setubal, e que mais dia menos dia o virá buscar para o acompanhar a Lisboa, visto que se vae aproximando a época da abertura das aulas.
—Pobre pae! observou o Rodarte. O rapaz está aqui está a tomar capêllo em Physica.
—Tempo tem elle já para isso!
—Pois essa idéa do espectaculo é mesmo d’uma cabeça desconcertada!
—Outra novidade! exclamou o morgado de Reguengos.
—Qual?
—Appareceu o sueco!
—Tinha-se perdido? perguntou rindo Araujo Rodarte.
—Não, senhor. Tinha ido a Cintra sem dar cavaco á gente.
Os dois alemtejanos foram a Brancannes com o proposito astucioso de evitar que as Rodartes tomassem parte no espectaculo planeado n’aquella manhã pelo estudante d’Alcacer. Sondariam sobre o assumpto o animo do velho Rodarte. Mas logo ficaram tranquillos vendo que tanto o avô como as netas pensavam do mesmo modo: ellas não entrariam na récita.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas continuaram a não dar importancia á concorrencia amorosa do estudante e dos outros, que não tinham onde cahir mortos. Mas o galanteio de ambos com as duas Rodartes ia-se accentuando com um caracter de seriedade, que abrangia já a ideia do casamento, se ellas os não repellissem.
Queriam pois evitar, um e outro, que collaborassem n’um espectaculo de rapazes as duas senhoras, Hilda e Maria Ignez, admittida a possibilidade de que ellas lhes acceitassem a côrte.
Não sabiam elles ao certo o numero de personagens femininos que a peça exigiria; mas preveniam a hypothese de uma annuencia ao convite do estudante.
Combinado o espectaculo no café Esperança, e compromettido Aurelio Goes a escrever a peça, o estudante, o jornalista e o Vianninha foram em grupo ao encontro das Rodartes.
Vinham ellas já descendo de Brancannes com o avô e os dois alemtejanos, quando os tres as avistaram.
N’essa occasião o morgado de Reguengos colhia uma flôr e offerecia-a a Hilda. O estudante viu isto, e desfechou de longe uma gargalhada.
—Sabem vocês, disse elle aos companheiros, o que aquelle pedaço de bruto lhe está dizendo decerto agora?
—O que é?
—Aposto que ha de ser isto:
Aqui tem este raminho,
Que da minha mão se offerece.
Não é como eu queria,
Nem como a senhora D. Hilda merece.
E riram todos tres.
—Parece-me que á bêsta nos viu rir? disse o estudante.
—Tambem a mim me parece! respondeu o Vianninha, muito timido.
—Pois com tamanha bêsta não quero eu brincadeiras.
E o estudante foi o primeiro a desandar pelo mesmo caminho, sendo logo seguido pelos seus dois companheiros.