XI
O conselheiro Antunes e D. Estanislada ficaram inquietos com o que tinham ouvido.
O seu segredo estava descoberto: o azeite havia-se entornado, enodoando ambos.
Não era D. Enrique que batera á porta, porque D. Enrique estava em Lisboa, mas devia ser uma pessoa que soubesse tudo.
Quem seria essa pessoa?
D. Estanislada propendia a crêr que fosse a senhoria.
—Porquê? perguntou-lhe o conselheiro.
—Porque es beata, y las beatas lo saben todo: lo que Dios no les dice, lo saben ellas por el Diablo.
Era uma razão, mas o conselheiro não a acceitava sem repugnancia:
—Nada! Foi um homem. Certamente o sueco, que andava por aqui. É verdade que elle não me viu entrar, porque fugiu. Mas suspeitou que eu houvesse entrado e, n’essa supposição, veio pregar-nos esta peça.
—Nada! teimava D. Estanislada. La voz no era la del sueco!
—Precisamos acautelar-nos, porque podem resultar de tudo isto consequencias muito desagradaveis. Eu sou um homem sério, e se não desejo comprometter uma dama, não desejo comprometter-me tambem a mim proprio. O melhor será eu recolher-me por alguns dias a Santarem, antes mesmo de D. Enrique voltar, porque d’este modo elle não poderá crêr, se lhe chegar aos ouvidos a denuncia, que eu desaproveitasse um só instante da sua ausencia.
—D. Enrique nada sabrá, dizia a hespanhola, muito menos timida que o conselheiro.
—Eu sei lá! Isto leva caminho de lhe chegar aos ouvidos. O seguro morreu de velho, e o melhor é acautelarmo-nos. Estanislada, minha rica Estanislada do meu coração, eu vou passar uns dias a Santarem, e voltarei depois.
—Que fatalidad! exclamava ella.
O conselheiro não descansou senão quando se viu fóra da porta. D. Estanislada viera antes á janella para o certificar de que não estava ninguem na rua.
—Nada! Não quero comprometter a minha reputação, a minha respeitabilidade, tudo! ia monologando o conselheiro. Amanhã faço constar que o governador civil de Santarem me chamou para um negocio urgente da politica do districto. Faço, pelo sim pelo não, as minhas despedidas, para não alimentar suspeitas, para mostrar que parto mas não fujo, e por aqui me sirvo até mais vêr.
E, apos uma pausa, muito sentencioso:
—Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem.
Effectivamente, no comboio de segunda-feira pela manhã o conselheiro partiu para Lisboa e de Lisboa para Santarem.
Ao apear-se na estação da sua terra, o mesmo pensamento sentencioso acudiu ao espirito do conselheiro:
—Nada! Não ha mulher nenhuma que valha a reputação de um homem!
O estudante de Alcacer havia divulgado a peça que pregára ao conselheiro e a D. Estanislada. Era já do dominio publico á hora em que o conselheiro andava fazendo as suas despedidas.
Os dois alemtejanos sabiam-no perfeitamente quando se encontraram com as Rodartes, no domingo, em Brancannes, mas limitaram-se, por conveniencia devida ás damas, a dizer que no café Esperança estavam discutindo os motivos da retirada do conselheiro.
E era verdade. Em todo esse dia a hespanhola mãe foi ali tão discutida quanto a hespanhola filha o havia sido quando era a unica belleza dominadora de Setubal, isto é, antes da chegada das tres netas do Padre Eterno.
D. Enrique regressou na segunda-feira de tarde com Soledad.
—Foi usted a Lisboa? perguntavam-lhe os desfructadores.
—He ido á los toros!
—Ah! Foi usted aos touros? E que tal?
—Una broma!
E ficavam-se a rir, logo que elle voltava costas, da singular coincidencia de ter ido aos touros aquelle homem que, durante a sua ausencia, fôra, segundo a expressão picaresca do estudante, lidado pelo conselheiro.
Mas D. Enrique vinha mais contente do que fôra, porque tivera occasião de fallar em Lisboa com outros emigrados, e a opinião d’elles era que o estado anarchico de Hespanha não podia continuar por muito tempo. O remedio viria de alguma parte, ou d’uma intervenção das potencias estrangeiras ou de uma reacção espontanea do paiz.
Era a esperança providencial de todos os emigrados a prefigurar-lhes um desfecho mais rapido do que os factos em verdade promettiam.
O estudante, o jornalista e o Vianninha resolveram, á volta de Brancannes, demorar o convite ás Rodartes, para entrarem na récita, até que estivesse escripta a comedia e se soubesse ao certo qual o numero dos personagens femininos.
O jornalista metteu-se em casa a trabalhar de afogadilho na sua peça, de que elle proprio já fallava com orgulho, quando ás dez horas da noite apparecia no café do Lapido para tomar cognac, como uma celebridade noctivaga.
Contava com uma verdadeira glorificação no theatro, esperava que o seu triumpho no palco de Setubal teria grande écco em Lisboa. Coroado como dramaturgo na patria de Bocage, para entrar no palco de D. Maria II só lhe seria preciso... atravessar o Tejo.
A sua reputação estava feita ou perto d’isso.
Ao segundo dia de trabalho, annunciou que na sua comedia apenas entraria uma mulher. Esta noticia contrariou muito o estudante, mas Aurelio Goes respondeu-lhe que a espontaneidade do talento não se podia torcer como um arame, e que o que a sua cabeça lhe déra espontaneamente fôra uma comedia com um só personagem feminino.
Então, alguns desfructadores, habitués do Lapido, suggeriram a ideia de que, para não melindrar as damas, o melhor seria não convidar nenhuma, e encarregar-se o estudante de um travesti.
Não repugnou a Julio de Lemos esta ideia, porque lhe daria no palco maior evidencia e, por isso mesmo, maior gloria.
Acceitou.
—Que nome tenho eu lá na peça? perguntava elle a Aurelio Goes.
—És a baroneza de Piães.
—Casada ou solteira?
—Casada.
—E distincta?
—Certamente.
Escriptas as primeiras scenas, foram-se logo ensaiando.
O jornalista distribuiu os papeis; os ensaios faziam-se de dia, depois do almoço. Uma commissão encarregára-se de passar a casa: a coisa corria ás mil maravilhas.
Eis o programma da festa, redigido pelo dramaturgo:
UMA NOITE SINISTRA
Comedia em tres actos e em verso, original do festejado escriptor o ex.ᵐᵒ sr. Aurelio Goes
DISTRIBUIÇÃO DOS PERSONAGENS
A acção passa-se na actualidade, em Braga.
Ensaiador—Sr. Aurelio Goes.
A Gazeta Setubalense e a Trombeta Ullyssiponense annunciaram, além e áquem do Tejo, o brilhante espectaculo que ia realisar-se em Setubal, punham no sette estrello o novel e talentoso author, Aurelio Goes, que, se os calculos não falhavam, viria a nivelar-se com Almeida Garrett, e elogiavam a vocação artistica dos distinctos amadores, que em seguida nomeavam.
Ambas as noticias haviam sido escriptas pelo proprio Aurelio Goes.
Tambem elle se lembrára de officiar ao ministerio das obras publicas reclamando, para a noite da récita, um comboio extraordinario a preços reduzidos, mas não obteve resposta.
Escreveu a um amigo de Lisboa encarregando-o de encommendar uma coroa de louros, que era para elle, e de ir entender-se com o proprietario da Trombeta, para que lhe fizesse um adeantamento de dois mezes.
A coroa foi logo encommendada, porque o amigo de Aurelio Goes tinha tanto juizo como elle.
Mas o proprietario da Trombeta, que só d’ahi a dois dias poude ser encontrado, recusou-se formalmente a fazer o adeantamento pedido, chegando a dizer ao intermediario que o sr. Aurelio só lhe mandava de Setubal noticias de interesse proprio; que estava muito desgostoso com elle, e que se dentro de quinze dias não regressasse a Lisboa, o despediria da redacção.
Depois d’esta entrevista desoladora, o amigo de Aurelio Goes correu á loja onde tinha encommendado a coroa, para suspender a encommenda, mas, ó fatalidade! a coroa estava já feita, e exposta na montre com este distico, que tinha tambem sido encommendado: Ao notavel e talentoso dramaturgo Aurelio Goes, futuro émulo de Garrett.
Pobre emissario! Ficou entalado, responsavel pela despeza da coroa. Escreveu para Setubal a contar o que era passado, quanto aos louros e á brutalidade do proprietario da Trombeta.
Aurelio Goes respondeu, na volta do correio, que ia arranjar dinheiro para a coroa, que não prescindiria dos louros por caso nenhum, e que fosse dizer ao «tyranno da Trombeta», expressão sua, que dentro de quinze dias estaria de regresso em Lisboa com uma carregação de gloria, que faria subir os fundos da Trombeta.
E, para que tudo coubesse no praso fatal que lhe era marcado, resolveu-se que a récita se realisasse dentro de dez dias.
Activaram-se os trabalhos, Aurelio Goes desenvolvera uma actividade assombrosa, retocava as ultimas scenas da comedia, assistia aos ensaios, e tratava de arranjar dinheiro para os louros.
Julio de Lemos, muito contente com o seu papel de baroneza de Piães, em que obteria uma ovação, estava d’isso convencido, occupava-se, nas horas livres de ensaios, em preparar a sua toilette.
Lembrou-se de D. Estanislada para lhe fornecer o guarda-roupa, mas lembrou-se obrigado pelas circumstancias, porque o morgado de Reguengos declarára categoricamente em alguma parte que, por seu conselho, as Rodartes não contribuiriam para a récita senão com o preço do seu camarote.
E o estudante, quando soube isto, dissera:
—Essa grande bêsta imagina talvez que terei de apparecer em scena como Eva no Paraizo Terreal! Pois engana-se redondamente.
E foi pedir a D. Estanislada que lhe valesse n’aquella afflicção.
Soledad tinha ido ao banho com o pae, mas D. Estanislada recebeu-o amavelmente, prometteu-lhe pôr á sua disposição o guarda-roupa de que precisasse.
Julio de Lemos, muito captivado, agradeceu-lhe a amabilidade e, para lisonjeal-a na sua formosura, contou-lhe a scena que se seguira ao pic-nic de Troia, disse-lhe que, no sorteio de damas a que se procedêra, ella tinha cahido em sorte ao sueco.
D. Estanislada riu muito com essa brincadeira, e explicou então a si mesma os ciumes do conselheiro, e a presença do sueco, de noite, na sua rua.
Esta revelação não cahiu em cesto rôto.
Vencida a difficuldade da toilette para o estudante, tudo estava prompto, e a noite da recita chegou finalmente.