SCENA I

D. MENDO e D. DIOGO (entram ambos, conversando, pela porta do fundo. O sol-e-dó vae esmorecendo. Salienta-se á vista dos espectadores a casaca de D. Mendo, que é antiga e enorme.)

D. MENDO

Mas se conhecem?

D. DIOGO

Sim! sim!

Agora, que estás no baile,

Emancipa-te de mim.

Passeia, namora, primo,

Faze a côrte, dize graças,

Pódes até, se quizeres,

Tu, morgado de Boaças,

Ser um rei entre as mulheres!

D. MENDO

Um rei com manto emprestado!

Julgo ouvir, a cada passo,

Dizer a voz de um palhaço:

«Largue a casaca, morgado!»

Que entre a fôrma e entre o fato

Deve a união ser tamanha

Como entre a casca e a lagosta,

Entre o ouriço e a castanha.

Mas eu com esta casaca

Cheiro a D. Miguel I.

Suppõe que eu sou a castanha:

Ella é o ouriço... cacheiro.

D. DIOGO

Ora adeus! Em Braga serve...

D. MENDO

Essa ironia é cruel!

Onde ella faria vista

Seria em Penafiel,

Que lá as casacas todas

São ainda mais pesadas

E têm as abas dobradas,

Dizem...

D. DIOGO

Pensei que sabias!

D. MENDO

Não. Eu já lá estive uns dias,

Mas nunca mudei de fato.

Ora eu com esta casaca

A que Bocage decerto

Fez no seu tempo uma quadra,

Devo par’cer um retrato

D’estes da Feira da Ladra!

E depois que desconcerto

Entre a casaca e o chapeu!

Percebem todos á legua

Que trago o que não é meu.

Um chapeu moderno, claque,

Fôrro preto, lettra de ouro,

Armado com boas molas,

Dando ao abrir-se um estouro. (E abriu a claque com estrondo.)

A casaca... um monumento

De remota fundação!

Faz lembrar a sé de Braga

Com abas e cabeção;

A guerra de Troia em panno;

Affonso Henriques cosido.

Affonso Henriques decerto

É que eu trago em mim vestido!

D. DIOGO

Pateta! Mais te valia

Talvez deitar-te ao sol-posto

Com as gallinhas! (ironico.)

D. MENDO

Que ouvi?!

Pôr as gallinhas, entendo,

Mas pôr o sol, nunca vi!

D. DIOGO

Ahi vem a dona da casa!

D. MENDO

Agora, que vou ter publico,

Sinto-me arder n’uma braza!