XX
No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.
Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.
Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez, ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se tranquillamente.
No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume, esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.
Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que aliás não estava em costume.
Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em nome dos dois.
—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª assim o permittir.
Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.
—Estou ás ordens de V. Ex.ᵃˢ, respondeu elle.
—V. Ex.ª, continuou o morgado de Reguengos, sabe muito bem quem nós somos, e os meios de fortuna que possuimos. N’estas circumstancias julgamos que directamente poderiamos apresentar-nos a pedir, eu a mão da sr.ª D. Hilda, o nosso patricio e meu amigo a mão da sr.ª D. Maria Ignez. Eis o assumpto especial da nossa visita.
—Eu, accrescentou do lado o proprietario das Alcaçovas, louvo-me nas palavras que V. Ex.ª acaba de ouvir.
—Pela minha parte, respondeu o avô das duas meninas, devo dizer a V. Ex.ᵃˢ que nada tenho que oppôr ao seu pedido. Custa-me, é certo, ter que separar-me d’estas creanças que com tanto amor eduquei depois que seus paes morreram, mas tambem é certo que nunca fiz tenção, porque o amor exclue o egoismo, de as conservar indefinidamente presas á minha ordem. Apenas sempre recommendei ás minhas netas que não tivessem pressa de casar, isto é, que o não fizessem irreflectidamente, porque lhes não faltavam commodidades, regalos e carinhos. Estou, porém, convencido de que V. Ex.ᵃˢ as saberão estimar, senão mais do que eu, porque seria impossivel, permittam-me esta vaidade, pelo menos tanto como eu.
N’este momento arrazaram-se de lagrimas os olhos de Araujo Rodarte.
Houve um momento de silencio.
—Mas, continuou o velho enxugando as lagrimas, não basta n’esta grave materia o que eu digo. É preciso, primeiro que tudo, saber o que dizem as interessadas. V. Ex.ᵃˢ já de certo as tinham prevenido dos intuitos d’esta sua visita...
Os dois alemtejanos responderam quasi ao mesmo tampo:
—Não, sr.
—Não? Ainda bem! exclamou Araujo Rodarte. Ainda bem, porque esse facto mostra ao meu coração que as minhas netas não teem segredos para mim. A reserva seria desculpavel por parte d’ellas, mas não deixaria de maguar-me, porque representava até certo ponto falta de confiança no seu velho e affectuoso avô.
—Nós dois, disse o proprietario das Alcaçovas sorrindo, vamos agora saber pela primeira vez o que as duas netas de V. Ex.ª pensam a nosso respeito.
—Pois eu vou chamal-as para que ellas o digam com a franqueza que o momento requer.
Levantando-se da cadeira, Araujo Rodarte foi a meio do corredor, e chamou em voz alta:
—Salomé! Salomé!
—Meu avô!
—Dize a tuas irmãs que venham aqui, e vem tu tambem.
Voltando á sala, Araujo Rodarte disse aos dois patricios:
—Não estranhem V. Ex.ᵃˢ que eu chame tambem minha neta Salomé. É o meu braço direito. Em minha casa todas as resoluções são tomadas em conselho de familia. Não desejo que este espirito de solidariedade se interrompa justamente no momento em que vae tomar-se uma resolução importante para nós todos.
Não tardaram a apparecer as tres meninas.
Se não fosse trazerem o rosto um pouco mais purpurino, dir-se-hia que Hilda e Maria Ignez não adivinhavam o que se ia tratar. Salomé, pelo contrario, estava mais pallida que de costume, parecia ser ella a noiva, pela commoção que denunciava.
Feitos os cumprimentos, Araujo Rodarte disse voltando-se para Hilda e Maria Ignez:
—Estes dois cavalheiros, nossos patricios e amigos, acabam de me expôr um assumpto que exige resposta vossa. Pela minha parte, apreciando-os como devo, porque ambos são pessoas que me merecem o melhor conceito, nada terei que oppôr á vossa vontade. Podeis e deveis fallar com franqueza, porque se trata do vosso futuro. O sr. morgado pede a tua mão, Hilda, e este cavalheiro a tua, Maria Ignez. Respondei agora ou quando quizerdes, e como quizerdes.
As duas meninas ficaram por algum tempo silenciosas, cravando no avô os olhos embaciados de lagrimas.
Araujo Rodarte procurava mostrar-se forte, para desopprimir o animo das netas.
Os dois alemtejanos rastejavam o olhar no pavimento da casa.
—Podeis e deveis fallar como entenderdes, disse Araujo Rodarte.
—Eu, pela minha parte, respondeu Hilda mais purpurina ainda das faces do que havia entrado, porei apenas uma condição.
—Qual? perguntou Araujo Rodarte.
—Que ficaremos vivendo na Messejana em companhia do avô.
Resplandeceu de jubilo a physionomia do velho ao ouvir estas palavras.
—E eu acceito, respondeu com firmeza o morgado. Não quero que o sr. Rodarte tenha motivo algum para desgostar-se com o meu casamento.
—Bem! bem! exclamou o velho Rodarte radiante de alegria. V. Ex.ª, disse elle risonho ao morgado, já está despachado. Vamos agora ouvir a minha Ignez. Falla tu, menina.
—Eu, meu avôsinho, digo que a mana Hilda fallou por ella e por mim. Dou a mesma resposta com a mesma condição.
—Pois eu, respondeu o proprietario das Alcaçovas, não tenho a accrescentar uma virgula ao que disse o morgado. O que elle disse é o que eu digo tambem.
Araujo Rodarte, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, levantou-se da cadeira e apostrophou erguendo as mãos e os olhos:
—Estamos todos despenados, felizmente! Obrigado, meu Deus!
As tres netas correram a abraçar-se no avô, que effusivamente as beijava no cabello.
Os dois alemtejanos, respeitosos, com os olhos no chão, assistiam de pé a esta encantadora scena de ternura patriarchal.
Dois dias depois, Araujo Rodarte, muito satisfeito, nadando em felicidade, dizia familiarmente ao morgado de Reguengos:
—Ora vamos lá. Os velhos são muito curiosos. Como foi que isto começou?
—Ora! respondeu o morgado. Começou por uma brincadeira!
—Como?
—Na Troia, depois do pic-nic, nós dois, p’ra nos rirmos com a rapaziada, que estava levada da bréca por ciume uns dos outros, lembramo-nos de tirar á sorte os nomes das damas que cada um havia de namorar.
—Tem graça! commentou Araujo Rodarte.
—Nós dois, não, disse o proprietario das Alcaçovas. Foste tu, morgado. Porque elle, sr. Rodarte, lá mesmo se gabou de ter muita sorte a todos os jogos.
—Bem se vê, observou o velho, bem se vê pelo dinheiro que nos tem apanhado ao loto! Que fará ao voltarete! Mas mesmo assim não desisto. Ó morgado, logo que estivermos na Messejana, havemos de ensinar o voltarete a seu cunhado.
—Dito.
—Mas então, continuou interrogando o velho, a minha Hilda coube em sorte ao morgado.
—E a mim a sr.ª D. Ignez, atalhou o proprietario das Alcaçovas.
—E o agouro sahiu certo! Tem graça! tem graça! Parece romance! E, diga-me, a andaluza não entrou tambem na loteria?
—Entrou. Sahiu ao D. Ramon.
—Ahi é que me parece que o agouro falhou. Mas quem sabe? O futuro a Deus pertence. Mas o hespanholito ainda ahi está, pois não está?
—Sim, sr.
—Não o tenho visto!
—Elle não sae do café Esperança, onde bebe gazozas umas sobre outras. Não parece disposto a morrer de saudades pela señorita.
—Não é homem de grandes fogos! disse Araujo Rodarte.
—Tanto se lhe dá como se lhe deu, observou o proprietario das Alcaçovas. Nem parece hespanhol! Á força de tomar gazoza, já a tem nas veias.
Riram todos muito com esta observação, que era exacta.
O que não passou pela cabeça de Araujo Rodarte, nem os dois alemtejanos ousaram dizer-lhe, é que D. Estanislada tambem havia entrado no sorteio.
—Mas a minha Salomé? a minha Salomé a quem coube em sorte?
—Ao Vianninha.
—Pobre Salomé! disse Araujo Rodarte, rindo. Essa fica sem noivo. Vejam lá os srs.! Lembrei-me primeiro da hespanhola que da minha Salomé! Como é o meu braço direito, não me lembro nunca de que ella póde casar um dia! Nem quero lembrar!
Não se soube logo no café Esperança que as duas Rodartes iam casar. Os dois alemtejanos não eram pessoas que divulgassem a sua felicidade. Mas quando se soube, o alferes Ruivo, sempre alegre, propôz que se abrisse uma garrafa de vinho do Porto, para saudar mais uma vez a victoria de Portugal sobre a Hespanha.
—Meus senhores, disse elle de copo em punho, vamos ter um novo 1640, sem revolução e sem Miguel de Vasconcellos. A Hespanha entrou arrogante em Setubal, escravisou os corações portuguezes, tratou-os como vencidos, opprimiu-os. Mas o sentimento da independencia da patria póde mais que o jugo da belleza. A Hespanha foi derrotada, o leão de Castella teve de retirar sobre Santarem, protegido pela Junta Geral d’aquelle districto, que merece se lance na acta um voto de censura em nome da patria offendida. (Hilaridade geral.) Ficou triumphante a belleza de Portugal, sem precisar para isso recorrer á tertulia, ao abanico, nem aos dentes postiços da mamã. (Alguns dos «habitués» do café Esperança choravam de riso). Peço-lhes pois que, em nome da alma nacional, e em homenagem á provincia a que Setubal pertence geographicamente, repitam com sincero enthusiasmo as palavras que eu vou dizer.
E fez uma longa pausa.
—Então?
—Venham de lá as taes palavras!
—Vem ou não vem?
O alferes, circumvagando o olhar pelo auditorio, esvazia o copo e recita com emphase:
Que mais querem de nós? apoz tamanha
galhardia d’algoz, ébrios de gloria,
apagaram acaso a luz da Historia?
não lêem seus feitos?... Que nos quer a Hespanha?...
Quer insultar a lapide funerea
que pesa sobre vós, heroes de Ourique!...
Estremecei de horror, filhos de Henrique!...
Repercuti meu canto, éccos da Iberia!
Fim
Post scriptum.—Pude finalmente conseguir escrever o nome do sueco. Chamava-se Andreas Setterquist. A menina Ricardina, muito carinhosa, chamava-lhe familiarmente o seu Settequiz. E o malicioso alferes Ruivo dizia que, a contar por alto, devia effectivamente ser o setimo.