XIX

D. Enrique abandonou a casa de Setubal sem lhe mandar pôr escriptos.

Que de Setubal não queria saber mais, dissera elle á sr.ª Magdalena quando lhe entregou a chave.

A menina Ricardina e a sr.ª Magdalena ficaram satisfeitissimas, por muitas e variadas razões.

Em primeiro logar, Ricardina havia contado á mãe que, n’aquella casa de pouca vergonha, tanto a hespanhola velha como a hespanhola nova, expressão sua, lhe disputavam o sueco, o qual parecia disposto, se podesse vencer-se aquella dupla contrariedade, a dar o nó do hymeneu.

A sr.ª Magdalena, na esperança de vêr a filha bem casada, prometteu uma via-sacra ao Senhor do Bomfim se as duas hespanholas lhe deixassem em paz a filha e o sueco.

O Senhor Jesus do Bomfim fizera-lhe a vontade, e a sr.ª Magdalena tratára logo de cumprir a promessa.

Em segundo logar, a menina Ricardina gostava muito, quando a casa estava com escriptos, de atravessar a rua para ir mostral-a.

Fôra n’uma d’essas sahidas que ella annos antes ouvira, á queima-roupa, a declaração de um rapaz banhista, que chegára primeiro que a familia para arrendar casa, e o qual, depois de estabelecidas relações de intimidade entre as senhorias e os inquilinos, gostava muito de pisar-lhe o pé debaixo da mesa do chá.

Logo que D. Enrique entregou a chave, a menina Ricardina foi, por ordem da mãe, verificar o estado em que a familia Saavedra havia deixado ficar a casa.

—Que porcaria! dizia mentalmente a menina Ricardina abrindo as janellas e olhando de relance para o pavimento e para os moveis.

Pelo chão, por cima das mezas, havia bocados de papel, migalhas de pão, ganchos do cabello, e a um canto uma ruma de jornaes hespanhoes e um leque velho, rasgado, com as varetas quebradas e pendentes.

Feito o primeiro exame à vol d’oiseau, Ricardina abriu as gavetas de alguns moveis, sem nada encontrar. Mas já lhe não aconteceu o mesmo quando passava revista á gaveta do lavatorio. Encontrou ahi um pequeno embrulho de papel, que lhe despertou a curiosidade.

Desembrulhou o papel, e encontrou uma caixinha oblonga, de cartão verde.

—O que será isto?! pensava Ricardina.

Abriu, com muito interesse, e viu uma dentadura postiça, nova em folha.

Largou a rir do achado, que estava longe de esperar.

Passada a primeira surpreza, começou a reflectir:

—Para qual dos tres seria isto?

E, parada no meio da casa, com a caixinha de cartão deante dos olhos, continuou a pensar:

—Não, de Soledad não é, porque os seus dentes eram muito mais pequenos. De D. Enrique tambem não é, porque tinha os dentes estragados pelo tabaco. Ah! já sei!...—e largou a rir ás gargalhadas.—Os dentes de D. Estanislada eram bonitos, brancos como o marfim, mas postiços. Agora é que eu sei que eram postiços! Ora a velha tonta! E não saber eu isto antes! Foi dentadura que comprou em Lisboa.—Ricardina ia lendo a inscripção da tampa da caixa—para a ter de sobreselente, talvez por ser mais barata ou melhor do que a que trazia.

E continuou a rir, a rir.

—Quando faria ella tenção de mudar de dentes! pensava Ricardina. Algum d’estes ha-de ser o do siso, que bem preciso lhe é!

E, tendo posto a caixinha no mesmo sitio em que estava, foi contar á mãe a alegre historia do seu achado.

—Que eram fraquezas da humanidade, disse a sr.ª Magdalena; que se não risse; que não offendesse o Senhor Jesus do Bomfim, que lhes havia feito o milagre.

Ricardina respondeu que o Senhor do Bomfim não se podia offender de que ella risse dos dentes postiços de D. Estanislada; que uma coisa não tinha nada com a outra.

A primeira pessoa a quem Ricardina contou a historia da dentadura foi o mesmo rapazito, que tinha levado as duas cartas com os dois lenços a casa de D. Enrique.

Recommendou-lhe que fosse contar tudo ao Marcolino, marcador do bilhar no café Esperança, porque era esse o melhor meio de vulgarisar o caso em toda a cidade.

O rapazito, a quem Ricardina dera um tostão, foi logo comprar amendoas e cigarros á loja do Passos, na Praça do Bocage, e depois ao café Esperança contar a historia ao marcador.

Á tarde, os habitués do botequim commentavam o caso rindo, e ao anoitecer constava em toda a cidade que D. Estanislada, a leôa velha, como começavam a chamar-lhe, usava dentes postiços.

D’ahi a quarenta e oito horas appareceu em Setubal, inesperadamente, D. Enrique Saavedra.

Foi direito da estação do caminho de ferro a casa da sr.ª Magdalena.

—Então o sr. D. Enrique outra vez por cá?! perguntou a beata.

—Dizia que não queria mais nada da nossa terra! atalhou Ricardina.

Que broma! exclamou D. Enrique. Olvidé una joya que vengo à buscar.

—Uma joia! Credo, Senhor Jesus do Bomfim! que falso testemunho! exclamou a mãe de Ricardina.

—Uma joia! Ora essa! Isso havemos nós de vêr! apostrophou arrogantemente Ricardina.

Si, una joya de pequeño valor. Nó se aflijan ustedes.

—E em que sitio calculam que estava a joia? perguntou Ricardina, muito esperta.

En el cajon del labatorio, respondeu D. Enrique.

—Pois se lá estava, lá ha de estar, disse triumphantemente Ricardina. Vamos já vêr.

Foram.

D. Enrique dirigiu-se logo á gaveta do lavatorio e, encontrando a caixa, exclamou:

Aqui está la joya!

—Não! disse Ricardina, que com difficuldade continha o riso. Veja usted se a joia está como a deixaram. Faça favor de examinar.

D. Enrique entreabriu a caixa mesmo dentro da gaveta, e, como Ricardina se approximasse, elle fechou de repente a caixa, e metteu-a na algibeira.

—Está ou não está? É negocio muito sério! Deve vêr, para que a verdade fique bem esclarecida!

Está todo como habia quedado, respondeu D. Enrique.

—Deve ser joia de muito valor, para usted se sujeitar a vir a Setubal procural-a? perguntava, muito desfructadora, Ricardina.

Una joya de familia, de mas estimacion que valor.

—Bem me queria parecer que era joia de familia!... Ora ainda bem que appareceu! E a quem pertence essa joia? É sua, sr. D. Enrique?

Nó, és de mi mujer.

—Já estão em Santarem?

Todavia nó. Hemos estado en Lisboa y vamos mañana para Santarem.

—Peço-lhe o favor, sr. D. Enrique, de dar muitas lembranças minhas ao sr. conselheiro, disse ironicamente Ricardina.

Seran entregadas.

Quando D. Enrique foi almoçar ao Escoveiro, por isso que só de tarde podia regressar a Lisboa, sahiram-lhe ao encontro alguns conhecidos.

—Com que, D. Enrique, outra vez em Setubal?!

He venido buscar una joya de familia, que habia dejado quedar olvidada.

—E appareceu?

Ah! perfectamente. Estaba en su sitio.

—Então já está em Santarem?

Todavia nó. Solo partiremos mañana de Lisboa.

—E tenciona demorar-se muito em Santarem?

Hasta vuelvan los Borbones.

—E as sr.ᵃˢ como passam?

Magnificas!

E cada um lhe ia dizendo por sua vez:

—Então, em Santarem, dê visitas minhas ao conselheiro. Não se esqueça, D. Enrique.

Jamás.

No comboyo da tarde D. Henrique regressou a Lisboa, levando na algibeira a joia de familia,—a dentadura de D. Estanislada.

O caso deu que rir, em Setubal, durante muitos dias.

A sr.ª Magdalena, logo de manhã cedo, continuava a fazer a via-sacra, que promettera ao Senhor Jesus do Bomfim.

Ricardina aproveitava essa occasião para ir arejar a casa em que D. Enrique morára, e que ainda não estava arrendada.

De uma d’essas vezes, seriam seis horas e meia, Ricardina estava á janella, parecendo que se deliciava em tomar o ar fresco da manhã. Demorava-se, olhando ao longo da rua.

N’isto apparece o sueco, que parou debaixo da janella, e perguntou muito respeitosamente:

—É parra alugarr esse casa?

—É, sim, respondeu Ricardina.

—Poderrei verr agórra?

—Tenha a bondade de subir, respondeu Ricardina.

O sueco, a julgar pelo tempo que se demorou, examinou com interesse todos os compartimentos da casa, que aliás não eram muitos.

E gostou, porque n’essa mesma manhã procurou a sr.ª Magdalena, para lhe dizer que desejava ser seu inquilino.

—Que tinha muita honra n’isso, respondeu affavelmente a mãe de Ricardina.

Attendendo a que já ia adiantada a estação balnear, e a que o inquilino poderia vir a ser genro da senhoria, a sr.ª Magdalena levou-lhe mais quatro libras do que pediria a qualquer outro.

O sueco alugou mobilia e installou-se immediatamente. Jantava no Hotel Escoveiro, mas almoçava em casa. Como não tinha criada, porque a menina Ricardina lhe prohibira que a tivesse, era ella propria quem ás oito horas da manhã lhe ia fazer o bife e o café do almoço.

Quando ella sahia de casa, a sr.ª Magdalena recommendava-lhe sempre:

—Juizinho, Ricardina! Vê lá tú!

—Esteja socegada, minha mãe, eu não sou d’essas...