XVIII
O namoro dos dois alemtejanos com as irmãs Rodartes não era um d’esses galanteios romanticos, que obriga a excessos de lyrismo.
Se o fosse, dar-me-ia ensejo a descrever serenatas de mandolim, arroubos de Romeu debaixo da varanda de Julietta,—tudo em duplicado, os Romeus e as Juliettas, ficando apenas no singular a varanda, que era a mesma.
Homens novos, posto já orçassem pelos trinta annos ambos elles, fortes, alegres, de physionomia agradavel e costumes chãos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam longe de poder ser dois pagens namorados, com todas as pieguices concomitantes á poesia do amor medieval.
O temperamento, mais talvez do que a edade, e não pouco a educação, contribuiam para furtal-os ás cegueiras da exaltação amorosa.
Não eram frios, nem o podiam ser, porque tinham bom sangue, como a maior parte dos alemtejanos, se exceptuarmos os que vivem nas regiões atormentadas pelas febres palustres. Mas eram serenos; homens em quem os musculos, saudavelmente desenvolvidos, subjugavam os nervos. Possuiam essa alegria moderada que provém da robustez, da constituição sadia. Não tinham por isso as phantasias melancolicas dos nevroticos, nem a irritabilidade azeda dos biliosos. Bom coração, bom estomago, bom figado: com estes predicados, e com as suas herdades, viviam felizes.
Não pensavam em S. Carlos e muito menos em Pariz; mas nem S. Carlos nem Pariz lhes repugnavam... para uma vez.
Entendiam menos de francez que de cortiça, mais de porcos que de tenores, mas não eram selvagens ao ponto de não querer jámais vêr a França, nem ouvir nunca uma opera.
De manhã cedo montavam a cavallo, percorriam as suas herdades, davam instrucções aos feitores, e regressavam a casa com bom apetite e boa alegria. Raras vezes se queixavam de um incommodo. Dos dois, apenas o morgado de Reguengos tinha azias de quando em quando, mas uma colhér de bicarbonato de soda curava-o rapidamente. Uma hora depois estava habilitado a comer.
A provincia do Alemtejo tem sido pouco explorada no romance, talvez porque os seus costumes são essencialmente pacatos, algo monotonos.
O sangue arabe, que os alemtejanos herdaram, enrijeceu-lhes o organismo, deu-lhes a saude, mas, já modificado pela transmissão de gerações successivas, não referve em éstos como os que incendiavam as veias dos guerreiros d’Agar.
Nos costumes, em que a dominação sarracena influiu poderosamente, uma serenidade, ás vezes monotona, como se nota nas danças e nas canções populares, accentua-se com evidencia.
A falta de paisagem poderá explicar a falta de bucolismo no amor. Os rios pittorescos do Minho, orlados de salgueiros e matisados de insuas verdejantes, fazem poetas. No Alemtejo, a vegetação ganha em utilidade agricola o que perde em pittoresco de pintura. Mas ha excepções, como sempre acontece: Bernardim Ribeiro, o mavioso bucolico, nasceu ao que parece na villa do Torrão, que é Alemtejo arido. Todavia as excepções não invalidam a regra geral, antes a confirmam.
Mas, em compensação, a vida da provincia transtagana é laboriosa, util e pratica.
Os seus habitantes não téem esse aspecto atormentado, contrahido, que um francez habil me dizia notar na maior parte dos retratos portuguezes.
Ora eu estou certamente condemnado a naufragar no tepôr do assumpto, o amor entre alemtejanos, que sabe a capilé morno.
Mas copío a verdade, e não quero adulteral-a com mixordias de pura phantasia, como os taberneiros fazem ao vinho, e certos romancistas á verdade.
O morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas amavam como quem eram. Em pleno galanteio vimol-os ir a Lisboa umas vezes por outras tratar negocios, receber as prestações da venda da cortiça, vender cevados aos salchicheiros da Baixa.
E quando regressavam a Setubal, com o dinheiro a cantar nas algibeiras, sabia-lhes bem a suave familiaridade da casa das Rodartes, onde, antes de abancarem a jogar o loto com as netas, contavam ao avô, francamente, o resultado das suas transacções em Lisboa.
E as duas meninas, que se foram affeiçoando lentamente a elles, porque encontraram dois homens cujo typo conheciam, pois que era o da sua provincia, as duas meninas ouviam-n’os fallar de cevados, entendiam-n’os.
Horror! gritará a leitora alfacinha.
Pois minha senhora, nada e creada na patria de Ulysses, perdoe V. Ex.ª o horror da verdade. Tanto a formosa Hilda, como Maria Ignez, como, principalmente, Salomé, que era o braço direito do avô, sabiam a cotação das cabeças suinas, e conheciam todos os processos da engorda dos cevados.
Isto póde não ser poetico, mas é portuguez de boa lei, portuguez do Alemtejo, onde a azinheira produz a boléta, que é riqueza.
Nem Hilda, que gostava de cantar, sabia trechos das operas de S. Carlos, nem das operetas da Trindade. A sua canção predilecta era a Ceifeira de Palmeirim, poeta genuinamente nacional, que ha quarenta annos se vulgarisou tanto no norte como no sul do paiz.
O rythmo da canção era dolente como o de toda a musica popular do Alemtejo, mas lá gostavam de ouvir Hilda soluçar, como um Fado, as trovas do poeta:
Ha quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da côrte,
Deixal-as dizer, ceifeira.
As ceifeiras da Messejana, quando á noite voltavam dos campos, queimadas pelo sol, morriam por ouvil-a cantar a canção que tanto as lisonjeava, porque fallava d’ellas, e pediam-lhe que a repetisse.
Araujo Rodarte intervinha com o seu bom humor patriarchal n’esses serões agricolas do Alemtejo, em que a neta, sentada nas escadas de pedra do palacete, cantava para ser ouvida pelas ceifeiras e pelos Ratinhos, que descançavam ao luar.
O bom velho tinha sempre uma graça para dizer ás raparigas.
Uma vez, por exemplo, tendo a neta acabado de cantar, disse elle:
—Sabem vocês, rapazes e raparigas, de quem é esta poesia que a minha Hilda vos cantou agora?
—Não sabemos, senhor.
—Pois é de um poeta de Lisboa, que se chama Palmeirim. E não fez só poesias que as meninas cantem; tambem fez algumas que servem para os velhos cantar.
Gargalhada unisona das ceifeiras e dos Ratinhos.
—Não se riam vocês, que eu tambem vou cantar agora.
—O sr. Rodarte!
—Eu mesmo.
E com uma voz, cuja rouquidão exagerou comicamente, começou:
Vet’rano fiz as campanhas
Da guerra peninsular.
—Mais! mais! pediram muitas vozes.
—Nem mais nem menos, respondeu Araujo Rodarte rindo. Um veterano não póde passar d’aqui.
Nova e prolongada hilaridade dos Ratinhos e das ceifeiras.
Algumas vezes, em pleno sol, ouvia-se cantar nos campos, que a foice dos trabalhadores ia deixando reduzidos á seccura do restolho:
Ha quem diga por inveja
Que és feia por ser trigueira;
Dizem as damas da côrte,
Deixal-as dizer, ceifeira.
—Olha os teus discipulos, dizia Araujo Rodarte a Hilda, como honram a professora! Ainda não houve prima-donna de S. Carlos que fizesse escola como tu.
Hilda e as irmãs ouviam fallar de S. Carlos como a gente ouve fallar de um paiz longinquo. O proprio Rodarte, que fallava de S. Carlos, conhecia-o pouco. Quando alguma vez viera da Messejana a Lisboa, aconteceu ir ouvir uma ou outra opera, sobretudo se a opera era do velho Bellini, que toda a gente d’esse tempo preconisava por ser, especialmente, o auctor da Norma.
D’uma dessas raras vezes aconteceu-lhe até uma ratice, que Araujo Rodarte sempre contava rindo.
Annunciava-se a Norma, e elle não resistiu ao cartaz. Mandou comprar a S. Carlos um bilhete da geral. Á noite dirigiu-se para o theatro, cuidando que ia ouvir o grande Bellini. Pois não ouviu ninguem! O theatro estava aberto, mas a platéa vazia. No salão havia grupos commentando um caso extraordinario. Adalgiza fôra raptada pela famosa Sociedade do delirio. Dizia-se que o marquez de Niza, disfarçado em cocheiro, fizera voar os cavallos da carruagem em que Adalgiza entrou, ao descer do hotel. O que é certo é que a cantora não chegou a S. Carlos, pelo menos n’aquella noite, e que fôra visto passar ao Campo Grande, n’uma batida doida, um coupé, ladeado por dois cavalleiros que o guardavam.
Era a Sociedade do delirio, que praticára mais uma das suas proezas,—o rapto d’uma italiana, que talvez fosse sabina.
Nenhum dos dois alemtejanos, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, fez o que em amor se chama uma declaração. Esse doce e embaraçoso momento, em que o maior orador do mundo póde sentir-se entaramellado, momento de vibração nervosa e de exaltada sensibilidade, não o passaram elles. O namoro foi derivando suavemente n’uma intimidade agradavel, no trato familiar de todos os dias, e no loto de todas as noites.
As duas Rodartes sabiam-se amadas, não porque elles lh’o confessassem, mas porque as mulheres sabem mais, em materia de amor, pelo que adivinham que pelo que lhes dizem.
Salomé contára ás irmãs as referencias que o avô, certa manhã na praia, fizera ao namoro dos alemtejanos, e o receio que mostrára de que elles o obrigassem a separar-se das duas netas.
Estou certo, sem comtudo poder affirmal-o, que, ouvindo isto, Hilda e Maria Ignez tiveram ambas o mesmo pensamento:
—Pois esteja o avôsinho socegado que, se nós casarmos, não o abandonaremos nunca.
E tambem me quer parecer que Araujo Rodarte, muito intencionalmente, fallára n’esse assumpto a Salomé, para que ella fosse contar ás irmãs o que o avô lhe estivera dizendo e para que Hilda e Maria Ignez o dissessem aos dois alemtejanos, quando fosse occasião.