XVII

Dentro de tres dias a familia Saavedra preparou as suas malas para sahir de Setubal.

D. Enrique andou fazendo despedidas e partiu para Santarem primeiro que a mulher e a filha: ia alugar casa. Lá estava o conselheiro Antunes para n’esta e outras tarefas lhe servir de Cyreneu...

A mãe de Soledad dizia a quem a queria ouvir que apenas levava saudades do peixe-espada. Soledad mostrava-se muito contente com a mudança de terra.

No café Esperança commentava-se esta subita retirada da familia Saavedra, e attribuia-se a duas causas principaes: a attracção que, de Santarem, o conselheiro Antunes exercia no coração de D. Estanislada, e a emulação de Soledad pela concorrencia das Rodartes no amor.

A blague não poupava D. Enrique, que, segundo se dizia, ia metter-se na boca do lobo: o lobo era, n’este caso, o conselheiro Antunes.

Quanto ás Rodartes, a opinião publica elogiava-as pela modestia com que se apresentavam: se ellas tinham prejudicado o prestigio de Soledad, não era porque houvessem concorrido acintosamente para isso.

Fôra uma serie de fatalidades imprevistas que apeiára Soledad do pedestal em que nos primeiros tempos se enthronisou. Todos os grandes imperios desabam, segundo a lei fatal da Historia: Soledad teve a mesma sorte dos grandes imperios.

Era certo, já toda a gente o sabia, que o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estavam namorados de Hilda e Maria Ignez, mas não fôra porque ellas os disputassem encarniçadamente a Soledad, nem porque se salientassem em garridices espectaculosas.

O Padre Eterno, como geralmente se chamava a Araujo Rodarte, era um velho sympathico, que a opinião publica respeitava, e mais ainda o respeitou, quando se tornou conhecido um facto em que o seu nome se achou envolvido.

O Sequeira, negociante, fôra visitar o Rodarte e descrevera-lhe, com lagrimas nos olhos, o estado da filha, cuja vida perigava, porque a infeliz menina, apaixonada pelo Vianninha, passava dias encerrada no seu quarto, chorando, sem querer vêr ninguem.

Commoveu-se o velho Rodarte da angustia de um pae, cujo coração a dôr dilacerava.

—Mas, dissera Araujo Rodarte ao Sequeira, porque não procura ter uma conferencia com o Vianninha, a fim de que elle cabalmente se explique sobre as suas intenções?

—Não posso, sr. Rodarte, respondera-lhe o Sequeira. Não posso. É superior ás minhas forças o ter que pedir a um homem que corresponda ao amor de minha filha, sobretudo quando esse homem se deveria julgar muito feliz em desposal-a.

Araujo Rodarte ficou pensativo durante alguns momentos, e disse depois:

—Tem rasão, sr. Sequeira. Mas eu acho que o Vianninha não é senão um doidivanas, que gosta de se divertir sem criterio. Succede isso a muitos moços. São raros até os que pensam de outro modo.

—Depois que veiu para ahi essa maldita hespanhola foi que elle, suciando com o Lemos e com o tal jornalista de Lisboa, principiou a despresar a minha filha.

—A hespanhola, sr. Sequeira, não tem culpa de ser bonita, nem de haver sido educada á maneira do seu paiz. Sabe v. s.ª perfeitamente que os costumes hespanhoes dão maior liberdade á mulher do que entre nós. Se uma menina portugueza andasse constantemente seguida por um cortejo de admiradores, seria isso reparado e censurado. Mas em Hespanha vive-se muito ao ar livre, na rua, e são admittidas liberdades que em grande parte resultam d’esse teor de vida. Olhe, eu, quando aqui cheguei, condescendi em ir a um pic-nic, porque julguei que seria essa uma festa tão pacata como as do meu Alemtejo. Quando lá me vi, arrependi-me muito de ter acceitado o convite, e arrependi-me, sobretudo, porque, além das minhas netas, apenas havia duas senhoras, a mulher e a filha de D. Enrique, cujos habitos de educação brigavam naturalmente com os de tres pobres meninas nadas e creadas, longe da sociedade, n’um canto do Alemtejo. Fiz logo tenção de me afastar o mais que podesse, não por falta de confiança em minhas netas, mas para evitar que ellas andassem nas bôccas do mundo. Este meu procedimento não foi ditado por orgulho ou por qualquer outro sentimento de altivez pessoal. Foi prudencia, foi experiencia do mundo... Mas vamos ao caso do Vianninha. Acho justas as rasões pelas quaes o sr. Sequeira não quer ter explicações com elle. Comtudo, se a isso me auctorisa, e se isso deseja, poderei eu tel-as.

—Ó sr. Rodarte! grande favor me faria encarregando-se d’essa missão, procurando salvar minha filha de uma vida tormentosa, a que a morte porá termo em breve, certamente.

Afogaram-se em lagrimas os olhos do Sequeira, e nos olhos de Araujo Rodarte tambem passaram lagrimas.

Despediram-se os dois cordealmente.

Araujo Rodarte, não querendo dar a saber a Salomé o motivo d’aquella entrevista que tivera com o Sequeira, mandou recado ao seu banheiro para que lhe fosse fallar. Não podendo escrever elle proprio, quiz evitar que Salomé tivesse de escrever ao Vianninha solicitando uma audiencia para o avô.

Pelo banheiro mandou Araujo Rodarte dizer ao Vianninha que esperava dever-lhe o obsequio de lhe dispensar dois momentos de attenção.

Logo que sahiu da repartição de fazenda, o Vianninha foi procurar Araujo Rodarte.

Houve quem o visse entrar para lá, e envenenasse o facto, espalhando logo que o Vianninha requestava Salomé, a unica das tres irmãs cujo coração era considerado devoluto.

Araujo Rodarte expoz com bondosa gravidade os motivos d’aquella entrevista, desculpando-se com a sua auctoridade de velho para intervir n’um assumpto que não lhe dizia directamente respeito.

—Trata-se, explicou, da menina Sequeira. Conheço a familia d’essa pobre menina, cuja vida corre perigo, e cuja felicidade e salvação consistiria em poder ser esposa do sr. Vianna. Peço-lhe, pois, que me diga, por attenção para com a minha edade, quaes são as suas intenções a este respeito.

O Vianninha ficou surprehendido com a interpellação:

—As minhas intenções, sr. Rodarte! Eu digo a v. ex.ª o que posso dizer sobre o assumpto: Adelaide e eu fomos creados juntos, paredes meias, porque nossos paes eram visinhos. Viamo-nos a toda a hora, e habituámo-nos a ser amigos um do outro. Mas pensava eu que Adelaide apenas tinha por mim o sentimento que eu tinha por ella,—simples estima, nada mais. E tanto isto é verdade, da minha parte, que eu tive passageiros namoros com outras meninas. É certo, porém, que eu sabia que Adelaide se contrariava com isso. Amuava, deixava de me fallar, de me cumprimentar até. Mas eu ria-me, não fazia caso, e dizia-lhe adeus por brincadeira, sempre que a via á janella, embora ella me não correspondesse. Quando veiu a señorita,—refiro-me á filha de D. Enrique—eu, por ser amigo do Lemos e por me ter relacionado com o Goes, que andavam no grupo da familia Saavedra, associei-me a elles, passeiava com Soledad e com a mãe, e devo dizer francamente que me não era desagradavel a companhia. Soube então que Adelaide suspeitou de que eu namorasse Soledad, e que se tinha incommodado com isso, a ponto de se fechar no seu quarto, e não querer tomar alimentos. Uma vez, tendo pena d’ella, cheguei a rufar com os dedos na vidraça do seu quarto, chamando-a. Bastava-me para isso estender o braço por uma das janellas da minha casa. Adelaide devia calcular que era eu, mas não veiu á janella, não quiz responder.

—Talvez não ouvisse, atalhou Araujo Rodarte.

—Ouvia por força, porque estava fechada no seu quarto.

—Resentida com o sr. Vianna, quiz mostrar o seu resentimento.

—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.

—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a janella?

—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se ralasse com isso.

—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de infancia...

—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do seu proprio genio.

—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!

—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...

—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?

—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...

—Não subsistem. O sr. Vianna tem o incommodo de voltar amanhã á mesma hora, e todas as suas duvidas deixarão de existir.

No dia seguinte, quando o Vianninha voltou a casa de Araujo Rodarte, encontrou-se com o pae de Adelaide Sequeira: o casamento ficou ajustado n’esse dia.

Constou isto, a maledicencia, que desconfiou da ida do Vianninha a casa das Rodartes, teve de confessar-se vencida, e a intervenção do Padre Eterno, n’esta negociação feliz, tornou-se sympathica á opinião publica, deu maior prestigio ao avô, e, reflexamente, ás netas.

Quando fallavam ao velho Araujo Rodarte no proximo casamento da Sequeira, dizia elle:

—Fiz-me agora S. Gonçalo d’Amarante,—com uma unica differença.

—Qual?

—Caso as novas, em vez das velhas, o que prova que não faço milagres.