XVI
D. Estanislada principiou a pensar na conveniencia de sahir de Setubal.
Desde o momento em que uma pessoa d’aquella terra possuia dois dos seus segredos amorosos, conhecia a historia das suas leviandades internacionaes, um pouco serodias, só restava á delinquente fazer ablativo de viagem, para evitar a atoada do ridiculo.
D. Enrique incommodava-a menos que o ridiculo. Não era do marido que receava, mas das más linguas, que n’uma terra pequena ferem mais, porque mordem de perto.
Indignava-a o preconceito social que impõe ao coração humano o dever de esfriar antes de morrer. Segundo as praxes estabelecidas, uma mulher de vinte annos póde ter vinte namoros. Acha-se isso muito natural, e diz-se d’essa mulher com um certo ar de desculpa: «É alegre». Mas se uma mulher de quarenta annos tiver dois namoros, toda a gente a censura, e a opinião publica não faz senão gritar por toda a parte: «É devassa».
Ora a boa logica ensina que a mulher de quarenta annos tem menos tempo para viver do que a mulher de vinte. Rasão é esta para aproveitar o tempo, para se despedir da vida, que já não póde ser longa.
A propria natureza intercallou o dia natural, que é um symbolo da existencia humana, entre dois crepusculos, o da manhã e o da tarde. Porque ha de pois ser negado ao coração o direito de ter dois momentos de brilho e de calor, dois crepusculos amorosos, que abram e fechem a existencia?
D. Estanislada achava profundamente odiosa e absurda a fiscalisação que a sociedade exerce com a mulher casada. Se o marido não vê ou não quer vêr, para que ha de a bisbilhotice malevola emprestar-lhe os oculos da moralidade?
D. Enrique não era um Othello, nunca o fôra. Se lhe dissessem alguma coisa em desabono da esposa, encolheria desdenhosamente os hombros, limitar-se-ia certamente a dizer: Es una broma!
Com que direito vinha a menina Ricardina substituir-se a D. Enrique para o effeito da moralidade?!
Então D. Estanislada havia casado com D. Enrique, e era a menina Ricardina quem fiscalisava, sem procuração de D. Enrique, a fidelidade conjugal de D. Estanislada!
De mais a mais, a menina Ricardina podia esperar que a mãe se deitasse, para vir á janella conversar com um homem, e a D. Estanislada não era permittido que, estando o marido a dormir, fizesse exactamente a mesma coisa?!
Em conclusão: D. Estanislada achava o mundo mal organisado, e estava disposta, não a concertal-o, mas a illudil-o.
Ora desde que a menina Ricardina, má visinha de ao pé da porta, sabia tudo, era impossivel illudil-a: convinha, portanto, ir tentar melhor fortuna n’outra região onde a illusão podesse florescer mais desafogada d’espiões.
Pensando na resolução de todos estes problemas, que de perto a interessavam, e reconhecida a impossibilidade de regressar desde logo a Hespanha, cujo estado politico continuava a ser o mesmo, D. Estanislada lembrou-se, com certa saudade, do conselheiro Antunes.
Elle amara-a, déra-lhe provas d’isso; só tinha o defeito de ser, como todos os portuguezes, na opinião de D. Estanislada, muito timido. Mas sendo timidos os portuguezes, sendo esse o seu natural, não havia encontral-os melhores. E, timidez por timidez, o conselheiro já estava experimentado, gostava d’ella.
O mesmo foi lembrar-lhe o conselheiro e, como ideia associada, Santarem, onde elle vivia.
Fez pois tenção de aconselhar o marido a sahir de Setubal, cidade insipida, que mais insipida ficaria ainda depois de encerrada a estação balnear.
Não consultou, sobre este projecto, Soledad, que, como já n’outras occasiões tinha acontecido, andava amuada com a mãe. Tambem Soledad parecia rezar ás vezes pela cartilha da sociedade, e resentir-se de que a mãe não sacrificasse em sua honra os ultimos clarões da belleza que declinava.
Não era porque Soledad amasse o sueco. Mas o seu brio de hespanhola revoltava-se contra a ideia de que todos pretendessem roubar-lhe admiradores, até sua propria mãe.
Soledad olhava para o abanico, que com tanto salero requebrava, e parecia-lhe que era como que uma espada partida na mão de um conquistador.
Cuidava ouvir dizer-lhe o abanico:
—Soledad, flôr da Andaluzia, tanto me tens incommodado, abrindo-me e fechando-me, fazendo-me bailar na tua mão nervosa, como n’um bolero sem fim, e o que tens tu, bella Soledad, conseguido com isso? Os teus admiradores vão desertando uns após outros; tu, que a principio timbraste em mostrar-te altiva e incomprehensivel, porque te imaginavas inegualavel, tens visto fazer-se em roda de ti a solidão das realezas decahidas, a solidão da ilha de Santa Helena, onde se abateu o maior orgulho humano. As Rodartes foram mais felizes do que tu, e comtudo não dispõem dos teus recursos de hespanhola, do salero e do abanico, dois irmãos gemeos, que fazemos estremecer os corações. Os leques de que ellas usam foram comprados alli na Praça do Bocage, na loja do Trindade, e são semsaborões como todos os leques portuguezes, ao passo que eu, apesar de haver uma republica hespanhola, continuo a ser o rei das Hespanhas,—a alma do Cid recortada sobre uma folha de papel. Até a Ricardina te roubou o sueco: és, pobre de ti! como o leão moribundo, a quem as Ricardinas injuriam. Desperta, altiva flôr da Andaluzia, readquire o teu orgulho de raça, volta as costas a este mundo prosaico, onde só parece haver sal nas marinhas, e vai procurar n’outra parte os triumphos, as homenagens a que a tua belleza te dá direito.
Soledad ouviu o abanico e deu-lhe credito, como todas as hespanholas. Por isso, quando D. Enrique, já meio convencido por D. Estanislada, fallou um dia em transferirem-se para Santarem, Soledad pareceu apoiar esse projecto, que lhe promettia uma vida mais alegre do que a de Setubal.
O Marcolino, marcador do café Esperança, perguntou a D. Enrique se queria ficar com um bilhete para a rifa da coroa de louros.
E o hespanhol, muito desdenhoso, respondeu-lhe que não, porque se iba a marchar.
—Para Hespanha? insistiu o marcador.
D. Enrique zangou-se: que para Hespanha só voltaria com a realeza dos Bourbons.
E o Marcolino, que foi o primeiro republicano que pimpolhou em Setubal, respondeu-lhe mentalmente:
—Tens que esperar!...
Mas saber o Marcolino uma noticia era o mesmo que sabel-a todo o café Esperança, e, dentro de algumas horas, toda a cidade de Setubal, e, dentro d’alguns dias, as aldeias de Azeitão e a povoação de Palmella.
—Que D. Enrique se iba a marchar, dizia-se, espalhava-se.
No café Esperança apertavam D. Ramon Mendoza, troçavam-n’o, perguntavam-lhe se elle não fazia valer os direitos que a sorte lhe concedera; que casta de hespanhol era elle, que deixava fugir, sem a ter ferido no coração, a sua bella patricia?
E D. Ramon, muito indifferente, muito insôsso, pedia gazoza, e respondia sorrindo:
—Que santos de casa não fazem milagres.
Não tardou a chegar ao conhecimento da menina Ricardina a noticia de que a familia Saavedra ia retirar-se. Ricardina ficou contentissima, e a sr.ª Magdalena não o ficou menos, porque havia arrendado a casa por seis mezes a D. Enrique, e poderia alugal-a ainda outra vez, para aproveitar o resto da estação balnear.
Ricardina, na esperança de que a noticia fosse verdadeira, achou que devia tratar o sueco de modo a desvial-o de Soledad, sem comtudo se alargar em concessões, que o satisfizessem.
Assim foi que se mostrou menos crua para elle: abriu a janella, e permittiu-lhe que a beijasse nas mãos.
—Só nas mãos, porque, dizia ella, não podia confiar n’elle.
O sueco pretendeu mais uma vez justificar-se, e contou a Ricardina a scena que tivera com as hespanholas, que não só o não cumprimentaram, mas até o mimosearam com epithetos offensivos.
—O sr. é que tem a culpa de tudo isso! disse-lhe Ricardina continuando a fingir-se ciumenta.
—Eu! nó! respondeu elle com uma convicção muito guttural.
—Pois quem! O sr. andava a acolytal-as a ambas, á mãe e á filha, e não queria levar com as galhetas na cara!
O sueco percebeu pouco d’esta metaphora, que Ricardina aprendera nos habitos devotos, egrejeiros da mãe.
E ella, muito tagarella, continuára moendo palavras:
—Sabe o sr. o que deve fazer agora?
—Nó saberr!
—Vá para onde ellas forem. O que lhe importa o negocio do sal? Mais vale um gosto na vida que seis vintens na algibeira.
—Nó! Nó! respondia o sueco com uma bonhomia babosa.
Elle já estava habituado a que Ricardina o tratasse por tu, tratamento carinhoso, que nunca mais havia recebido desde que sahira da Scandinavia, e todo o seu ideal consistia agora em conseguir que ella voltasse a empregar esse terno vocativo.
Mas Ricardina, muito arteira, obstinava-se em tratal-o por senhor, sem o repellir, é certo, mas sem o acarinhar como antes d’aquella fatal noite dos dois lenços.
Um namorado meridional haveria, decerto, feito uma scena de ciumes, diria a Ricardina que, pois que ella assim o aconselhava, seguiria as Saavedras para onde quer que ellas fossem, mas um homem do norte, muito calmo, muito pacifico, não encontra no seu temperamento a facilidade de representar no amor o drama tempestuoso.
Quando o sueco se despedia de Ricardina, beijando-lhe outra vez as mãos, ia resignado a esperar que o diluvio passasse e que o arco da alliança brilhasse sobre os ultimos destroços do diluvio.
Depois, chegando ao hotel Escoveiro, dois copinhos de Kirsch-wasser adormeciam-n’o n’uma serena esperança de que Ricardina voltaria a ser a mesma.
E, por entre os fumos do Kirsch e do cachimbo, pensava elle:
—Que voltas que o mundo dá! Quem me havia de dizer a mim que estimaria ainda a ausencia de Soledad!
E o cachimbo ia-se apagando, e o sueco adormecia tranquillamente...