XV

Ás sete horas da manhã, Araujo Rodarte e as suas tres netas sahiram, como de costume, para o banho.

Atravessaram o passeio da Praia de Troino, riscado havia tres annos. Os eucalyptos haviam crescido com a precocidade que caracterisa o desenvolvimento d’estas arvores, de modo que abrigavam uma legião de passaros, cuja chilreada era como que um doce concerto matutino.

Sobre o lago, e nas seis extensas avenidas que do lago irradiam, algumas borboletas passavam, batendo, na palpitação da luz, as suas azas brancas.

Um rapasito, que vinha de levar o almoço ao pae, empregado na Doca, havia poisado a cafeteira sobre a borda do lago, e, de joelhos, brincava mettendo as mãos na agua, agitando-a, para fazer turbilhonar os peixes vermelhos.

As Rodartes e o avô sentaram-se alguns momentos em dois dos bancos que torneam o lago, porque o sol ia descobrindo, e era agradavel aos banhistas, na travessia de casa para o banho, descansar na frescura d’aquelle oasis.

Depois cortaram na direcção da praia, a que faltava o pittoresco das praias do norte do paiz, onde os arruamentos das barracas alvejam garridamente.

Em Setubal o systema seguido é o do wagon e o da prancha. Os banhistas despem-se e vestem-se nos compartimentos do wagon, e mergulham na agua agarrados á prancha. Os mirones aproveitam a sombra escassa do wagon para sentar-se a gosar o espectaculo da praia.

Salomé e o avô, que não tomavam banho, sentaram-se á sombra, emquanto Hilda e Maria Ignez foram fazer a sua toilette balnear.

O Sado estava tranquillo e diamantino. Alguns golfinhos davam saltos, ao largo, n’uma folia de clowns aquaticos.

Sobre a abertura da barra a luz cahia em jorros doirando o mar, e a torre do Outão, com os seus contornos duros, dava relevo á margem direita do Sado.

A concorrencia de banhistas era, áquella hora, diminuta. Uma creança, nos braços do banheiro, gritava como possessa, e outra creança, de sete a oito annos, mettida dentro d’agua, ria de vêr chorar a outra, e chapinhava-a saracoteando-se no banho. Uma hespanhola gorda, agarrada á prancha, resfolegava como uma phoca. E um padre, de camisola de malha, fazia ensaios de natação inhabil, arrastando-se na ondulação da agua até ir esbarrar na areia.

Araujo Rodarte e Salomé estiveram um momento calados, até que, de repente, disse elle á neta:

—Admira não estarem cá hoje os nossos patricios!

—Foram a Lisboa tratar de negocios, segundo disseram ás manas, respondeu Salomé.

E o velho, com ar de alegre ironia, observou:

—Como ellas andam bem informadas!

Salomé sorriu-se.

—Sempre quero vêr—disse o Rodarte após um momento de silencio—se aquellas duas senhoras—referia-se a Hilda e Maria Ignez—terão coragem para me fazer alguma traição!...

—Alguma traição?!

—Sim, se terão coragem para me deixar só comtigo na Messejana!

—Não pense n’isso, avôsinho.

—Dizes tu que não pense n’isso! Mas em que hei-de eu pensar senão em vocês! Que tenho eu que me prenda agora mais no mundo?! A velhice não me tornou ainda tão tolo, que não perceba o que é um namoro. Lá de que as tuas irmãs são requestadas pelos nossos patricios, já não posso eu duvidar. E não me revolta isso, mas entristece-me. Sempre vos tenho dito que não tenhaes pressa de casar, sobretudo de casar mal, porque estaes habituadas a viver bem; mas não posso levar a minha exigencia até ao ponto de vos querer para freiras. Que anda moiro na costa, é certo, e que os dois nossos patricios são pessoas estimaveis, e maridos convenientes, não é menos certo. Mas o que me entristece é o receio de vêr desfeito de um dia para o outro o nosso pequeno grupo de familia, indo a Hilda para Reguengos e a Maria Ignez para as Alcaçovas. Ficaremos nós, como dois solitarios, no casarão da Messejana. E tu, Salomé, e tu, que noticias me dás do teu coração?...

—Nem o sinto! respondeu, sorrindo, Salomé.

—Pareceu-me que o pateta do Vianninha pretendia fazer-te a côrte...

—Sim... talvez. Perdia o tempo.

—Já anda desilludido, porque apparece menos. Era um mau casamento, porque é sempre um mau casamento aquelle em que se conquista uma supposta felicidade á custa da infelicidade de outrem. O pateta tem feito soffrer a Sequeira, que se apaixonou por elle, e que podia empregar-se melhor. E o ratão do sueco! o que é feito d’elle?

—Creio que andará arrastando a aza á señorita. Não o tenho visto.

—Grande aza deve ser, se fôr proporcional ao hombro! Olha lá: o hespanholito?

—D. Ramon?

—Sim.

—Deve andar com os seus patricios. Tambem o não tenho visto.

—De toda essa ala dos namorados que ahi appareceu tão galharda, apenas se salvaram talvez dois cavalleiros andantes.

—Quaes, avôsinho?

—Quaes! Os que combatem por tuas irmãs, e que m’as querem levar, cada um para sua terra differente...

N’este momento Hilda e Maria Ignez, vestidas para o banho, sahiram do wagon.

São raras as mulheres que conseguem triumphar de uma tão desgraçada toilette: blusa e calção de flanella. Mas principalmente Hilda, graças á sua correcta plastica, livrava-se do ridiculo da toilette. O relevo do seio, accentuado sem exagero, aformoseava-lhe o busto.

Sentindo-as fallar, o avô gritou-lhes logo:

—Não apanhem sol, meninas!

—Já vamos, avôsinho, já vamos, responderam ellas quasi simultaneamente.

E, dando as mãos uma á outra, saltaram da prancha ao mesmo tempo, fazendo agitar a agua, que salpicou a prancha e ainda o wagon.

Rindo e mergulhando, o banho foi para ellas, como sempre, uma folia quasi infantil.

Araujo Rodarte, ouvindo-as, ficou pensativo, calado. O seu espirito fixou-se n’um pensamento, que, momentos antes, havia revelado a Salomé: queriam roubar-lhe aquellas duas netas, e entristecia-o o lembrar-se que tinha de separar-se d’ellas.

Estavam ainda as duas Rodartes no banho, quando chegaram á praia o alferes Ruivo e o tenente Rosalgar, que não deixavam nunca, todas as manhãs, de ir dár uma vista de olhos ás banhistas.

Desde o mallogrado espectaculo da Noite sinistra, aquelles dois officiaes, bem como o tenente Epaminondas, ficaram sendo conhecidos no café Esperança pelos nomes dos personagens que na peça lhes haviam sido distribuidos.

Assim, por isso que as alcunhas se tinham já divulgado, podemos dizer que D. Fafes Estorninho e D. Gualter Byscaia estão sobre o wagon, conversando com Araujo Rodarte e Salomé, sem comtudo deixarem de dar attenção ao banho de Hilda e Maria Ignez.

—Parece-me, disse aos dois Araujo Rodarte, que ainda não tinha tido o gosto de os vêr desde aquella noite....

—Aquella Noite sinistra! atalharam ambos os officiaes, fazendo allusão ao titulo da peça, e rindo ás gargalhadas.

—Foi pena que tivessem tanto trabalho!

—Tudo aquillo divertiu, respondeu o alferes Ruivo. Divertiu mais ainda, talvez, do que se se tivesse preenchido todo o espectaculo. E deixou recordações alegres para muito tempo! Sabem v. ex.ᵃˢ uma coisa? Desde a Noite sinistra eu passei a ser conhecido por D. Gualter Byscaia, e aqui o tenente por D. Fafes Estorninho.

—Tem graça! observou Araujo Rodarte.

Os dois officiaes continuaram a rir, enviezando o olhar para Hilda e Maria Ignez, que sahiam do banho, subindo á prancha.

—Mas, disse Salomé, ainda entrava tambem um collega de v. ex.ᵃˢ....

—Era o Epaminondas, minha senhora, respondeu o tenente Rosalgar. Esse é o D. Diogo Cucufate.

Salomé e o avô riram.

—E a comedia do Goes parecia ter algum merecimento. Foi pena que não chegasse ao fim! disse Araujo Rodarte.

—Pena especialmente para o Lemos—observou o alferes Ruivo—que nunca foi egualado em tamanha desgraça por nenhum Talma amador!

—Pobre rapaz... e pobre pae! reflexionou Araujo Rodarte.

—Eu nunca vi apanhar tanto pontapé! atalhou o tenente Rosalgar.

—E como o Julio, accrescentou o alferes, largou a fugir vestido de mulher, galgando dois a dois os degraus da escada até se vêr na rua!

—O que lhe valeu foi não tropeçar no vestido! commentou o tenente.

—A D. Estanislada esteve em risco, disse o alferes, de perder uma das melhores peças do seu guarda-roupa.

—Não! Quem perdeu a peça foi o Goes. A peça e a gloria!

Riram todos muito com esta observação do tenente Rosalgar.

E d’ahi a momentos o alferes:

—A gloria e... a coroa!

—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.

—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para se coroar a si proprio!

—Sim?! perguntou Salomé.

—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que foi o Marcolino, marcador do café Esperança, quem emprestou ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o emprestimo.

—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho rindo.

—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.

—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.

—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, não nos ha-de faltar louro na comida.

—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.

—N’essa não cáe o Marcolino!

D’ahi a pouco mais de dez minutos, Hilda e Maria Ignez sahiam do wagon.

O Rodarte e as netas despediram-se dos dois officiaes.

E o alferes Ruivo ficou dizendo ao tenente:

—Ellas vinham do banho um appetite!

—Ó filho, a Hilda é uma mulher de truz! e a outra não é nenhuma asneira tambem!