XIV
D. Ramon Mendoza, que era o hespanhol mais insipido de que ha memoria, não conquistára vantagens amorosas junto de Soledad.
Ella achava-o, como toda a gente, uma individualidade incolor, fugidia, d’estas que não deixam a ninguem uma impressão duradoira.
Apesar de vêr muito dizimada a sua côrte galante, Soledad não dava maior attenção ao hespanholito. Nem o coração nem a razão a impelliam para elle. O coração recebia-o com indifferença; a razão dizia a Soledad que, depois de ter tido um tão variado cortejo, seria um desaire recorrer á prata de casa,—a um patricio insignificante.
Sabendo que o sueco voltára a Setubal, lembrou-se de atiçar de novo a chamma do amor n’esse coração da Scandinavia, que tanta vez se lhe havia rendido. Mas por onde andava elle, que lhe não apparecia?
Uma noite, tendo a familia Saavedra recolhido a casa, depois de passear na alameda da Praia, Soledad ficou por algum tempo á janella.
A noite estava calmosa, a casa era abafada, tinha apenas duas janellas. D. Enrique deitára-se, fôra para a cama lêr os jornaes hespanhoes que n’esse dia o correio lhe trouxera.
D. Estanislada andava, como sabemos, em reservada observação a respeito do sueco: se elle era um namorado timido, como suppunha, ella o alentaria com a sua audacia de abelha-mestra andaluza.
Deitado o marido, D. Estanislada abriu a outra janella da sala, a pretexto de tomar ar. Cada uma, mãe e filha, occupava sua janella. E ambas tinham o mesmo pensamento: vêr se o sueco, protegido pela noite, passaria por ali.
A menina Ricardina, por dentro da vidraça do seu rez-de-chaussée, esperava tambem o sueco, e sentia-se contrariada pela presença das hespanholas, que pareciam não ter somno n’aquella noite.
A principio suppôz que mãe e filha estivessem apenas tomando o fresco, mas deram onze e meia no relogio de S. Julião, deu meia noite, e ellas não sahiam da janella.
A meia noite era a hora marcada para a entrevista do sueco com a menina Ricardina. A sr.ª Magdalena dormia profundamente a essa hora. A filha levantava-se do leito, abria cautelosamente a janella, vinha esperar, no silencio da noite, o sueco. Mas n’aquella noite, vendo as hespanholas, ficára por dentro da vidraça, espreitando-as.
Á meia noite em ponto—a pontualidade em tudo é uma caracteristica das raças do norte—o sueco assomou á esquina da rua, que julgava deserta a essa hora, segundo o costume.
Viu porém gente nas duas janellas da casa de D. Enrique, e fechada a vidraça de Ricardina.
Ficou por sua vez contrariado, perplexo, sem saber se havia de retroceder ou de avançar. Coseu-se com a sombra do muro, parou, indeciso.
N’esse momento tres corações de mulher monologaram simultaneamente.
O coração de Ricardina:
—É elle!
O coração de Soledad:
—É elle!
O coração de D. Estanislada:
—É elle!
O sueco observava de longe, via dois vultos de mulher nas janellas da casa de D. Enrique, sem comtudo poder distinguil-os. Mas um d’esses vultos havia de ser, certamente, o de Soledad, e então aviventou-se no coração do sueco o rescaldo da agradavel impressão, que a belleza d’essa mulher lhe havia causado.
Ella era realmente formosa, tinha uma graça acirrante, uma graça meridional, que punha em vibração os nervos de todos os homens, especialmente os de um homem do norte.
Mas Ricardina, sem ser tão bella, nem tão graciosa, sabia melhor talvez conquistar e deixar-se conquistar. As pequenas felicidades que Ricardina já lhe havia concedido, eram o prologo tentador de uma promessa, e não ha homem nenhum, seja do norte ou do sul, que se não sinta vibrante a dois passos de uma posse sem restricções.
Estava, pois, o sueco ardendo em dois fogos, e muito longe de imaginar que um terceiro incendio o ameaçava de perto. Esse terceiro incendio era D. Estanislada.
De repente, olhando do escuro para a casa de D. Enrique, viu mexer-se n’uma das janellas um lenço branco.
Era o lenço de Soledad.
D’ahi a momentos, na segunda janella, outro lenço branco passou cavillosamente pelas narinas de D. Estanislada.
Elle viu tudo isto, e, sem poder reconhecer Soledad nem D. Estanislada, ficou cada vez mais desorientado.
Lembrando-se de que Ricardina, comquanto tivesse a janella fechada, o devia estar esperando, olhou para o rez-de-chaussée, e viu uma ponta de lenço assomar por baixo da vidraça e logo desapparecer.
Sem saber o que fizesse, deixou-se estar no escuro, esperando os acontecimentos.
D’ahi a pouco, um lenço branco cahiu de uma das janellas de D. Enrique para a rua, e ouviu-se descer uma vidraça.
Era Soledad que ia deitar-se e que, disfarçadamente, para que a mãe não désse por isso, tinha deixado cahir o lenço como de um balcão da idade média.
D. Estanislada, a quem não era facil enganar, viu a manobra do lenço da filha e, mal ella voltara costas, fez o mesmo, com mais algum descaramento: agitou o lenço e deixou-o cahir á rua. Depois fechou com estrondo a janella.
D. Enrique, que, tendo passado pela vista os jornaes, já dormitava, accordou ouvindo o barulho da vidraça; teve um estremecimento nervoso e regougou:
—Que broma!
Voltando-se para o outro lado, tornou a pegar no somno.
O sueco ainda esteve cerca de um quarto de hora alapardado no escuro, mas, vendo abrir-se a janella de Ricardina, sahiu da sombra, sem todavia perder de vista os dois lenços brancos, que estavam no chão.
Quando elle se approximava do rez-de-chaussé, sentiu abrir-se cautelosamente a porta da sr.ª Magdalena.
Um fremito de electricidade amorosa percorreu todo o seu corpo; n’aquella noite o amor triumpharia sem restricções, pensou elle.
Mas Ricardina atravessou rapidamente a rua, com um passinho de passaro, apanhou os dois lenços que estavam no chão debaixo das janellas das hespanholas, e correu para casa.
O sueco, sem saber a façanha gloriosa de Martim Moniz no castello de Lisboa, ia a imital-o por intuição, quiz atravessar-se na porta, para entrar, mas Ricardina empurrou-o com desabrimento, dizendo iracunda:
—Não! nunca!
E fechou a porta da rua. Depois fechou as portas da janella.
E o sueco achou-se em plena rua, cada vez mais atarantado, sem perceber nada de tudo aquillo.
Ricardina estava como uma bicha contra o sueco, contra as hespanholas, contra o enguiço d’aquella noite.
Jurava vingar-se de tudo e de todos, e, tendo visto cahir os lenços, quizera adquiril-os como prova da leviandade de Soledad e de D. Estanislada. Percebera, com a sua aguda intuição maliciosa, a comedia representada pela mãe e pela filha, procurando enganarem-se uma á outra.
A primeira ideia de Ricardina foi lançar mão de todos os meios que podessem libertal-a da visinhança das hespanholas: lembrou-se de mandar os lenços a D. Enrique, dentro de uma carta anonyma, em que lhe explicasse o que se tinha passado.
Mas receando ir provocar uma tragedia domestica—como ella conhecia mal D. Enrique!—resolveu, por fim, enviar á filha o lenço da mãe, enviar á mãe o lenço da filha, descobrindo o plano de ambas, e ameaçando-as com uma denuncia.
Assim fez. Chamou um rapasito que tinha andado com ella na escóla, e encarregou-o de escrever as duas cartas, e de sobrescriptal-as.
A D. Estanislada dizia:
«Ahi vae o lenço que a senhora sua filha atirou hontem ao sueco, pensando que usted não dava por isso. Tenha tento na bola, quando não eu aviso o seu homem, e espalho em toda a cidade este grande escandalo. O melhor é safar-se d’aqui quanto antes.»
Para Soledad o texto era este:
«A senhora sua mãe, logo que usted fechou hontem a janella, atirou ao sueco este lenço, que lhe mando. Veja usted que tem dentro das portas a sua primeira rival. Aconselho-a, se quizer evitar um grande escandalo, a que trate de sahir de Setubal».
Ricardina esperou que D. Enrique sahisse de casa, para mandar entregar, pelo mesmo rapasito, as duas cartas, com os lenços dentro.
O expediente surtiu effeito, porque n’essa noite não se abriram as janellas da casa de D. Enrique.
O sueco, ao dar da meia noite, foi, muito timidamente, procurar uma reconciliação com Ricardina.
Viu a janella fechada, mas, perdendo um pouco a timidez, aproximou-se da vidraça: Ricardina estava n’uma posição estudada, com o rosto apoiado na mão direita, olhando para o céo onde a lua passava entre nuvens.
O sueco bateu com os dedos na vidraça, e Ricardina, que lhe seguia disfarçadamente os movimentos, fingiu despertar, sobresaltada, da sua apaixonada réverie. Encarando com o sueco, fez um movimento de desdem, e recahiu em simulada contemplação.
Elle pôz as mãos como supplicando-lhe que levantas-se a vidraça.
Ricardina, mostrando-se contrariada, abriu a janella e perguntou-lhe de repellão:
—O que quer o sr. de mim? Ainda tem cara de me apparecer aqui?!
O sueco desculpou-se: que sim, que tinha cara, porque tinha coração. Que a amava muito. Que na vespera não quizera aproximar-se para a não comprometter. Que não tinha culpa de que as hespanholas—e n’isto teve graça—se lembrassem de fazer d’elle lavadeira, dando-lhe lenços para lavar.
Ricardina mostrou-se resentida, ciumenta, e não quiz dizer n’essa noite a sua ultima palavra de perdão. Era uma tactica habil, para subjugar o sueco, para o obrigar a reconquistar o terreno perdido.
Por dentro dos vidros, ás escuras, Soledad e D. Estanislada tinham vindo, cada uma por sua vez, espreitar para a rua, na esperança de que o sueco voltasse.
Ambas o viram: Soledad surprehendeu-o n’uma attitude comica, a implorar de mãos postas á menina Ricardina que levantasse a vidraça. Ficou indignada, não tanto pela attitude humilhante d’elle, como por ter a certeza de que lhe roubavam... mais um.
D. Estanislada, a quem a filha não fallava desde pela manhã, deixou-a deitar para vir pé-ante-pé espreitar por dentro dos vidros.
Reconheceu facilmente a corpolencia do sueco, dobrado sobre a janella de Ricardina.
—Ai! pensou D. Estanislada, que elle namora a lambisgoia da filha da senhoria! Estou bem arranjada com maus visinhos de ao pé da porta! O melhor é tratar de pôr-me ao fresco, porque eu já fiquei desconfiada quando n’aquella noite, em que cá esteve o conselheiro, a tal menina Ricardina deixou cahir o annel debaixo da meza!
E reflectindo um instante:
—Ai! que foi ella que bateu e gritou á porta!
No dia seguinte, á volta do banho, quiz o acaso que as duas hespanholas encontrassem o sueco. Elle ia para cumprimental-as, quando Soledad, que levava grande dianteira á mãe, lhe disse bruscamente:
—Picaro!
Sem ter percebido bem o que Soledad dissera, mas reconhecendo em todo caso que ella quizera insultal-o, atordoado, indeciso, levou a mão ao chapeu quando passava junto de D. Estanislada.
E ella, sem parar, disse-lhe altivamente:
—Infáme!