XIII
Imagine-se quanto deu que fallar este caso estupendamente comico!
Pela manhã dizia-se na praia que o pae do estudante havia corrido atraz d’elle pela rua da Conceição, e que um popular, vendo uma mulher a fugir e um homem a gritar que a prendessem, deitara a mão á supposta mulher; que Julio de Lemos apanhára n’esse momento nova roda de pontapés, e que o pae, agarrando-lhe por um braço, o levára para a hospedaria, tendo embarcado ambos no comboio da manhã para Lisboa.
Episodios altamente risiveis, boquejavam-se: soube-se então que o jornalista havia mandado vir de Lisboa, para si proprio, uma coroa de louros, a qual coroa de louros ficára no theatro pendurada de um prego. Fazia-se calembour com a palavra prego, porque se soube logo tambem a quem o jornalista pedira emprestado o dinheiro para pagar a coroa. Accrescentava-se que o estudante se esquecêra, na atrapalhação em que ficára, de restituir a toilette a D. Estanislada, mas averiguou-se depois que o pae de Julio de Lemos havia mandado entregar tudo.
Aurelio Goes não apparecia, estava envergonhado e furioso: envergonhado pelo fiasco e furioso por vêr perdida a occasião de trepar para o pedestal de Garrett.
Á noite asseverou-se, e era verdade, que Aurelio Goes havia partido no comboio da tarde para Lisboa, á franceza, sem dizer adeus a ninguem, nem mesmo á pessoa que lhe havia emprestado o dinheiro para a coroa de louros.
Só duas pessoas, não que ellas o dissessem a ninguem, haviam tirado algum proveito d’essa mallograda récita.
A primeira era D. Estanislada que, graças ao estudante, ficára sabendo que, no sorteio de Troia, havia cahido em sorte ao sueco.
A segunda era o sueco que, na noite da récita, tinha offerecido um camarote de segunda ordem á senhora Magdalena e á menina Ricardina.
Pois que! A menina Ricardina soubera tecer a sua rede, e apanhou nas malhas o sueco. Foi com esse fim que ella o chamára para lhe fazer as confidencias que sabemos. Elle, encantado com tão boa fortuna, porque era essa a primeira portugueza que se lhe tornava accessivel, voltára na noite seguinte, e logo n’essa noite ficou estabelecido o galanteio.
A menina Ricardina contou á mãe que o sueco lhe tinha dito que queria desposal-a, e a sr.ª Magdalena, depois da filha lhe prometter que teria muito juizo, prometteu ao Senhor do Bomfim um sueco de cêra, se o namoro viesse a disparar em casamento.
Annunciada a récita, o sueco offereceu á namorada um camarote de segunda ordem, camarote de industria escolhido para dar pouco nas vistas: era de bôcca.
E logo que a sr.ª Magdalena e a filha se sentaram no camarote offerecido, o sueco, a proposito de saber se ellas queriam alguma coisa, foi visital-as, e ficou.
Sentou-se discretamente ao fundo do camarote, encantado com a mobilidade gracil com que Ricardina mexia a cabeça, olhando para um e outro lado como um passaro na gaiola.
Ella estava delirante de alegria por se vêr no theatro, coisa que já lhe não acontecia havia dois annos, desde que um rapaz, que tinha ido a banhos, lhe offerecera duas cadeiras no barracão dos Dallots para ella assistir com a mãe á representação da Mão do finado.
Mas vêr-se de camarote, n’um espectaculo concorrido pelas melhores familias da terra e de fóra, estonteava-a d’alegria e de orgulho.
Quando principou a desencadear-se no palco a tempestade, que fez gorar o espectaculo, a menina Ricardina pôz-se de pé, como quasi toda a gente, e aproveitou a occasião para ir sentar-se, ao fundo do camarote, perto do sueco.
A mãe ficou muito entretida a vêr o escandalo do palco, sem dar a menor attenção ao escandalo do camarote. O sueco e a menina Ricardina, de mãos entrelaçadas, muito ternos, já se não importavam senão comsigo mesmos, indifferentes ao tumulto que de repente se havia levantado.
Entretanto D. Estanislada estranhava não vêr o sueco, porque, depois que o estudante lhe contára a historia do sorteio, ella havia architectado um romance de amor internacional.
O sueco, na sua opinião, tomára a sério o sorteio, o sueco amava-a, e por isso o conselheiro. Antunes o tinha encontrado perto da casa de D. Enrique, com o que, como sabemos, ficára furioso.
Havia, é verdade, uma carta do sueco para Soledad, carta que D. Estanislada e o conselheiro abriram e leram, mas essa carta bem podia ser um habil disfarce do sueco para prevenir a hypothese de qualquer escandalo futuro.
Não fingira a principio o conselheiro, tambem habilmente, namorar Soledad para afastar suspeitas do seu galanteio com D. Estanislada? Pois muito bem! O sueco fazia o contrario, simulava namorar Soledad para se aproximar, sem dar nas vistas, do coração de D. Estanislada.
A hespanhola mãe principiava a sentir-se amada pela segunda vez em Setubal.
O sueco mal podia imaginal-o! Elle andava n’umas paschoas desde que possuia o coração da menina Ricardina. Já se não importava de Soledad, que seria mais bella, não o negava, mas não era tão accessivel, tão meiga, tão carinhosa para elle.
O theatro, n’aquella noite da récita mallograda, foi-se esvaziando, os espectadores sahiam fazendo commentarios em voz alta, rindo, só a sr.ª Magdalena, a menina Ricardina e o sueco se deixaram ficar para ser os ultimos a sahir.
Já começavam a apagar-se as luzes quando os tres desceram. E como a noite estivesse serena, posto não houvesse luar, o sueco convidou a sr.ª Magdalena a irem dar um pequeno passeio. Ella objectou que poderia ser isso reparado, mas a filha, vendo que a mãe não se entendia muito bem com a aravia do sueco, replicou que não havia luar e que até fazia bem dar um passeio n’uma noite de verão: que bem encalmada saira ella do theatro. Calma d’amor, principalmente, porque o sueco, de mãos enlaçadas com a menina Ricardina, fizera subir o thermometro.
Foram caminhando até ao largo das Almas, e ahi metteram para o Campo do Bomfim, os dois adiante, a sr.ª Magdalena fiscalisando-os.
Contornaram o campo, e a sr.ª Magdalena, quando passavam em direcção á capella do Senhor do Bomfim,, não se dispensou de parar para rezar de longe á milagrosa imagem da sua especial devoção.
Foi n’essa occasião que o sueco roubára um beijo á menina Ricardina.
Estou a imaginar o que algum dos mais ingenuos dos meus leitores dirá comsigo mesmo: «Ah! o primeiro beijo! que delicioso momento de felicidade, esse!»
Perdão, leitor ingenuo! Não era o primeiro beijo que elle dava, mas o terceiro. Sim, o terceiro, um terceiro... franciscano, a julgar pela modestia com que passou dos labios do sueco para a face da menina Ricardina, como se passasse de uma cella para outra. Dir-se-ia que era um beijo de sandalias, porque passou sem fazer barulho.
Quando recolheram a casa, a sr.ª Magdalena disse á menina Ricardina:
—Não sei como tu te podes entender com o sueco!
—Por quê, minha mãe?
—Eu entendo muito pouco do que elle diz!
—Pois eu entendo-o perfeitamente...
Ó amor! ó lingua universal dos corações namorados! tu és a unica lingua que se póde aprender sem grammatica e sem diccionario! lingua de substantivos apenas, em que dois nomes proprios se juntam para formar o plural!
Todos os acontecimentos que se tinham dado nos ultimos dias haviam contribuido para diminuir e empallidecer a côrte de admiradores que, antes da chegada das Rodartes, acompanhava por toda a parte a bella andaluza.
Os dois alemtejanos, como dois corações patriotas, desertaram da côrte castelhana para a côrte portugueza, logo que o Alemtejo se viu soberanamente glorificado na pessoa das tres Graças da Messejana.
O sueco havia-se retirado para Cintra, segundo constava, quando Soledad fôra para Lisboa com o pae. Estava certamente contrariado pela concorrencia que lhe faziam os outros pretendentes á mão da bella andaluza. Ella propria pensava isto.
O conselheiro Antunes retirára-se para Santarem.
Depois da noite fatal da récita, o estudante e o jornalista desappareceram, abandonaram o seu posto de cortezãos.
Restavam apenas o hespanhol, o Vianninha e os officiaes de caçadores.
Já não havia tertulias possiveis, Soledad passava as noites sentada com a familia n’um banco da Praia, aturando ás vezes D. Ramon, outras vezes o Vianninha ou o tenente Epaminondas ou o alferes Ruivo, mas nada d’isso, que era pouco, podia contentar a sua alma de andaluza: a tertulia, a querida tertulia, que tanto lhe electrisava os nervos, fazia-lhe muita falta.
Abrindo e fechando o abanico, aborrecia-se, chegava a bocejar. Tinha desesperos intimos, raivas surdas.
E, quando passava pela casa das Rodartes, e via luz nas janellas, uma revoltada emulação fazia brilhar, n’um relampago, as pupillas negras dos seus olhos.
—Ao menos as tres irmãs, as Rodartes, entretinham-se ás noites, ao passo que ella, rainha quasi desthronada, só tinha por futuro um banco da Praia e uma côrte cada vez mais reduzida.
Uma vez, com manifesto mau humor, perguntára Soledad ao tenente Epaminondas, ironicamente, se aquillo que havia ás noites em casa das Rodartes eram tertulias.
E o tenente, muito desdenhoso, respondera rindo:
—Quaes tertulias! São os dois alemtejanos que estão a jogar o loto na côrte do Padre Eterno!
Mas Soledad, raivosa, mordera o beiço.