SCENA IV

(D. Fafes Estorninho, D. Gualter Byscaia e o escrivão de fazenda entram pela porta do fundo. D. Mendo levantas-se vendo-os entrar.)

D. FAFES e D. GUALTER (simultaneamente)

Ó que surpreza! Um abraço!

Que noite nem estreiada! (abraçam-n’o de um e outro lado.)

D. MENDO (á parte)

Fica tão longe a casaca,

Que não senti mesmo nada! (Olhando para o escrivão de fazenda, que lhe abaixa a cabeça.)

Ó D. Gualter, ó D. Fafes,

Ser apresentado estimo

Ao distincto cavalheiro,

Que tendes por companheiro.

Será elle nosso primo?

D. GUALTER

Não é. Mas outra valia

Este senhor recommenda.

Isto já de fidalguia!...

D. FAFES

É o escrivão de fazenda. (apresentando D. Mendo)

Meu primo Mendo de Sousa

Noronha Alvim e Lambaças...

Aqui falta alguma cousa!

Emfim: senhor de Boaças.

D. MENDO

Falta o Tinoco materno.

De meu pae falta o Rolim.

D. FAFES (emendando)

Mendo de Sousa Noronha

Alvim Tinoco Rolim,

Senhor do Brejo e Boaças.

D. MENDO

Agora falta o Lambaças!

D. FAFES (rindo)

Nenhum de nossos avós

Faz falta onde estamos nós!

D. MENDO (ao escrivão)

Muito emfim me lisonjea

Conhecer este senhor.

Faça de conta, de ideia

Que me tem ao seu dispôr.

Estendo-lhe a minha mão,

Senhor... senhor escrivão

De fazenda... propria ou alheia?

D. GUALTER (precipitado)

Não faças troça do homem.

N’estes bons tempos felizes

De liberdade e igualdade

Nós andamos nas mãos d’elle

P’ra que não nos tire a pelle

Esticando-a nas matrizes.

D. MENDO

Então cá vocês não pagam?

(D. Fafes conversa entretanto com o escrivão de fazenda)

D. GUALTER

Pagamos pouco. Bem vês

Que ninguem faz em colheitas

O que antigamente fez.

D. MENDO

E então recorrem ás peitas!

N’esta altura da representação começou-se a ouvir barulho no palco. Não parecia que fosse rubrica da peça.

D. Mendo, extranhando o barulho, dirigiu-se á porta do fundo, e gritou para dentro: Calem-se, seus burros!

D. GUALTER (levantando a voz para poder ser ouvido)

Finge a gente que o estima,

Trata-o de Santo Antoninho,

Mão por baixo, mão por cima.

Se não ha nem pão nem vinho!

D. MENDO (descendo da porta do fundo, muito arreliado porque o barulho entre-scenas continua)

Mão por cima... é bom criterio.

Mas mão por baixo... é mais serio!

D. GUALTER (explicando com o gesto correspondente)

Mão por cima e mão por baixo.

Continua e augmenta o barulho entre-scenas. Sente-se fallar de rijo, altercar. Da platêa rompem alguns scius.

D. MENDO

Isso então tinha outro nome

Quando não havia fome.

Chamava-se: ser capacho!

D. FAFES (em voz alta, cada vez mais alta, cuidando poder dominar o barulho que vinha do fundo do palco)

Muito alegre este D. Mendo!

D. GUALTER (berrando para poder ser ouvido)

Parece rapaz, e é velho!

D. FAFES (gritando cada vez mais)

Tem uma casa soberba!

D. MENDO (com voz de estentor, para o escrivão de fazenda)

Tenho. Mas n’outro concelho.

N’isto o barulho augmenta entre-scenas, sente-se cahir uma cadeira, e de repente, correndo de um lado para outro, atravessa o palco Julio de Lemos, em travesti de baroneza de Piães e atraz d’elle, aos pontapés, um dos quaes ainda lhe raspou, um sujeito de cabellos grisalhos, baixo, atarracado, ardendo em colera.

Uma grande parte do publico, composto de setubalenses, reconheceu o homem dos pontapés: era o pae do estudante de Alcacer. As familias banhistas, incluindo as Rodartes e Soledad, assustaram-se. Ouviram-se guinchos hystericos. Na platêa explodiram risadas. E ao charivari no palco correspondeu o charivari dos guinchos e das gargalhadas na platêa e nos camarotes.

Os actores, D. Mendo, D. Fafes, D. Gualter e todos os mais, corriam de um lado para outro gritando, berrando, apparecendo e desapparecendo por entre os bastidores.

O administrador do concelho sahiu precipitadamente do seu camarote.

Ao cabo de cinco minutos de tumulto, o panno desceu.

Na platêa continuavam as risadas, mas nos camarotes iam diminuindo os guinchos.

Vozes explicavam da platêa para os camarotes:

—Não é nada! É o pae do estudante que o veio buscar!

—É o pae! é o pae! Não se afflijam, minhas senhoras.

Alguns homens sahiam da platêa, corriam ao palco.

D. Enrique berrava ao fundo do seu camarote:

Que broma! que broma!

Finalmente, ao cabo de um quarto de hora de verdadeira ingrezia, o panno subiu, e Aurelio Goes, ainda enfardelado na sua enorme casaca de D. Mendo, veio dizer á bôcca da scena:

—Minhas senhoras e meus senhores: tendo desapparecido do palco o sr. Julio de Lemos, o espectaculo não póde continuar hoje.

O proprietario das Alcaçovas, que tinha ido ao camarote das Rodartes, para lhes explicar o que tudo aquillo era, e tranquillisal-as, dizia:

—Bem me constava a mim que o pae do Lemos estava muito quesilado com elle, e não tardaria a vir buscal-o. Rebentou hoje como uma bomba!