SCENA III

D. MENDO ()

Goze! Namore! Tem graça!

Póde alguem ser tão audaz,

Que vá mostrar-se n’um baile

Assim, por deante e (volta-se) por traz!

Vim de rastos, constrangido,

Estou aqui compromettido!

Não saio d’aqui, não saio.

Fallar ás damas? Dançar?

N’essa tolice não caio.

Não me hão de lá apanhar! (Sentando-se.)

Chego a Braga d’esta vez

Por uns dois dias ou trez.

Trago um fato de viagem:

Eis toda a minha bagagem.

Entro em casa de meu primo.

—Como vaes tu?—Que surpreza!

Ó diabo! adivinhaste!

Mas tu sabes que apanhaste

Um baile da baroneza?!

—Um baile?—Um baile!—E depois?

—Um baile d’estes que valem,

Dados em Braga, por dois.

—Não vou.—Has de ir.—Mas não posso!

—Não pódes! porque?—Por tudo!

Ou melhor, talvez, por nada!

Pensas que eu visto casaca

P’ra fazer uma jornada?!

Que é da casaca? Não tenho!

Gosto de andar á ligeira,

Cheio de sol e poeira,

Assim mesmo,—como venho.

—Mas, primo, talvez se arranje

Algum meio... deixa vêr.

—Só o capote de um conego

Me póde agora valer!

—Não rias! Que ideia! Espera!

Se me não falha a memoria,

A casaca do papá,

Que Deus tenha em santa gloria,

No guarda-roupa ainda está.

—Santo Deus! quero lá isso!

Ó primo! que reinação!

Uma casaca, talvez,

Com que o tio outr’ora fez

De valido papa-fina

Quando a Carlota Joaquina

Burlou a Constituição!

—Vae-se vêr. Tem paciencia...

Vem a casaca. Medonha!

Isto que eu trago vestido

E em que me sinto mettido

Como dentro d’uma fronha!

—Primo, não vou.—Qual historia!

Verás lá muitas assim.

N’esta Braga, que é fiel,

O tempo de D. Miguel

Dura ainda, e não tem fim!

Vaes á moda.—Á moda... antiga!

—Talvez que alguma morgada,

Camapheu como o seu broche,

Se sinta lisonjeada

D’esse aspecto vieille-roche.

—E entre no meu coração,

Por engano, e por seu pé,

Julgando, por ser em Braga,

Que vae ouvir missa á Sé!

—Ora adeus! Calças, collete,

Gravata, lenço, chapeu,

O resto da toilette,

Tudo isso, empresto-te eu.

E zás, põe me na tortura,

Despe-me, veste-me, entala-me,

Puxa, repuxa, estrebucha,

Desaperta, aperta, empala-me!

Traz-me ajoujado, arrastado,

Acho-me, sem saber como,

Preso dentro de uma sacca!

Vim a pé... n’esta casaca,

E o primo veio a meu lado!