II

Dorme entre os gelos, flôr immaculada!
Luta, pedindo um ultimo clarão
Aos soes que ruem pela immensidão,
Arrastando uma aureola apagada…

Em vão! Do abismo a bôca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão…
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada…

Tu morrerás tambem. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha de echoar, e teu perfume extremo

No vacuo eterno se esvahirá disperso,
Como o alento final dum moribundo,
Como o ultimo suspiro do Universo.

ANIMA MEA

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente,
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de vêr a funebre bacchante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»

—Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a bôca fria).

Eu não busco o teu corpo… Era um tropheu
Glorioso demais… Busco a tua alma—
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»

ESTOICISMO

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras…

Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como num sonho mau, só oiço um não
Que eternamente echôa entre as esféras…

—Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppôr á Sorte a queixa do egoísmo…

Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abismo!

O CONVERTIDO

(A Gonçalves Crespo)

Entre os filhos dum seculo maldito
Tomei tambem logar na impia meza,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ancia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza…
Mas, um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contricto!

Erma, cheia de tedio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inercia e esquecimento…
Só me falta saber se Deus existe!

SEPULTURA ROMANTICA

Ali, onde o mar quebra, num cachão
Rugidor e monotono, e os ventos
Erguem pelo areal os seus lamentos,
Ali se hade enterrar meu coração.

Queimem-no os sóes da adusta solidão,
Na fornalha do estio, em dias lentos;
Depois, no hinverno, os sopros violentos
Lhe revolvam em torno o árido chão…

Até que se desfaça e, já tornado
Em impalpavel pó, seja levado
Nos turbilhões que o vento levantar…

Com suas lutas, seu cançado anceio,
Seu louco amor, dissolva-se no seio
Desse infecundo, desse amargo mar!

LOGOS

(Ao sr. D. Nicolas Salmeron)

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E o que é mais, dentro em mim—que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de ideias,
Que são o meu principio, meio e fim…

Que extranho ser és tu (se és ser) que assim
Me arrebatas comtigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De incanto e de pavor… de não e sim…

És um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma
Sobresalto-me ao vêr-te, e tremo e exoro-te…

Falo-te, calas… calo, e vens atento…
És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado… és um tyranno, e adoro-te!

IGNOTUS

Onde te escondes? Eis que em vão clamamos,
Suspirando e erguendo as mãos em vão!
Já a voz enrouquece e o coração
Está cançado—e já desesperamos…

Por ceu, por mar e terras procuramos
O Espirito que enche a solidão,
E só a propria voz na immensidão
Fatigada nos volve… e não te achamos!

Ceus e terra, clamai, aonde? aonde?—
Mas o Espirito antigo só responde,
Em tom de grande tedio e de pezar:

—Não vos queixeis, ó filhos da anciedade,
Que eu mesmo, desde toda a eternidade,
Tambem me busco a mim… sem me encontrar!

NO CIRCO

(A João de Deus)

Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia…
Mas tão longe… que até dizer podia
Que emquanto lá andei, andei sonhando…

Porque era tudo ali aério e brando,
E lucida a existencia amanhecia…
E eu… leve como a luz… até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando…

Cahi e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena féra,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito féra…
—É assim que rujo entre leões agora!

NÍRVANA

Para além do Universo luminoso,
Cheio de fórmas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida…
Numa immobilidade indefinida
Termina ali o ser, inerte, ocioso…

E quando o pensamento, assim absorto,
Emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturaes,

Á bella luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A illusão e o vasio universaes.

TRANSCENDENTALISMO

(Ao sr. J. P. Oliveira Martins)

Já socega, depois de tanta lucta,
Já me descança em paz o coração.
Cahi na conta, emfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e á Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrario do templo da Illusão,
Só encontrei, com dôr e confusão,
Trevas e pó, uma materia bruta…

Não é no vasto mundo—por immenso
Que elle pareça á nossa mocidade—
Que a alma sacia o seu desejo intenso…

Na esféra do invisivel, do intangivel,
Sobre desertos, vacuo, soledade,
Vôa e paira o espirito impassivel!