VI

Só quem teme o Não-ser é que se assusta
Com teu vasto silencio mortuario,
Noite sem fim, espaço solitario,
Noite da Morte, tenebrosa e augusta…

Eu não: minh'alma humilde mas robusta
Entra crente em teu atrio funerario:
Para os mais és um vacuo cinerario,
A mim surri-me a tua face adusta.

A mim seduz-me a paz santa e inefavel,
E o silencio ideal do Inalteravel,
Que involve o eterno amor no eterno lucto.

Talvez seja peccado procurar-te,
Mas não sonhar comtigo e adorar-te,
Não-ser, que és o Ser unico absoluto.

DIVINA COMEDIA

(Ao Dr. José Falcão)

Erguendo os braços para o ceu distante
E invectivando os deuses invisiveis,
Os homens clamam:—«Deuses impassiveis,
A quem serve o destino triumphante,

Porque é que nos creastes?! Incessante
Corre o tempo e só géra, inextinguiveis,
Dôr, peccado, illusão, luctas horriveis,
Num turbilhão cruel e delirante…

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dôr nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz ainda mais triste,
Dizem:—«Homens! porque é que nos creastes?»

NO TURBILHÃO

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus proprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões…

Numa espiral, de estranhas contorsões,
E donde sáem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições…

—Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitaes com formidavel calma,
Levados na onda turva do escarceo,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões miserrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!…

QUIA AETERNUS

(A Joaquim de Araujo)

Não morreste, por mais que o brade á gente
Uma orgulhosa e van philosophia…
Não se sacode assim tão facilmente
O jugo da divina tyrania!

Clamam em vão, e esse triunfo ingente
Com que a Razão—coitada!—se inebria,
É nova forma, apenas, mais pungente,
Da tua eterna, tragica ironia.

Não, não morreste, espectro! o Pensamento
Como dantes te encara, e és o tormento
De quantos sobre os livros desfalecem.

E os que folgam na orgia impia e devassa
Ai! quantas vezes, ao erguer a taça,
Param, e estremecendo, impalidecem!

MORS LIBERATRIX

Na tua mão, sombrio cavalleiro,
Cavalleiro vestido de armas prêtas,
Brilha uma espada, feita de comêtas,
Que rasga a escuridão, como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo involto na noite que projectas…
Só o gladio de luz com fulvas bétas
Emerge do sinistro nevoeiro.

—«Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavalleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade.

Firo, mas salvo… Prostro e desbarato,
Mas consólo… Subverto, mas resgato…
E, sendo a Morte, sou a Liberdade.»

O INCONSCIENTE

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ancioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto…
Ante esse vulto ascetico e composto
Mil vezes abro a bôca… e nada digo.

Só uma vez ousei interrogal-o:
—«Quem és (lhe perguntei com grande abalo),
Fantasma a quem odeio e a quem amo?

—Teus irmãos (respondeu), os vãos humanos,
Chamam-me Deus, ha mais de dez mil annos…
Mas eu por mim não sei como me chamo…

CONSULTA

(A Alberto Sampaio)

Chamei em volta do meu frio leito
As memorias melhores de outra idade,
Fórmas vagas, que ás noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

E disse-lhes:—No mundo immenso e estreito
Valia a pena, acaso, em anciedade
Ter nascido? dizei-mo com verdade,
Pobres memorias que eu ao seio estreito…

Mas ellas perturbaram-se—coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena…

E cada uma dellas, lentamente,
Com um surriso intimo, pungente,
Me respondeu:—Não, não valia a pena!

ESPIRITUALISMO

I

Como um vento de morte e de ruina,
A Duvida soprou sobre o universo.
Fez-se noite de subito, immerso
O mundo em densa e algida neblina.

Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flôr surri no seu aéreo berço.
Um veneno sutil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silencio glacial, que paira e estende
O seu sudario, donde a morte pende,

Só uma flôr humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existencia,
Desabroxa no fundo da consciencia.