I

Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna—
Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna,
lanterna que accendi na grande escuridão
sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão,
lanterna que accendi n'esta éra [ensanguentada],
lanterna que accendi, como em sinistra estrada
por causa dos ladrões perdido viajante.
Eis-me em frente de ti, eis-me de ti deante
cheio d'odio, rancor, com asco, sem respeito,
perguntando-te, ó Velho—Onde está o Direito?
O que fizeste ao Povo, á Consciencia, ao Brio?
Onde está o Pudor, rude ancião sombrio?
Quem és? Quem és? Quem és?... velho cheio de fel.
Onde está ó Cain o teu irmão Abel?
Quem és? Quem és?... Ó gloria, ó nome hoje avitado?
Tu foste a Alma do Povo—hoje és um renegado.
Eu sou a voz do humilde e d'esses maltrapilhos,
d'esses rotos e nus a quem mandaes os filhos
ás palhas da enxovia em vez da luz da escóla.
Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rolla
toda uma orchestra d'ais, um mundo de lamentos
maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos,
Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira.
Trago na minha mão a lampada da Ira.
Eu sou esse rebelde herege, extraordinario
que chamo ao biltre um biltre, e a ti um latrinario,
que préguei n'este tempo ás turbas assombradas
a União e o Direito, e fui pelas estradas
como S. Paulo foi na noute de Damasco,
armado do Rancor, cheio do grande asco
contra os Escribas vãos, os sordidos judeus,
sem ver fender-se a terra, ou ver-se abrir os ceus.
Nós hoje—os infieis—não cremos nos milagres.
Não me importa que tu, ó Velho, me consagres
o epitheto brutal de herege ou de maldito.
Eu sou o Pranto e o Odio! Eu sou o Ai e o Grito!
Eu sou a voz da turba extranha e inominada
que uma vez é soluço, outras a gargalhada
que chamam povileu, a plebe envilecida,
n'uma éra de sangue, uma éra fratricida
riscada por um sol velho e sanguinolento.
Eu sou o que Marat chamou o Soffrimento.
Sou o que Ezechiel chamou Rebellião.
Eu sou a voz do Pó, eu sou a voz do Chão.
O que alguns chamam Zero, os outros chamam Charco.
Ando a erguer uma Ponte, e a abrir um grande Arco.
Em nome pois do Povo, o velho e antigo cedro,
sangrento como a cruz, e a quem como S. Pedro
tens renegado sempre, ó sordido traidor,
em nome da sua ira, e em nome do suor
que elle verte a chorar, na Terra, o chão antigo,
que faz córar a rosa e rebentar o trigo,
em nome dos seus mil cuspidos sacrificios
do seu Calyx, da Cruz, da Esponja, dos supplicios,
das suas mães sem pão, seus filhos no abandono
como um farrapo velho e como um cão sem dono,
em nome da Miseria, em nome da Innocencia
de tudo que ha de humano e grita na Consciencia,
em nome do Direito, em nome d'esta Penna,
escuta a minha voz, a voz que te condemna
Tu foste n'outro tempo um homem justo, um crente,
forte, obscuro, plebeu, filho da santa gente
da plebe que trabalha, e com as mãos possantes
sabe arrancar da terra as eiras e os diamantes,
d'essa raça animal dos grandes infelizes
que são na sociedade assim como [as raizes]
que em quanto estão no chão, na solidão, no escuro,
dando a seiva e o vigor ao tronco bem seguro,
vivendo humildes sempre, obscuras, silenciosas
—estão as folhas no ar, altivas, gloriosas,
olhando para o azul sereno das espheras,
todas cheias de flor nas verdes primaveras,
sendo a gloria da leiva, a sombra dos caminhos,
tendo as bençãos do Sol e os canticos dos ninhos.
Sim, tu foste um plebeu—da raça antiga e rude,
que trabalha no escuro assim como a Virtude.
Sim, tu foste um plebeu—raça obscura e sem luz,
d'onde eu tambem saí, e d'onde vem Jesus.
Mas tu velho sem fé, mordeste-a como um cão.
Atraiçoas-te-a, sim, e riste como Cham
se riu do velho Pae dormindo n'um caminho!
Sê maldito como elle, e seja o teu espinho
o teu espinho eterno, o teu atroz tormento,
ouvir-lhe sempre os ais e as maldições no vento!...
Tu tinhas a teu lado outr'ora os homens fortes
das Alas do Dever, todas as sãas cohortes
dos grandes corações, ferreos, e verdadeiros,
que trabalham na sombra assim como os mineiros,
a lampada na mão augusta da Verdade,
para arrancar do lodo o ouro da Liberdade.
Tu tinhas a teu lado os corações valentes
dos heroicos plebeus, todos fortes e crentes
todos filhos, como eu, da Plebe, nossa mãe!...
Mas tu, Velho sem fé, mas tu plebeu tambem,
que ambicionavas já as pompas gloriosas,
sentiste o asco e o horror d'aquellas mãos callosas
que trabalham por nós noutes, dias inteiros,
na officina, no val, nas minas, nos outeiros,
e quizeste antes ser hoje o leproso Reu,
de que ser como eu sou—simples, leal plebeu.
Vergonha sobre ti que tanto te abaixaste!...
Vergonha sobre ti, Velho, que profanaste
a fronte d'ancião, a auréola sagrada
que seria por nós mais do que idolatrada,
teus louros de escriptor, teu gladio justiceiro,
terrivel como Deus, teus louros d'homem puro
para os lançar, ó Velho, ao charco d'um monturo!
Vergonha sobre ti e os teus cabellos brancos!
Vergonha sobre ti que como os saltimbancos
foste lançar teu nome ao vento d'uma feira!
Vergonha sobre ti, que como uma rameira
que vende os seios nus em sordida estalagem
ao cobre do quartel e ao rir da marinhagem,
em quanto a mãe talvez jaz sobre um catre morta,
e o archanjo do Pudor geme e soluça á porta,
foste vender a honra ao ouro d'um senhor.
Vergonha em teus laureis, e sobre ti traidor
que quizeste antes ser rico, ministro, e nobre,
do que ser um ninguem—puro, plebeu, e pobre.
Vergonha sobre os vis apostatas da Idea
que negam como Pedro o fez depois da ceia
na noute de Sião, o Ceu e Deus trez vezes!
Vergonha a quem entrega o Povo como as rezes,
que levam a matar, balando, ao matadouro!
Vergonha a quem trocar seu nome pelo ouro,
sua aureola santa e seu brasão de gloria
por um titulo em vida—e um pontapé da Historia!
Vergonha sob vós apostatas rafeiros
que vendeis vosso deus pelos trinta dinheiros
por que Judas vendeu esse de Nazareth!
Vergonha sobre vós, apostatas sem fé
messias sem pudor que andaes pelos caminhos
prégando aos corações, embebedando em vinhos
de gloria e de ideal, e que depois ao Povo
esse sublime Ancião de peito sempre novo,
o rafeiro infeliz de todos os Tiberios,
açoutado de Deus, dos reis e dos imperios,
mas que sempre enxotado—á chuva, ao vento, em pranto,
leva sempre o seu deus nas dobras do seu manto,
esse banido Ancião de todas as nações
a quem vós atiraes á lucta e ás sedições,
mas que um dia deixaes na beira d'um caminho,
como um cego sem guia, esqualido, sosinho,
n'um nocturno temporal, a errar de porta em porta,
voltando embalde aos ceus sua pupilla morta.
Vergonha sobre vós, ó vendilhões do templo!
Vergonha sobre ti, que eu marco, para exemplo
de todos esses vis messias das viellas,
mais vis do que ladrões, mais vis do que as cadellas,
que vão vender aos reis as suas convicções!...
Quiz pregal-os na cruz, roxeal-os com vergões
do meu chicote em fogo, irado, justiceiro
para que ao vel-os nús, expostos no madeiro
da abjecção, do desdem, da vaia, da chacota
ao escarneo, ao bofetão, á ponta vil da bota
saiba o Povo afinal que é preciso escarrar
no sacerdote infiel que vende o seu Altar.