II

Tu não sabes que gloria é ser [pamphletario]!
É ser o vento rijo, o vento extraordinario
que agita as multidões como um canavial,
contra um farrapo regio, a purpura real
contra os Ritos, os Reis, Symbolos e Tradições.
É ser o que protesta, o que ergue os corações
n'um arranque de heroe, á torre do Direito,
é dar qual pellicano, o sangue do seu peito
á Plebe sua mãe, como elle o dá aos filhos.
É ser o que não és. É não trocar os brilhos
d'uma libré real, d'um servo, d'um lacaio,
pelo seu Verbo um gladio, e pela Penna um raio.
É ser o que protesta—o que ergue uma lanterna
na grande escuridão, na escuridão moderna,
contra um rei, um Czar, altivo, omnipotente
a favor do ninguem, da Plebe, do innocente.
É ser elle sósinho o Verbo, o gladio, a penna,
a espada que degolla e o grito que condemna.
É ser elle sósinho, altivo rebellado,
o grito do mineiro e o espectro do enforcado
que vem correr d'um leito o cortinado régio.
É ter esse condão, o enorme privilegio
d'erguendo as mãos ao céu, como sagradas palmas,
fazer gritar a espada e levantar as almas!
É ver-se ás vezes só, pobre de terra em terra,
na floresta, no val, nas rochas ou na serra,
á neve, [á chuva], aos soes, nas névoas estrangeiras,
nas selvas tropicaes, nas minas, nas geleiras
pela neve polar, no exilio, nas ruinas,
—mas seja na prisão, nos gelos, ou nas minas,
mal soar o seu nome—alevantar-se um peito
e gritar:—Elle é que é a Espada do Direito!
Ser pamphletario é—ser um pharol na noute
ser a pedra angular, Patibulo e Açoute.
É ter todo um vulcão em lava no seu craneo,
toda a Plebe agitar, do seu subterraneo,
como agitou Marat,—ou aguçar a espada
contra os reis, como fez Rousseau na agua furtada.
É estar sempre sósinho, altivo, no seu posto,
quando muitos teem medo, e os mais voltam o rosto
ser chamado um hereje—e as pallidas mulheres
quando veem surgir esses extranhos seres
apertarem ao peito as timidas creanças.
É andar pobre, exhausto, humilde como as granças
errante, só, banido, exhausto pela terra,
—mas quer seja na paz, ou quer seja na guerra,
quer nos paços reaes, nas praças da Cidade
a sua voz gritar—Alas á Honestidade!
E ser emfim tremendo, austero, altivo, e bom,
frio como é a Lei, frio como Proudhon,
chicotear sem dó os lombos dos Heroes,
vender como Marat, na fome, os seus lençoes,
mas nunca se vender, mas nunca transigir!
É saber odiar, decapitar, punir
e não se rebaixar nunca como um capaxo!
É ser a voz de ferro, é ser a voz de baixo,
que aterra a noute vil d'um seculo maldito.
É ser a voz da Plebe, é ser o grande grito
n'uma éra de luto, infame, ensanguentada
em que a Musa do Amor quebra a Lyra dourada
e morre como outr'ora amando o Raphael.
E ter odio, é ter ira, é ter despreso e fel
contra uma horda vil de infames sacripantas.
É levantar ao ceu livres espadas santas
todos os campeões das Alas do Rancor.
É gritar, é gritar—«Eu sou o OdioAmor,
«O Odio que tem sêde, a voz do que tem fome,
«a voz d'aquelle infeliz, a quem não dão um nome
«que morre n'uma estrada, ou morre n'uma lucta
«sem bençãos e orações—como uma prostituta.
«Sou a voz do ninguem, a voz do cannavial
«que soluça, e não quebra ao rijo temporal,
«sou a voz do que chora, a voz do que suspira,
«o que ergue, alta, na mão a lampada da Ira,
«o que chamou a si os tristes, exilados
«sob as tendas de Cham, todos os desgraçados
«que vagueiam na terra exhaustos e banidos,
«o que chamou a si todos os opprimidos
«todos que tinham sêde assim como Ismael
«e tragavam na treva a sua cinsa e fel!
«Eu não sou como vós uma bexiga cheia
«de colera, de fel, de inveja que guerreia,
«e vem lançar á rua a sua roupa suja!
«Eu não sou como vós um corvo, uma coruja
«que me nutra a cevar nos que se vão ao nada!
«Eu chamei junto a mim toda a alma amargurada,
«tudo que é fraco, chão, vergado de trabalho,
«tudo que empunha a enxada ou que maneja o malho,
«tudo que andam vendendo ha muito com as rezes,
«que vivem na abjecção e são chamados fezes
«que chamam povileu, que chamam a gentalha,
«e gritei-lhes—Ávante! É hora da batalha!
Ora este hereje pois, ora este pamphletario,
que assim sabe escarrar no biltre e no sicario,
este homem do Dever, este homem do Direito,
que em vez d'uma grã cruz, traz seu Odio no peito,
que em quanto toda a escoria, em toda a redondeza
dobra e curva o joelho aos thronos e á Realeza,
que em quanto tudo quer ser despota e opulento
elle escolheu ser pobre, o exilio, o isolamento,
que em quanto tudo pensa em Luxo ou nos ruidos,
quiz ser a voz de ferro, a voz dos opprimidos,
que em quanto tudo adula e lisonjeia o Forte,
elle defende o fraco, e expõe o peito á Sorte,
quando uns curvam-se ao Tudo, elle defende o Nada,
faz do Direito açoute, e faz da penna espada,
e diz a um rei, um Czar, um déspota potente
—Senhor, vós sois o cedro olympico, inclemente
o vendaval da Terra, a sombra dos Tiberios,
o furacão da Plebe, o açoute dos imperios,
terror dos generaes, dos reis, dos condestaveis.
—Eu sou como Jesus chefe dos miseraveis!...
Depois erguendo ao ceu a sua Penna eterna:
—Vós tendes o knut—eu tenho esta lanterna.
Este homem inda que pobre, inda que perseguido,
roto, obscuro, plebeu, humilde, mal vestido,
inda que triste e só no seu isolamento,
ao pé do grande Czar, n'este cruel momento,
inda que pobre e vil, inda que maltrapilho
é tanto como um Deus, e mais do que um seu Filho.
Assim foste tambem, ó Velho solitario!
Assim foste tambem grande pamphletario
que soubeste elevar a eterna Alma do Povo!
Assim foste tambem quando eras puro e novo
e sabias levar á guerra os corações,
quando eras um açoute e o deus das multidões
que vinham em tropel beijar os teus joelhos!
Mas hoje tu o que és—escoria d'entre os velhos
refugo de traidor, ó renegado hostil!
Mas hoje tu o que és, ó lixo impuro e vil!
alma atirada ao estrume, alma aviltada e fraca!...
És o que se vendeu!—Tu és uma cloaca.