O CIUME.

Oh! quanta graça e formosura adorna

Teu rosto eloquente e vivo!

Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios,

Prestes outro sorrir dos meus rebenta;

Se vejo os olhos teus, que chorar tentão,

Debalde o pranto meu represso engulo;

Se do teu rosto as rosas se esvaecem,

Eu sinto de temor bater meu peito;

E quando os olhos teus nos meus se fitão,

Nem pezares, nem dores me dominão;

Mas sinto que o meu peito se enternece,

Sinto o meu coração bater mais livre,

Sinto o sorriso, que me ri nos labios,

Sinto o prazer, que me transluz no rosto,

Sinto delicias n’alma!

Quanta belleza tens!—quer dessas graças,

Que o amor inveja—n’um saráu brilhante

No meio de bellezas, que supplantas,

Prazer e galas de as mostrar ressumbres;

Quer estejas sósinha e pensativa,

Quer viva e folgazã prazer incites:

Ou n’um corsel em páramos extensos,

Correndo affoita e louca, e o pé mimoso

Da carreira no afan por sob as vestes

Transparecer deixando;

Ou balançada n’um ligeiro barco,

Que de um lago tranquillo as aguas frisa,

Soltando a voz as brisas namoradas,

Que de te ouvir suspirão;

Ou n’uma bronca penha descalvada

O mar e os céos contemples pensativa,

E a redeas soltas do pensar divagues

Nos campos do infinito;

Es sempre bella: já teus olhos brilhem

Luz que fascina, ou morbidos reflexos,

Teus labios entre-abertos sempre exhalão

Calor, que incendio ateia.

Oh! que bella tu es, quando assentada

No teu balcão, ao refulgir da lua,

Manso te apoias em coxins de seda,

E o bello azul dos céos triste encarando

Pensas em Deos,—talvez no teu futuro,

Talvez nos teus pezares,—que na fonte

De limpha pura, crystallina e fresca

Aquatica serpente usa occultar-se.

Mas como es bella assim! co’a mão sem força

Tirando sons perdidos, sons que encantão,

Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes!

Mas como es bella assim!—quando o teu peito

Entre a gaza subtil de leve ondeia!

Como a onda do mar pausada e fraca

Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega

Á doce praia, onde os seus ais se quebrão;

Assim teu peito bate, e nos teus labios

Do extremo palpitar morre um suspiro.

Como d’harpa afinada a corda sôa,

Mal desfere seus sons outro instrumento;

Assim tambem minha alma se entristece,

Assim tambem meu peito arqueja e pula!

Eis porque amor me liga aos teus destinos,

Porque sou teu escravo,—bem que saiba

Que se a tua alma a belleza

Tem de um anjo a formosura,

Não tens de um anjo a candura,

Nem tens delle a singeleza!

Eis porque ardo por ti, porque padeço

Do inferno crus tormentos!

Porque dos zelos o fel mancha minha alma

De negros pensamentos!

Mas que importa este amor que me consome?

Eu quero sentir dôr;

Quero labios que entornem nos meus labios

Alento escaldador!

Quero fogo sentir contra o meu peito,

Quero um corpo cingir que eu sinta arder,

Quero beijos só teus, caricias tuas,

Que dão morrer!

Que importa ao edificio que scintilla,

De roaz fogo tomado,

Ser por um raio abrasado

Ou por ignobil favilla?

É sempre ardor, sempre fogo,

Sempre d’incendio o clarão,

Sempre o amor que estúa e ferve

Como um gigante vulcão.