I

M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
Este quasi terror com que te fallo e escuto,
Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
—Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
—Se passas como um sol de planetas cercado—
Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho…
Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma intima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.