SCENA IX

ELECTRA E PANTOJA

Pantoja

Assim te assusto, minha filha?

Electra

É verdade... Não posso evital-o... Que quer? Bem sei que não devia, e que não tenho de que ter medo... Perdôe-me por quem é, D. Salvador... Vou jogar ao côrro com os pequenos...

Pantoja

Um momento. Vaes aos meninos para que elles te dêem da sua alegria?

Electra

Não, hoje não; vou repartir com elles da que trasborda da minha alma. (Afasta-se o canto de roda dos meninos)

Pantoja

Já sei a causa d’essa grande alegria, já a sei...

Electra

Uma vez que sabe, não tenho então que lhe contar. Até logo snr. de Pantoja.

Pantoja

Ingrata! Concede-me um instante...

Electra

Um instantinho só?

Pantoja

Unicamente.

Electra

Bom. (Senta-se no banco de pedra. Colloca a um lado as flôres e vae escolhendo aquellas com que se touca, mettendo-as no cabello)

Pantoja

Não sei porque tens reservas commigo sabendo quanto me interesso pela tua felicidade e pela tua vida...

Electra

(sem olhar para elle, attenta ás flôres) Pois, se o interessa a minha felicidade, alegre-se commigo: sou a creatura feliz.

Pantoja

Feliz hoje. E amanhã?

Electra

Amanhã mais feliz do que hoje... E sempre mais, sempre o mesmo!

Pantoja

A alegria verdadeira e constante, o goso perenne e indestructivel só existem no amor eterno, superior ás inquietações e ás miserias humanas.

Electra

(adornado o cabello, põe flôres no seio e no cinto) Toca-me outra vez no antigo registro de que tenho de ser anjo... Sou uma pobre pessoasinha summamente terrestre, D. Salvador. Deus fez-me para mulher, e botou-me a este mundo. Já vê que, se estou aqui, é porque elle não precisava de mim para o ceu n’esta occasião.

Pantoja

Ha tambem anjos na terra, minha filha. Anjos são todos aquelles que no meio das desordens da materia sabem viver a pura vida do espirito.

Electra

(mostrando o collo e o busto ornados de florinhas. Ouve-se mais perto o coro dos meninos) Que tal? não lhe pareço um anjo?

Pantoja

Pareces, e quero que o sejas.

Electra

Assim me adorno para divertir os meninos. Se visse a graça que elles me acham! (Com uma triste ideia subita) Sabe com que eu me estou parecendo agora? Com um menino morto. Assim se enfeitam os meninos quando os levam a enterrar.

Pantoja

Para symbolisar a ideal belleza do ceu para onde elles vão.

Electra

(arrancando as flôres) Não, isso não, não quero parecer menina morta. Dá-me a ideia de que vem o snr. de Pantoja para me levar á sepultura!

Pantoja

Oh! eu não te quero enterrada. Quereria rodear-te de luz. (Vae esmorecendo e cessa de todo o côro dos meninos)

Electra

Tambem se põem luzes aos meninos mortos.

Pantoja

Não quero a tua morte, quero a tua vida; não a vida inquieta e vulgar, mas dôce, livre, elevada, amorosa, com um eterno e puro amor divino.

Electra

(Confusa) E porque é que me deseja tudo isso?

Pantoja

Porque te quero muito, com um amor mais excelso que todos os amores humanos. Melhor comprehenderás a grandeza d’este affecto, dizendo-te que para evitar-te a mais leve dôr eu tomaria para mim os mais espantosos tormentos que se possam imaginar.

Electra

(estonteada, sem entender bem) É o cumulo da abnegação uma coisa d’essas.

Pantoja

Considera agora quanto soffrerei por não poder evitar um desgostosinho, um dissabor, que te vou dar.

Electra

A mim?

Pantoja

A ti mesma.

Electra

Um desgosto?

Pantoja

Desgosto que mais me afflige por ter de ser eu que t’o cause.

Electra

(rebelando-se, levanta-se) Desgostos! Não os quero. Não os acceito. Guarde-os. Que ninguem hoje me traga senão alegrias!

Pantoja

(condoído) Bem quizera dar-t’as, mas não posso.

Electra

Que terror que tenho! (Com subita ideia que a tranquillisa) Ah! já sei... Pobre D. Salvador!... É que me quer dizer mal de Maximo... Alguma coisa que lhe parece mal, mas que a mim me parece bem... Escusa de se cançar porque nem me convence nem o acredito. (Precipitando-se na emissão das palavras sem dar tempo a que Pantoja fale) Maximo é o maior e o melhor homem do mundo, é o primeiro, e todo aquelle que me disser uma palavra contraria a esta verdade, mente, e detesto-o pela mentira, e detesto-o...

Pantoja

Por Deus, minha filha! Não te arrebates assim... Ouve. Eu não digo mal de ninguem, nem dos que me odeiam. Maximo é bom, é trabalhador, é intelligentissimo... Que mais queres?

Electra

(satisfeita) Assim, continue assim... Vae dizendo muito bem.

Pantoja

Digo mais ainda: que podes amal-o, que deves amal-o...

Electra

(com alegria) Ah!

Pantoja

Amal-o entranhadamente... (Pausa) A culpa não é d’elle, não é...

Electra

(assustada outra vez) Querem vêr que ainda acaba por lhe attribuir maldades?

Pantoja

A elle não.

Electra

Então a quem? (Recordando-se) Ah! adivinho: o snr. de Pantoja e o pae de Maximo foram implacaveis inimigos. Tambem me disseram já que esse senhor de Yuste, honradissimo nos seus negocios, foi, talvez, um pouco demais galanteador e mundanario... Mas que me importa isso?

Pantoja

Pobre innocente! não sabes o que dizes.

Electra

Digo que esse excellente homem...

Pantoja

Lazaro Yuste, sim... Ao nomeal-o tenho de associar a sua triste memoria á de uma pessoa que já não vive... muito querida de ti...

Electra

(comprehendendo e não querendo comprehender) De mim!

Pantoja

Que morreu, e a quem tu muito queres. (Pausa. Olham um para o outro)

Electra

(com terror e em voz apenas perceptivel) Minha mãe! (Pantoja faz um signal affirmativo) Minha mãe! (Attonita, desejando e temendo uma explicação)

Pantoja

Chegaram os dias de perdão. Perdoemos.

Electra

(indignada) Minha mãe, a minha pobre mãe! Não falam d’ella senão para a deshonrar, para a denegrir... E ultrajam-a aquelles mesmos que a envilleceram! Pudesse eu tel-os a todos na mão para os desfazer, para os destruir, para não deixar d’elles nem uma migalha assim!

Pantoja

Terias que principiar por Lazaro Yuste.

Electra

O pae de Maximo!

Pantoja

O primeiro depravador da desgraçada Eleuteria.

Electra

Quem é que o diz?

Pantoja

Quem o sabe.

Electra

E... (Fixam-se nos olhos. Electra não se atreve a expôr a sua ideia)

Pantoja

Triste de mim!... Não deveria falar-te d’isto. Dera para o esconder todos os dias que me restam de vida. Comprehenderás que não podia ser... O meu amor por ti ordena-me que fale.

Electra

(angustiada) Meu Deus! e ter eu de ouvil-o!

Pantoja

Disse eu que foi Lazaro Yuste...

Electra

(tapando os ouvidos) Não quero, não quero ouvir.

Pantoja

Tinha então tua mãe a edade que tens agora: desoito annos...

Electra

Não acredito, não acredito...

Pantoja

Era uma jovem senhora encantadora, quasi uma creança, que supportou com a mais corajosa dignidade o horror d’aquella vergonha...

Electra

(rebelando-se com energia) Cale-se! Cale-se!

Pantoja

A vergonha do nascimento de Maximo.

Electra

(apavorada, com o rosto demudado, recua cravando os olhos em Pantoja) Ah!

Pantoja

Procurando com discrição attenuar a affronta da sua victima, Lazaro occultou o menino e levou-o misteriosamente comsigo para França.

Electra

A mãe de Maximo foi uma senhora franceza: Josephina Perret.

Pantoja

Mãe adoptiva.

Electra

(tapando os olhos com ambas as mãos) Divino Jesus! É o ceu que desaba...

Pantoja

(condoído) Filha da minha alma, volve para Deus os teus olhos.

Electra

(demudada) É um sonho... Tudo o que estou vendo é illusão, é mentira. (Olhando espantadamente para uma parte e para outra) Mentira estas arvores, esta casa, este ceu... Mentira tu! tu! tu, que não existes, monstro d’um pesadelo horrivel!... (Com os punhos na cabeça) Acorda, desgraçada, acorda!

Pantoja

(tentando socegal-a) Electra, querida Electra! Pobre innocente!

Electra

(com um grito d’alma) Mãe, minha mãe!... A verdade, dize-me a verdade... (Fóra de si percorre a scena) Onde estás, mãe?... Quero a morte ou a verdade... Minha mãe! minha mãe!... (Sae pelo fundo, perdendo-se na longinqua espessura das arvores. Ouve-se proximo o canto dos meninos jogando ao côrro)