SCENA XI

PANTOJA E MAXIMO

Maximo

(ardentemente em toda a scena) Alto!... Diz-me o marquez de Ronda que d’aqui, depois de uma demorada conversação comsigo, sahiu Electra no delirio em que está.

Pantoja

(perturbado) Aqui... de certo... falamos... A senhorita Electra...

Maximo

Foi mordida pelo monstro.

Pantoja

Talvez... mas o monstro não sou eu. É um mais terrivel, que se alimenta de factos e que se chama a Historia. (Querendo ir-se) Adeus.

Maximo

(agarrando-o fortemente por um braço) Espere. Primeiro vae repetir aqui, já, immediatamente, o que foi que disse a Electra esse seu monstro da Historia...

Pantoja

(sem saber que dizer) Eu... convém assentar préviamente que...

Maximo

Nada de preambulos... Quero aqui a verdade, concreta, exacta, precisa... Electra foi offendida de um modo tão profundo que lhe alterou a razão... Com que palavras, com que suggestões? Preciso de sabel-o prontamente. Trata-se da mulher que é tudo para mim no mundo.

Pantoja

Para mim é mais: é o ceu e a terra.

Maximo

Quero saber, n’este mesmo instante, que horrivel maquinação foi esta, urdida por si, contra essa menina, contra mim, contra nós ambos eternamente unidos pela effusão das nossas almas. Com que baba se envenenou aquella a quem eu posso e devo chamar desde já a minha legitima mulher? Que responde?

Pantoja

Nada.

Maximo

(acommette-o explodindo em colera) Pois por esse infame silencio, mascara impudente e abjecta de um egoismo tão grande que não cabe no mundo; por essa virtude não sei se falsa, se verdadeira, que da sombra desfere o raio que nos aniquilla; (agarra-o pela garganta e derriba-o no banco) por essa doçura que envenena, por essa suavidade que estrangula, Deus te confunda, homem grande ou miseravel reptil, aguia, serpente, ou o que sejas!

Pantoja

(recobrando alento) Que brutalidade! que infamia! que demencia!

Maximo

Bem sei. Estou doido... (Recompondo-se) E quem é que dispõe assim do poder diabolico de desvirtuar o meu caracter, arrastando-me a esta colera insensata, fazendo-me o estupido aggressor de um ente debil e mesquinho, incapaz de responder á força com a força?

Pantoja

(tomando aprumo) Com a força te respondo. (Voltando á sua condição normal, exprimindo-se com serenidade sentenciosa) Tu és a força do musculo, eu a força da alma. (Maximo olha para elle, attonito e confuso) Posso mais do que tu, infinitamente mais. Duvídas?

Maximo

De que póde mais?

Pantoja

A ira suffoca-te, e cega-te o orgulho. Eu, injuriado e escarnecido, recobro a serenidade. Tu não. Tu tremes. Tu, que te julgas a força, tu, Maximo, tremes!

Maximo

É a ira. Não a provoque.

Pantoja

Nem a provoco nem a temo. (Cada vez mais senhor de si) Tu maltratas-me. Eu perdôo-te.

Maximo

Que me perdôa a mim! (iracundo) Mas é para o homicidio que assim me empurra!

Pantoja

(com serena e fria gravidade, sem jactancia) Enfurece-te, grita, bate-me... Aqui me tens inabalavel e indifferente... Não ha força humana que me dobre nem poder nenhum da terra que me afaste do meu caminho. Injuria-me, fere-me, mata-me: não me defendo. O martyrio não me repugna. Póde a violencia destruir o meu pobre corpo, que nada vale. Mas o que está aqui (na sua mente) é indestructivel. Na minha vontade só um poder impera: o de Deus. E se a minha vontade se extinguir na morte, a ideia que sustento lhe sobreviverá, triumphante e eterna.

Maximo

Não póde ter ideias grandes quem não tem grandeza, nem piedade, nem ternura, nem compaixão.

Pantoja

O meu fim é mais alto que todos os raciocinios. Para elle me dirijo por qualquer caminho que se me depare.

Maximo

(aterrado) Por qualquer caminho!? Para ir para Deus não ha senão um: o da Bondade Humana. (Com exaltação) Deus do ceu! tu não pódes permittir que ao teu reino se chegue por lobregas e tortuosas alfurjas, nem que á tua gloria se suba calcando os corações que te amam... Não; Deus não permitte isso. Vêr tal absurdo seria vêr toda a Natureza em ruina, toda a maquina do Universo destruida e aniquillada.

Pantoja

Estás offendendo Deus com as tuas palavras blasphemas.

Maximo

Mais o offendes tu com os teus actos sacrilegos.

Pantoja

Basta. Não disputo comtigo. Não tenho mais que dizer-te.

Maximo

Não tem mais? Se ainda me não disse nada! (Segura-o vigorosamente por um braço) Vamos d’aqui ter com Electra, e, na presença d’ella, ou esclarece as minhas dúvidas e me tira da anciedade horrivel em que estou, ou ahi morre, e morro eu, e morreremos todos trez. Assim lh’o juro pela memoria de minha mãe.

Pantoja

(depois de o encarar fixamente) Vamos. (Ao darem os primeiros passos sae Evarista de casa)