III

Quando o Antonio chegou aos vinte annos feitos, já tinha esquecido completamente a aldeia risonha onde nascera e o rosto bom de sua irmã Quina que, por seu lado, se o encontrasse, tambem não seria capaz de reconhecer o seu amigo de infancia, n’este homem barbado, com modos bruscos de feirante, com gestos insolentes e desordeiros de troquilha!... E tanto se habituou a ter vida vagabunda, que nos ultimos tempos, não dormia em casa de seus paes adoptivos, metade dos dias de cada semana!... Andava pelas tabernas, de feira em feira, n’uma vida accidentada e bulhenta, sempre em companhia de outros feirantes, e da Marianna Ripa, sua amasia!... Esta Marianna Ripa era uma mocetona alta, bem proporcionada, com certa vivacidade vaidosa e impudica!—uma creatura demoniaca, cheia de tentações malditas, infelismente appetecidas pelos fracos da carne, pelos numerosos peccadores de todos os tempos!... Nos seios altos e avolumados, nos quadris largos, a que ella dava geitos lubricos, quando andava, para fazer assim ondular as saias de côres vivas e excitantes... residiam as tentações infinitas das lendarias Magdalenas, antes do santo dia do venturoso arrependimento!... As feições rasgadas e energicas accentuavam-lhe o caracter dominador, que melhor se lhe reconhecia no olhar cheio de impudencia e lubricidade! A sua vida passava-se pelas feiras, entre troquilhas, com os quaes se entendia nos ajustes de gados, bebendo como elles por copos de meia canada, interessando-se nas suas vendas e trocas! O predominio que Marianna exercia sobre o Fogueira, depois que era sua amasia, todos os companheiros d’elle, o Rio-Tinto, o Fanfarra... o sabiam. Era ella que muitas vezes o impedia de ir a casa, dando-lhe conselhos malditos, indusindo-o a que abusasse da affeição que Engracia e Bernardo lhe tinham, para lhes pilhar tudo em vida!...

—Porque—insinuava-lhe a moça—pode-te acontecer, como lá a um rapaz da minha freguezia... Ateve-se ao que a madrinha lhe havia de deixar por morte, não se segurou nas cousas a tempo e, vae a bebeda da velha, roeu-lhe a corda e lá se foi tudo!... Em vez de lhe testar a elle os campos, como tinha promettido, metteu-se com a coruja, um tratante de um padreca, que lhe principiou a contar tantas lonas, que a coira vae deixar tudo lá a uma confraria e o asno ficou a chuchar no dedo!

Estas idéas allucinavam o cerebro do adoptivo da Engracia, que depois de escutar Marianna, ficava mais estonteado do que tivesse bebido, de uma assenada, uma canada do rascante!... No entanto a verdade é que esta vida mundana de feirante, na companhia da Marianna e dos seus amigos, quadrava-lhe, era sympathica áquella organisação impetuosa!... Os seus modos estouvados, os seus arremeços selvagens e doidos pelos quaes era notado entre troquilhas, é que já lhe tinham garantido o alcunho de «Fogueira». Alem d’isso, como era franco, generoso—um mãos rotas—os que o cercavam, a Ripa principalmente, entendia que se o seu amante viesse a obter qualquer cousa da herança da mãe, era certo que alguma parte lhe caberia!... Por isso o aconselhava d’aquelle modo, e todos o lisongeavam com blandicias intencionaes.

Foi por este tempo, e n’uma das occasiões em que o Antonio andava por fóra, que succedeu a desgraça de que morreu o Bernardo Repolho:

Era um dia chuvoso; via-se a cumiada dos montes coberta por densas nevoas designativas de chuva prolongada! Soprava um vento forte, que produzia na amplitude dos campos uma ondulação uniforme nos arvoredos. Como se estava verdadeiramente no coração do inverno, no mez de fevereiro, os campos e os montes sem flores e sem folhas, tinham um aspecto duro de severidade! As chuvas, em grossas bategas, acompanhadas de fortes saraivadas, batiam rijamente nos telhados com uma crepitação ruidosa e aspera, que se continuava, durante horas! N’um d’estes dias de invernia teimosa e tristonha é que o Bernardo Repolho teve necessidade de ir buscar uma carrada de barro, do qual muito precisava para arranjar o seu forno!... Por isso, na primeira aberta illusoria, mandou o Chico tirar os bois da côrte, cangou-os, pol-os ao carro e partiram... A barreira era na encosta de um monte alto e muito ingreme. Bernardo e o Chico, quando íam pelo caminho, já descortinavam ao longe, essa excavação de um alaranjado irritante, que sobresaía no terreno circumjacente, melhor do que a mancha clara de uma eira. Como o barranco estava logo por cima da estrada de carro e, para chegar lá, bastava subir um estreito carreiro em declive, Bernardo disse ao rapasito que ficasse á sôga dos bois, que eram novos e muito espantadiços, emquanto elle ía cavar o barro e acarretal-o. Porém, quando chegou acima e viu no fundo da barreira uma tamanha accumulação de agua da chuva que, para a atravessar, tinha de se arregaçar, sentiu uma impressão desfavoravel, e inconsideradamente disse:

—Diabo! Que mar!...

Na realidade a chuva, durante a noite, tinha sido mais copiosa do que elle pensára! Escorrera em grandes enxurradas pelo monte abaixo e infiltrara-se, abrindo fundas guellas no terreno, vindo accumular-se no fundo, formando uma especie de larga poça. O Bernardo reconheceu perfeitamente, que para tirar o barro, só o podia fazer do logar onde as fendas estavam ameaçadoras e escancaradas, como guellas de lobo uivando! Porém, com a ajuda de Deus, o Repolho aventurou-se e, puxando as calças até ao joelho, metteu-se á agua com o fim de passar... O perigo a que se foi submetter era evidente, a barreira suprajacente parecia estar quasi a esboroar-se... porém o marido da Engracia foi para diante, sem preoccupação nem receio, principiando a dar sacholadas bem puchadas, para aproveitar aquella aberta! N’esse momento é que passava pelo lado de cima um visinho que lhe disse:

—Oh! diabo. Com este tempo ao barro, é por força sangria desatada!

Bernardo, voltando-se para elle, respondeu com a sua cara de bom homem:

—Ah! Es tu Joaquim? É que tenho lá o forno a caír, precisa a patroa de coser o pão e, vae por isso, vim buscar esta carrada...

O outro observou-lhe com penetração:

—Mas tu ahi não estás bem, home! Esta terra pode-te caír em cima.

Bernardo considerou despreoccupado:

—Ora, logo havia de caír, n’um migalhito que eu aqui me demoro! Não cae.

—Não cae!—insistiu Joaquim. Não era o filho de minha mãe, que se ía metter ahi. Se se esbarronda, ficas ahi espapado, como um sapo. P’ros filhos que tens!... Olha, tu lembras-te d’aquelles dois homes, que ficaram enterrados na barreira lá em baixo?! Foi uma cousa assim, por causa da chuva.

Bernardo recordou o facto dizendo:

—Ah! bem sei. Isso foi n’um domingo. Se te parece, trabalhar ao domingo!... Foi um castigo.

—Home, não é domingo, nem meio domingo. A barreira caíu-lhes em cima e matou-os. Tu ahi não estás bem. Eu cá mandava a cosedura do pão p’rás profundas do inferno e vinha outro dia buscar o barro! Vê lá no que te mettes. O diabo arma-as.

—Á sorte de Deus—rematou Bernardo com resignação.

E continuou a cavar, com pressa, aproveitando o bocanho, que não durou muito. Uma chuva pesada e forte, principiou a caír sobre os arvoredos, produzindo o fremito de muitos enxames de zangões! A atmosphera, densa e opaca, de uma côr uniforme entre o cinzento e o azul, a côr da agua pulverisada, obscurecia os objectos distantes. O vento impetuoso impellia a chuva, produzindo no ar ondulações extensas e regulares. Os ramos delgados das cerdeiras, dobravam-se passivamente. O rapasito, que ficara no caminho, guardando os bois, aconchegava-se, tiritando, ao velho corucho de palha, que o cobria. Os seus pés vermelhos, lavados pela chuva, estavam sobre a lama. As mãos escondia-as nos sovacos para as aquecer. Com o fim de se abrigar do vento que passava zumbindo, mettia-se por detrás dos bois, conservando a aguilhada encostada a si. Os seus cabellos castanhos, de um comprimento desleixado e desigual, empastavam-se-lhe na testa. O olhar era mortificado e de paciencia; porque a tia Engracia, nos seus pessimos momentos de genio irrascivel, batia-lhe; e o Antonio dava-lhe pontapés immerecidos. Por isto, e porque era engeitado, é que o Bernardo Repolho, um homem compadecido, mais se lhe affeiçoara... Porém esta amisade, nunca obstou a que sua mulher o esmurrasse desalmadamente e a que, seu filho adoptivo, lhe désse pontapés que o atiravam de focinhos!...

Como a chuva engrossava de cada vez mais, o Repolho chamou o Chico, para se recolher na cova onde elle se abrigára da chuva, recommendando-lhe, ao mesmo tempo, que calçasse o carro para os bois não fugirem. Então o rapaz, pegou n’uma grande pedra, supezando-a contra o peito e foi-a atravessar diante das rodas do carro. Depois, unindo-se muito ao seu corucho, para se agasalhar, subiu a ladeira, saltou o portello e, inclinando instinctivamente o tronco, correu pelo monte acima, entrando no barranco por um carreiro. Elle e seu amo ficaram ambos abrigados sob aquella mesma abobada de terra que, na opinião do Joaquim Moita, quanda fallára a Bernardo, podia esbarrondar-se e matal-os n’um prompto—n’um abrir e fechar de olhos. Mas elles achavam-se ali bem, n’um silencio meditativo, diante das montanhas, cuja corpulencia se confundia no esfumado da chuva copiosa. Como o vento soprava do sul, não os incommodava. Bernardo estava em pé, com a sachola encostada ao hombro e o Chico agachado junto d’elle. Conservaram-se algum tempo calados, olhando distraidamente para o ar, que tinha impulsos ondulatarios como o das vagas, para os campos subjacentes de um verde esmorecido, para as arvores proximas que se vergavam á força da ventania. O Repolho entreteve-se alguns minutos a considerar como as gotas da chuva tornavam aspera e irregular a superficie da agua barrenta, que se accumulára no fundo da barreira!... O rapasito, sentado sobre os calcanhares, olhava para os montes distantes, contando mentalmente o numero de cabeços, nunca acertando com quantos eram!... Porém a chuva carregava de cada vez, com mais impeto, e o velho disse com tristeza:

—Santo nome de Maria, que tempo este!

O Chico observou:

—Parece que hoje não podemos carregar, tio Bernardo...

—Estou-t’e a ver que sim, home! E isso é que é uma da breca!

—Então vamos já para o lume—aconselhou o rapaz. Estou com um frio, que nem sinto.

Bernardo respondeu com voz reprehensiva, mas benevolamente:

—És maluco! E tua ama? Se apparecemos lá sem o barro para compor o forno, faz ahi uma pregação de seiscentas pipas! Isso, ainda que se esteja até á noite, havemos de o levar!

Calaram-se, conservando-se ambos n’uma taciturnidade ingenua e triste! Um travesso pardal, dando pios seccos e asperos, saltava nos ramos de um carvalho proximo, alegremente despreocupado. A chuva caía de cada vez em maior abundancia! O som gemebundo do vento estendia-se amplamente pelas quebradas, com o seu ulular maguado, de uma longa plangencia funeraria!

As enxurradas cresciam, descendo com impeto pelos montes. Este sussurro aspero e saliente lançava uma discordancia rebelde no assobiar espaçado do vento na amplidão! O Bernardo Repolho e o Chico escutavam, com semblantes dependentes d’este ruido das aguas que se aproximavam! O barulho vinha crescendo para elles, precipitando-se de barranco em barranco! Ambos calculavam mentalmente, prevenindo-o, sem o menor susto, sem a menor idéa de perigo, que os enxurros d’aquelle monte, tendo de se vir reunir nos pontos mais baixos, juntariam as suas aguas áquellas que ali estavam no fundo da barreira, diante dos seus olhos indifferentes... Na realidade, pouco depois as largas fendas abertas na terra ao lado d’elles, principiaram a vomitar as aguas que vinham do alto monte!... O seu volume crescia de uma maneira incongruente e precipitada!... A principio tinha-se ouvido sómente um sussurrar brando, um ou-ou de mar distante... Em seguida esse barulho foi-se engrossando, foi enrouquecendo de um modo cada vez mais antipathico e aproximava-se rapidamente, como a voz stertorosa de um trovão, que viesse do lado das montanhas... Por fim, quasi inesperadamente, sentiu-se um estampido rapido, juntou-se-lhe um estrondo abafado e terrificador, que pareceu surgir das profundas entranhas da terra! Durou apenas alguns segundos!... Porém, tanto Bernardo como o seu pequeno creado, não tiveram tempo de comprehender o que seria!... A enorme barreira, sob a qual se abrigavam da chuva e do vento tempestuoso, caíu sobre elles, com a brutalidade inconsciente de um grande penedo que se tivesse desprendido de um alto pincaro e sepultou-os de um modo fulminante!...

Assim morreram estas duas creaturas, indifferentemente, por esta fórma singela e e pallida!

O visinho, que predissera ao Bernardo Repolho a desgraça que lhe podia acontecer, estava a certa distancia, abrigado da chuva sob um velho carvalho ramudo, e presenciou a catastrophe! Foi elle que a descreveu nas suas mais insignificantes particularidades, fallando e gesticulando animadamente, como quem se tinha encontrado, mais ou menos envolvido n’este acontecimento obscuro da morte de um homem e de um pobre engeitado, verificado em circumstancias de um tão vigoroso effeito theatral! E por que os seus conterraneos, que o escutavam com os olhos abertos e muito pasmados, tiveram a simploria idéa de attribuirem o successo a artimanhas infernaes, dizendo: «o demonio arma-as», o Joaquim exclamou com certa intimativa volteriana e vivamente resentido para com o morto Bernardo Repolho, que despresára os sensatos conselhos que elle lhe dera:

—Qual demonio nem meio demonio! Foi a cabeça d’elle que não regulou, é o que foi! Eu bem lh’o disse: «Home, tu ahi não estás bem». Mas elle que era muito teimoso, respondeu-me assim com a sua cara de lorpa e de bom serás: «Ora, não ha de ter duvida, se Deus quizer...» Não tinha duvida, não tinha duvida, mas foi morrendo, espapado! Ficou mesmo como um pato, sem dar um pio! Assim é que elles se ensinam!... O não tem duvida foi o que se viu!—rematou com modo triumphante, quasi de uma vingança satisfeita!

Uma rapariga nova, uma engeitada de cara sardenta, com os cabellos mal penteados, e que escutara attentamente a narrativa, tomou a deixa de Joaquim da Moita e interferiu com esta observação:

—Ai! não tem duvida não tem duvida! Por causa do não tem duvida, é que pariu minha mãe!

Toda esta gente, depois que a chuva passou, se dirigiu ao logar onde o caso succedera. Pelo caminho íam, conversando, em magotes. Algumas mulheres, relembravam com voz emphatica, como de quem dá um esclarecimento, que tinham visto n’esse mesmo dia Bernardo, caminhar para a morte, de pé, em cima do seu carro, com a aguilhada encostada ao hombro, na despreoccupação serena de um predistinado! O rapasito que tambem morrera debaixo da terra, o Chico, ía á soga, todo encolhido, coberto com o seu corucho, berrando aos touros, que puchavam mal, encostando-se com teimosia um ao outro... Certas pessoas referiam insignificancias da vida do Repolho dando-lhe certo valor, fazendo-as sobresaír, e recordavam as ultimas palavras que lhe tinham ouvido, ainda mesmo n’aquelle dia, horas antes, quando passára em frente da porta da Anna Benta!... Bernardo tinha dito, com aquelle seu bom modo triste «que estava um inverno de se pedir misericordia a Deus Nosso Senhor!...» e a Rosa Viuva, queria fazer acreditar a todas as pessoas presentes, que taes palavras significavam que o homem de Engracia tivera uma voz de dentro do coração, que lhe predissera a morte!... E como alguns homens incredulos lhe retorquiram: «Isso póde lá ser!» ella recordou tambem outra phrase saliente, que tinha ouvido ao mesmo Bernardo, no domingo precedente, ao saír da missa: «Isto não está tempo cá para os velhos, mulher!... Com esta invernia caímos ahi como tordos!...» E assim tinha succedido, não chegou a durar oito dias!... Por isso, todos vieram a concordar, que o pobre homem adivinhara o seu fim, o triste fim que havia de ter de baixo de uma barreira!...

Ao logar do sinistro, onde já estava muito povo reunido, chegaram as auctoridades, para se desenterrarem os cadaveres. Vinha o cirurgião, o José Pandega,—um rapaz de bigode e pêra como os soldados, que, farto de andar a estudar latim em Braga durante nove annos, arranjou depois um emprego no telegrapho, onde tambem se não deu bem, tomando por fim a resolução de ir receitar cosimentos e mesinhas aos seus conterraneos, pelos mesmos livros de veterenaria por onde, um velho frade, seu tio, medicamentára, durante muitos annos, as populações doentes d’aquellas freguezias!... Este ecclesiastico, a quem ninguem negou as faculdades do maior philosopho das redondezas, tinha, entre muitos, um notavel aphorismo, que eu aqui divulgo á sciencia absorta e que o sobrinho acceitava pelo achar frizante e consolador: «Os burros são do mesmo modo que a gente, para a medicina, por consequencia—rematava voltando-se para os seus doentes—paparoca e beberoca, sedênhos para a frente, esfregações de agua forte, algumas cataplasmas e deixa-te andar que, se morreres, é só uma vez». Com o Pandega vinha o senhor Agostinho Manco, juiz eleito, um homem magro que fôra da bicha. Logo em seguida appareceu o regedor, conhecido pela alcunha do Antonio Cápatrás, um individuo vermelho, muito estupido, que só sabia emborrachar-se, como diziam os visinhos.

Depois d’estes personagens chegarem é que se principiou a desenterrar os cadaveres! Com esse fim, quatro jornaleiros começaram a dar sacholadas auxiliados pelo Joaquim da Moita que vira morrer o Bernardo, e que limitou o trabalho, indicando-lhes o sitio provavel, onde poderiam estar os defuntos. Todas as pessoas presentes, principalmente as mulheres e creanças, tomadas de uma curiosidade invejosa, empurravam-se reciprocamente, procurando com avidez os sitios que julgavam melhores, para presenciarem tudo que se passasse. Para isso iam collocar-se nos pontos mais eminentes, e algumas em logares perigosos!... O cirurgião Pandega, reconhecendo com a sua prespicacia illustrada, que a filha da Rosa Trinta não estava bem, disse-lhe de longe, com voz de auctoridade:

—Ó diabo de rapariga, sae d’ahi que te póde acontecer o mesmo! Se se esbarronda essa terra ficas espapada!...

E acrescentou, com um modo ligeiro e superior, repuchando a sua comprida pêra:

—Isto de gente estupida não se póde aturar de modo algum!...

A rapariga obedeceu sem retorquir e mudou-se para cima de um muro, d’onde reconheceu que tambem podia ver tudo... Porém, pelo lado de baixo estava o meliante do José Teixugo, espreitando-lhe as pernas com olhadellas peccaminosas!... A Rosa Trinta, percebendo a immoralidade, advirtiu de longe sua filha:

—Ó Tonia, não vês esse maroto do Teixugo a olhar-te p’ras pernas! Tira-te d’ahi, anda.

A rapariga, verificando a verdade da asseveração de sua mãe, ficou irritada e disse offendida, arremettendo com uma pedra ao rapaz:

—Olhem o diabo do cara de foinha! Vae espreitar as da tua irmã! Não tens vergonha malandro? Ahhh...—rematou voltando-se para elle com a bôca escancarada.

O Teixugo, rindo com um riso trocista, respondeu-lhe:

—Olha que minha irmã talvez as não tenha tão borradas como as tuas! Vergonha deves ter tu, minha gata pellada, por andares com as pernas tão sujas.

No entretanto o regedor, Antonio Cápatrás, e o Agostinho Manco, juiz eleito, revestidos da sua auctoridade assistiam ao acto solemne, em mangas de camisa!... O José Pandega recommendava aos que desenterravam os defuntos, que andassem de vagar, para lhe não darem alguma sacholada. Um d’elles disse ao cirurgião:

—Sabe o que a gente precisava, seu Zé? Uma boa infusa de vinho, para este suor se não recolher p’ra dentro. Você que sabe d’essa cousa de sedênhos e medicinas, bem o entende, seu Zé.

Por um acaso feliz chegaram n’esse momento duas canecas do bom rascante que a Engracia, viuva recente do Repolho, mandava para os trabalhadores que lhe desenterravam o marido. Todas as pessoas lhe applaudiram a lembrança inesperada e a mulher que trouxera o vinho, affirmou com modo persuasivo, que fôra a propria tia Engracia que o fôra tirar do tonel do canto, que era do bô que tinham. Os homens, quando acabaram de beber, tiveram um ahhh... prolongado e satisfeito, confessando um d’elles:

—É a melhor pinga que ha pelos arredores. O Bernardo queria-o vender lá para a villa, e já lhe davam dez moedas.

O regedor considerou:

—Foi bem tolo em o não beber. Se o levasse nas tripas, fazia melhor do que estar o poupal-o para quem cá fica...

Depois de escorripicharem as duas canecas, os jornaleiros continuaram a cavar com mais cautela, para não tocarem com as sacholas nos cadaveres, como os prevenira o cirurgião. A primeira cousa que se descubriu foi o chapéu do Bernardo, humedecido e barrento. Todos reconheceram que era esse mesmo chapéu, esbeiçado e já roto, que elle costumava usar. O José Pandega, affirmou com certa intimativa:

—Na cabeça d’elle é que vós o não tornaes a ver!

Todas as pessoas confirmaram esta opinião sensata. Era verdade! Na cabeça do defunto, que estava debaixo d’aquelle barro, elles nunca mais veriam aquelle chapéu esbeiçado e roto!

Pouco depois, com mais algumas enchadadas, appareceram os defuntos. A ultima camada de barro, foi tirada cuidadosamente com as mãos. Os dois cadaveres estavam de bruços, ambos inteiriçados, rigidos. Ao de Bernardo, que era mais pesado, metteram-lhe uma tábua por baixo do tronco e levantaram-n’o ao ar, ficando o corpo aprumado, severo, com um aspecto de phantasma! O cadaver do rapasito do gado, como no momento em que a barreira se esboroou estava agachado sobre os calcanhares, encontraram-no dobrado sobre si mesmo, com a cabeça debaixo do corpo e a cara encostada ao peito, quebrado pela espinha. Ambos estavam inteiramente desfigurados, por causa da camada de terra adherente, empastando-lhe os cabellos, tapando-lhe os olhos e a bôca. Todas as pessoas presentes vieram agrupar-se em volta das duas tábuas, sobre as quaes, os mortos, permaneciam deitados de costas. O Chico, para o conservarem bem estendido, tiveram de o atar pelo tronco e pelos pés ao seu esquife provisorio com uma corda; porque, em virtude da rigidez cadaverica, tendia a dobrar-se sobre o ventre. Ali, diante dos corpos exanimes, o juiz, o regedor e o cirurgião, fallaram em dar parte d’este acontecimento tragico, n’um officio, ao senhor administrador, affirmando-lhe que a culpa d’elles morrerem, tinha sido d’elles mesmos, que se tinham ido metter na bôca da morte. Depois concluiram, que o que era necessario fazer-se-lhe já, era amortalhal-os, para se proceder aos officios e enterral-os, quanto antes, para não principiarem a cheirar!... Depois d’isto, o Pandega, lembrou-se de tirar o barro dos rostos sujos, e para isso foi buscar uma pouca de palha de uma moreia proxima, e fel-o.

Porém, como depois d’esta grosseira limpeza reconheceu que os cadaveres tinham nodoas arrouxadas nas faces e na testa, affirmou peremptoriamente, com modo decisivo:

—Devem-se enterrar quanto antes... Ámanhã principiam elles a feder, que nem mil demonios! Não se ha de poder estar com o nariz ao pé!...

As mulheres presentes fizeram uma momice de enjoadas e, cuspinhando para o lado, disseram «cachicha». Os homens, que tinham desenterrado os mortos, preparavam-se para pegar ás tábuas, onde os tinham estendido, com o fim de os transportarem a casa, quando a Caetana, uma velha beata, lhes observou n’uma voz de um ligeiro timbre choroso:

—Esperae rapazes, esperae... Não os leveis assim, que ainda estão muito borrados. Deixae, que eu lhes lavo a cara...

E para o conseguir foi buscar manadas de agua, que verteu sobre os rostos dos cadaveres. Depois limpando-os caridosamente com o seu velho avental de riscas concluiu:

—Agora podeis ir. Bão mais bonitos.

Por fim, os quatro jornaleiros, deitando um olhar saudoso ás canecas vasias, levaram os corpos para casa da Engracia. Ahi é que foram decentemente lavados e amortalhados para os depositarem na varanda, onde veio muita gente da freguezia deitar-lhes agua benta sobre as mortalhas e recommendal-os para a eternidade, com as suas resas distraídas!...

Na varanda, o esquife de Bernardo ficou ao fundo, e o do Chico logo ao pé da porta... O sol entrava francamente, incidindo sobre os rostos dos defuntos, tornando-os da pallidez indecisa da cera, com o tom roxo das ecchymoses enfraquecido. Ambos elles tinham uma expressão rigida e concentrada, propria das mortes afflictivas, o que se lhes conhecia nas rugas da testa, no apanhado dos beiços, nas palpebras fechadas com energia! As mãos grossas e plebeias, cruzadas sobre o peito, amparando um crucifixo, por effeito da humidade do terreno debaixo do qual estiveram horas, haviam adquirido uma molesa aristocratica—uma coloração branca de mãos estimadas. Bernardo, com a sua barba feita e com o cabello cortado rente, tinha, para as mulheres da sua freguezia que lhe cercavam o esquife, uma apparencia de mordomo de festa. Por isso recordavam a ultima vez em que elle fizera a da Senhora do Carmo, e, tinham bem presente diante dos olhos, a sua figura magra e insignificante, no primeiro logar da bancada, com as mãos erguidas em face do padre Beiral, quando este o incensou as tres vezes do rito, fazendo-lhe uma cortezia ao retirar-se, o que todos julgavam de uma polidez e de uma distincção invejaveis. A mortalha do marido da Engracia era mais rica do que a do Chico, a qual, sendo elle engeitado, lhe tinham esmollado perante a confraria das almas! Porém notavam que não differiam muito; porque ambas eram de forte panno violeta muito engommado, com cercaduras relusentes de galões metallicos, que scintillavam sob a viva luz do sol. As pessoas que contemplavam estes cadaveres serenamente deitados, ainda recordaram muitas vezes, relatando-o com minuciosidade, o triste modo por que tinham morrido, e a beata Caetana, como julgamento, concluiu d’este modo a narrativa que acabava de ouvir pela sexta vez ao Joaquim da Moita:

—Foram elles bem asnos em se irem metter n’aquelle perigo! Este Bernardo sempre foi um pascacio. Para deixar a um que nem é filho d’elle!...

E trouxeram a pello a vida desregrada do Antonio, que andava sempre de feira em feira, sem parança em casa, vivendo no meio de jogadores e de troquilhas borrachos! N’esse mesmo dia tinha apparecido na porta da igreja a lista dos rapazes para soldados. O nome d’elle lá estava, entre o de outros. Havia quem affirmasse, que já havia ordem na villa para o prenderem, como reflatario. Certas mulheres que se queriam inculcar como ao corrente do que se passava, affirmavam que fôra o senhor padre Beiral, quem lhe arranjára aquella farda. E a este proposito recordaram as queixas que o ecclesiastico devia ter do filho da Engracia, que lhe roubara de uma vez todas as uvas douradas que elle tinha na sua latada, e as melhores peras do natal, furtadas, mesmo nas barbas do sacerdote, da pereira do pé da casa!... Por isso, e porque estavam indignados contra o rapaz, como tornando-o em parte responsavel d’esta morte do Bernardo, applaudiam a resolução, havia tempos manifestada, pelo Beiral de pôr uma farda ás costas ao meliante!...