IV

N’essa mesma tarde foram as confrarias buscar os defuntos. Era uma consideração pelo nome de Bernardo que era irmão remido! Adiante de todas vinha a do Santissimo Sacramento, de opas vermelhas e a cruz de prata alçada, relusindo ao sol. Em seguida desfilava a de Nossa Senhora do Carmo, de opas brancas com murças azues, da côr do céu desbotado de agosto. Na bandeira que a destinguia estava pintada a Virgem, com a sua ridente face menineira, tendo pendente de uma das mãos um rosario, e da outra uns bentinhos! Por fim seguia-se a confraria das Almas, com a sua bandeira dolorosa na frente! Era ali representado o quadro terrificante do purgatorio:—um rei de corôa poderosa e de longas barbas patriarchaes, apoiava a sua mão sobre o hombro de um bispo mitrado, coberto de uma rica capa de ouro, o qual estava mais no fundo das chammas, soffrendo, talvez sem bastante resignação, que o monarcha chegasse primeiro á bemaventurança! Ao lado d’este augusto personagem, uma peccadora, com as longas madeixas de Magdalena, dando a mão a um homem lubricamente calvo e de bigode e pera, trepavam por entre linguas de fogo, de uma iracundia terrivel, em ôca e vermelhão! Todos estes condemnados, e ainda outros sem distincção, erguiam olhos supplicantes e estendiam as mãos abertas a um anjo, que estava no alto, pesando serenamente as culpas e os soffrimentos de cada um, para lhes outorgar a remissão promettida!...

Da confraria da Senhora do Carmo, destacaram-se quatro irmãos para tomarem conta do cadaver de Bernardo Repolho, e outros quatro da confraria das Almas que, por caridade, se encarregaram de conduzir o do engeitado... E, quando tinham tomado sobre os seus hombros valentes os dois esquifes, partiram pelo caminho adiante, para a igreja, condusindo os defuntos. Atraz, na casa da viuva, ficou o chôro alarmante de Engracia, e das visinhas que a acompanhavam, misturando-se, na larga amplidão ao triste dobre dos sinos que echoavam de quebrada em quebrada, com a sua nota plangente e de uma harmonia rebelde!

No instante em que o funebre acompanhamento subia pela encosta da igreja, o Antonio Fogueira entrava na freguezia! Havia mais de oito dias que andava por fóra, na sua vida vagabunda de torquilha... D’esta vez trazia uma egua nova, muito fugideira, que lhe vendera o Rio Tinto.

O toque funerario dos sinos e o acompanhamento que elle viu logo de longe, surprehendeu-o, fazendo-o parar, e teve um baque no coração! O primeiro esclarecimento ácerca do occorrido, foi-lhe dado por uma mulher velha que vinha pelo caminho para o lado d’elle, vergada sob o peso de um grande molho de herva e que, antes de ser interrogada, lhe disse encostando-se com o feixe a um muro para descançar:

—Aquelle agora, meu rico, do que precisa, é de muita fartura de missa, por aquella alma!—observou-lhe depois de um «ah!» de estafada a velha Vicencia.

—Mas quem foi que morreu?—indagou o Fogueira.

—Ah! sim, tu não sabes!—completou a velha depois de expellir o seu cançaço asmatico! Andas sempre lá pelas feiras, não admira. Pois toca-te pela vestia... Foi teu pae Bernardo, de uma grande desgraça!

O adoptivo do Repolho impallideceu rapidamente, deixando cair as redeas no pescoço da egua! Vicencia concluiu:

—... Uma grande desgraça, sim senhor, é como te digo. Caiu-lhe honte em cima da cabeça, a elle e ao vosso rapaz, o Chico, o monte da Cham, quando lá foram ao barro! Se tu não andasses sempre por essas feiras, em jogatina, talvez que o pobre home não fosse lá, com esse tempo!

E depois, voltando-se salientemente para o Fogueira, exclamou de um modo reprehensivo:

—Ora tu não mudarás de rumo! Vê se te confessas, que andas n’uma vida de home perdido. Tem vergonha n’essa cara! Faz uma confissão jaral, que vem ahi os missionarios, grande maroto!

O Fogueira, que era naturalmente irritavel, sentiu subir por elle acima uma forte ira contra a velha Vicencia. Porém, refreando-se, respondeu-lhe com uma indignação latente:

—Você que lhe importa o que eu faço, seu diabo de coruja! Vou-lhe lá pedir alguma cousa?! Se não fosse, não sei porque, se não fosse por causa d’aquelle que acolá vae (alludia ao enterro que subia a encosta), eu lh’o diria, seu grande diabo!...

Uma colera viva apoderou-se rapidamente da velha, que deixando cair o feixe da herva no chão, principiou a gesticular, sem encontrar no momento as verdadeiras palavras indignadas, com que desejava aggredir o Fogueira! Como é que um homem, tão culpado como este maroto, que só andava pelas feiras em jogatina e com más mulheres, se atrevia a ter arrogancias diante dos que o reprehendiam?! Por isso ella, com uma voz gritada e com os punhos ameaçadores, o increpou, com uma pedra na mão:

—Ah! grandissimo ladrão, o que tu precisavas era de uma cadeia. Talvez me queiras bater, excomungado! Ora vem p’ra cá, que te prego com esta na testa! Cuidas que eu tenho medo, stafermo?! Um ladrão, que não faz senão gastar o que aquelle bruto (alludia tambem ao morto que ia no esquife) andou por ahi a ganhar no trabalho. Foi elle bem tolo em mourejar p’ra ti! Mas deixa, meu condemnado do inferno, que o senhor regedor e o senhor padre Beiral te ensinarão! Já está prompta a farda que has de ter ás costas!... Eu vou dizer já ao tio Antonio Capatrás, que te vá prender.

Porém esta indignação palavrosa de Vicencia, perdeu-se no ar. O Fogueira só lhe percebeu que ia ser preso; mas a este tempo já tinha picado a egua pelo atalho acima, para entrar em casa, pela matta, com o fim de ninguem o ver. E quando se viu só no caminho, a distancia da velha, cuja voz ainda lhe chegava aos ouvidos n’uma gritaria de furia, o filho adoptivo do Bernardo Repolho considerou com a reflexão propria dos momentos responsaveis:

—Mas para que diabo foi elle buscar o barro, com um dia como esteve honte? Para que se foi aquelle maluco metter ao perigo?!—exclamava sem comprehender, voltado mentalmente para si mesmo!

E, considerando n’isto alguns segundos, parado, a olhar fixamente para um muro musgoso, concluiu:

—É uma de mil diabos! Que grande bucha!

Dispunha-se a dirigir-se á cancella da matta, quando o susteve a voz conhecida do João do Rego, que lhe appareceu de cima do muro do caminho:

—Espera ahi, ó Tone! Ó rapaz, espera!

E aproximando-se acrescentou:

—Então teu pae lá ficou arrebentado debaixo do barro e o rapaz tamem!

—O rapaz tamem...—repetiu o Fogueira absorvido, mas sem commoção.

—Tamem. Pois tu não sabes nada?

—Sei, disse-me ali em baixo a Vicencia, aquelle diabo que me metteu cá umas cousas por dentro, que...! Valha-a mil demonios!

O do Rego continuou esclarecendo:

—Isso não faz monta. Ella é tola, tu bem sabes. Mas honte foi ahi na freguezia o dia de juizo! Juntou-se povo, que povo!—o Capatrás, o Manco, o çurgião... o poder do mundo! Desenterraram-n’os; porque elles ficaram debaixo de um monte de barro, da altura d’este muro. Depois, quando os trouxeram para casa em charola, em cima de duas tabuas, lá a tua velha fez ahi uma berraria de deitar a casa abaixo. Fazes lá idéa! Era muita gente a querer agarrar n’ella; mas principiou a estrabuchar e a morder, por não a deixarem ir abraçar o seu home!... Ora tu bem sabes que a gente não a devia deixar, e mesmo o senhor padre Beiral e o Pandega disseram que não deixassem; porque lhe podia dar algum stupor! Hoje tem custado a ter mão n’ella, quer-se ir deitar a afogar; mas a minha mãe, que lá está, e outra gente não deixam. Quando a seguram, principia a chorar aos gritos, como se tivesse o diabo e chama muito por ti! Já dizem que a alma de teu pae lhe entrou por algum sitio... Se é verdade, temos que rir; porque ha de custar a por-lha fóra! Isso de entrar uma alma no corpo da gente é peior que maleitas. Safa!

O Fogueira ficou mais triste, mais acabrunhado com estas revelações. Principiou a apoderar-se d’elle um terror, um medo...—o medo de que a alma de seu pae adoptivo tivesse realmente entrado no corpo de sua mãe Engracia! E com um ar scismatico, de homem abatido, puchava pela longa barba, arrepelando-a, e considerando-se infeliz!

O João do Rego, no mesmo tom de confidencia, rematou:

—É o diabo! Trazes tu por ahi cigarros? Como vens da villa has de trazer. Agora foi a feira dos nove. Vens de lá? Trazes uma burra chibante!

O Antonio, passando-lhe automaticamente o cigarro disse: «estive... comprei...». Depois perguntou-lhe:

—Mas diz que me querem prender?!

—Qual prender! Deixa fallar! Está um papel na porta da igreja; mas é p’ra gente ir a Vianna, por causa d’essa cousa da tropa! Meu pae arranjou cartas de fidalgos da villa p’ra me livrarem, cá a mim, em Vianna; porque botou com elles no deputado! Eu vou e mais elle, domingo, por ahi abaixo, á speção. Vem co’a gente, que faremos pandega!? O Capatrás disse que tu tamem has de ir. Ainda honte fallou no adro, que se tua mãe não vender um campo p’ra te livrar, tens de andar com a muchila ás costas.

E concluiu n’um tom de voz convidativo:

—Mas a tua velha que venda o campo. Ella pr’a que o quer senão p’ra ti?! Diz-lhe que venda e vamos todos lá a essa Vianna!

Despediram-se. O Fogueira picou a egua, explicando ao do Rego, que queria entrar pelo lado da matta, para se não encontrar com o enterro que ia no caminho. Depois, quando chegou á cancella, a egua transpol-a, mas entrou desconfiada, reparando em tudo, olhando de travez para os objectos!... O Antonio forçou-a a caminhar dizendo-lhe: «Chó diabo, anda p’ra diante!» E assentando-lhe duas lambadas nas ancas, esporeou-a com força!...

Porém, logo adiante, o animal estacou com mais teimosia, encarando excentricamente com um velho carvalho nodoso. O Fogueira, como a egua era nova e como o momento não era proprio para lhe tirar as teimas, desceu cordatamente, pensando em a levar á redea. Para isso principiou a puchal-a, com brandura, de um modo carinhoso, condescendente, fallando-lhe com moderação. Porém ella fincou-se nas mãos, levantou a cabeça, encostou-se á retranca e principiou a recuar resfolgando estrondosamente pelas ventas dilatadas, olhando esgazeada e com uma tremura nervosa nos beiços! O Antonio, conhecendo que á força a não faria transpor a matta povoada de carvalhos, que produziam sombras amedrontadoras, pensou em redobrar de carinhos e attenções, desejou familiarisal-a com a velha arvore nodosa que a espantára!... Para isso amimava-a, fallando-lhe n’uma voz de cada vez mais convidativa, puchando-a moderadamente pelas redeas, para a aproximar do objecto suspeito... Porém ella, entendeu que devia recuar ainda mais e, n’um momento, principiou a levantar as mãos, a agitar mais freneticamente a cabeça, a espetar com mais desconfiança as orelhas, a curvetear... e terminou por atirar duas valentes e corajosas parelhas de couces á cancella, partindo-a.

O filho da Engracia teve n’este momento uma enorme colera e veiu-lhe rapidamente a idéa de tirar a sua comprida navalha e abrir a barriga da egua, como em outra occasião fizera a um cavallo! Porém, a reflexão aconselhou-o a não deixar apparecer as suas violencias naturaes... O momento não era opportuno—reconhecia-o elle perfeitamente!... Ouvia d’ali mesmo sua mãe, gritar com desespero, acompanhada pelo chôro cantado de todas as visinhas, que lhe faziam companhia n’este momento doloroso. Toda a sua idéa era metter, sem ser presentido, a egua na côrte do gado, e depois, quando em casa tudo estivesse mais tranquillo e a choradeira acabada, entraria pela porta dentro, inesperadamente e de supito!... «A final de contas—considerava—isto tem de ser e tem!» Por isso, para não augmentar mais a desordem que havia um quarto de hora se apoderara do seu espirito, a desordem que o cercava por todos os lados, optou por amansar a egua em vez de a matar, e para isso principiou a cofiar-lhe as crinas, passando-lhe pela anca tremula a mão benevolente e prodiga de afagos, com a brandura insuspeita da mão de um amigo! Conseguiu d’este modo acalmal-a, mostrar-lhe de perto o velho carvalho, chegar-lhe ás ventas, ainda tremulas, a casca gretada, que exhalava um forte cheiro de humidade e de bolor. Conseguiu o que desejava; mas a egua atravessou o caminho da matta, sempre desconfiada, olhando de soslaio, resfolgando e levantando a cabeça ao menor ruido. O Antonio chegou a mettel-a na côrte do gado, prendendo-a calculadamente a distancia dos toiros, que permaneceram a olhar vagamente, com os seus olhos redondos, como bogalhos e relusentes como vidro!

Pelo barulho que tudo isto produziu, Engracia que já estava calada, ficou advertida da presença de seu filho!... Por isso, tanto ella como as visinhas que a acompanhavam, tornaram a desatar a sua dôr recente, em altos gritos cheios de mortificação e que se estendiam pelos campos! Quando, instantes depois, o Antonio entrou na cosinha, a viuva do Bernardo agarrou-se-lhe ao pescoço, dizendo muitas vezes: «Meu rico home do meu coração, que te não torno mais a ver! Perdi o meu rico home! Um santo como elle era! Uma desgraça assim!»

Esta paixão intensa e desgrenhada era communicante, e por isso o Antonio saiu dos braços de sua mãe, para se deitar de barriga sobre a caixa da brôa, com o rosto escondido entre as mãos, dando soluços affrontosos e dilacerantes!... As mulheres, que acompanhavam Engracia principiaram a dizer que elle era muito bom rapaz, muito amigo de Bernardo, tão amigo como se fôra filho verdadeiro! Gabavam muito este choro afflictivo de Antonio e, acercando-se d’elle, com as mãos escondidas nos aventaes, consolavam-n’o, lembrando-lhe que a desgraça acontecera por vontade de Deus Nosso Senhor, e confirmavam que todas ellas, que ali estavam a chorar pelo Bernardo, tambem haviam de morrer e talvez bem cedo!... E depois d’estas palavras sensatas aconselhavam-n’o a fazer uma confissão geral com os missionarios; porque era muito bom a gente andar sempre preparada para ir á presença do Senhor Todo Poderoso! Antonio parece que não gostou d’esta advertencia, em que presumia uma censura á sua vida desregrada, e disse-lhes com certo desabrimento, com modo brusco e mal creado, sempre deitado de barriga sobre a caixão da brôa:

—Calem-se! Deixem-me cá. Ponham-se agora ahi com lôas e aquellas!...

E desde este momento, o seu choro, foi-se abrandando gradualmente, e um silencio, de vez em quando interrompido por um «ai Jesus!», restabeleceu-se na cosinha. Engracia, com os olhos enxutos, mas evidentemente abatida e mortificada, foi, como um cão reprehendido, sentar-se ao canto da lareira, onde havia uma fogueira crepitante e viva, procurando o ponto mais escuro e modesto, d’onde atiçava o lume, continuando a dar ais lastimosos e suspiros. Passados alguns minutos, quando as brazas estavam bem vivas, bem mordentes, disse ella mesma, com uma voz serena e apasiguada, para Genoveva, a mãe do João do Rego:

—Ó mulher, vê se lhe deitas aqui n’este lume uma posta de bacalhau. Esse moço ha de vir com fome.

E, como o Antonio ainda de bruços sobre a caixa do pão se remexeu, expellindo o ultimo suspiro da sua angustia, ella exclamou n’uma voz mais secca, mais sincera:

—Meu rico home que o não torno mais a ver até ao dia de juizo! Tomára eu que o dia de juizo fosse já hoje, só para tornar a vêr o meu rico home, que foi morrer de uma desgraça!... Uma cousa assim!...

Porém as outras pessoas ficaram caladas... Não tendo já mais lagrimas para chorar, as mulheres visinhas principiaram a contar ao Antonio, como tudo se tinha passado, como acontecera aquillo! Elle, impellido por uma curiosidade inconsciente e com o fim de as escutar com mais attenção voltou-se de ilharga e olhava... Depois, como a narrativa, vivamente colorida pelos commentarios e pela gesticulação, o interessava, sentou-se e escutou até ao fim, com as mãos apertadas entre os joelhos. A Genoveva, mãe do João do Rego, era quem o certificava de todo o acontecido, e apesar de ser muito difusa e de entremetter observações sem valor e rodeios pueris, o Antonio ouvia-a: O Bernardo era um homem sem esperteza nenhuma, um molanqueiro, um deixa-te ir... Muito bom homem, muito honrado, muito temente a Deus, de muito boas contas... isso sim, senhor. Verdade, verdade... não se contava outro na freguesia! Mas prestimo não tinha muito, não tinha mesmo nenhum. Todo o mundo o levava para onde queria, um grande cebolla é que era! Esta desgraça que lhe succedera tinha sido prevista pelo Joaquim da Moita, que lhe disse ao vel-o encostado á barreira, que tinha umas bôcas escancaradas, que mettiam medo: «Home, tu ahi não estás seguro! Vê lá no que te mettes, Bernardo». Elle não quiz fazer caso e respondeu: «Ora não ha de ter duvida...». O pago foi o que se viu, ficar esborrachado.

O Fogueira, ouvia tudo isto com uma seriedade inconsciente e bronca. Que diabo de toleima, a de seu pae, de se ir metter debaixo da barreira que caíu! Realmente sempre era um banasola, que não tinha prestimo para nada!... E deixando-se n’esta corrente de pensamentos vagos, impulsionado pela palavra quente da tia Genoveva, e, como já lhe haviam posto o bacalhau sobre a caixa, principiou a comer de vagar, com uma apparente inappetencia... Tinha o olhar vagaroso e a mastigação demorada, apesar de ter fome. De vez em quando, Engracia, exclamava pelo «seu rico home», que não tornaria mais a ver, até ao dia de juizo!... Genoveva, que durante a narrativa se enchera de espirito hostil contra o fallecido Bernardo, disse reprehensivamente, para a viuva:

—Cala-te mulher! Tamem já é de mais! Já aborreces com tanto «meu rico home!» (E fez um esgar de troça.) Que se não fosse lá metter! Que não fosse pascacio!

Depois concluiu voltada para o Antonio:

—Olha, elle se morreu é porque quiz! era um bô home, um bô serás; mas teimoso até ali! Deus o tenha no céu, que todo o mal foi d’elle; mas verdade, verdade, para onde lhe désse o toutiço, era para lá, como um casmurro. Agora que está na outra vida, Deus o tenha em bô logar. Um Padre Nosso por sua alma é que devemos resar... Do que Bernardo precisa é de muito rosario e de muitas missas, que quantas mais, melhor. «Padre Nosso que estaes no céu, santificado seja o vosso nome, etc...»

Todos a acompanhavam n’uma voz ciciada, e com as palpebras meio cerradas. N’este momento ouviu-se o dobre funerario e lamentoso dos sinos. Era o signal de que os officios tinham acabado e de que o corpo ía ser dado á sepultura! Uma das amigas de Engracia observou:

—Elle lá vae pr’a cova, coitado! Olhem que ninguem sabe onde as tem armadas!... Ainda honte, ía em cima do carro, muito socegado, e já hoje dorme na greja pr’a toda a vida! Ah! morte negra, morte negra que assim os vaes levando a um e um!

Engracia tornou a chorar alto e o Antonio atirou-se novamente de bruços sobre a caixa do pão, conservando-se muito tempo sem se mexer... N’aquella posição adormeceu de fatigado pela jornada!