V
Porém, a viuva do Repolho, o que não queria por fórma nenhuma, era que o seu Antonio fosse para a tropa.
—Soldado nem de barro!—exclamava. Isso não o ha de elle ser, ainda que eu tenha de vender a camisa do corpo! Todos esses invejosos, que lhe querem mal, hão de cegar!...
Mas a final—porque é que lhe tinham esta raiva de morte ao rapaz?! Engracia bem o sabia: O Antonio não era um cebola, não era nenhum maricas que se deixasse levar pelo beiço. Tinha tido muitas occasiões de amolgar as costas dos visinhos com o seu rijo pau de carvalho, e essa era a rasão por que lhe tinham tanta birra. Em qualquer ralhação, que a Engracia tivesse na aldeia, atiravam-lhe logo á cara, com a vida de homem perdido e sem religião, que o seu filho levava pelas feiras... N’essas occasiões, com uma intimativa raivosa de vingança, ameaçavam-lh’o com a farda, com a tal farda que o senhor padre Beiral lhe havia de arranjar...
«Pois não houvestes de arranjar uma farda!» respondia-lhes Engracia indignada. Graças a Deus, ainda tinha algumas terras que vender e, acabadas as terras, ainda tinha cordões de ouro e a propria casa em que morava, que tambem valiam um bom par de moedas! Quem perdia com estas cousas eram os santos da igreja—Nossa Senhora do Carmo e Santo Antonio milagroso a quem promettera os dois campos da ribeira se o rapaz se livrasse. Assim, arranjando-lhe o padre Beiral a farda, venderia esses campos para pagar a um sustituto. E por causa d’isto, tambem pensava em lhe doar todos os bens, e deixar-lhe, mesmo em vida, gastar tudo, só para ter o regalo de ver a visinhança com uma cara de palmo e meio! Ao menos desenganava de uma vez todos os que lhe queriam mal ao moço! Elles desejavam que Engracia lhe não deixasse nada, por não ser seu filho; mas ella, que se tinha na conta de teimosa como uma burra, de cada vez estava mais resolvida a dar-lhe em vida quanto possuia! E realmente, n’um dia em que a Vicencia lhe disse de cara, «que ella estava no inferno vestida e calçada, que talvez não encontrasse um padre que lhe deitasse a absolvição, por querer desherdar Nossa Senhora e os santos em beneficio do grande meliante e pelo não o mandar para a terra de onde tinha vindo» a viuva do Repolho, cheia de colera, partiu para a villa, onde lhe fez a doação premeditada e onde, ao mesmo tempo, vendeu os campos da ribeira ao brazileiro do Tenrozo, entregando todo o dinheiro ao Antonio, para elle se ir livrar a Vianna e para continuar no negocio de burras, em que se via envolvido.
Porém, as pessoas que andavam ao corrente da vida do Fogueira, que conheciam as suas relações com a Marianna Ripa,—uma chupadeira!—com o Rio-Tinto e com o Fanfarra,—dois ladrões!—quando souberam da doação incondicional que a Engracia lhe fizera, affirmavam com riso de despeito e de consolação ao mesmo tempo:
—Agora é que vae ser o bô e o bonito. Verão como elle espatifa tudo emquanto o diabo esfrega um olho. Ai minha tola de Engracia! Cuidas que déstes na dos outros, mas déstes na tua cabeça! Os campos que tanto custaram áquelle burro do Bernardo, estão ahi estão engolidos n’um prompto!
Na realidade, nas feiras que o Fogueira frequentava, principiou elle a apparecer mais chibante e cheio de arrogancia, sempre na companhia de Marianna Ripa, que tambem andava n’um luxo e n’um estadão de arreguilar o olho! Ella tudo eram lenços de seda de furta-côres, tudo roupinhas do melhor panno azul, chinelas com biqueiras de verniz pispontadas a retrós verde... o diabo, um inferno! O Fogueira, sempre com o cinto recheado de soberanos que mostrava todo basofia, pedia nas estalagens com voz arrogante e desdenhosa, postas de carne assada e copos do rascante, com que enchia os coldres á Marianna, ao Rio Tinto, primo d’ella, ao Fanfarra e ainda a outros troquilhas. O Rio Tinto encontrou meio de lhe impingir uma egua com seis moedas de ganho, quer dizer, por vinte moedas, que na opinião de entendidos, não valia dez; porque, pelas quatorze, já tinha sido uma encaravilhadella para o primeiro comprador! Era um animal vistoso, de pello luzidiu e fino, as orelhas espertas, as ventas resfolgantes, o olhar vivo e de uma inquietação nervosa...; mas era uma egua com pancada! Tinha um travado meudo, muito igual e firme; a cabeça, quando ía vertiginosamente na carreira, apresentava-a com altivez soberana; porém, diziam que tinha grande doze de lua. Algumas pessoas chegavam a affirmar que era uma egua redondissimamente maluca!...
O Rio Tinto quasi desenganou o Fogueira dizendo-lhe:
—Eu gostei do demonio da burra. Se a queres leva-a; mas o que ella precisa é de bons quartos em cima! Olha que eu não sei se tu terás perna para a montar!
O Fogueira, mesmo por causa d’esta declaração, como era muito vaidoso, comprou-lh’a. Tinha-se na conta de um dos melhores montadores das feiras minhotas e não podia levar á paciencia, que houvesse animal, por mais bravo, que elle não podesse amansar. Nunca encontrára, nem entre os marchantes, nem entre os troquilhas, homem a quem temesse n’um desafio de carreira. Portanto, apesar de lhe dizerem que era brava, o Fogueira quil-a e, o Rio Tinto, recebeu logo em bons soberanos as vinte moedas... Muitos feirantes que lh’a viram levar ficaram dizendo com um riso velhaco, alludindo á maneira impensada como o Antonio gastava o dinheiro:
—Aquillo é que é derreter arame! É como cebo ao lume. Parece um morgado.
O Domingos Bicudo, o taberneiro á porta do qual foi feita esta observação, defendeu o Fogueira n’estes termos:
—E a vós que vos importa?! É do vosso dinheiro que elle gasta? Deixae o rapaz com as suas aquellas.
Depois d’isto, oito dias antes de esgotado o praso determinado no papel que estava na porta da igreja, o Antonio foi á administração do concelho buscar a guia e partiu para Vianna, á speção. A Marianna Ripa foi com elle. Era pelo tempo da feira da Senhora da Agonia. A rapariga ía toda secia, toda preparada, n’um espavento de arromba! Ella, como ouvira fallar da braveza da egua, receiou ir a cavallo, e disse ao seu amante, que não queria. Porém, o Fogueira, intimou-a terminantemente a montar, observando-lhe que indo elle ao pé, não tinha que temer. Por isso ella subiu para o albardão. Sentou-se commodamente, espalhando as saias para ambos os lados. Por baixo, de entre as dobras do saiote vermelho do panno mais fino e de entre os folhos brancos das saias, saíam os seus pés calçados em chinellas de biqueiras de verniz pispontadas, e as suas pernas grossas, bem feitas, calçadas com meias de linha fina, viam-se-lhe impudicamente até acima do tornozello. Marianna tinha um riso vaidoso e triumphante, quando olhava para as pessoas que a viam passar!
O Fogueira ía a pé, de vestia ao hombro, com a larga facha vermelha apertada sobre o estomago, e armado com o seu pau argolado, proprio de homem de feiras!... Acompanhava a cavalgadura, a largas passadas de arrieíro, examinando frequentemente a cilha, para que a moça lhe não fosse dar um trambolhão... E, com a expansibilidade natural do seu temperamento sanguineo e da sua cabeça estouvada, ía fallando á egua, para a familiarisar com a sua voz, e dava-lhe fortes palmadas na anca, que a faziam estremecer e levantar a cabeça de um modo inquieto, continuando depois com passadas mais ligeiras e, ás vezes, com chouto, do que Marianna se queixava, por se lhe remexerem as tripas todas lá por dentro...
Como estava um dia de grande calor, logo na primeira taberna, fizeram uma paragem para provar do rascante. A Ripa, apesar de desembaraçada e resolvida, tinha medo da egua, e por isso não se arriscou a descer, sem a ajuda do Fogueira, que para a pôr no chão, a agarrou valentemente e com vaidade, apanhando-a por baixo dos quadriz:
—Ó diabo! És uma franga. Não pesas nada! Tudo saias. São tudo saias.
E deu duas reviravoltas com ella suspensa, mostrando-lhe que era muito leve. Marianna ria-se mostrando os seus dentes brancos, fortes e iguaes. O Fogueira, depois de a pôr no chão, ficou mudo, rangendo os dentes, a sorrir para ella, n’uma sensualidade bruta, motivada pelo calor das saias, pela excitação animal que lhe produzira o proximo contacto da carne da Marianna!... Por isso, n’uma incontinencia inconsiderada, correu atrás d’ella pela taberna dentro, perseguindo-a até ao fim da loja, onde a agarrou, a teve por momentos na sua posse, dando-lhe palmadas nos hombros roliços, roçando-lhe a sua forte barba pelo pescoço, pela cara, por onde podia... Depois, impellindo-a de si, com a soberania orgulhosa de um possuidor, rematou n’uma respiração desafogada:
—Diabo de moça! É o vivo demonio! Ó tia Zefa, deite lá um de meia canada.
Beberam de vagar, sentados n’um banco de pedra, á porta da venda, abrigados pela fresca sombra de um antigo carvalho. Em seguida, tendo descançado sufficientemente, a Marianna tornou a montar ajudada pelo Fogueira e continuaram o caminho.
A estrada nova, ainda não estava concluida. As diligencias não podiam ir até Vianna. Dizia-se «que para a outra Senhora da Agonia talvez já fossem». Logo adiante da venda, onde tinham parado para beber, andava muita gente nos trabalhos. Uma longa fita de cascalho, bem espalhado, apresentava uma superficie aspera e eriçada, sobre a qual rolava pesadamente um enorme cylindro de pedra. Duas juntas de possantes bois barrosãos, vagarosos, firmes e iguaes, puchavam o cylindro. Adiante dos bois, á soga, com o corpo muito inclinado, ía um rapaz pequeno, de carapuça, com a aguilhada ao hombro, fallando distraídamente ao seu gado. Logo depois, um homem novo, cara de militar da reserva, tendo uma ponta de cigarro meticulosamente escondida detrás da orelha, arrastando com perguiça os tamancos, assobiava distraído, dizendo imperiosamente ao da soga:
—É diabo, rapaz, não durmas, falla-me a esse gado.
Por isso o rapasito, aguilhou com mais força os bois, que estenderam para diante as suas pesadas cabeças, contraindo fortemente os musculos, puchando com mais força.
Logo em seguida, um pouco ao lado do leito da estrada, viam-se os britadores, quebrando o seixo a martelladas repetidas, para fazerem o cascalho. N’este officio rude, que exige um exagerado esforço dos braços e de todos os musculos do tronco, empregavam-se alguns homens aleijados das pernas. Porém, alem d’estes, havia mulheres que tinham um aspecto grosseiro e masculino, fortes seios entumecidos, e que trabalhando por empreitada, podiam ir dar de mamar aos seus filhos, que choravam deitados em canastras, á sombra benefica e fresca dos salgueiros, que marginavam a estrada antiga.
Tanto estas mulheres como os homens aleijados, trabalhavam sentados no chão, cobertos com chapéus de palha baratos, que tinham comprado aos presos na cadeia da villa. O sol peninsular de agosto abrasava-os, obrigando-os a beber frequentemente tigelas de agua, que iam buscar a um ribeiro proximo. As suas conversas grosseiras, eram tocadas de palavras obscenas e sem pudor. Tinham um modo insolente de se exprimir, porque se julgavam mais livres do que os outros, que trabalhavam a jornal. O seu aspecto, pela continuação de se conservarem durante horas sentados no chão, com movimentos esforçados dos musculos dos braços e do tronco, era carecteristico e singular:—no peito havia uma forte depressão correspondente ao abaúlamento da columna vertebral; as linhas faciaes tinham uma contracção permanente de soffrimento, originada nos esforços potentosos; as narinas eram dilatadas em virtude dos movimentos respiratorios entrecortados e pelas largas expirações de compensação; o tronco e os braços tinham um desenvolvimento desharmonico em relação ás pernas; o semblante, pelo habito de olharem continuadamente para o chão, era triste e carregado, como deve ser o dos casseurs de pierre de Courbet.
Mais para diante, a estrada, era incompletamente aberta—andava-se n’um desaterro. As raparigas que transportavam terra aos cestos para o rio, íam e vinham formando um cordão movediço, como o das formigas no caminho de celleiro. As suas canções, umas vezes mundanas e que haviam aprendido com os cegos que passavam, outras vezes religiosas, ao Santissimo e ao Coração de Maria, que tinham aprendido com os missionarios, íam morrer n’uma toada monotona e ondeante nas quebradas da encosta fronteira. Quasi todas estas raparigas novas tinham, mais ou menos, um aspecto esfomeado e miseravel, a pelle grossa e avermelhada dos tempos diversos e inclementes que supportavam, os seus pés e os calcanhares gretados, as pernas estavam sujas de nodoas de terra, o olhar de algumas era tibio e doente, a côr de outras citrina e amenerrhoica, as mucosas dos beiços esfoliados e sem lhes transparecer a viva côr do sangue! Havia, porém, um certo numero d’ellas mais lavadas, que trabalhavam com mais alegria—eram as que passavam por namoros do senhor Alberto—o apontador, aquelle que as vigiava que as podia despedir, que exercia sobre todas ellas um absolutismo tyrannico! Era um rapaz forte, de uma boa corpulencia, a pelle tostada, as mãos plebeias, um farto bigode presumpçoso, uma cabelleira de terror, os dentes negros e os dedos queimados do fumo. Tinha andado a estudar em Braga muitos annos, com o fim de ser padre. Depois assentou praça no regimento de infanteria oito, para chegar a alferes. D’ali fugiu com a sobrinha de um marchante, com quem desejava casar, o que não concluiu, porque a perfida o abandonou para se amancebar com um clerigo. Por fim, Alberto, vendo-se desilludido e infeliz, ludibriado no seu amor, sem dinheiro, appareceu uma noite em casa de seu tio cirurgião, pedindo, como o filho prodigo da lenda, o esquecimento para os seus desregramentos desgraçados!... O tio cirurgião estava a cear a posta do bacalhau empurrada pelo cangeirão do berde. Era um homem sanguineo, e tomou-se de uma colera subita vendo o sobrinho, com quem gastara em Braga mais de cem moedas, de chapéu desabado e casaco roto, n’uma apparencia de malandro maltrapilho! Quil-o desancar com o estadulho das suas valentias que tinha ao canto da cosinha, onde ceava, e só depois da intervenção da Clementina, sua creada e amante de quarenta annos, a qual tambem ralhou muito com Alberto, é que o tio se tranquillisou, mandando-lhe dar uma posta de bacalhau. Mas, antes d’esta pacificação, levantando-se da lareira bebado, chegou-se ao pé de Alberto e berrou-lhe sobre o nariz, com voz temerosa e avinhada:
—Seu burro e seu ladrão! Eu aqui a ganhal-o, a apanhar molhadellas de lobo por esses montes, e você nas pandegas de Braga! Pr’o Brazil é que ha de ir. Arre, bá ganhal-o que eu tambem faço o mesmo. Mal aprendi a ler, e para arranjar esses campitos que tenho e que te hei de deixar a ti Clementina, puchei muito por este toutiço! Vá ganhal-o seu jumento, que eu ando ha quarenta annos a puchar pela cachimonia, se quero!
E bateu formidavelmente na testa, significando que só d’ali tinham saído todas as idéas, com que medicamentava os conterraneos. Affirmava ter muita gabança em não haver estudado, nem no Porto, nem em Coimbra, como os collegas que estavam na villa.
Porém, passada esta colera do primeiro momento em que viu o sobrinho, veio a pensar mais rasoavelmente, e determinou conserval-o antes por ali. Como era influente eleitoral, arranjou-lhe facilmente aquelle logar na estrada «que sempre deixava um crusado por dia, sem fazer nada!» Ficou, portanto, Alberto, na situação de indicar ao director das obras, um nigligente e aborrecido que passava os dias a jogar as damas n’um botequim da villa, os homens e as raparigas que deviam ser admittidos ou despedidos dos trabalhos na estrada! Isto dava-lhe um incontestavel predominio, e por isso eram apontadas com uma intenção reservada as moças, de que elle mais parecia gostar. Alem d’isto, Alberto, adquiria diante dos seus sobordinados que estava incumbido vigiar, a attitude de um personagem saliente. Os aborrecimentos da aldeia, tornavam-n’o triste e fatal! A sua existencia estava vasia da convivencia dos amigos, que adquirira nas batotas de Braga! Passeava a largas pernadas meditativas e não fallava aos rapazes lavradores, que tinham andado com elle no mestre de primeiras letras! Em vez de se suicidar, atirando-se ao fundo de um poço, lançou-se na leitura perigosa de romances de sensação, que os mais celebres fabulistas nacionaes e estrangeiros tinham escripto, expressamente para lhe fecundar a imaginação irrequieta e sorumbatica! Assim vivia n’um mundo incomprehensivel de emboscadas, loucuras, amores de redempção, paixões nobres e lagrimijantes, homens que se recolhiam ao desespero do sacerdocio, mulheres que fugiam aos maridos para seguirem acorbatas, santos eremitas que tinham sido famosos salteadores!... Esta illustração inoculou-lhe certas vaidades litterarias, que elle revelou no Bracarense, timidamente, sobre a epigraphe de Inspirações do Lima!... N’essas paginas, aquellas verdes e ramorosas paisagens minhotas, eram apresentadas cheias de cavernas onde se escondiam donzellas vestidas de branco, fugidas dos castellos de seus paes nobres, com amantes desconhecidos e mysteriosos. Porém, como nem tudo n’esta vida póde ser ideal, Alberto saía por vezes de entre os frescos salgueiros, onde se recolhia hostilmente a ler os seus romances, e n’uma excitação aphrodisiaca, ía espreguiçar-se entre as raparigas que trabalhavam, apalpando impudicamente os braços carnudos e os seios volumosos d’aquellas de quem gostava mais!... Os trabalhadores, que observavam de longe estes desfastios do senhor Alberto, disseram uns para os outros, descançando encostados ás enchadas, applaudindo-o, cheios de inveja.
—Isso, é levado de seiscentos diabos p’ras moças!
Foi ao chegar ao pé dos homens que faziam esta observação, que a egua do Fogueira, na qual ía montada a Marianna Ripa, parou subitamente, de um modo inesperado, n’uma posição desconfiada—a cabeça alta, as orelhas tezas e o olhar fixo! Depois estendeu o pescoço, inclinou para diante os pavilhões auriculares para reunir proveitosamente todos os ruidos e, dilatando-se-lhe demasiadamente as pupilas, conservou-se alguns segundos olhando firmemente para uma bandeirola que fluctuava... Todas as pessoas que presenciaram esta paragem repentina se tomaram mais ou menos de uma certa irresolução!...—os jornaleiros conservaram attitudes indicisas e indagadoras parando de trabalhar; as raparigas, que acarretavam cestos de terra, ficaram a distancia um tanto receosas; o Fogueira recuou dois passos e berrou «diabo de burra!»; Marianna, apesar de rapariga corajosa, lembrou-se que lhe tinham dito que a egua era amalucada e deu instinctivamente um grito!... O amante da Ripa, temendo que o animal lhe tomasse alguma manha, dirigiu-se-lhe de mão aberta com o fim de lhe fallar, mais familiarmente... Porém, n’este momento se não lhe furta instinctivamente o corpo, ía apanhando, sobre o ventre, uma valente parelha de couces!
A esta parelha seguiram-se muitas outras em todas as direcções, dadas com desembaraço vertiginoso. A Marianna, agarrava-se tenazmente ao albardão para não caír. Os trabalhadores, com o fim louvavel de suster a egua, levantaram as enchadas e as picaretas, pondo-se diante d’ella, fazendo algazarra. Porém, este procedimento deu em resultado o multiplicarem-se prodigiosamente os pinotes e os couces. A Marianna Ripa caíu do albardão, de bruços sobre a terra, com as pernas á mostra, e a egua, de cada vez mais doida, tomou-se de uma raiva aggressiva contra os que estavam diante d’ella, e arremetteu com ousadia para elles, que lhe abriram condescendentemente caminho! E, enfurecida, enthusiasta, com o dorso arqueado, a barriga baixa, o pescoço estendido, as ancas salientes, as pernas abertas, principiou a fugir pelos campos fóra, para os lados do rio! O Fogueira permaneceu livido, pasmado, sem desembaraço, a olhar, vendo-a saltar paredes, saltar vallados, sebes e barrancos! A sua amante já se tinha levantado promptamente, toda vermelha, com medo que os homens lhe tivessem visto as pernas! Não se tinha maguado, pois caíra sobre a terra molle! Todas as pessoas que presencearam este facto, surprehendidas pela rapidez com que elle se passara, estavam sómente interessadas no galopar da egua, que viam correr, dando upas vistosas, com a cabeça alta e o rabo espalhado ao vento!...
Antes d’ella desapparecer, calculou um jornaleiro com modo reflectivo:
—Aquillo foi o dianho da mosca!...
Os que ouviram esta opinião admittiram-n’a em silencio, continuando a olhar para a egua que fugia resolutamente, sem hesitações, sem duvidas, dominada por uma idéa infernal!...
Lá no fim dos campos, estava o rio, a grande profundidade, revolvendo-se as suas aguas, com um fervor de corrente que se precipita por entre penedos! Tinha chovido muito nos dias precedentes e, por isso, o rio levava uma bravura excepcional!...
A egua corria sempre, perdida, com os olhos esgazeados, as crinas ao vento, o corpo arqueado e foi precipitar-se do alto muro, caíndo estrondosamente na agua e fez cachap, levantando enorme poeira de espuma na amplitude do ar!
Um lavrador, que andava na outra margem trabalhando pacificamente no seu campo, vendo isto, exclamou surprehendido:
—Oh! com mil diabos, que lá se spapou!
E logo que o Fogueira chegou esbaforido disse-lhe este individuo, gritando:
—Ó hominho. Essa burra que caíu ao rio era sua? Ella era maluca por força!
O Antonio Fogueira respondeu-lhe de um modo abstracto, com uma navalha aberta na mão:
—É o demonio que a leve!... Se a pilhasse, abria-lhe a barriga de cima a baixo, com esta!
Depois, lançando um olhar indagador para os dois lados do rio, perguntou:
—Mas vocemecê viu-a? Onde diabo caíu ella?
—Olhe!...—apontou para os rochedos que estavam mais abaixo.
O Fogueira aproximou-se vagarosamente do logar designado. Uns lavradores e umas raparigas, que, ali perto, andavam no trabalho, perguntaram-lhe igualmente:
—Você é dono da burra que ahi caíu?
E à affirmativa do troquilha esclareceram:
—Pois o diabo, parecia que trazia o demo no corpo. Atirou-se sobre esses penedos como um raio! Depois, o rio levou-a para baixo.
Um dos trabalhadores acrescentou:
—Aquillo era maluca, por força!
O Fogueira repetiu, com rancor, mostrando novamente a navalha.
—Tres mil demonios a arrastem pr’as profundas dos infernos! Se se não tivesse spapado, punha-lhe as tripas ao sol.
Outro dos jornaleiros ainda esclareceu, apontando com a foicinha:
—Isso é ahi um pôço que nem seiscentas pipas! Você faz lá idéa!...
Um terceiro acrescentou:
—Nunca ninguem lhe viu o fundo. Muita gente antiga, diz que o não tem; mas isso parece-me mentira.
Um rapaz esclareceu:
—Ha ahi cobras que é um inferno! O tio Domingos Briteira viu uma de mais de vinte varas. Vinte varas! que digo eu! De mais de quarenta. Ora! Se ella tinha o rabo de lá do rio e a cabeça de cá, quando elle a viu. Talvez essa cobra se enrodilhasse ás pernas da burra!
O Antonio Fogueira despediu-se de um modo triste:
—Com bem passem! Deixal-a ir. Deus os ajude.
E na volta, quando chegou ao pé da Marianna Ripa, que o esperava, disse:
—Então que tal?! O Rio Tinto prega-me uma burra maluca!
A rapariga defendeu o primo:
—Ora! Talvez elle não soubesse!...
—Não sabia o diabo que o leve! Elle m’as pagará!