VI
Em Vianna, o Fogueira e o Rio Tinto, encontraram-se hospedados na mesma estalagem. Por causa do negocio da burra, invectivaram-se reciprocamente com injurias e, se não fosse o Fanfarra e a Marianna Ripa, que se interposeram, elles chegariam de certo ás do cabo! Por fim, o Rio Tinto, com uma viva colera no olhar, tirou da sua sacca de linho os soberanos que tinha ganho ao Fogueira e, atirando-os com despreso sobre a mesa, disse com altivez:
—Ahi tens e não tornes a dizer que te roubei. Bê lá como fallas p’rá outra bês. Põe n’esse raio de cara dois carbões accesos, para saberes o que compras!...
E ficaram, sem se fallar, olhando-se como dois homens que se odeiam! Á noite tiveram occasião de se encontrar, um em frente do outro, a uma mesa de monte, arranjada ao fundo da taberna, atraz de um tabique, por dois braguezes de longas barbas suspeitas e chapéus desabados... Estes homens, para attraírem os feirantes que por ali estavam, tinham-se abancado de um modo natural e simples, principiando a jogar entre si o trinta e um. Batiam insolentemente o dinheiro nas mesas, com o fim de se tornarem vistos, fallando alto e grosseiramente. Um almocreve, contractador de peixe para Traz-os-Montes, estava ali perto, e foi naturalmente attraído! Como ceára e se sentia na amplitude beatifica de um homem bem avinhado, foi-se aproximando, sorrateiramente, com certo desdem!... Carregando o chapéu para os olhos, sentou-se junto dos jogadores, tomando n’aquillo um interesse puramente mental!... A este curioso, juntaram-se outros, attraídos por iguaes motivos, chegando-se todos á formiga, n’um desleixo simulado, sem apparencia de proposito difinido, com as mãos nos bolsos e o cigarro ao canto da bôca... E, quando a roda era já bastante compacta, um dos jogadores, sem dizer palavra e fundando-se de certo n’uma convenção anterior, atravessou o baralho no meio da mesa e, tirando mais dinheiro do bolso, contou nove corôas em prata! Depois, com outras cartas que tinha n’um bolso interno da sua jaqueta de alamares, principiou a baralhar demoradamente, lançando em volta um olhar firme e carregado! O companheiro, sem lhe dizer palavra, abriu um cinto que trazia afivelado sobre o estomago, mostrando-o cheio de libras, e tirou tres, que ajuntou ao dinheiro já contado, e disse com um modo esbanjador, n’uma voz imperiosa e rouca:
—São quatro sovranos de monte!
Os indiferentes, ao verem isto, sentaram-se logo nos bancos de pau, acotovelaram-se contra a mesa, olhando avidamente para as cartas e para o dinheiro! Ao longo de todos elles passou o calefrio das sensações poderosas e commoventes! O jogador, que se preparava para fazer as pagas, collocou sobre o baralho, atravessado na mesa, as tres libras em ouro, espalhou a prata diante de si, misturando-a com certo despreso e, carregando mais para os olhos o seu chapéu de abas largas disse de um modo vago:
—Eram precisas ahi quatro croaças em covre...
Então, um rapaz novo, sem barba, muito magro e amarello, com o tronco osseo apertado no seu fraque velho muito coçado nos cotovelos e lusidio nas costas, pegou nas quatro corôas, que o jogador lhe deu por cima do hombro. Com passo ligeiro e leve, dirigiu-se ao taberneiro, que estava medindo quartilhos, e pediu-lhe n’uma voz urgente, perturbada, com inflexões nervosas:
—Tio Domingos... Estas croaças em covre!...
Collocou-lh’as sobre o mostrador humido de vinho.
O tio Domingos, com o seu ar de borrachão pantagruelico, perguntou-lhe usurariamente interessado:
—Então elles hoje... ein Marquinhos?!
Marcos, amanuense do governo civil, respondeu com muita pressa, contente, encolhendo-se em si mesmo, passando n’um frenesi, o seu dinheiro de uma mão para a outra, n’um estado de impaciencia quasi sensual:
—Sim, senhor, vão fazer... São aquelles dois de Braga, o Barroso e o outro que eu não sei como dianho se chama...
—Timotheo... O Timotheo da Carcova... Quem diabo não conhece o Timotheo?!
—Sim, senhor, um nome assim arrevezado, o Timotheo... Mas ande depressa, tio Domingos!—pediu com insistencia, com a sua voz aflautada, de um timbre choroso.—De-me esse troco que estão á espera! O Barroso não se volta, emquanto lhe não levarem covre!
O taberneiro disse:
—Olha, vae-te Marquinhos, que eu levo já. Diz-lhe que eu levo já.
E depois de ter contado meticulosamente o dinheiro, escolhendo o mais falso, foi elle mesmo pôl-o sobre a mesa do jogo. As suas mãos plebeias e sujas íam cheias de patacos esverdeados, de uma côr venenosa, levando ao mesmo tempo, de baixo do braço direito, um pequeno mialheiro, que collocou em cima da mesa, dizendo n’uma voz chorosa e comica que fez rir:
—Aqui pr’ás bemditas almas!...
Esta pequena caixa de folha com uma fenda na tampa superior, era onde os jogadores teriam de deitar os baratos!
Só depois d’isto, quando em volta da mesa estavam muitos individuos com um olhar desvairado e o dinheiro apertado freneticamente na mão, á espera do momento de jogar, é que o Barroso tirou quatro cartas do baralho, collocando-as nos respectivos vertices dos angulos de um quadrilatero que traçara mentalmente... Em seguida, accendeu um cigarro, piscando os olhos com as fumaças e disse:
—Agora, meus homes, é metter-lh’o sem medo!...
Chegára o tetrico momento dos primeiros palpites! A expressão de todos os semblantes era mais viva e as respirações abrandaram-se momentaneamente. Duas vélas de cebo, em duas bogias de folha, espirravam sobre a mesa, alumiando, com fraca luz, aquelles rostos sugados! O fumo espesso e azul, o cheiro nauseabundo do peixe que se estava frigindo, envolviam o grupo dos jogadores, que se entendiam por uma linguagem breve. Os cigarros accesos, collocavam n’aquellas pelles escuras e nas barbas pretas, pontos incandescentes! E cá fóra, na loja humida da taberna, o ou-ou prolongado das vozes dos feirantes pedindo mais vinho e praguejando, continuava-se n’um unisono monotono e ondeante, de momento a momento cortado pela voz do banqueiro, o Timotheo da Corcova, que dizia com arrogancia, «jógo.»
Era quasi manhã, quando isto acabou. O Fogueira apontou durante toda a noite, de um modo accintoso, contra o Rio Tinto, e esteve sempre com uma sorte de burro! Fartou-se de ganhar dinheiro, os montes de corôas iam crescendo diante d’elle e já lhe atulhavam os bolsos. Todos os outros pontos, embirrados com isto, seguiam o partido do Rio Tinto, que estava sem sorte nenhuma, e perdiam com elle! Em virtude d’isto, quando eram cinco horas da manhã, estavam á lisa, achando-se o dinheiro no cinto do Fogueira que os tinha alimpado a todos!
Antes da meia noite, a taberna ficara vasia de gente, que tinha saído para a romaria, com fim de ver o fogo! Na rua passavam continuadamente descantes á viola. Os que perdiam ao jogo, o Rio Tinto, o Fanfarra e todos se indignavam pronunciando insultos e obscenidades contra os das esturdias... O Fogueira bem comprehendia que eram injurias contra elle, por lhes ganhar o dinheiro, e ria-se ás gargalhadas, fazendo chacota e guardando com escarneo os soberanos que os outros perdiam. Por fim, quando amanheceu, o Barroso e o Timotheo da Carcova, encontrando-se pela primeira vez, no seu dinheiro, depois de uma noite inteira de jogo, durante a qual houve um momento em que a banca perdia mais de vinte moedas, disseram com certo desafogo:
—Contra esta sorte não ha que fazer! Estamos desforros...
E levantaram a banca sendo já dia alto.
O Fogueira ganhava um bom par de moedas! Impiedoso e triumpante, principiou a contar ostentosamente o dinheiro diante de toda a gente. Batia as libras sobre a mesa, fingindo por troça, que desconfiava que ellas fossem falsas. Voltando-se para alguns dos que as tinham perdido perguntou com modo achincalhador:
—Os sobranos são bôs, ó rapazes? Vocês viriam para a feira com dinheiro falso?! Não vinham; porque haviam de ter medo ao demenistrador. O que alguns são é bem bonitos, de cavallinho. Hei de os guardar para lembrança d’esta noite.
Os que tinham perdido, conservavam-se n’uma indifferença fingida, mas hostil... Deitados por cima dos bancos, como dormindo, olhavam por baixo dos chapéus desabados. O Rio Tinto e o Fanfarra tinham uma expressão amarga e vingativa, affastados do Fogueira, fumando cigarros e olhando para elle com um rancor intrinseco! Nos seus rostos severos e contraídos reconhecia-se-lhes mais ferocidade do que tristeza!
No dia seguinte, o Antonio da Engracia, percorreu com a sua amante todo o campo da Agonia, onde era a feira. Sempre que estavam perto d’elle o Rio Tinto e o Fanfarra, que o olhavam de travez, com modo ameaçador e reservado, puchava por dinheiro com escarneo! N’esse dia satisfez á Marianna muito mais do que as suas exigencias de mulher vaidosa pediam! Comprou-lhe uns brincos caros e um par de argolas de cabacinhas, na barraca do Ferreira, um ourives do Porto. Nos mercadores mandou cortar um saiote vermelho do melhor panno e umas roupinhas chibantes. Comprou-lhe lenços de seda de furta-côres e chinellas de verniz! Quando pagava, affectava sempre gestos esbanjadores, que feriam os que o viam!... Porém, esta intenção mostrou-se com verdadeira dureza na feira do gado, onde principiou a examinar detidamente a melhor egua, para a comprar! Era um animal vistoso, pelo qual um gordo ecclesiastico minhoto pedia vinte e cinco moedas! O Fogueira chegou-se á egua, assentou-lhe duas palmadas na anca azevichada e fel-a estremecer. Puchou lhe, em seguida, pelo rabo, obrigando-a a estacar firmemente... Examinou-a nas mãos e nos pés até aos cascos, para ver se estava puchada. Observou-a na dentadura, levantando-lhe a cabeça e affastando-lhe os beiços polposos com o fim de lhe calcular a idade... Passou-lhe os dedos diante dos olhos, para lhe experimentar a vista... Finalmente, quiz-se mostrar um troquilha experimentado, para que o não enganassem outra vez!...
O ecclesiastico, dono da egua, seguia discretamente, com um sorriso gabosola e um olhar entendedor, o exame do Fogueira, fungando estrondosamente a sua pitada de meio grosso. O amante da Marianna Ripa, com a faixa vermelha apertada no ventre e o chapéu de abas largas inclinado para a nuca, perguntou-lhe em voz alta e com pronuncia insolente; pois sabia que era ouvido pelo Rio Tinto que o cocava de perto:
—Ó senhor padre! Ella é maluca?
O sacerdote, João Pitança, á pergunta inesperada, e cuja intensão e alcance não podia comprehender, respondeu com uma gargalhada sonoramente timbrada:
—Ah! ah! ah!... Maluca! Home essa! Ah! ah! ah!... Como diabo ha de ser maluca a melhor egua da feira?! Ah! ah! ah!... Só essa pergunta me faria chorar de riso! Se foi por chalaça que o dissestes, fizeste-me rir. Ah! Ah! Ah!...
Affastando-se da sobrinha—uma rica moça de bons seios e boas ancas!—que se conservou a distancia com o guarda sol pendente das mãos crusadas sobre o ventre, aproximou-se do animal, bateu-lhe confiadamente na anca e chibatou-a com a sua varinha de marmelleiro para ella dar reviravoltas...
—Ora maluca!—continuou. Que demonio de lembrança a tua! Leva-a a contento meu rapaz! Pagas-ma p’ra outra feira se quizeres!
O Fogueira respondeu-lhe n’um tom de chacota, sempre com o fim de offender o Rio Tinto, que o continuava a escutar n’uma desattenção simulada:
—Não, que ha por ahi muito quem queira enganar a gente vendendo burras malucas... Ha muito ladrão com cara de gente! O senhor abbade não faz idéa!
—Abbade, não—emendou o ecclesiastico. Um simples padre, meu rapaz, um simples padre. Mas quanto á egua pódel-a levar, que é trigo limpo. Não tem um argueiro, pódes ver á vontade—concluiu o sacerdote, com o seu ar de homem bem comido e bem bebido, assoando-se fortemente ao lenço de panninho que desdobrára completamente ao ar!
Mas o melhor era montal-a—observou. Montando-se acabavam todas as duvidas. Se o Fogueira queria ver, corria-a elle mesmo, padre João Pitança, ali n’aquelle campo da Agonia, que era bom para isso. Não pensasse o comprador que tinha n’isso a menor duvida. Ou então, se antes queria, o Fogueira que arranjasse um picador da sua confiança, e veria como a egua se vispava por ali fóra, que nem um corisco! O amante da Marianna Ripa gostou d’aquelle desembaraço do ecclesiastico, e com ar galhofeiro e atrevido de homem que tem o bolso bem cheio de soberanos, disse-lhe:
—Então monte lá v. s.ª primeiro. Tamem quero ver a sua perna.
O padre João não hesitou um momento. Apertou melhor a cilha á egua e as correias das suas esporas. Com a mão esquerda nas redeas, repuxou-as de certo modo, para o animal enfeitar a cabeça. Alisou-lhe as crinas, passou-lhe a mão direita na anca, metteu o pé esquerdo no estribo de pau e com um balanço de homem acostumado, caíu no selim de um modo firme e airoso, como um lanceiro! Em seguida, com o seu riso aberto, de camponez vaidoso, disse para os troquilhas que o observavam com interesse:
—Isto é fino meus homes!...
E esporeou com habilidade a egua, para a obrigar a algumas reviravoltas, que abriram um largo circulo no povo circumjacente. Depois deu a primeira envestida na carreira, só para obrigar o animal a parar de repente; mas voltou ao logar d’onde partira, dizendo para o Fogueira:
—É cousa boa, meu rapaz! Cá não se engana ninguem! Não sou d’essa gente, nem a quero na minha companhia—pronunciou com vaidade.
As abas do seu comprido casaco sacerdotal, caíam dos lados. Com as pernas firmes, calculadamente encostadas ao ventre da egua, conservava-a n’uma vaidosa impaciencia de partir. Carregou o seu chapéu de abas largas para lhe não voar com o vento e foi-se chegando a passo, para o sitio onde se devia correr. A cabeça do animal, firme e altiva denotava certa magestade e orgulho!... O padre João Pitança retesava-lhe com intelligencia as redeas, para a egua se enfeitar, e esperava o momento opportuno de estar bem desempedida a carreira... Depois, quando esse momento chegou, partiu n’um travado meudo e veloz, diante de centenares de espectadores, que o viram sumir-se por entre uma atmosphera de poeira dourada pelo sol poente, o que lhe dava, tanto a elle como á egua, um volume indiciso e esfumado! D’ali a poucos minutos voltou, a galope rasgado, e estacou firme e de repente, no mesmo ponto d’onde tinha partido! O Fogueira confessou accenando com a cabeça:
—Sim, senhor! Uma boa perna, senhor padre!
Outro feirante disse:
—E rica mão de redea!
O ecclesiastico surriu-se com satisfação. O troquilha montou tambem o animal e correu-o. Por fim concordaram no preço de vinte e tres moedas, que o Fogueira pagou logo.
Todas as circumstancias impelliam os maus figados do Rio Tinto para um rancoroso procedimento de vingança! A pisporrencia do Fogueira ao gastar dinheiro, a sorte de burro que tivera ao jogo, as suas provocações com palavras e com gargalhadas de chacota, faziam-lhe remoer as entranhas lá por dentro, dando-lhe certa gana de o abrir de meio a meio! Principiou a conhecer que lhe entrava na organisação um appetite infernal de se vingar do amante da Ripa! Conhecia, por uma reflexão interior, que a cabeça se lhe estava enchendo de idéas perversas!... O Fanfarra, logo que elle lhe disse que tinha vontade de ter uma aquella com o Fogueira, tomou abertamente o mesmo partido, e n’uma intimidade infame, urdiram um plano para se vingarem das desfeitas que tinham recebido durante o dia!
Poderiam sair-lhe ao encontro, dar-lhe uma grande coça, a ponto de o deixarem estendido sem sentidos no meio da estrada, e roubar-lhe o dinheiro que levasse, que ainda havia de ser um bom par de moedas. Podiam porque eram dois homens destimidos, não tinham escrupulos e, talvez, já não fosse a primeira que faziam!... Mas o peor era a Marianna Ripa, que de certo acompanharia o seu amante!... Era preciso desembaraçarem-se d’ella por qualquer fórma!... O Rio Tinto conhecia bem sua prima... Era uma rapariga desembaraçada, que tinha tanta coragem e resolução, como qualquer d’elles... Dizia-se que envenenara um padre, com quem estivera amancebada dois annos! O primo troquilha tanto não acreditava n’este boato, que tinha sido a melhor testemunha de defeza da rapariga, o que muito concorreu para a livrar da cadeia onde esteve oito mezes, por causa d’este negocio!...
—Já tu bês que a conheço muito bem, e que até ella tamem póde entrar na cousa—concluiu com pronuncia intelligente...
Por isto o Rio Tinto mesmo é que fallou á Marianna, que teve alguma difficuldade, alguns escrupulos em atraiçoar o seu amante. Mas elle e o Fanfarra logo lhe rebateram todas essas asneiras dizendo:
—Não sejas tola... Que tens a ganhar com isso!?... Elle deixa-te por ahi qualquer dia e ficas a chupar no dedo!...
Depois de batalharem algum tempo com ella, convenceram-n’a... Que diabo!... O Fanfarra e o Rio Tinto, a final de contas tinham rasão. Isto de amigos, quando menos se pensa, arrumam para o canto uma pobre rapariga, como se faz aos sócos velhos que não prestam. Ella bem tinha visto o que acontecera com outras... Homens... trazem ás vezes muitos trabalhos. Aquelles oito mezes de cadeia, por causa da morte do padre João de Pinho, tinham-lhe aberto muito os olhos. Estivera para ir por uma barra fóra e, em boa verdade, sem ter tido grande culpa... O resalgar que deitára na malga de caldo com que o padre tristemente se envenenára, não era para o matar a elle, que até era um raio de home de quem gostava; mas para dar cabo da Tonia Salgada, um pedaço de coira, por quem o ladrão andava baboso, esquecendo-a ingratamente a ella, que tanta borracheira lhe aturara, durante dois annos! Não tinha peso nenhum na consciencia por esta morte!... O ecclesiastico é que tinha pegado, por sua livre vontade, na malga destinada á Tonia... Marianna teria ido degredada, se não fosse seu primo, que jurou diante do senhor demenistrador, primeiro, e, depois, diante do senhor juiz, na casa d’este e no dia da audiencia «que na occasião da tal morte, a Marianna, estivera em casa d’elle a sedar linho até de noite e lá comera e dormira». Tambem o podia jurar sem receio; porque ninguem a tinha visto em todo esse dia, que passára escondida no palheiro do padre... á espera.
A Antonia Salgada já vivia de portas a dentro com o seu amigo, já lhe fazia a comida, chegando ao desaforo e á pouca vergonha de jantarem á mesma mesa, como dois casados!—distincção que a Ripa nunca recebera, nem nos seus melhores dias, da parte d’aquelle excommungado, que devia, por força, estar a arder no inferno! Marianna soube isto; porque os espreitára. N’esse instante desesperado, veio-lhe uma impulsiva idéa de vingança!—o coração deu-lhe um baque de justiça, um salto dentro do peito, como quem diz «dá cabo d’aquelle diabo de lesma!...» Pelo muito particular conhecimento que tinha da casa do ecclesiastico, sabia que, embrulhado n’um papel azul, entre livros guardados n’uma caixa de pinho, estava um pouco de veneno de ratos, que o sacerdote comprára na villa. Entrou um dia lá na casa, quando todos estavam para o campo, e tirou o papel azul... Depois estabeleceu o seu plano de desforra, que poz em pratica d’esta maneira: Escondeu-se, uma manhã cedo, antes do dia romper, no palheiro do padre João, que era paredes meias com a cosinha. Levou um naco de brôa e uma racha de bacalhau; porque contava passar lá o dia inteiro. Durante toda a manhã, divertiu-se, a observar a tronga da Antonia, andando no preparo do jantar, para o que até matou a melhor gallinha! Uma cousa assim!... era de morrer de riso! Se a quizessem ver, como se rebolava por aquella cosinha! Parecia a dona da casa, cantarolando o bemdito, as modas do Coração de Maria ensinadas pelos ultimos missionarios, e o Afasta janota, arreda... moda dos cegos que tinham estado na ultima romaria do Soccorro. Ai que raiva se lhe apoderou do coração! Não sabe como se conteve, que se lhe não atirou ali mesmo ao gasganete, fazendo-lhe deitar uma lingua de palmo!... Por fim, quando no relogio da igreja deram as onze, a bebeda tirou da caixa uma toalha lavada, estendeu-a na mesa, sempre cantando com voz esganiçada. Depois encheu duas malgas de caldo, poz a gallinha e o presunto n’uma torteira de barro e saíu para chamar senhor padre João o seu—rico senhor padre João!—que andava na horta, a regar...
Foi durante os minutos d’esta ausencia que Marianna saíu do seu esconderijo e deitou todo a resalgar na malga que presumia ser a da sua rival! Pouco depois chegou o sacerdote, de tamancos, correndo atraz da moça pela cosinha dentro, com muito estrondo! Ella, a delambida, a fingir que fugia cheia de medo!... Seguiu-se um momento soturno, em que gosou, no meio de uma angustia ciumenta, a sua proxima, cruel e decisiva vingança! Pois aquelle alma de damnado, ali mesmo nas suas barbas, não se vae pôr a andar atraz da moça, não a agarra pela cintura, dando-lhe beijos e abraços, não atira com ella ao chão, com relinchos de cavallo! N’este momento, Marianna, achou mais repugnante o padre do que a tronga! Emquanto durou esta expansibilidade animal do ecclesiastico, ella soffreu os finos acicates do ciume, morderam-n’a até ás entranhas. Sentia-se espoliada n’um beneficio que lhe pertencia! Em vez de ser a ella que o malvado dava todas aquellas provas de amor, via-se reduzida a espreitar por uma frincha da porta e a presenciar enertemente tudo aquillo, Santo Nome de Maria! Teve tentações de entrar na cosinha, pegar n’um machado que estava ao pé da lareira e dar com elle na cabeça de ambos! Um ladrão e uma desvergonhada d’aquellas! A Ripa sentia-se com animo de os abrir, a um e a outro, e de lhes trincar o coração!... Mas uma voz interior de contentamento e de saciedade, apregoava-lhe o seu proximo triumpho e aconselhava-a a conservar-se escondida, como estava!... Aquella molengona, que lhe roubava a felicidade, dentro em pouco sentiria horriveis dôres nas entranhas e havia de estorcer-se n’aquelle chão terreo da cosinha, como um demonio escorraçado pela agua benta!...
Depois, o padre e Antonia, foram para a mesa e o maldito troca de proposito as malgas só para dar a melhor,—a de pó de pedra, a que era d’elle e que nem ás visitas offerecia!—á lambisgoia, que a acceitou toda derretida! N’este momento caíu-lhe a alma aos pés! Teve um movimento expontaneo de amor, de generosidade ou de compaixão, e chegou a pôr a mão na caravelha, para lhe ir arrancar da mão o veneno! Todo o seu corpo estremeceu, desde as unhas dos pés até á raiz dos cabellos, quando o padre João disse para a Antonia com ar interrogativo e saboreando o caldo com estalidos gulosos de lingua.
—Ó moça, tu deitaste assucar no caldo!...
Ao que ella respondeu, toda chieira:
—É porque ó senhor, parece-lhe dôce tudo que eu façe.
Marianna perdeu parte da consciencia e da vontade, ficando aniquilada, entorpecida, desorientada, entre a idéa feroz de uma vingança justa e o remorso, ou receio, de um crime que seria descoberto e punido! Não teve resolução, nem desembaraço para nada! O ecclesiastico bebeu a malga quasi de uma assentada, depois de ter comido a gallinha, com duas enfusas de vinho rascante. A Ripa deixou-se caír desfallecida no chão terreo! O sacerdote, acabado o jantar, saíu para ir levar o Senhor a uma moribunda. A amasia, tambem foi acompanhar Nosso Pae!... Ficou ella, só, dentro d’aquella casa, entregue ao proprio cerebro! Um silencio tenebroso cercou-a n’este terrivel momento!... N’uma especie de spasmo e de embrutecimento cheio de medo, foi-se metter debaixo da palha, tapando os ouvidos para nada escutar!
Que medonhas horas ali passou, sob a impressão accusadora de todos os factos que n’esse dia a interessaram. Horas depois, d’ali mesmo, ella ouviu o alarido da freguezia, correndo em gritos a casa do ecclesiastico, quando, quatro homens de béca, o traziam pelos caminhos n’uma padiola, com a batina e o roquete todo rasgado! Tinha tido os primeiros engulhos do envenenamento, quando ministrava á moribunda a Extrema Uncção, cercado do respeito submisso dos fieis ajoelhados em volta! Depois, principiou a sentir-se mais afflicto, sentou-se sobre uma caixa com os santos oleos na mão, e, como as afflicções cresciam assustadoramente, suspendeu com intelligencia a applicação do sacramento! Nem escalda-pés, nem mesinhas receitadas pelo cirurgião Manco, poderam produzir o beneficio desejado e, mesmo assim vestido sacerdotalmente, os homens que tinham acompanhado o Santissimo o trouxeram n’uma padiola para casa e o poseram, sobre a cama, já sem falla! Os soluços, as ancias, os vomitos, os gritos de dor que elle ainda teve, até ao momento de morrer, eram uma eterna condemnação, para a negra alma peccadora de Marianna Ripa, que os ouvia, escondida debaixo da palha! Se tivesse comsigo uma navalha, durante aquelles instantes infernaes, tinha-a enterrado bem funda no proprio coração, para se punir! Tamanho era o seu arrependimento e a sua contricção, n’este momento unico, que desejou morrer ali mesmo de uma morte repentina, bem medonha e horrenda! Mas depois, alta noite, desapavorou-se mais, escutando as conversas vulgares do sachristão com os outros homens, que ficaram a vigiar o morto e conversavam, riam e escarravam alto, já muito bebados! Então saltou para os campos pelo postigo do palheiro e fugiu, indo refugiar-se em casa do Rio Tinto, a quem contou tudo, para se accusar. O primo serenou-a dizendo-lhe:
—Mas elles não te viram, não, rapariga?
—Não viram. Ninguem sabe que fui eu—respondeu soffocada.
—Então bem, não tenhas medo.
Mas a justiça sempre a prendeu, por simples desconfianças, fundadas em que foi encontrado no chão da cosinha do padre, um tamanco que lhe pertencia. Porém, como fôra creada na casa, facil foi explicar este achado... O Rio Tinto, com o seu sangue frio é que a livrou da justiça, jurando a pé junto, como um cavallo, que Marianna Ripa estivera todo o dia em casa d’elle a sedar linho! Nunca poderia esquecer este grande serviço que o primo lhe fizera! Sentia-se-lhe presa pela gratidão, e quando elle lhe pediu para não ir com o Fogueira prometteu-lh’o, promptificando-se ao mesmo tempo a saber ao certo o caminho que o troquilha seguiria de Vianna para casa. Mas ainda assim, deve dizer-se: impoz como condição, pediu muito ao Fanfarra e ao Rio Tinto, que o não matassem, que não fizessem mal ao rapaz. Disculpava-o: era um estouvado, um espanta lobos por acaso, mas tinha um bom coração—rapaz de franquezas, nada era d’elle, tudo dava! O Rio Tinto serenou-a: não o queria matar—sómente desejavam alivial-o da chelpa que lhe havia de fazer peso no cinto. Para que queria elle, um rapaz solteiro e sem filhos, tanto dinheiro, como o que lhe dera a mãe, da venda dos campos, e como o que lhes ganhára ao monte?! De mais a mais era um burro tão feliz, que até arranjára o sustituto p’rá tropa, por quinze moedas, quando, todo mundo, gente mais pobre, tinha dado vinte. É bem certo dizer-se que a agua corre sempre para o mar e que, quando se é feliz, é-se feliz a valer! Aquillo estava mesmo a pedir uma alma de Deus que lhe tirasse a chelpa!...
A rapariga concordou. Receberia tanto como elles, pelos esclarecimentos que obtivesse. Porém, insistiu, ainda uma vez, com afinco e honestidade, em que não o matariam, em que o haviam de deixar ir em paz, depois de lhe tirarem o que levasse no cinto!... O Fanfarra, porém com um rosto ingenuo e sério, observou:
—Isso lá, tamem... que não tire elle pela gente!... Quando lhe pedirem o milho que o ponha e que não bufe... Se assim quizer que vá com seiscentos diabos, que ninguem lhe quer a pelle para tambor.
O Rio Tinto observou sensatamente:
—Ah! elle vendo que são dois resolvidos, não se ha de ir pôr com aquellas... Olhem que isto de estar assim de noite, no meio de um caminho só, onde nem todos os santos lhe podem valer se quizer pimponices... faz respeito.
E convieram em que, se elle se quizesse fazer fino, lhe iriam aos untos, sem mais aquellanças. O melhor era elle deixar-se de asneiras; porque lhe tinham uma sêde... lá do fundo. O Rio Tinto confessou ao Fanfarra, quando não estava presente a Marianna Ripa, que com o Fogueira ainda desejava ajustar umas contas velhas e que talvez fosse esta a occasião... E com um sorriso medonho, de copo em punho, observou:
—Isso lá, se não dá os sobranos depressa, leva uma tapona real.
—Melamos-lhe aquelle coiro!—acrescentou o outro com intimativa.
Chegaram a combinar mais detalhadamente no modo como procederiam. Não ignoravam que o Fogueira era têso, mas tambem não lhe tinham medo. Eram dois. Bem armados, com as choupas dos seus páus argolados e com navalhas de ponta e mola, que sempre usaram trazer no bolso interior da jaqueta de briche, julgavam-se temiveis. No entanto, para não serem conhecidos, cobririam as caras barbadas com lenços esboracados no sitio dos olhos e da bôca e fallariam na voz tôrva dos salteadores das lendas! O caminho, depois dos esclarecimentos da Ripa, era mesmo a calhar, e o Rio Tinto conhecia-o perfeitamente. Por isso elle mesmo é que determinou o sitio em que poderiam esperar o Fogueira. Era uma encruzilhada, onde havia uns carvalhos que, nas noites sem luar, tinham o volume incomensuravel das sombras phantasticas e pavorosas! O amante da Marianna passaria ali pela meia noite, pouco menos... A escuridade, o sitio e a hora, concorriam para o effeito d’esta scena de romance theatral. Só faltava a capa, o sombréro e o bacamarte para ser um quadro de Goya!...
Os salteadores ensaiavam-se com antecedencia: sairiam de repente de entre os velhos troncos nodosos e, mandando fazer alto, diriam imponentemente com voz soturna: «Seu amigo, ponha ahi o que leva!» Se o desse por bem e logo, deixavam-n’o com os demonios; se quizesse fanfar tirar-lhe-íam o dinheiro á força e moer-lhe-íam o canastro. Disse-o claramente o Rio Tinto com o seu rancor de mau homem:
—Se bufa paga-mas todas juntas. Á gana que lhe tenho, ponho-o molle como uma bosteira de gado! O bocado maior, não se ha de ver!