AS LITTERATAS.

Paes de familia, hybridos caturras,

Escrevo para vós! Se tendes filhas

Com sestro massador de fazer versos,

Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Eu vejo serigaitas, mal lavadas

Do almiscar infantil de seus cueiros,

Fazerem relaçoens

c'os raios pallidos,

Da estrella matinal, do lago lympido,

Das auras ciciantes, e da aragem,

E d'outras semelhantes trampolinas,

Que vós não entendeis, nem eu, nem ellas.

Espevitam-se todas estas gaitas

Da musa melancolica das noutes.

Mal sabem onde tem a mão direita,

Não viram do nariz um palmo adiante,

E fallam de

paixoens intimas d'alma,

De crenças desbotadas, e de flores

Fanadas ao soprar da leda infancia.

Acaso comprehendeis, paes de familia,

Da nova geração destas piegas

A triste chiadeira que nos fazem?

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Não tendes uns fundilhos nas cilouras?

Não tendes roto o calcanhar da piuga?

Não tendes uma estriga, um fuso, e roca?

Mandai-as trabalhar; dai-lhe a sciencia

Precisa para o rol da roupa suja.

Se lhe virdes romance, ou essas cousas

Chamadas folhetins, sobre a

toilette

,

(A

toilette

, meu Deus! por causa d'ellas

Perverteu-se a dicção do nosso Barros!)

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas!

Quem é o parvo que espozar-se queira

Com litterata alambicada e chocha?

Sentada n'um sophá, sapho saloia,

Em languida postura requebrada,

Se eu visse a minha Antonia! ai que panasio,

Que revez de careca eu lhe pregava!

Paes de familia! não achaes bem triste

Entrar um cidadão em sua casa,

Cansado de lavrar o pão da vida,

E vêr sua mulher repotreada

Na othomana gentil, lendo romances?

Pobre marido quer fallar d'uns frangos

Que baratos comprou, e a litterata

Pergunta-lhe se leu

Kossuth e os hungaros

!

O parvo franze a testa aborrecido,

Procura entre os lençoes um refrigerio;

Mas, no excesso da dôr, rasga as cilouras,

E no mundo não tem mulher ou anjo

Que lh'as saiba coser!.. ai do mesquinho!

Onze horas já são. O bom do homem

Tres vezes já pediu café com leite,

Apertam-no negocios; mas em balde

Pediu com desespero o tardo almoço.

A litterata esposa inda ressona,

Pois vira despontar a estrella d'alva

Nos rubros arreboes dos horisontes,

E, inspirada, fizera quatro quadras,

Ardentes de ideal romantecismo.

«Café com leite!» brada em vão tres vezes,

O bode expiatorio dos romances...

«Café com leite» os eccos lhe respondem,

Que a Stael d'agua doce inda ressona!

Maridos imbecis! eu vos lamento!

A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo.

Madame Podestá dizem que ensina

Grammatica, rethorica, hidraulica,

Mecanica, gymnastica, estetica,

E chymica, e botanica, e plastica,

O arabe, o sanskrit, a geographia,

A prosodia, a syntaxe, industria e canones,

E muitas cousas mais, como th'rapeutica.

Será tudo mui bom; mas eu aposto

Que o remate de tantas luzes juntas

É capaz de fazer perfeitas tolas

As muitas que lá vão com seu Juizo!

Paes de familia! tendes filhas d'estas?

Dai-lhes p'ra baixo, como eu dou nas minhas!

Um pai eu conheci, que nunca soube

O seu nome escrever sem quatro asneiras,

E mandou ensinar francez á filha.

A filha conseguiu, passados annos,

Uma cousa fallar mui duvidosa

Que os francezes, talvez, diriam tartaro!

Mas seria francez, o caso é este:

Um dia estava o pai, e ella, e um outro

Janota almiscarado, conversando.

De improviso a menina a lingua solta

Em barbaros grasnidos que atarantam

A cabeça do velho. O «petimetre»

Responde em algarvia semelhante.

O pai, no centro delles, era um parvo

Gemendo sob o peso do ridiculo...

Mas lá vai o peor do caso infausto!

Ao dar da meia noute desse dia

Cumpria-se a promessa contratada

Na presença d'um pai, que bem podera

Embargos de terceiro inda intentar

Se fosse em portuguez organisada

A injusta petição do supplicante.

Pais de familia, vossas filhas fallam

Italiano, francez, gallego, ou turco?

Dai-lhes p'ra baixo como eu dou nas minhas.

UM JANTAR DE BAROENS.