INVOCAÇÃO.
Musa da sopa e do cosido, inspira-me!
Pandega musa, que sorris ao vate
Em môlho d'açafrão, e de tomate,
Um cego adorador... achaste em mim.
Transforma o estro meu em lombo assado,
Da minha inspiração faz um podim.
Tu filha dos baroens, musa do unto,
Nasceste na cosinha entre caçôlas;
Saudaram-te no berço alhos, cebôlas,
Do cominho tiveste uma ovação.
Depois, trajando gallas de toucinho,
Eu vi-te nas bochechas d'um barão.
Namorado de ti, fiz-te meiguices,
Por de traz d'um pirum, e tu de lá
Sorriste-me atravez da nedea pá
De vitella gentil, rica de arroz!
Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda
Aquella gorda pata... que te poz!
Tu fizeste de mim novo Claudio,
Inspiraste-me fé no rodavalho.
Traguei indigestoens, arrotos d'alho,
Bernardas
na barriga supportei.
Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto.
O teu auxilio, ó musa, não terei?!