I
Dentro e fóra illuminado
O palacio d'um barão,
Fulgurante representa
Um enorme lampião.
Jorram lympidas vidraças
Sobre as populosas praças
Ondas tremulas de luzes.
Vai lá dentro grande goso,
Nesse alcaçar radioso
Do barão dos Alcatruzes.
D'Alcatruzes é chamado,
Porque, sendo ainda moço,
Muitos baldes d'agua fresca
Dizem que tirou d'um poço.
Nenhum outro mais destreza
Revellou na ardua empreza.
De puchar acima um balde.
Um que seja tão robusto
Ha-de vir mui tarde e a custo,
Do concelho de Ramalde.
É barão; não vale a pena
Discutir-lhe os nobres feitos.
É barão dos Alcatruzes
Já tem pagos os direitos.
Inda é mais; pois além d'isto
É commendador de Christo
Com bastante indiscripção.
Mal diria Christo outr'ora,
Que seria posto agora
No peito d'um vendilhão!
E mais elle, que os tocava
Com terrivel azorrague!..
Mas os Judas vendem Christo,
Ponto é haver quem pague.
E o barão dos Alcatruzes
Neste seculo das luzes
Tambem fez de farizeu:
E, tambem, se é necessario,
Representa de Calvario,
Onde a cruz se suspendeu.