SCENA VI
JOÃO LOBO E D. ALBERTINA
D. Albertina
Já?! que tem elle?
João Lobo
Mandou-me sahir: quer estar só.
D. Albertina (com espanto)
Mandou-o sahir?!{226}
João Lobo
Terminantemente; mas com delicadeza.
D. Albertina
Então que vem a ser isto, meu Deus? O snr. Lobo suspeita que meu marido possa...
João Lobo
Possa o quê, minha senhora? Enlouquecer? é o que V. Ex.ª quer perguntar? Não ouso dizer-lhe as minhas suspeitas.
D. Albertina
Então é certo? O Francisco póde enlouquecer?!
João Lobo
Podemos todos enlouquecer, minha excellente amiga... Descance. O snr. Francisco Valladares está febril; não está doudo... Aquella febre tem o ardor d'uns infernos que{227} costumam accender-se n'uns corações perversissimos...
D. Albertina (atalhando-o)
O coração de meu marido é bom, snr. Lobo.
João Lobo
Não me entendeu, snr.ª D. Albertina... Seu marido desconfia da minha probidade.
D. Albertina
Como? desconfia?!
João Lobo
E da virtude de V. Ex.ª... desconfia tambem.
D. Albertina (tremula e anciada)
Não póde ser, não póde ser! (Faz menção de correr para a alcôva: o medico sustem-a com um gesto). {228}
João Lobo (a meia voz)
Repito-lhe que a fragil vida do snr. Valladares nos está aconselhando muitas cautelas. Escute-me serenamente. Eu suspeito que sua cunhada começou hontem a obra infame do descredito de V. Ex.ª Era preciso dar-lhe um cumplice: fui eu. Sua cunhada escolheu o homem competente, porque a sociedade me tem calumniado mil vezes para usar largamente do direito que eu lhe dei de me accusar uma vez com justiça. É sempre assim; excepto quando o vicioso ou a viciosa aprenderam as artes da hypocrisia depois que a primeira fragilidade lhes fez resvalar o pé e cahir com estrondo. O grande caso é cahir sem estrondo. Ora seu marido, minha nobre senhora, não me julga melhor nem peor do que sou julgado pelo restante da sociedade. Chamou-me, quando receou morrer; e hoje talvez preferisse a morte á fraqueza de me chamar... Eu, porém...{229}
D. Albertina (interrompendo-o)
Mas então é preciso que eu me defenda já, e na sua presença, snr. Lobo!..
João Lobo
Não, minha senhora. As commoções e luctas que necessariamente acompanhariam tal defeza, abririam a sepultura ao lado do leito do snr. Valladares. É cedo. Seu marido por emquanto apenas vê em V. Ex.ª o anjo, e em mim o tentador. (sorrindo) D'um pobre diabo (desculpe V. Ex.ª a phrase plebea); d'um pobre diabo tem querido a sociedade fazer um sugeito possuido das influencias satanicas dos Tenorios e dos Faustos. Não se impaciente, minha senhora. Olhe que não está sósinha. Quando mais opprimida sentir a sua innocente e nobilissima alma, imagine que vê sempre ao seu lado... a Providencia.
D. Albertina
Mas o meu silencio póde condemnar-me.{230}
João Lobo
Quando a interrogarem responda; mas não provoque altercações. Espere que seu marido se fortaleça; não queira V. Ex.ª curar uma alma enferma como a delle. Qualquer balsamo o irritará. E quando eu lhe disser que se vingue restaurando a sua dignidade, então será tempo de salvar o seu nome... e o meu. Não posso nem devo demorar-me. Adeus, minha senhora.
D. Albertina (apertando-lhe a mão muito affectuosamente)
Adeus, meu bom amigo... Não o desampare... (D. Albertina vae á porta da alcôva, escuta, e hesita; vae levantar o fêcho quando a porta se abre). {231}