Epilogo
Está ou não provado? etc., etc.
dez annos de degredo.
Ao ratoneiro que, talvez para matar a fome, levou cinco alqueires de milho, deu a lei—trinta dias de cadeia. Ao barbaças que arriscando a vida, de peito descoberto, roubou o relogio e as oitenta moedas, disse o Codigo penal: dez annos de degredo.
Ora, o milho e o dinheiro pertenciam a V. Ex.ª por indiscutivel direito de propriedade. A falta do primeiro originou um desequilibrio insignificante nas suas finanças, que foram gravemente perturbadas pela subtracção do segundo. V. Ex.ª teve de limitar as suas despezas diarias e não poude, n’aquelle anno, mandar seu filho para Coimbra, ou para o Collegio militar, porque faltaram os meios e não quiz contrahir emprestimos.
A lei, garantindo a propriedade do cidadão puniu severamente os individuos que prejudicaram V. Ex.ª
Neminem laede—era a formula de Kant na sua theoria sobre a Philosophia do Direito.
Lesaram V. Ex.ª e a lei puniu.
*
Comparemos os factos:
As vinte moedas representam o rendimento da quinta tal, em algures, que a V. Ex.ª pertence por um titulo de acquisição ou posse, legalmente reconhecido.
Os duzentos mil reis que V. Ex.ª gasta com as despezas da sua transferencia e os juros ou encargos de doze mil reis annuaes, serão retirados do rendimento da propriedade que V. Ex.ª comprou ao Estado com os dois contos da formatura, ou com os direitos de mercê e com o seu trabalho diario—compra de que possue o devido titulo que é um diploma, a patente, etc.
Associadas as idéas, comparados os factos, consideremos agora o barbaças e o marau transferidor.
Que differença póde haver entre o primeiro, que na Tomada de Barros reclamou, de bacamarte em punho, as vinte moedas, e o segundo que, desfechando o bacamarte da transferencia, a V. Ex.ª origina um prejuizo de duzentos mil reis?
De qualquer d’esses factos não resultou o mesmo desequilibrio nos elementos economicos da sua existencia?
Não significam elles o mesmo attentado contra direitos legalmente reconhecidos?
Não houve n’elles a mesma responsabilidade, a mesma premeditação, a mesma consciencia da illegalidade?
Eu de mim annuncio que só reconheço uma differença entre o João Brandão, o Papa-Assucar ou Zé do Telhado e quem quer que fosse que promoveu a transferencia do sr. Camisão, e quem quer que seja que promove as transferencias que, á puridade, por ahi se annunciam.
Essa differença é a seguinte:
João Brandão, Zé do Telhado e Papa-Assucar, na classe dos ladrões são ladrões honrados e dignos. Apresentam-se na estrada, de peito descoberto, fronte erguida, expondo a vida e arriscando a liberdade.
Os transferidores de cá são ladrões acanalhados, ratoneiros de feira, fadistas de café de lépes, traiçoeiros, covardes que se disfarçam com grandes capotes e se cozem ás paredes nas sombras da noite para, em qualquer encruzilhada, combinarem os meios de, impunemente, anavalharem o funccionario publico.
Se eu souber que no pinhal de Ganfey se acoita uma malta de larapios, e se tiver necessidade de lá passar á noite, a prudencia aconselha-me a levar um bom cacete, para quebrar o braço a um e pôr em fuga os outros.
Ora, dos transferidores é que eu não me posso livrar tão facilmente. Só saem quando os lampeões se apagam; só transitam por viellas, mysteriosos, impalpaveis, sumidos. Se, por acaso, d’algum suspeito e lhe arranco o capote para conhecer as feições, encontro uma cara conhecida que ainda ha trez horas me saudava e me sorria.
D’aqui a tres dias, silva a navalha nos ares.
*
No periodo de 1886 a 1890 instituiu-se n’esta villa o regime das transferencias que legaliza essas infamias, estabelecendo nos differentes partidos politicos a necessidade das represalias summarias, como as disposições do codigo de Lynch.
É preciso fazer sangue, para que os campos se definam—disse-me, ha annos, um Machiavel indigena. Apertei o casaco e segurei o relogio. É que na estrada da Velhacaria, a Politica da minha terra avizinhava-se já do pinhal da Azambuja em que hoje vivemos.
Para esta classe de scelerados—os transferidores—o Direito romano, as Ordenações e os Codigos nada estabelecem. Mas o Direito positivo funda-se no Direito natural e este tira os seus principios da consciencia humana, em face das leis da Razão e da Moral.
O legislador dá sempre ao magistrado a faculdade de ampliar, segundo os dictames da consciencia, ou de alterar, segundo os usos da terra, as disposições que estabeleceu para a repressão do facto criminoso e para a defeza de direitos adquiridos.
Em nossa consciencia, pela illegalidade das causas e pela importancia dos effeitos, o caso das quarenta moedas e o dos duzentos mil reis teem a mesma classificação: um roubo.
Quem rouba é ladrão; e para nivelar a condição criminosa e as responsabilidades do barbaças e do marau transferidor, egualmente perigosos na sociedade em que vivemos, apresento o seguinte additamento ao Codigo penal:
Artigo tantos:
Todo o homem de bem tem a liberdade de correr a pontapé pelas ruas de Valença, o sevandija que, directa ou indirectamente, influa em qualquer transferencia.
§ unico:
Fica revogada toda a legislação em contrario.
10-2-90.
Zinão.
XX
A questão ingleza
(NOTAS SOLTAS)
Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.
O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho Portugal.
Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz, Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros, enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!
Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.
*
N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.
Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de Londres—polo negativo—o ultimatum de Salisbury e tocou no coração da Patria.
Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.
E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás affrontas d’um villão.
Cartel de desafio não se manda a representantes de lords. Bright era quaker; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um portuguez.
*
A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta individualidade de lords a canalha servil da côrte ingleza.
Morra a Inglaterra! bradamos.
Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.
A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do high-life, nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no royal box de Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde impera, infrene, El-Rei Deboche.
Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel, dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.
Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente, de fome, tres a quatro mil pessoas.
Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton, Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson, Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.
Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização, e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o escarro do insulto e o estigma da maldicção.
Odio aos lords! deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles, os nossos espoliadores.
Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes transformam em sangrento açougue.
Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes do brothel—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, falling on one’s jaws[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.
N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a Pall Mall Gazette desvendou á imprensa europea ha, como actores, lords, só lords—os mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos personagens da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15 a 20 libras para as fresh-girls—virgo intacta—de 13 a 14 annos, que hoje são as 50:000 prostitutas—black army dos trottoirs londrinos.
São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a black-draught do narcotico.
São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma sensualidade bestial, constituiram a Slaughter-House contra os desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em Royal Companies ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de pick-pocket, chypram do mappa africano o oiro da Mashona.
Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de congressistas philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne humana.
O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas Martini-Henry com 300:000 cartuchos!
Odio, pois, aos lords!
Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz, quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres toesas.
São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a historia do caso Chire-Nyassa.
Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da graciosa rainha e imperatriz Victoria.
Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos por dia, e como a sua Ex.ᵐᵃ Consorte é de egual pobreza, com mais umas achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas quarenta libras por cada hora de cada dia.
Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição official, como diz o Albino, quando entra nas idéas e no coração da gente para dispôr os petardos das suas transcendentes, nebulosas e philosophicas reflexões sociaes.
Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da Royal Family, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota, socio commandita da firma commercial Samuel Scott and C.º e director da British South Africa Company, a quem uma Royal Charter concedeu, ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade conhecida: do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado.
Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos rapazinhos do telegrapho, as orgias de champagne, os boat-matches do Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta, ha poucos mezes, as finanças de His Lordship estavam por assim dizer: tem-te, não caias[59].
A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão os lords), organizadores da African Company, era tão importante que em Londres, o Times e o Standard, fazendo reclamo, annunciavam-na como: Empreza colossal. Todavia, as acções conservavam-se na baixa e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com aquelle negocio para pagar um little boy.
Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram, ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas. Salisbury levou rasca na assadura; contractou-se o patife Johnston, compraram-se por baixo preço todas as acções da South Company e no dia seguinte rebentou o ultimatum. Em vinte e quatro horas, cada acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e cincoenta mil libras.
God save the Queen! e vamos ás fresh-girls!
Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas ficaram no projecto d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu, talvez, aquelle caso da subscripção para o bucephalo[60], eu proponho o seguinte:
Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar nas viellas da Baixa duas duzias de ladies matrafonas, das mais abandalhadas e nojentas.
A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.
Matrafonas e grumetes, com seis barris de cachaça de 90°, serão envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de algumas milhas.
A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a isca para o Tamisa.
Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na Rapozeira com os seus botirões. O Braga tambem póde servir, porque tem habilidade para descobrir peixes.
O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro, espalha as tristezas com o Noticioso, ou com as latinhas do Cruz, e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe pica, puxa vagarosamente para terra.
A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe, Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho, Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no Minho e vem subindo pela margem direita até ao Pau-do-fio.
A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os paysanducos e toca a puxar.
Fóra da agua a isca, veremos logo, agarrados a ella, todos os lords da City: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.
O lord é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo d’agua, como se sabe.
Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.
Os lords devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.
Vem o Parádas com o bolo municipal e divide-o pelos borrachões.
Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja na Sexta.
Extincta, assim, a raça vil, a City fica deserta; e como a Hygiene recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do fashionable bairro uma sentina para uso diario.
Ao norte: Para damas.
Ao sul: Para homens.
Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:
Mr. Jacob Bright
e
Mr. Oswald Crawfurd.
2-3-90.
XXI
A manifestação dos artistas
Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com a minuciosidade espaventosa d’um programma de S. Telmo ou da Agonia.
Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os factos mais importantes na chronica valenciana.
A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella contra a rudeza da phrase com que verberei a fantochada de 14.
Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no, exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande rusga de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas arruaceiros, procissões intra e extra-muros, etc., abandonando deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.
Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte, do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos illustres patriotas, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece, sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve, comendo, bebendo e dormindo.
Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me, exclamarei tambem:
Viva a patria!
*
A Musica da Santa veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de Cafres.
É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem gaiteiro.
Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.
Este argumento defensor dos paus-tesos recorda-me as funcções luctuosas das antigas carpideiras, nas casas minhotas.
Morria o fidalgo.
Expunha-se o cadaver na sala nobre.
As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.
Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as cabeças chamuscadas dos condemnados.
Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.
As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros—berros, gritos, gemidos, suspiros.
Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos, reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os outros riem e choramos quando os outros choram[61].
Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.
Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem uteis: se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus...
Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e espumante verdasco.
Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.
O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o peito, muito esticado dentro da sua roupa preta perolada de agua benta, exhalando fragrancias de vinagre aromatico, de nariz para o ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias antes, tão pertinazmente lhes recusára.
Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em sonoros arrotos.
E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar dos primeiros oradores, pela hesitação dos mestres de cerimonia e pela presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga, honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.
*
Durante o trajecto do cortejo, a Musica tocou, por vezes, hymnos varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar tambem os outros: o da Carta e o do Rei.
O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.
Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias; e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar lenitivo.
O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.
Pelo anterior argumento devia ser excluido.
O ultimatum inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.
A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em 39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da Royal Charter que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique; a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem elle, Portugal será victima.
Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações, póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua independencia!
E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:
Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual, reconheceis que o passivo excede o activo—quando perante esse deficit encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis collocados depois, á ordem, no Roriz,—se um dia o Primeiro de Janeiro vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do Rei ou com o da Carta?
Pois as situações são as mesmas.
Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.
O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o futuro da Patria.
A noticia da fallencia é a noticia do ultimatum, com esta differença apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição d’um lord.
Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.
A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima melancholia que ao toque das trindades inunda a nossa alma com a toada longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].
Quem offender a Patria—offende-vos.
Quem a roubar—rouba-vos.
Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as esperanças do vosso futuro.
*
Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.
Não lhes faltará que fazer.
Ahi estão os paysanducos esperando a borga das eleições. Lá estão os de Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que figuram makololos e Serpa Pinto.
Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia, pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.
Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de hereditariedade chimpanzéca.
Distingui-vos d’elles!
*
Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos, onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase humilhante de ironia.
Não vos offendaes, pois, por eu declarar que estou intimamente convencido de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos lords nos pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande rusga de 14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de roubos, de direitos indiscutiveis, etc., etc.
Tirae-me do grupo promotor da fantochada umas tres ou quatro cabeças, e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados como nós, se paysanducos, se orangotangos.
Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde, procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis, portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.
Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares inferiores á vossa.
Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.
Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão, ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações dos outros.
*
Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28, mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei nutrir pela Assembléa Recreativa, se a opinião d’um homem que se ri dos que, n’outras espheras mais illustradas, fazem das luvas—uma coisa que o meu cocheiro usa—distinctivo irrefutavel de sentimentos dignos e cavalheirescos (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.
Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!
Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa, em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos dominios e a legalidade dos nossos direitos.
Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo, a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos lords.
Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.
E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria, poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso, triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!
Poderieis então gritar:
Viva a Patria!
que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós, responderia com toda a energia de minha alma:
Honra á Assembléa Recreativa!
XXII
Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador
Ex.ᵐᵒ Sr.
De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados, a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da Administração concelhia.
E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra, prenhes de estimados cavalheiros, de integerrimos magistrados, de robustos meninos e outras minhocas que o Noticioso inventa para enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.
Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do Tempo depois d’essa augusta solemnidade da posse, d’esse acto d’uma respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito existe ácerca do Senhor Administrador.
*
Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da Administração valenciana—desde a borralhada da Santa até ao exterminio da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman na tomada de Barros até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:
V. Ex.ª é o refugo dos administradores!
*
E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos juridicos, das suas faculdades administrativas?
Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.
V. Ex.ª é o refugo dos administradores, porque tem uma carta de bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as funcções do elevadissimo cargo de que está investido.
V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos unicos, de disposições transitorias, de subsidios, de cartas de lei, de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause, de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador, mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.
A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um espirito-santo a inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.
Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.
É o que succede com V. Ex.ª
V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil, dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar, aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.
Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.
Tem V. Ex.ª culpa d’isso?
Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.
*
Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais um anno, para trabalhos praticos na cadeira de Politica legal.
N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre outros, os seguintes problemas:
1.º
Empalmar uma eleição
No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios, escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.
O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição percebesse a fraude.
a) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas governamentaes.
b) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente opposicionistas.
c) Incluir na chamada e fazer substituir por mirones todos os mortos da freguezia.
d) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as listas dos contrarios.
e) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se considerar perdida.
f) Armar uma baralha na egreja; derrubar mezas, cadeiras, quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e fugir afinal com a urna.
g) Empalmar uma acta. (Para esta prova o examinando poderia consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.
2.º
Uma fala aos lavradores
Antes da eleição (modelo a):
Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia. Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente. Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus. Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço que é de amigo. Adeus.
Depois da eleição (modelo b):
—V. Ex.ª dá licença?
—Entre!!
—Louvado seja nosso...
—Que quer!?!
—Eu sou o Zé da Portella, aquelle...
—Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer.
3.º
Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica dos tecidos intestinaes.
A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:
a) Saber o preço dos carneiros, dos calhos, do vinho, das batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.
b) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma borracheira.
c) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na delicada operação do crystel.
d) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire repentinamente com a indigestão.
4.º
Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia, embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.
Modelo:
Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida. Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia.
5.º
Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo
a) F. (governamental) tem uma burra. Só paga decima quando fôr da opposição.
b) F. (gov.) tem um rendimento collectavel de reis 100$000. Reduz-se a 50$000.
c) F. (opposição) é professor e politico contrario. Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto.
d) F. (gov.) requer uma policia correccional contra X. Pedra nos autos.
e) F. (op.) é filho unico e amparo da familia. Intimado para em tres horas se apresentar á inspecção.
f) F. (gov.) é forte como um toiro e robusto como um Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico.
g) F. (gov.) é gallego e intrujão. Na gazeta do partido illustre correligionario e probo cidadão.
h) F. (op.) é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de estrada.
6.º
Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o rebanho dos camaristas.
Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada qualquer boi tresmalhado.
Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?
E resolveu-os?
Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam, ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a tensão das patifarias politicas.
V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.
Nem come os calhos dos abbades, nem é paysanduco, nem é provarei, nem deita foguetes.
Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra, o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.
V. Ex.ª não tem feitio para Administrador.
Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas, a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita, Tóne do Logar e Manel Cancella.
Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.
Disse da sua justiça.
V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.
Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor lareiro, metteu a colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto conselho de V. Ex.ª
V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: artigo tantos, paragrapho tal, etc.
Vae n’isto—o Tóne do Logar, home de representação e de lettras gordas na freguezia, chegou-se tambem ao rego da discussão, e metteu o bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.
V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.
Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e os tres cidadãos.
—Quanto é? perguntou Manel.
—Dezoito vintens! respondeu V. Ex.ª
Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava a quatro menos cinco, para quem se avençasse ao mez.
—Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho...
—Foram tres e não um! respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.
—Tres, meu senhor?
—Você não falou?
—E depois não falou outro?
—E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito.
Justissima era a reclamação.
Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a exactidão d’aquella operação arithmetica.
Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela, tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito, dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.
Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.
Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.
Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de Nemrod.
Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça, inoffensivamente mortiferos. Uma solida escopeta de carregar pela culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um box de quebrar dentes a cães e vinte exemplares do Noticioso para necessidades urgentes; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis, até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando, saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha, recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para coelho, para perdiz, para lobo: o Nilo, a Fuinha, o Gigante,—tó, Nero!—volta, Farrusca!
Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da sua ferocidade venatoria.
N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e vae poisar no arvoredo proximo.
A matilha amarrou.
V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar... desfecha e olha.
O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...
Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma coisa sobre o seu excellentissimo nariz.
A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de carrapuço vermelho e mãos nos bolsos, a distancia presenciava o caso:
—Oh que grande caçador de minhocas!
E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga de calhos, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia, nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario, nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o rapazito d’Arão:
—Oh que grande Administrador das duzias!
Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o
Zinão.
XXIII
Compadres e Comadres
Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.
Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo, diabo e carne.
Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas de Christello, bailes e comadres.
Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa, outro fóra de Portas, outro na Coroada.
Todos teem um caminho:—o namoro.
Todos teem um fim:—o casamento.
Epilogo egual para todos:—o conjugo vos do Magalhães e a Sr.ª Dona Maria do Hospital.
Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores, contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.
Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as comadres da Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de paterfamilias.
Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: São seis horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados... tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que eu espero cá fóra.
Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas. A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes, porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de sete leguas, como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir a todas as collinas, saltar por todas as planicies.
Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.
Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma, cuidadosamente atada com fita de seda azul.
Abrimos:
Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um cartão de visita:
Fulana de tal.
Desde aquelle momento, o bacillo virgula do matrimonio inficiona o nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á lua, fazemos versos, cantamos o choradinho e principiamos a cuidar nas roupas brancas.
Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos perdidos.
Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.
Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—a eleição dos compadres.
Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto, auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a instituição de tão perfidas solemnidades.
As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e longas vigilias.
Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e não pouco deploraveis acontecimentos.
No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.
Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da villa:—foi, e é um pelludo da aldéa; e a esta offensa responde a Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos, allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de Borralhos ou de Egyptos.
A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das comadres.
A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.
Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é—soirées na egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas pelo Cruz com agua do Christello.
Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.
O palmito aproxima o compadre da comadre: agradeço a V. Ex.ª—dou-lhe os meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e tal, etc.,—diz elle.
—Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr como se porta—diz ella.
Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do parentesco.
Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.
A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho esquerdo...
Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—sou eu!—faz favor?—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita, oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.
No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.
Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de seios, um suspiro, dois suspiros.
Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.
Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a comadre na egreja.
Quando abre o livro das orações, já não atina com o Padre-Nosso nem com a Ave-Maria. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres seguintes:
Minha senhora.
Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem, ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia
até á morte
V.
Durante as licções, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu macarronico, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.
Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre. Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe, segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu. Fica combinado o gargarejo.
—Amo-te—boas noites—até amanhã.
Domingo de Paschoa.
Baile na Assembléa.
A comadre, quando alguem a pede para dançar de roda, está sempre compromettida. Só dança com o compadre.
Compadre escolhe os melhores doces para a comadre; rodeia de attenções a Mamã da dita comadre; entretem o cavaco com o Papá da dita comadre; é vis-à-vis do Mano da dita comadre.
As amigas da comadre, quando o compadre está em pé, arranjam-lhe logo um logar ao pé da comadre.
—Comadrinha vae, compadrinho vem.
No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru, as caçarolas, as panellas.
Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.
Um pedido—um sim, Papá!—uma lagrima da Mamã—um ai! e um fanico.
Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e segreda-nos ao ouvido:
forte lôrpa!
Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras, são elles que reclamam a eleição.
Cada palmito que sai de casa é um anzol.
Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a coca ou o botirão.
Gentis senhoras da Coroada!
Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava a Creta.
Por piedade, senhoras!
Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, paterfamilias de cache-nez, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.
D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós, vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem escapar á magia dos vossos palmitos.
Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.
Transijamos, pois, gentis damas:
Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.
Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio dia, em frente das Alminhas, com os respectivos bahus de roupa branca: camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.
Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos negociantes, na distribuição da decima.
Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... palmitos.
Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...
E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me prendeu foi a vossa eleição.
Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.
Em nome da mocidade, protesto contra a
eleição das comadres!
XXIV
Ultimas palavras
Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.
Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos, musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e de decadencia.
Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se e apodreceu na enxurrada das sargetas.
Paris ri; e Londres, embrutecida com o gin, com as fresh-girls e com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao facalhão de Jack, ou escouceia no match-box do Pelican Club, em que dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da pataqueirice réles da viella e que nas altas espheras do High-life, em Leicester Square, no Regent’s Park ou no Covent Garden se intitula pomposamente—um lord!
Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação entre o volume cerebral e a intelligencia.
O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou menor desenvolvimento intellectual.
Ora, o que é o cerebro?
É a parte pensante do organismo.
N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?
Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto menos culta.
E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de filhos, e tão, que não mais, distinctos.
Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações, transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.
O titulo de burgo podre, com que realmente este concelho é mencionado em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do grilheta e do forçado.
Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa encha a pança e o pé de meia.
Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os pataqueiros destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os toiros no curro de S. Bento.
Esta é a nossa triste condição.
Ha seis ou oito annos que n’este burgo podre se manifestaram uns debeis symptomas de vigorização politica. Regosijei.
Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e o pontapé do gajo que a levara pela trela do voto.
Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica, mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e caricias de cadella aluada.
Anichou-se por ahi, comendo á tripa-forra e passando o tempo ao sol, de barriga para o ar e carcela desapertada.
Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas com pus.
Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.
Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.
Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.
Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.
Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.
Está no chôco novo deputado...
Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.
A rua de S. João torce o nariz...
Esta rua de S. João representa os mesmos chimpanzés que, em tempos, rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr. dr. José Vieira para medico da Camara.
Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana, aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome provocou nos centros.
Arrufos, gréves, amuos, etc.
Diz V. Ex.ª que o Zinão é politico e má-lingua.
Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª que faça melhor conceito do meu caracter.
Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da boa-lingua e da fidelidade dos seus pseudo-partidarios, do que da critica zinoica.
Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus amigos... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja proveitoso.
Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para novo volume de Sinapismos.
Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos, existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de rins—dos nossos politiqueiros.
Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.
Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa, finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve ser qualquer dos seus filhos.
Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de borralhadas da Santa,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de
burgo podre!
Eis o que para Valença deseja o má-lingua do
Zinão.