A CEIA DE TIBERIO
Ao dr. J. Frederico Laranjo
Opulento é o festim: em todo o vasto imperio
Outro não houve egual. Caprêa a dissoluta,
O retiro de amôr do perfido Tiberio,
Illuminada ri. Ao longe Roma escuta
O confuso rumôr da tenebrosa orgia:
Assim geme, assim ronca o mar em funda gruta.
Fascina, attrae, seduz, e os olhos extasia
A imperial vivenda: a sala é deslumbrante:
Ouro e gêmmas sem fim confundem-se á porfia.
Das lampadas rebrilha o lume coruscante;
Nos triclinios esplende a purpura escarlata,
A fina tartaruga e o sandalo odorante.
Aos angulos da sala, em primorosa prata,
Erotico esculptor grupos fundiu lascivos,
Em cujos membros nús Volupia se retrata.
Resaltam da parede os satyros esquivos
Sob o pampano alegre: as nymphas, em corêas,
Dançam na riba, em flôr, de arroios fugitivos.
Em marmórea piscina enroscam-se as murêas,
Dos patricios de Roma o pabulo dilecto,
Vezes sem conto, escravo, ali rompeste as veias!
Pendem verdes festões do primoroso tecto,
Pyrrheico ali pintára um matagal folhudo,
E um lago crystallino, encantador, discreto.
Diana ao sol enxuga as tranças de veludo,
Acteon espreita ancioso, e, ó rapida alegria!
Aos poucos se transforma em cervo ramalhudo.
Em Miléto foi tincta a azul tapeçaria,
Que nas mesas se extende e nos mosaicos dorme;
Dos velarios se escôa o arôma que inebria.
A festa é no pendor: num áureo prato informe
Eis que entra um javali, formosas gaditanas
Dançam em derredor. Ulula a grita enorme.
Jorra o vinho de Kós purpureas espadanas;
Dos convivas na fronte enlaça-se a verbena,
Preludiam no emtanto as frautas sicilianas.
Adoudada suspira uma canção obscena:
Fervem beijos no ar, os seios pulam, crescem
E desnudam-se á luz, Tiberio assim o ordena.
As matronas, ao vêr o duro gesto, obedecem,
E lá passam gentis, deslisam mansamente
Dos marmores á flôr; são nuas, endoudecem!
Um retiario nervudo, e um gladiador valente
Combatem, são leões; o pallido vencido
Mistura o sangue rubro ao vinho rescendente.
Ora Tiberio ri... Mas subito um gemido
Longo e triste chorou nos paços de Caprêa...
Indagam: talvez fosse o gladiador ferido...
Nesse instante Jesus morria na Judeia!