A NEGRA


Ao dr. A. A. da Fonseca Pinto

Teus olhos, ó robusta creatura,

Ó filha tropical!

Relembram os pavôres de uma escura

Floresta virginal.

És negra sim, mas que formosos dentes,

Que perolas sem par

Eu vejo e admiro em rubidos crescentes

Se te escuto fallar!

Teu corpo é forte, elastico, nervoso.

Que doce a ondulação

Do teu andar, que lembra o andar gracioso

Das onças do sertão!

As languidas sinhás, gentis, mimosas,

Desprezam tua côr,

Mas invejam-te as formas gloriosas

E o olhar provocadôr.

Mas andas triste, inquieta e distrahida;

Foges dos cafesaes,

E no escuro das mattas, escondida,

Soltas magoados ais...

Nas esteiras, á noite, o corpo estiras

E, com ancias sem fim,

Levas aos seios nús, beijas e aspiras

Um candido jasmim...

Amas a lua que embranquece os mattos,

Ó negra jurity!

A flôr da laranjeira, e os niveos cáctos

E tens horrôr de ti!...

Amas tudo o que lembre o branco, o rosto

Que viste por teu mal,

Um dia que sahias, ao sol pôsto,

De um verde taquaral...