NUNCA EU TE LÊSSE, BALLADA!
Suspende a dura sentença
Que de teus labios ouvi.
E ergue do chão os quebrados
Teus negros olhos magoados,
Quando me acerco de ti.
Ergueste-os, encantadôra!
Mas antes do teu perdão,
Attende-me, e ouve, senhora,
Com todo o teu coração.
Escuta:
«A um rei namorado
«Sincera e fiel amante,
«Ao morrer, tinha deixado,
«De antigo affecto em penhor,
«Cinzelada taça de ouro
«Do mais subido valor.
«O rei preferia a tudo
«Aquella doce lembrança
«Que lhe trazia os arômas
«De umas fluctuantes cômas,
«E de uns labios de veludo,
«Que elle beijára em creança.
«Toda a vez que elle bebia
«Por esse vaso sagrado,
«Uma extatica alegria
«Como flôr ideal sorria
«No seu turvo olhar cançado.
«Um dia sentiu-se o pobre
«Mais triste, velho e abatido,
«Abraçou-se commovido
«Á taça, o tremulo amante:
«E as lagrimas, uma a uma,
«eslisaram nesse instante
«Nos rudes flócos de espuma
«Da longa barba fluctuante.
quella hora de agonia,
«Chamou seus filhos e herdeiro,
«Deu-lhes tudo o que possuia,
«Ouro, palacios, riquezas,
«O seu castello roqueiro,
«E as suas largas devezas.
«Dividiu tudo, contente;
«A taça guardou sómente.
«Sentindo fugir-lhe a vida,
«Manda o triste convidar
«Seus pares, filhos e herdeiro
«Para um festim derradeiro
«No castello sobranceiro
«Ás verdes aguas do mar...
«Em meio da festa, o velho
«Ergueu a taça e, sorrindo,
«Embebido o olhar no infindo,
«Um frouxo canto soltou...
«E mal o canto findára,
«No leito da onda amara
«A taça de ouro lançou...»
Eram profundos ciumes
Os d'esse rei namorado,
Que não fosse alguem beber
Por esse vaso sagrado,
E viesse a conhecer
Os cariciosos perfumes
Que o tinham embriagado...
Hontem, á tarde, beijando-a
De teu labio a viva rosa,
Lembrou-me a historia singela
D'essa ballada amorosa;
E dentro em mim de repente
Tam extranha dôr senti,
Que num impeto demente
De teu labio humido e ardente
Com tôrvo aspecto fugi!
Lembrou-me, cabeça louca!
Que se eu acaso morresse,
Talvez um outro sorvesse
Os beijos da tua bôcca...
E no azul indefinido,
Ó minha piedosa anémona!
Cuidei ouvir o gemido
Da moribunda Desdemona...
Ai, desavisado amôr!
Perdôa, sombra adorada!
Nunca eu te avistasse, flôr!
Nunca eu te lêsse, ballada!