A VIUVA


Á Senhora D. Margarida Street

Fóra de portas vive. É silenciosa

A modesta vivenda em que ella habita,
Ali correu-lhe a vida bonançosa,
Ali golpeou-lhe os seios a desdíta.

Raro de quando em quando uma visita

Novas lhe traz da vida tumultuosa,
E ella sorrindo a furto, descuidosa,
No azul os olhos em silencio fita.

Sósinha e triste a pallida viuva,

Por essas noites de invernia e chuva,
A um honesto e feminil labor se entrega.

E, alta noite, levanta, em dôr sepulta,

O olhar, que fixa, e demorado prega
No eterno Ausente que num quadro avulta.