EM CAMINHO DA GUILHOTINA


Á Senhora Condessa de Sabugoza

A viuva Capet vae ser guilhotinada.

Ora naquelle dia o povo de Pariz
Formidavel, brutal, colerico, feliz,
Erguera-se ao primeiro alvôr da madrugada.

No caminho traçado ao funebre cortejo

O povo redemoinha;

Que todos sentem n'alma o tragico desejo
De ver como Sansão degolla uma rainha.

Da carreta em redor ondeiam os soldados;

De cima dos telhados

Da rua, dos portaes, dos muros, dos balcões
Chovem sobre a rainha as vis imprecações.

Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa

Olha tranquillamente

Para o revolto mar da plebe tumultuosa.

E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo

Anceia por ouvir o grito convulsivo

E o derradeiro arranco

D'essa mulher, e ri abominavelmente,
Um homem só, o algoz, vae triste e reverente.

Póde nascer ao pé da forca um lirio branco.

A carreta parou. Desce a rainha. Nisto

Viram-se uns braços nús

Erguerem para o ar, á flôr da multidão,
Uma loura creança, alegre como a luz,

Suave como o Christo,

A quem talvez faltando em casa a enxerga e o pão,
A mãe quizera dar aquella distracção.

No primeiro degráu da escura guilhotina

A rainha de França

Ergueu o olhar e viu essa gentil creança
Levar a mão á flôr da bôcca pequenina,
E atirar-lhe, a sorrir, um beijo doce e honesto...

E ella que fôra audaz, heroica e resoluta,

E ouvira, com desdem, da plebe a injuria bruta,
Ante a esmola infantil, graciosa, d'esse gesto,
Chorou.

«Chorou, emfim! A infame succumbiu!»

De entre o povo uma voz selvatica rugiu.