V
Pozeram-te no rôsto o aéreo véu nupcial.
Bem sei que te perdi, mas não te quero mal.
Brilham do teu collar as pedras luminosas,
Mas no teu coração que noites luctuosas!
Em sonhos eu desci, ó misera mulher,
Ás sombras da tua alma, e vi-te o padecer...
Bem sei que te perdi, ó minha doce amada,
Mas não te quero mal, és muito desgraçada
[VI]
Sei-o; a tua vida é sem ventura,
É-nos commum esta funérea sorte.
Cáe sobre nós a mesma noite escura,
E isto não finda sem que chegue a morte.
Se vejo nesse olhar um rir travêsso,
E em teu labio a insolencia costumada,
E o orgulho inflar teu coração... padeço,
E murmuro: «és como eu, tam desgraçada!»
Bem sei que ris, mas o teu labio treme:
Nos teus olhos azues o pranto brilha:
Tens orgulho, e essa voz suspira e geme...
Como nós somos desgraçados, filha!