XVI
Eu não posso esquecer, perdão, minha senhora,
—Estes laços de amôr custam a desatar—
Eu não posso esquecer, ó minha doce aurora,
Que subjuguei teu corpo e essa alma singular...
Teu corpo, ai! o teu corpo esbelto, moço e branco,
Já foi meu, já foi meu... mas neste instante, flôr,
Da tua alma prescindo, e escuta, serei franco,
Basta-me a que possuo, ah! basta, meu amôr!
Se um dia succeder, que esse teu seio trema
De novo juncto ao meu, hei-de insuflar-te, doudo,
Metade da minha alma, e então, gloria suprema!
De ambos nós, meu amôr, faremos um só todo...
[XVII]
É domingo: o burguez deixa os asphaltos,
Dando o braço á burgueza;
Procura o campo, e, ao vêl-o, exclama aos saltos:
«Ó filha, que lindeza!»
E pasma do verdôr febril, romantico,
Da múrmura floresta;
E a sua longa orelha absorve o cantico
Da passarada em festa.
Eu que não saio, escondo a gelosia
Com negros cortinados,
E recebo a visita, em pleno dia,
Dos espectros amados.
E aquelle Amôr que eu vi morrer outrora.
No meu quarto apparece!
Senta-se ao pé de mim, beija-me e chora,
E treme e desfallece!