Scena VII.
D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez.
Ign. Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!.. Da tua voz medonha horriveis écos Inda nestas abobadas retumbão; De furor suffocado, o rosto em fogo, Affonso espavorido, a longos brados Chama pelos atrozes Conselheiros: Certamente, faltando-lhe ao respeito, Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?
Ped. Menos inda talvez do que devia. Não te importe o que fiz, faze o que digo. As furias não receies do tyranno; Vai subito buscar os tenros filhos, E dispõe-te a seguir-me.
Ign. .................. Como!.. Aonde?..
Ped. Deixamos estes sitios, onde imperão A discordia, a injustiça, a iniquidade. Evitemos o extremo dos horrores: Acompanha-me, Esposa, se não queres Ver-me inda parricida.
Sanc. ............... Oh Ceos!
Ign. ........................ Que insania? Ah! Que dizes? Que intentas?
Ped. ...................... Defender-te, E possuir-te em paz; poupar-me ao crime. A tua vida, Ignez, ameaçar ousão; Affonso pertendia encarcerar-me, Talvez para ordenar o teu supplicio: Atreveo-se a dizer-mo: he necessario Fugir-lhe; ou repellir com braço armado Seus barbaros designios: eia, vamos, Não te demores mais.
Ign. .............. Eu desfaleço!... Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?
Ped. Se necessario for, ao fim do Mundo: A meu lado segura, em qualquer parte Seremos venturosos; ermas grutas, Morada simples de prazeres puros, Mais gratas nos serão que aureos Palacios, Habitação fatal dos males todos.
Ign. Que me propões, Senhor! A voz me falta...
Sanc. Ah, Principe! Contempla o precipicio Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas. Responsavel por ti...
Ped.. .............. A nada attendo.(26) Podes tombem, querendo, acompanhar-nos. Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto Tens conhecido assaz o ar pestilente, Que nas Côrtes costuma respirar-se, Halito venenoso, que derramão A traidora lisonja, a fraude, a intriga, Que em torno aos Solios quasi sempre girão. Longe de tanto horror, ah, vem ao menos Gozar em paz o resto de teus dias.
(26) Para D. Sancho.
Sanc. Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro! Ah! Querias que proximo ao sepulchro Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido Da tua educação (funesto emprego) Por elle mesmo fui, socio seria Em teus crimes, soffrendo que infringisses Teu dever!...
Ped. ....... Qual dever? Fúteis chimeras! O primeiro dever he ser ditoso, He seguir d'alma o natural instincto. Vamos, querida Ignez.
Ign. ............... Oh Deos! Que trance! Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas? Teu nome, tua gloria offuscar queres? Seria a triste Ignez tão desgraçada, Que, origem de teus crimes, tolerasse A infamia de te ver por seu respeito A Patria abandonar, e o Throno excelso?.. Ah, que diria o Mundo...
Ped. .................. Que diria? Que o esplendor do Solio não deslumbra Huma alma como a minha. Eu nada perco Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa; Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.
Ign. E pode ser feliz quem atropella Da sociedade as leis, do sangue as vozes? Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos; Obedece ao teu Rei: jámais esperes, Que eu approve, ou consinta os teus delirios: Nem te deixo partir, nem te acompanho... Eu não quero roubar a hum Pai seu Filho, Nem tolher a ventura aos Lusitanos, Privando-os do melhor dos seus Monarchas. Se os meus rogos...
Ped. ............. Teus rogos são inuteis: Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?.. Ah, não vês nestes sitios horrorosos Girar em torno a nós a morte, e os crimes!
Ign. He para os evitar que eu te não sigo. A honra, a gloria valem mais que a vida. Entre os crimes, e a morte, a morte escolho. Mas ah! porque tão proxima a divisas? Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras: Sabe elle já que em vinculo sagrado...
Ped. Tudo lhe revelei: mas o tyranno, Fingindo não poder acreditar-me, Orgulhoso, tenaz em seu capricho, Ameaçou-me... que horror! com teu supplicio; E, para a seu sabor poder julgar-te, Em segura prizão manda encerrar-me No proximo Castello. He pois forçoso...
Ign. Obedecer-lhe, sim.
Ped. ................. Obedecer-lhe?..
Ign. Indispensavel he, vai, caro Esposo; Submisso aos Paternaes Regios preceitos, Eu to rogo, Senhor, á prizão corre. Outro meio não tens para salvar-me; Nem eu por outro meio a vida quero: Outra vez to asseguro, eu não te sigo; Jámais conseguirás...
Ped. ............... Basta: não queres Estes sitios deixar? Queres ver nelles Derramados por mim rios de sangue?.. De huma austera virtude enthusiasmado Ao parricidio, em fim, queres forçar-me? Pois bem, a perpetra-lo estou disposto. Eu vou, sim, eu vou já...
Ign. ................... Cruel; detem-te: Meus gemidos, meu pranto já não podem Mover-te o coração, domar-te as furias? Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?
Ped. Não te cances, debalde são agora Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos: Este dia horroroso he consagrado Á desesperação, ao crime, á morte. Inflammado em meu peito, só com sangue Das furias o tição pode apagar-se. Impedir ninguem pode, nem tu mesma, Os golpes espantosos, que o meu braço Vai já descarregar.
Ign. ............. Por mim começa: Rasga-me o coração, da Esposa o sangue Seja o primeiro sangue que derrames; E se elle não bastar a saciar-te, Aos sacrilegios todos te arremeça... Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos. És tu? Não, tu não és o meu Esposo; O meu Esposo detestava os crimes: Eu amava hum Consorte virtuoso; Virtudes já não tens, já te não amo. Vai, monstro sanguinario... Mas que disse? Eu deixar de te amar? Não me acredites: O terno coração desmente as vozes, Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada, Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27) Abatida a teus pés, co'elles me abraço... Ou tu has de ceder aos meus lamentos, Ou ver-me aqui morrer, e aos pés calcar-me.
(27) Prostra-se, e abraça-se com os pés de D. Pedro.
Ped. Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)
(28) Enternecido, querendo levantar D. Ignez.
Ign. ......................... Eu não te deixo, Daqui me não levanto, sem primeiro De tua alma banir as negras furias; Sem que tu me promettas obediente Ir subito cumprir as Regias ordens. Ah! se tu amas inda as minhas preces, Não has de resistir...
Ped. ................ Nem já resisto.(29) Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!.. Para a prizão já parto.(30) Amigo, vamos.(31) Poderás duvidar inda do imperio Que em meu coração tens?
(29) Levanta D. Ignez.
(30) A D. Sancho.
(31) Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura.
Ign. .................. Oh Deos! Conforto!(32) Não me retalhes mais o peito afflicto.(33) Á trémula razão ceda a ternura; Não te demores mais...
(32) Voltando-se ternissimamente.
(33) Affectando tranquillidade.
Ped. ................ Mas tu...
Ign. ......................... Socega; Nada temas por mim: o Ceo me inspira Os meios de abrandar de Affonso as iras. Irei c'os filhos a seus pés prostrar-me: Ninguem resiste á voz da natureza: Por mais duro que seja o seu caracter, Se tem hum coração, ao ver os Netos Abraçados em mim, chorar comigo, Não poderá deixar de commover-se, De perdoar-me em fim; nada receies. Adeos, Esposo, adeos.(34)
(34) Muito a seu pezar precipitadamente se retira.
Ped. ............... Ceos! que supplicio!