NOTAS DE RODAPÉ:

[326] Manoel Severim de Faria Notic. de Portug. disc. 4. §. 2.

[327] Idem ibid Far. Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. 11. Argot. Memor. do Arcebisp. de Brag. tom. 3. no Supplem. ao liv. 4. pag. LVII. Sousa na Histor. Geneal. tom. 4. p. 107.

[328] Argot. ut supr. pag. LX. Monarq. Lusit. l. 6. c. 19. 21. e 22.

[329] Chronic. delRey D. Fernand. cap. 58.

[330] Fr. Anton. da Purificaç. Chronic. de S. Agost. part. 2 liv. 7. tit. 6. §. 6.

[331] Monarq. Lusitan. liv. 10. cap. 7.

[332] Sever. de Far. Notic. de Portug. disc. 4. § 27. Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. tom. 1. p. 2. cap. 20. Far. na Europ. Port. tom. 3 part. 4. cap. 11. n 10.

[333] Brandaõ na Monarq. Lusit. liv. 19. cap. 23. part. 6. Maced. Eva, c Ave part. 2. cap. 15. n. 27.

[334] Fr. Anton. da Purific. allegad. e o illustr. Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. allegad. Ordenaç. delRey D. Man. liv. 4. tit. 1.

[335] Far. na Europ. Port. tom. 3. part. 4. cap. II. n. 12.

[336] Cunha na Histor. Eccles. de Lisb. tom. 1. part. 2. cap. 20 n. 10.

[337] Cunha, Histor. Eccl. de Lisb. part. 2. cap. 20. n. 13.

[338] Fr. Manoel dos Sant. Histor. Sebast. p. 488.

[339] Barbos, Remiss. à Ord. tit. 21. liv. 4. p. 30.

[340] Manoel Severim de Far. Notic. de Portug. disc. 4. §. 29.

[341] Monarq. Lusit. p. 3. in Append. n. 16.

[342] Purific. Chronic. de S. Agost. allegada.

[343] Aldret. no Thesouro da lingua Castelh. vide etiam Bochart. in Geograf. Sacra no principio da sua vida.

[344] Far. no Comm. das Lusiad. de Cam. cant. 1. p. 115.

CAPITULO XIII.
Da Lingua Portugueza.

1 A primeira lingua, que se fallou em Portugal, foy a que communicou Tubal aos Turdulos, primeiros habitadores de Lisboa, os quaes multiplicando-se foraõ povoar depois parte da Turdetania, ou Andaluzia;[345] porém que lingua fosse aquella, he toda a difficuldade. Dizem huns, que fora a lingua Hebraica,[346] outros a Caldaica, ou alguma das setenta e duas, em que Deos prodigiosamente dividira a primitiva na torre de Babel. Muitos se capacitaõ, que a lingua primeira, e geral de toda a Hespanha fora a Vasconça, ou Biscainha.

2 Filippe de la Gandara julga[347] que era idioma particular, e distincto do Caldeo, e Hebreo; mas conforme os caracteres, de que usavaõ os antigos Turdulos Portuguezes, infere Fr. Bernardo de Brito,[348] que seria a lingua dos Hetruscos, usada em Italia desde o tempo de Noé; porém ou fosse hum, ou outro idioma, he certo que a tal lingua dos Turdulos naõ foy universal em toda esta nossa Peninsula, porque comprehendia differentes nações, e cada huma, em quanto viveo sobre si, conservou seu particular idioma, conforme assevera Plinio.[349]

3 Com a fama, e attractivo das riquezas de Hespanha fizeraõ transito a estas partes muitas gentes de outras nações;[350] e como as linguas entraõ nas Provincias com os seus Conquistadores, introduziraõ os Cartaginezes, e Gregos muitos vocabulos dos seus idiomas, que ainda conservamos, e retemos.[351] Depois vieraõ os Romanos, e para expulsarem de Hespanha aos Cartaginezes, gastaraõ naõ menos que duzentos annos até a vinda de Augusto Cesar.

4 Em todo este espaco de tempo foraõ os Romanos intromettendo, e espalhando pouco a pouco as suas leys, costumes, e locuçaõ;[352] e confederando-se com os nossos por casamentos, fundando Colonias, e estabelecendo Conventos Juridicos, para que todo o governo de paz, e guerra dependesse delles, obrigaraõ por este modo politico, e sagaz a que todos os Lusitanos fallassem Latim. Nelle sahiraõ taõ insignes alguns, que depois o foraõ ensinar dentro a Roma.[353]

5 Corria o anno de Christo 409, quando os Godos, Alanos, Vandalos, Suevos, e outras Nações barbaras Septentrionaes invadiraõ Italia, França, e Hespanha e assim como esta barbaria Gotica fez descahir da pureza da lingua Latina aos Romanos, produzindo em Italia o dialecto Italiano, em França o Francez, em Hespanha o Castelhano, assim em nossos Paizes fez nascer a lingua Portugueza.[354] Verdade he que os Godos desejaraõ muito accommodarse com a lingua Romana, mandando verter em Latim os nomes dos officios de seus palacios, Corte, e exercitos; porém como era gente mal disciplinada, misturou de tal fórma hum com outro idioma, que enchendo-o de sollecismos, barbarismos, e impropriedades, relaxou, e corrompeo totalmente o Latim, que os nossos fallavaõ, mudando-lhe até os caracteres Latinos em letras Goticas, que introduzio o Bispo Ulfilas,[355] especialmente nos livros sagrados, e Ecclesiasticos.

6 Sobrevieraõ os Mahometanos, e entaõ se acabou de arruinar, e perverter a lingua totalmente com as palavras Arabigas. Hum nosso Author muito erudito[356] diz, que na invasaõ dos Mouros, ficando livres as montanhas de Asturias, para onde foraõ refugiarse os Hespanhoes, que ficaraõ depois do ultimo Rey Godo D. Rodrigo, se conservara entre elles illezo o Romance, que era vulgar no dominio Gotico, sem mescla do idioma Arabe. Assim seria; mas quem poderá negar que dos Arabes se deduziraõ, e permanecem ainda em o nosso dialecto muitas dicções, que principiaõ por al, e xa, e as que finalizaõ em z, como observou o insigne Joaõ de Barros?[357]

7 Entrou finalmente em Portugal o Conde D. Henrique, primeiro tronco dos Reys Portuguezes; e como elle era Francez, e casou com Princeza Castelhana, causou na lingua outra mudança, aggregando-lhe novo complexo de palavras Castelhanas, e Francezas; porque como bem advertio o discreto Bembo,[358] tratando da alteraçaõ, que tinha havido na lingua de Roma até o anno de 1540, conforme saõ os Soberanos, que governaõ, assim saõ os idiomas, que se fallaõ; porque o discurso como o corpo se costuma vestir, e ornar, segundo o uso, que ordinariamente sempre segue o exemplo do Rey: e attendendo a este peregrino, e verbal matiz, disse o Padre Joaõ de Mariana,[359] que a lingua Portugueza era mesclada de Latim, Francez, e Castelhano. Todavia as composições feitas em vulgar Portuguez, que daquelle seculo permanecem, saõ de fórma, que hoje se fazem imperceptiveis, e de ingrata dissonancia aos mesmos compatriotas.[360]

8 Ainda no tempo delRey D. Diniz, do qual affirma Manoel de Faria[361] que fora douto, e Poeta, e que o nosso idioma grangeara por esse respeito mais perfeita cultura, se conferirmos, e cotejarmos o estylo, e as palavras daquella era com as de agora, acharemos infinita differença. O Padre D. Antonio Caetano de Sousa[362] transcreve huma carta daquelle Rey em resposta de outra de sua Santa consorte a Rainha Santa Isabel, cuja locuçaõ bem confirma o que dizemos. Veyo ultimamente o grande Virgilio Portuguez Luiz de Camões com as suas Poezias epicas, e lyricas, e o incomparavel Demosthenes Lusitano o Padre Antonio Vieira com as suas declamações Evangelicas, para communicarem o ultimo resplandor, formosura, e perfeiçaõ à lingua Portugueza.

9 Com este augmento, e estado participa ella presentemente de todos aquelles attributos, que a podem fazer summamente estimavel entre as melhores da Europa, porque tem abundancia de termos, e copia de palavras, com que se explica; e algumas taõ efficazes, que as que saõ nativas, e propriamente Portuguezas, em nenhuma outra lingua se encontraõ semelhantes, nem ainda equivalentes. Só o Portuguez com a unica palavra Saudade sabe exprimir com muito mayor força, e energia a constancia do amor ausente; e com a voz Magoa a penetrante dor do sentimento. Para fallar em todo o genero de assumptos tem a extensaõ necessaria de vocabulos, e modos abundantes: por isso disse bem o Tito Livio Portuguez Joaõ de Barros,[363] que se Aristoteles fora nosso natural, naõ fora buscar lingua emprestada para escrever na Filosofia, e em todas outras materias, de que tratou; e se lhe faltara algum termo succinto, fizera o que vemos em muitas partes aos presentes, que quando carecem de termos Theologaes os Theologos para entendimento real da cousa, os compozeraõ, e assim os Filosofos, Mathematicos, Juristas, e Medicos: e o recurso a idiomas estranhos na introducçaõ de vozes novas naõ só he licito, mas preciso.

10 Nós naõ podemos negar que a nossa lingua se tem valido, enriquecido, e aproveitado das vozes, e frazes de outras Nações, como até agora temos visto: mas qual será o idioma, que naõ tenha usado deste subsidio? Naõ nos dá o breve methodo, que seguimos, lugar para nos deter com exemplos demonstrativos; porém só notamos, que a lingua Castelhana, (da qual intenta mostrar hum Author[364] que a Portugueza he seu dialecto,) mendigou tambem da nossa algumas palavras; e se nós foramos mais solicitos nas traducções Latinas, como tem sido a gente Castelhana, Italiana, e Franceza, tiveramos avocado muitos mais vocabulos, e vozes da lingua Latina, em fórma que a Portugueza naõ parecesse já corrupçaõ sua, como lhe chamou Camões,[365] mas muito mais semelhante a ella, como filha legitima de mãy taõ nobre.[366] E assim como por meyo das conquistas da Asia, e Africa adquirimos as palavras: Lascarim, Chatino, Zumbaya, e outras muitas, que nos saõ já domesticas, da mesma sorte tiveramos conquistado inteiramente a lingua Latina, cujos vocabulos ainda assim tem degenerado taõ pouco no idioma Portuguez, que sem violencia podem nelle comporse muitos discursos com a mesma conformidade com a Latina,[367] o que naõ succederá facilmente às outras locuções, que se prezaõ de serem seus dialectos.

11 Participa mais a lingua Portugueza da estimavel circumstancia de se poder articular com huma pronunciaçaõ sonora, desembaraçada, e suave; porque nem he gutural, nem finaliza as dicções em consoantes asperas, como saõ: d, n, t, x, assim como ouvimos a muitas linguas da Europa. E quando naõ houvera a confissaõ constante de muitos Authores graves Castelhanos,[368] que affirmaõ haver na lingua Portugueza esta mesma suave prolaçaõ, bastava o provar aquella aptissima, e notoria facilidade, com que os Portuguezes adquirem, e fallaõ com cadencia todas as linguas estrangeiras, a que se applicaõ, o que naõ he taõ factivel aos outros com a nossa, que poucas vezes atinaõ com a sua verdadeira pronunciaçaõ.[369]

12 Attribuem muitos esta difficuldade àquella frequencia do nosso dipthongo , corruptamente deduzido do om Francez, e Gallego, em que nossos compatriotas antigamente acabavaõ todas as dicções, que hoje terminamos em , excepto os da Provincia do Minho, que pela mayor visinhança de Galiza ainda claudicaõ nisso. A quem se faz mais difficil articular este dipthongo, he à gente Castelhana, porque tem o costume, de finalizar com a letra n quasi todas as palavras, que nós acabamos em m. Este embaraço pretendeo desterrar do nosso idioma Antonio de Mello da Fonseca no seu Antidoto da lingua Portugueza, cujo arbitrio naõ foy bem aceito pelo sabio, e prudente juizo dos criticos, porque este proprio mytacismo, (se assim lhe quizermos chamar) convem muito com o am dos Latinos, terminaçaõ frequente assim de nomes, como de verbos, e com tudo a defende Quintiliano;[370] nem deixa de parecer grave, e suave a cadencia Latina com estas terminações, que com mayor facilidade suavizaremos, usando do remedio, que em outra parte advertimos[371] para a boa elegancia, e eloquencia Portugueza.

13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto, e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,[372] allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: Si alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian, commummente por la mayor parte eran en aquella lengua. De maneira, que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem Provençaes,[373] assim na Hespanha era reputada mais propria para a Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes, por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas publicas, de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no idioma Portuguez.[374]

14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa pureza.

15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P. Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia emendar,) disse onde imprimiraõ Devoçaõ, lea-se Devaçaõ; mas o primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem mostrado nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra Homem, e outras assim semelhantes se escrevaõ sem H, como os Italianos. O melhor he seguir a mediania, como fazem os doutos, cujo exemplo he só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, e estravagancia, assim como fez certo Author moderno, (posto que engenhoso) em huma nova orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous rr no principio da dicçaõ,[375] contra toda a norma, e costume dos eruditos. Outras muitas propriedades, e predicados da nossa lingua observou curiosamente o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no discurso, que temos allegado.