NOTAS DE RODAPÉ:

[345] Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5.

[346] Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin. Siculo, Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio Dextro p. 103.

[347] Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5.

[348] Monarq. Lusit. ut supr.

[349] Plin. lib. 3. cap. 1.

[350] Strab. lib. 1. & lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11.

[351] Resend. lib. 1. Antiq. e nas Notas ao Poem. de S. Vicent. liv. 2. not. 44. Far na Europ. Port. tom. 3. part 4. cap. 9. Matut. ut sup. §. 5. Joaõ Franco Barreto na Ortogr. Port. Luiz Martinho nas Antiguid. de Lisb. liv. 1. c. 13.

[352] Resend. lib. 3. Antiquit. Abiere tandem in Romanorum mores Lusitani, & civilitatem, linguamque Latinam, sicut & Turdetani accepere. Aldret. nas Antiguid. de Hesp. liv. 1. cap. 11.

[353] Manoel Severim de Faria Notic. de Port. disc. 5. §. 2.

[354] Kirquer de Turri Babel lib 3. p. 131. Ex adventu Gothorum, Alanorum, Vandalorum ingentem corruptionem passa, quaternas alias peperit, Italicam, Gallicam, Hispanicam, Lusitanicam.

[355] Marian. Histor. de Hesp. tom. 1. liv. 9. cap. 18. Yañes liv. 2. p. 644. de la Era, y Fechas de Hesp.

[356] Martinh. de Mendoç. Disc. Philolog. contr. P. Feijó impress. em Madrid ann. 1727.

[357] Joaõ de Barr. Dialog. do louv. da nossa linguag. p. 56.

[358] Bemb. nas Pros. liv. 1. p. 16. vers.

[359] Marian. Histor. de Hesp. lib. 1. cap. 5.

[360] Veja-se a Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9. e no Comm. das Rim. de Cam. tom. 4. part 2. pag. 81. Brit. Chronic. de Cister liv. 6. cap. 1.

[361] Idem Far. na Europ. Portug. tom. 3. part. 4. cap. 9.

[362] Sousa no Agiolog. Lusit. tom. 4. pag. 58. Veja-se o Apparat. da Histor. Geneal. do mesmo Author tom. 1. p. 208. e a Leitaõ Ferreira nas Noticias Chronolog. n. 574.

[363] Joaõ de Barr. Dialog ut supr. pag. 55.

[364] Gregor. Lop. Madeira no Disc. del monte Santo de Granad. part. 2. cap. 19. p. 70.

[365] Camões Cant. 1. Lusiad. est. 33.

[366] Kirquer de Turri Babel lib. 3. cap. 1. p. 131.

[367] Joaõ de Barros, Manoel de Far. Joaõ Franco Barreto já allegados. Manoel Severim de Far. Disc. var. disc. 2. Macedo nas Flores de Hespanh. cap 22 excel. 7.

[368] Marian. Histor. de Hesp. liv. 1. cap. 5. Lope da Vega na Descr. da Tapada, e na Dorot. act. 2. scen. 2. pag. 40.

[369] Veja-se a Faria no Prologo do tom. 1. da Europ. Port. e a D. Bernarda Ferreira na España libertada cant. 1. est. 6.

[370] Quintil. lib. 9. cap. ult.

[371] No Espelho da Eloquencia §.7. n.4.

[372] Molina liv. 2. de la Nobleza de Andaluzia p. 273.

[373] Bembo nas Pros. pag. 10.

[374] Sever. de Far. Disc. var. disc. 2. p. 85. Brandaõ na Monarq. Port. liv. 16. cap. 3.

[375] Veja-se o tom. 1. das Cart. Famil. de Francisco Xavier de Oliv. Cart. 7. p. 54.

CAPITULO XIV.
Do Genio, e costumes Portuguezes.

1 Hum dos pontos mais precisos, e uteis, que se costuma sinalar no assumpto Geografico, he a informaçaõ, e pintura dos genios, usos, e inclinações das gentes de qualquer Paiz:[376] por isso depois de ter dado noticia do material do sitio, qualidade, abundancia, e outras especies memoraveis do terreno Portuguez, como primeira base do nosso intento, segue-se expôr as propensões naturaes, e costumes de seus habitadores.

2 E se nós houveramos de deduzir esta informaçaõ desde a raiz de sua primeira origem, e segundo a examinou diligentemente Estrabo, (que por agora omittimos,) com serem os primeiros Portuguezes povos incultos, e agrestes, nem por isso veriamos as suas condições taõ barbaras, e intrataveis, que presentemente nos pudessemos envergonhar de serem elles nossos progenitores.[377] Com a melhor cultura, e Religiaõ se melhoraraõ alguns abusos, que depois se foraõ alterando com a entrada de outras nações; mas como os ramos naõ degeneraõ da substancia do tronco, nenhuma se atreveo até agora a questionarnos o esforço, espirito, valentia, e gloria militar.

3 Esta primeira prerogativa, e brazaõ, que como herança alcançaraõ os Portuguezes de pays a filhos sempre com a mesma honra, que os antepassados, se acha soberanamente acreditada, e expendida nos Annaes, e Historias do mundo em todos os seculos. Diodoro Siculo affirmou,[378] que os Lusitanos eraõ os homens entre os Hespanhoes os mais fortes, e valentes. O mesmo conceito ratificaraõ Vegecio, Plutarco, Tito Livio, Valerio Maximo, e outros muitos Authores antigos, e estranhos, com quem os modernos se conformaõ,[379] cujos testimunhos, e ditos naõ referimos por extenso, por ser este hum ponto de mayor grandeza, e indubitavel.

4 Só he preciso conhecer que o caracter desta valentia naõ he furor, que offusca o juizo, mas sim hum valor virtuoso, que obra por impulso da razaõ. He hum natural movimento, que, segundo a opportunidade das acções, sabe sempre usar com bizarria. Como todo o Portuguez, só estima o apreço da honra, despreza qualquer perigo para o conseguir. Este brio, e alento intrepido faz ser aos Portuguezes homens de ferro para o trabalho marcial, commettendo, e executando façanhas, que tem mais de verdadeiras, que de verosimeis, e conforme disse nosso Poeta,[380] excedem as sonhadas, fantasticas, e fabulosas, que as estranhas Musas tanto souberaõ engrandecer.

5 A Lealdade a seus Principes soberanos he outra admiravel prenda, de que só os corações Portuguezes podem blazonar com grande singularidade. Todas as Chronicas do mundo, se bem repararmos, estaõ salpicadas do sangue de parricidios, e inconfidencias dos vassallos para seus Reys; só da naçaõ Portugueza naõ consta que faltassem já mais à fé promettida de seu verdadeiro Soberano. Foy observaçaõ do doutissimo Thomás Bosio,[381] natural de Gubio, Cidade de Urbino, e de outros gravissimos Authores.[382] Ardem os Portuguezes no amor do seu Rey, e com esta preclara segurança triunfaõ nossos Monarcas de todo o receyo, podendo-se chamar Reys naõ de vassallos, mas de filhos.[383]

6 Com as dilatadas viagens das Conquistas acabaraõ elles de confirmar, e appropriarse a virtude desta fiel obediencia, e respeitosa constancia, sem ser possivel desviallos, ou arrancallos em obsequio della ainda os immensos trabalhos, e perigos, que padeceraõ, (e padeceráõ, quando a occasiaõ o peça,) de climas encontrados, e asperos; de fomes, sedes, frios, e traições malevolas de inimigos. Foy o que disse Vasco da Gama por boca do nosso famoso Poeta[384] ao Rey de Melinde:

Crês tu que se este nosso ajuntamento
De Soldados naõ fora Lusitano,
Que durara elle tanto obediente
Por ventura a seu Rey, e a seu Regente?
Crês tu que já naõ foraõ levantados
Contra seu Capitaõ, se os resistira,
Fazendo-se piratas obrigados
De desesperaçaõ, de fome, de ira?
Grandemente por certo estaõ provados,
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquella Portugueza alta excellencia
De lealdade firme, e obediencia.

Com termos de grande elogio particularizaõ tudo Authores de grave authoridade.[385] E posto que a 13 de Janeiro de 1759 vimos no Caes de Belem desta Cidade lastimosamente punidos por traidores, perfidos, e parricidas huns miseraveis, que se denominavaõ Portuguezes, foy bem acordado à suprema Junta da Inconfidencia, antes de sentenciar o insulto, desnaturalizar aos aggressores; para que em nenhum tempo servisse de ludibrio a huma Naçaõ taõ fiel ao seu Rey, hum exemplo taõ indigno, e execrando. A mesma fé, e palavra estipulada na correspondencia de qualquer negocio, ou com o estrangeiro, ou nacional, se observa sempre inviolavel.[386]

7 O heroico titulo de Conquistador he huma das excellencias felicissimas, que particularmente compete tambem ao genio Portuguez. Desde o feliz reinado delRey D. Joaõ I. pelos annos de 1415 meteraõ os Portuguezes o braço, e asseguraraõ o pé nas quatro partes do mundo com inveja gloriosa de todo elle; e se as generosas ousadias conseguem o brazaõ de grandes já desde o seu primeiro intento, muitos annos antes da sua execuçaõ residia no sublime peito, e mente Regia de nossos antigos Principes o mesmo glorioso projecto.[387] Por este meyo se vio a Monarquia Portugueza augmentada sem diminuir os Reinos alheyos; fez-se grande sem fazer nenhum pequeno; e com grandeza verdadeiramente propria até o tempo delRey D. Joaõ III. numerou trinta e dous Reinos remotos tributarios, e quatrocentas e trinta e tres Praças presidiadas, com outras muitas Ilhas consideraveis,[388] naõ havendo no mundo clima, em que as sagradas Quinas Portuguezas naõ se exaltassem triunfantes.[389]

8 Mas sobre todas as prendas, nenhuma acredita melhor de estimavel o genio Portuguez, que o zelo, e fervor, com que abraçaraõ, dilataraõ, e conservaõ a Fé de Christo. Elles foraõ os primeiros, que na Europa erigiraõ Templos sagrados para o culto da verdadeira Religiaõ: elles foraõ os que debellaraõ, e expulsaraõ de suas Provincias aos Sarracenos muitos centos de annos antes que outro algum Reino de Hespanha podesse livrarse de taõ vil gente: elles foraõ os que depois de limpar as suas terras da infecta naçaõ Arabe, continuaraõ em perseguilla na Asia, e Africa, naõ com outro motivo, senaõ para lhes intimar, e propagar a Fé Catholica. Aos Portuguezes devem todos aquelles dilatados povos do Oriente o conhecimento da verdade Evangelica, a obediencia aos Summos Pontifices da Igreja, e a salvaçaõ das suas almas:[390] elles saõ finalmente os que para gastar no culto Divino tem mais ambiçaõ do que o mundo todo cubiça para adquirir ouro, e riquezas. Todo este zelo, e piedade he ponto, que para caber no breve espaço deste nosso Mappa, he preciso resumillo, e assinallallo com caracteres miudos.

9 Nas Sciencias supposto que antigamente floreceraõ nellas alguns Portuguezes, de que faz mençaõ Antonio de Sousa de Macedo,[391] com tudo naõ era com aquella fertilidade, com que pelos seculos mais chegados aos nossos deraõ os Portuguezes a conhecer a extensa capacidade do seu talento, e engenho. A confusaõ, e estrondo das armas, e das guerras naquelles primeiros tempos taõ continuas, e o acommettimento de inimigos taõ differentes naõ permittiaõ a tranquilidade, e socego, que requerem as Musas. Havia mais Portuguezes valerosos, que letrados. Produzia Portugal Scipiões, Cesares, Alexandres, e Augustos no valor, mas destituidos do adorno das sciencias, como lamentou Camões,[392] e Francisco de Sá de Miranda:[393]

Dizem dos nossos passados
Que os mais naõ sabiaõ ler,
Eraõ bons, eraõ ousados,
Eu naõ gabo o naõ saber.

10 Até o tempo delRey D. Diniz, sexto Rey deste Reino, ainda naõ se conhecia nelle que cousa eraõ gráos de Doutores, nem de Bachareis, nem de Mestres: aos que sabiaõ alguma cousa chamavaõ-lhe Escolares, porque hiaõ estudar fóra do Reino. De sorte, que o primeiro Rey, que instituio Escolas publicas para se aprenderem as sciencias, foy ElRey D. Diniz, o qual fundou tambem a insigne Universidade de Coimbra, donde continuamente se estaõ produzindo Mestres eruditissimos, e formando infinitos homens prodigiosos em todo o genero scientifico. Tudo cantou Camões na. 97. do 3.

Fez primeiro em Coimbra exercitarse
O valeroso officio de Minerva,
E de Helicona as Musas fez passarse
A pizar do Mondego a fertil herva.
Quanto póde de Athenas desejarse,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva:
Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
De Baccaro, e do sempre verde louro.

11 Esta habilidade intellectual confirmaremos com provas mais evidentes, quando mostrarmos o genio, e engenho dos Portuguezes em toda a faculdade literaria. Passemos a expressar outros predicados. Na producçaõ de alguns inventos saõ elles naõ só fecundos, mas utilissimos. Henrique Garcez foy o primeiro, que achou na America o uso do azougue para purificar o ouro. Portuguezes foraõ os que usaraõ primeiro que outrem comer sentados em cadeiras. Bartholomeu Dias descubrio o Cabo da Boa Esperança; e Fernando de Magalhães o Estreito, a que deu nome. Os famosos Mestres Rodrigo, e Joseph, Medicos delRey D. Joaõ II. inventaraõ o Astrolabio, instrumento Mathematico, o qual abrio caminho a taõ estupendas navegações. O Infante D. Henrique inventou a carta de marear; e em outros muitos raros inventos tiveraõ nossos nacionaes a primazia, e industria, que largamente mostra Manoel de Faria.[394]

12 Saõ os Portuguezes commummente pouco inclinados a aprender linguas estranhas, com a sua se contentaõ, que muito prezaõ. Para as que mais se dedicaõ alguns, saõ a Latina, Castelhana, Italiana, e Franceza, e nas duas primeiras fallaõ, e compõem com energia, e elegancia. Parece que nos reinados gloriosos delRey D. Manoel, e D. Joaõ III. havia mayor curiosidade em se applicarem os nossos às linguas Orientaes pela precisa interpretaçaõ conducente a facilitar o commercio daquelles povos, em cujos idiomas foraõ insignes, além de outros, Pedro da Covilhã, e Fernaõ Martins, dos quaes se lembraõ Joaõ de Barros, e Camões.[395]

13 O primor, brio, e bizarria saõ attributos muy proprios da gente Portuguesa. Naõ emprendem cousa alguma, por difficultosa que seja, que gloriosamente naõ a consigaõ. Affectaõ muito nas occasiões publicas ostentarse pomposos com gravidade, mayormente os Nobres, e quando estaõ fóra do Reino. Daqui nasce serem os Fidalgos Portuguezes reputados por vãos, presumidos, e soberbos; donde o Criticon de Gracian[396] disse: Que serian famosos, si non fuessen fumosos; porém naõ póde deixar de haver muito fumo, onde ha muito fogo: e como bem observou o eruditissimo Feijó,[397] toda esta jactancia da Fidalguia Portugueza naõ he mais que hum chiste, garbo, e dasafogo da vivacidade do seu espirito. A urbanidade, cortezania, e attençaõ, com que trataõ a todos, he incompativel com a soberba, e orgulhosa arrogancia, e inchaçaõ, que se lhes attribue. Saõ muito amigos de valer a quem busca o seu patrocinio; e nas acções de piedade excedem a todo o mundo, dispendendo com maõ generosa, e liberal. Para mi tengo colegido que los Nobles de Portugal, es gente cuerda en lo que hacen, y agudos en lo que dizen: disse D. Antonio de Guevara em huma das suas Cartas.

14 Com desconfianca nos reputaõ os estrangeiros[398] por naçaõ extremosamente aferrada às maximas, e costumes nacionaes, que só estimamos, e encarecemos por vantajosos. Póde ser que se assim fora em todos esta constancia, naõ nos levariaõ elles muita parte da honestidade, verdade, compostura, modestia, honra, e desinteresse, que nossos antepassados professaraõ, e que em lugar destas boas prendas nos não vissemos agora cheyos de cautella, ambiçaõ, ociosidade, soltura, brindes, banquetes, e outras desordens, que as Nações estrangeiras nos introduziraõ;[399] porém este conceito naõ se compadece com o que ordinariamente estamos vendo, que he o nimio apreço, que quasi todos fazem das acções, modas, e costumes estrangeiros, desamparando com aleivosia aquelles, em que foraõ criados, sem mais razaõ que por serem os outros estranhos. Este vicio nacional foy reprehendido por hum dos nossos Poetas antigos,[400] dizendo:

Se hum estranho à terra vem,
Dizeis todos em geral:
Nunca aqui chegou ninguem;
E do vosso natural
Nada vos parece bem.

Em fim que por natureza,
E constelaçaõ do clima,
Esta naçaõ Portugueza
O nada estrangeiro estima,
O muito dos seuss despreza.

Imitou-lhe o conceito, e a sentença com igual graça o grande Francisco Rodrigues Lobo no fim da Egloga 1.

Ouvir qualquer estrangeiro
Fallar de seus naturaes,
Dá delles taõ bons sinaes,
Que o naõ tem por verdadeiro.
Falem-vos n’um natural,
Dizeis faltas que naõ tem;
Mente o outro para bem,
Nós mentimos para mal.

15 Quanto ao traje, e modo de vestir, naõ se póde dizer que o temos proprio: as invenções dos estrangeiros saõ os modélos, ou moldes dos nossos habitos. Até o tempo delRey D. Joaõ III. pouca alteraçaõ, e mudança houve no modo de trajar. Naquelle feliz seculo delRey D. Manoel, em que o Reino nadava em ouro, trajavaõ os Principes vestidos, que hoje desprezariaõ os filhos de qualquer mecanico humilde. ElRey D. Joaõ III. sendo ainda moço, e vendo em differentes occasiões variar de traje, nunca deixou o Portuguez, dizendo, que nenhuma cousa havia de ser bastante a fazello parecer estranho em sua patria.[401] Neste mesmo reinado, e pelos annos de 1530 he que em Portugal começaraõ a entrar as galas de Castella, e as delicias Asiaticas, que nos corromperaõ a modestia, e parsimonia antiga, de que tanto se lamentou Sá de Miranda.[402] Concorreo depois a communicaçaõ das gentes de outros paizes, que com suas extravagantes invenções nos tem feito servos dos seus caprichos, e por imitar o alheyo perdemos o proprio. Bem o disse, e deplorou Simaõ Machado.[403]

Vellos-heis, disse, à Franceza,
Depois disso à Castelhana,
Hoje andaõ à Bolonheza,
Á manhã à Sevilhana,
E já nunca à Portugueza.

Confirma-o Francisco Rodrigues Lobo na Egloga 4.

Por isso qualquer profano
Nos toma para entremez,
Porque fazemos cada anno
Té no traje Portuguez
Mais mudanças que hum cigano.
Naõ tomamos isto em grosso,
Vestimos por tantos modos
Cada hora, que dizer posso,
Que naõ temos traje nosso,
Porque o tomamos de todos.

16 O que tem mais permanecido, he na gente Civil a capa, e volta, e na plebe o uso do capote, de que os estrangeiros naõ gostaõ, porque dizem ser contrario à boa politica, por causa de servir de grande rebuço às pessoas mal intencionadas;[404] porém a boa commodidade, que este habito faz no Inverno, e ainda às vezes no tempo calido, póde justificar o seu uso, e dissimular a indifferença da má intençaõ, que se lhe attribue. As espadas antigamente se traziaõ debaixo do braço sem a prizaõ do boldrié: os Italianos he que inventaraõ, e nos introduziraõ a moda do talim; donde Camões nos seus chamados Disparates veyo a picar esta introducçaõ.

Vereis mancebinhos de arte
Com espada em talabarte,
Naõ ha mais Italiano, etc.

Tambem se costumavaõ adagas, que hoje estaõ prohibidas; e até o adereço das espadas já tem degenerado em espadim, e cotós. As barbas compridas até à cintura se foraõ diminuindo no tempo delRey D. Joaõ IV. em que ainda se usavaõ bigodes: depois no governo do Senhor Rey D. Pedro II. se extinguiraõ, e entrou o uso das cabelleiras já agora taõ domesticado, que se faz reparavel o que naõ usa dellas; e ainda neste genero de compostura ha cada dia differentes novidades.

17 Entre todas as nações do mundo he só a Portugueza naturalmente conhecida por namorada. Perguntou a Madre Soror Maria de la Antiga em certa occasiaõ a Christo, se era Portuguez? O Senhor lhe respondeo: Sim filha, que tudo que diz amor, e mais amor está em mim; e essa parte dos Portuguezes saõ de natural mais nobre; e por certa natureza que naquelle Ceo influem os Planetas, saã commummente alli as gentes dessas qualidades.[405] Derretidos de amor nos chamaõ os Castelhanos; mas este affecto foy, e he sempre exercitado por aquelle teor, e modo, que aperfeiçoa as pessoas, e as incita a acções decorosamente galantes. As venerações, e cultos do amor candido saõ taõ antigos em Portugal, que já em tempo dos Cartaginezes havia templo em Villa Viçosa dedicado a Cupido, a cujo idolo, que era de prata, e chamavaõ Endovelico, hiaõ em romaria os Portuguezes fazer os seus sacrificios, offerecendo no principio de cada mez por victima hum cordeiro branco,[406] para mostrarem o sincero, e racionavel exercicio da mais poderosa paixaõ da alma. Daqui se infere, que na chamma do amor Portuguez naõ ha fumo de torpeza: por isso Valerio Maximo reprehendeo asperamente a Q. Metelo Pio por delinquir nos excessos de Venus dentro da Provincia Lusitana, que só amava os furores de Marte.[407] Assim o deraõ a entender tambem aquelles Cavalleiros da Ordem Militar dos Namorados, que na celebre batalha de Algibarrota obraraõ tantas maravilhas em pura, e honesta contemplaçaõ das suas Damas;[408] e por desafronta de outras passaraõ a Londres no anno de 1390 os doze celebrados Portuguezes, que com gloria, e lustre da patria ficaraõ vencedores.[409] Foraõ finalmente os Palacios dos Reys sempre escolas universaes da fina galantaria. Celebravaõ-se saráos, e festins entre Damas, e galantes nas vodas, nascimentos de Principes, e vindas de Embaixadores, e a este exemplo o faziaõ os particulares com toda a modestia. Hoje está muy sincopada, ou, para melhor dizer, extincta a galantaria;[410] donde o grande Sá de Miranda[411] dizia já no seu tempo:

Traspozeraõ os amores,
E deixaraõ o Paço às cegas.

18 Este amor, e estimaçaõ para com o bello sexo faz ser aos Portuguezes mais ciosos de suas mulheres, do que merece a sua grande honestidade, e por conta dos zelos praticaõ cautelas bem escusadas, de que os estrangeiros naõ costumados a semelhantes precauções bastantemente se admiraõ, e estranhaõ. As mulheres civis raras vezes sahem de casa; e quando chega a occasiaõ, que he no Domingo, ou dia Santo, vaõ acompanhadas de suas criadas, e cubertas com hum manto de seda preta, mas com tal ar, e garbo, que os mesmos estrangeiros reconhecem especial genero de attractivo na sua grave compostura, e meneyo. Antigamente usavaõ de guardinfantes: pouco ha se extinguiraõ os donaires: hoje todo o luxo anda pelos pés, e de rastos; bom final para se acabar. Na formosura, talento, e sagacidade excedem as Portuguezas às mulheres de todo o mundo: parece todavia que com a prenda natural da formosura naõ vivem algumas com toda a satisfaçaõ, obrigando-as a sua mal fundada desconfiança, ou ambiçaõ de parecer melhor, a pôr no rosto alguns unguentos, e certos sinaes, ou retalhinhos redondos de tafetá negro; porque imaginaõ se fazem daquelle modo mais bellas, e que realçaõ muito a alvura da cara, de cujo accidente nem todas participaõ, porque de ordinario as mais delas saõ de cor algum tanto morena, porém o cabello, e olhos pretos com graça, e viveza.

19 Nos casamentos usavaõ as antigas Portuguezas da Provincia do Minho naõ sahirem de casa de seus pays para as de seus esposos, senaõ como violentadas: os seus parentes faziaõ a ceremonia de puxarem por ellas para fóra da porta arrebatadamente, e indo no meyo de dous padrinhos, adiantava-se a toda a comitiva hum moço, que levava a roca cheya de linho, e o fuso. No tempo do Doutor Joaõ de Barros, que floreceo pelos annos de 1549, ainda permanecia quasi este costume; porque a noiva, quando sahia da casa de seus pays, diz elle na Descripçaõ do Minho, chorava muito, dando assim a entender saudosa, que se apartava da sua companhia contra vontade. Tambem costumavaõ, quando sabiaõ que alguma moça estava contratada para casar, juntarem-se as visinhas, e parentas della, e fiarem todas à porfia huma noite até pela manhã, a que chamaõ fazer seraõ; e como ordinariamente todas as mulheres desta Provincia saõ grandes fiandeiras, chegavaõ em semelhante empreza a fiar muitas varas de panno para o enxoval da noiva.[412] Desta sorte ajudaõ huns aos outros para o dote das filhas, e no dia da voda fazem grandes festas, e banquetes.

20 No livro dos costumes antigos de Béja se acha escrito, que os moradores desta povoaçaõ se queixarão a ElRey D. Diniz no anno de 1339, dizendo: que os Fidalgos, e poderosos, quando casavaõ seus filhos, e parentes, rogavaõ ao Alcaide mór, Alvazis, (isto he, Vereador) Fidalgos, e homens bons da terra, com os Alcaides das Aldeas, e que com toda esta companhia hiaõ pelos montes pedir carneiros, gallinhas, e outras cousas, que lhe naõ podiaõ negar em abundancia com vergonha do acompanhamento que levavaõ. Este excesso remediou ElRey, mandando que dalli por diante naõ houvesse acompanhamentos semelhantes, permittindo que só o noivo com hum companheiro fosse recolher a voluntaria offerta de seus paizanos. Assim o refere Fr. Francisco Brandaõ na Monarquia Lusitana liv. 18. cap. 30. accrescentando: que este costume que agora pareceria incivil, e pouco decente para os noivos, que sempre haõ de ostentar grandezas, e naõ indigencia, conforme o costume moderno cheyo de fausto, e ostentaçaõ, julgava a singeleza advertida daquella boa idade por decorosa correspondencia dos novos casados, gratificando nesta parte do estado da Republica, que pelo Matrimonio se amplia.

21 Muitas vezes acontece escolherem as filhas o marido contra a vontade dos pays, e para obviar esta opposiçaõ na eleiçaõ livre do seu estado, e de seu esposo, consentem que estes as tirem por justiça. Vaõ logo ser depositadas pelo Meirinho Ecclesiastico em alguma casa de pessoa honesta; e procedendo a perguntas, se persistem na mesma vontade, se recebem, ficando os pays da noiva obrigados a contribuir com o dote proporcionado aos bens, que lhe competem.

22 O divertimento da caça he generico em todo o Portugal. Os Gregos, quando vieraõ a Lisboa,[413] introduziraõ o da altenaria, que se pratica com açores, falcões, e gaviões, de que compoz huma excellente Arte Diogo Fernandes Ferreira; porém este exercicio nobre foy mais proprio dos nossos Principes, e muito usado até o tempo delRey D. Sebastiaõ. Permanecem hoje os outros generos de caça mais laboriosos em grande risco das mais ligeiras aves, que se naõ livraõ da destreza dos tiros para abonarem à custa da sua vida o primor, e acerto da espingarda Portugueza. Offerecem igualmente hum admiravel passatempo as muitas ribeiras, e rios com a pescaria de seus peixes. Os jogos da péla, tabolas, bola, e cartas entertem a muitos ociosos, e às vezes passa a occupaçaõ cheya de damnos, e perigos. Nas academias, ou casas publicas destes jogos he costume dar barato, ou alguma porçaõ do lucro aquelle, que tiver ganhado, aos que estaõ em roda vendo.

23 Sobre todos os divertimentos, o mais celebre, e plausivel he o combate dos touros, ou seja de pé, ou de cavallo: festa que traz origem do Gentilismo, para o qual todos concorrem com grande gosto, e se fazem com muito apparato, e magnificencia.[414] Esta he só a occasiaõ em que os estrangeiros dizem[415] que podem à sua vontade ver as Damas Portuguezas ornadas com todos os seus enfeites; mas todavia he este genero de espectaculo taõ perigoso, que só o costume lhe podia tirar o horror, e que justamente reprova nosso D. Francisco Botelho em huma das suas Satyras latinas. Mais vistosas saõ as outras festas, que às vezes fazem os Cavalleiros Portuguezes, chamadas Justas, Torneyos, Alcancias, e Cavalhadas, onde se vê a destreza, brio, e desembaraço de andar a cavallo, em que algumas pessoas de qualidade saõ insignes.

24 Amaõ os Portuguezes com especial affecto a Poezia, e a Musica. Hoje anda muito em moda no applauso de qualquer acçaõ meritoria transferir o Parnaso para o sitio do elogiado, e alli glosando motes, e compondo versos de improviso, mostraõ as Portuguezas Musas nestes oiteiros laudatorios, que naõ tem inveja de Apollo no seu aprazivel monte de Acaya. O instrumento musico, a que chamaõ Viola, he propriamente Portuguez, e que serve em todos os festejos domesticos, e publicos, a cujo som entoaõ ordinariamente motetes, e cantigas pateticas com aquella variedade, que pede a intençaõ do divertimento. O grave aspecto da compleiçaõ nacional parece que insinúa pouca familiaridade entre huns, e outros compatriotas: daqui vem serem raras as pessoas, que convidaõ a seus amigos para jantar com elles; mas quando o fazem, he com mesa farta, limpa, e saborosa, e as mais das vezes ostentando grandeza, vaidade, e desperdicio.

25 Outros muitos costumes omittimos, naõ só porque seria preciso hum grande volume, se houvessemos de descrevellos pontualmente, mas porque estas extensas narrações saõ mais proprias para a Historia, que para a Geografia. Com tudo antes de clausular este Capitulo, diremos alguns sentenciosos attributos dos Portuguezes para mayor conhecimento do seu genio, segundo a discreta observaçaõ, e experiencia de alguns Authores nossos.

Os Portuguezes sempre tiveraõ pouca duvida nos grandes casos.[416]

Lastíma muito mais aos Portuguezes o louvor alheyo, que o esquecimento do seu proprio.[417]

Tem o Portuguez por disfavor usado com elle o favor, que vê usar com o seu companheiro.[418]

He muito proprio de Cavalheiros Portuguezes com a inveja da primeira gloria estorvarem-se a si o logro da segunda, querendo mais ficar sem alguma, que ver a outrem com vantagem.[419]

Cada hum dos Portuguezes da primeira grandeza tudo querem para si, e todos nada para alguem.[420]

Cada hum dos Portuguezes presume que se lhe deve tudo; e assim qualquer cousa, que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba.

Sempre o animo Portuguez esteve alegre nos perigos, e ainda nos tormentos.

Amou sempre mais hum Portuguez a fidelidade, que a fortuna.

Nenhuma cousa logrou a mayor antiguidade, que a naõ lograsse a gente Portugueza.

A gente Portugueza para com seus desejados Principes mil vezes substituio a adoraçaõ pelo decoro.

Naõ se sujeitou já mais a gente Portugueza sem alguma soberania.

Nunca a espada Portugueza deveo triunfos à multidaõ dos exercitos, senaõ à grandeza dos corações.

Mil vezes tem sido a confiança natural cutello da Naçaõ Portugueza.

Na gente Portugueza desde os fundamentos está de posse encommendar ao espirito o que outras Nações à copia.

A Nação Portugueza sempre se prezou mais de ser acredora da voz da fama, que de sujeita a seus favores.

A gente Portugueza sempre foy affectadora de estimações, e decoros pela ostentaçaõ do pomposo, e do grave, e ainda do vaõ.

Mais cabem no mundo os Portuguezes, que elle nelles.

Ao coraçaõ Portuguez ainda hum mundo lhe vem estreito.

Com a gente Portugueza nunca pode tanto o furor da guerra, como a affabilidade dos Principes.

Os Portuguezes saõ como o mar, muy serenos no socego, e na colera insoportaveis.

As mulheres Portuguezas em seguindo o caminho da modestia, saõ unicas nella; e tambem unicas em liberdades, se tomaõ o caminho de livres.

Naõ poucas vezes as matronas Portuguezas depozeraõ a roca pela espada, fiando vidas assim como linho.

Todo o zelo he mal soffrido, mas o zelo Portuguez mais impaciente que todos.

He natureza, ou má condiçaõ da nossa Lusitania naõ poder consentir que luzaõ os que nascem nella.

He timbre da nossa Naçaõ, tanto que sahe à luz quem póde luzir, tragallo logo, para que naõ luza.

Os Portuguezes deraõ fundo com as ancoras, onde Santo Agostinho naõ achou fundo com o entendimento.

Nenhum golpe deu a espada dos Portuguezes, que naõ accrescentasse mais huma pedra à fabrica da Igreja.

Os Portuguezes para os infieis tem a espada, para os Catholicos tem o escudo.

Os Portuguezes primeiro se chamaraõ Mundanos, e depois Lusitanos, para trazerem no nome a luz do mundo.

Os Portugueses sempre descobriraõ Imperios para si, e cubiças para outros.

O mayor louvor da nossa Naçaõ he chegarem os Portuguezes com a espada, onde Santo Agostinho naõ chegou com o entendimento.

Em Portugal esteve sempre certo o descuido com quem mereceo cuidado.

A Naçaõ Portugueza mais se préza de fazer, que de dizer.

Quem quizer inteirarse mais do genio Portuguez, e sem a desconfiança de ser informado por algum nacional, póde ver entre os estranhos sem suspeita aos Authores abaixo citados,[421] e outros, que allega Hoffman,[422] porque nós concluimos com o que promette aos Portuguezes o grande Camões em hum dos seus Cantos.

Por mais que da fortuna andem as rodas
Naõ vos haõ de faltar, (gente famosa)
Honra, valor, e fama gloriosa.