NOTAS DE RODAPÉ:

[504] Valer. Maxim. lib. 9. Just. Lipsio lib. 4. de Magnitud. Roman. cap. 5. Tarselin. Epitom. Historic. lib. 3.

[505] Strab lib. 3. Liv. decad. 4. lib. 3. Plin. lib. 3. c. 3. Guid. Pancirol Notitia Dignit. utriusq. Imper. c. 66. Robortel. de Provinc. Roman. Vasæus tom. 1. cap. 8. n. 14.

[506] Monarq. Lusitan. liv 2. cap. 23.

[507] Oros. liv. 4. cap. 19. Liv. decad. 4. lib. 6. Moral. lib. 7. cap. 11.

[508] Tantus metus Romanas omnes invasit; ut nemo inveniretur, qui vel Tribunus, vel Legatus ire in eam Provinciam vellet. Vasæus tom. 1. cap. 12. Liv. decad. 3. lib. 6.

[509] Orosius lib. 4. cap. 21.

[510] Monarq. Lusitan. liv. 4. cap. 2. e 3.

[511] Monarq. Lusitan. liv. 5. cap. 17.

[512] Liv. decad. 3. lib. 7. Jul. Front. l. 1. c. 1. Val. Max. l. 4.

[513] Oros. l. 4. c. 21.

[514] Monarq. Lusit. liv. 2. c. 30.

[515] Vide Monarq. Lusit. liv. 3. cap. 10.

[516] Joaõ de Barr. na Descripçaõ do Minho cap. 3.

[517] Monarq. Lusitan. liv. 3. cap. 30.

[518] Vid. Monarq. Lusit. liv. 4. cap. 17. e 18. Vas. tom. 1. cap. 12. Resend. lib. 3. Antiquit.

[519] Veja-se a Cujac. liv. 8. cap. 25. Observ. a Vaseu tom. 1. Chron. cap. 13. Resend. lib. 3. de Antiq. Monarq. Lusit. part. 1. liv. 4. cap. 30. e liv. 5. cap. 18. 21. e 24.

CAPITULO IV.
Entrada das Nações barbaras, e dominio dos Godos.

1 Pela ambiciosa perfidia de Estelicon, ayo, e sogro do Imperador Honorio, que pertendia recahisse a coroa Imperial em seu filho Eucherio, o que naõ conseguio, se introduziraõ na Hespanha certas gentes Septentrionaes de Alemanha, chamadas Vandalos, Suevos, Alanos, e Selingos, os quaes depois de terem saqueado Roma, e destruido grande parte de França, invadiraõ nossas terras com huma expediçaõ taõ barbara, talando campos, e edificios, que igualavaõ a colera com a crueldade.[520]

2 O anno, em que se experimentou esta invasaõ, naõ he fixo na epoca dos Escritores: entre os annos de 409, e 416 de Christo sem duvida que aconteceo; mas a mayor parte dos Historiadores Hespanhoes se inclinaõ a assinar esta invasaõ na Era de Cesar 447,[521] que corresponde aos annos 409; e sendo a Cidade de Lisboa a primeira povoaçaõ nossa, que esteve a risco de ser devorada pela fereza daquelles leões, que a tinhaõ em cerco, brevemente o levantaraõ por num pequeno donativo, que os Cidadãos lhe offereceraõ; porém continuando com a mesma ferocidade, arruinaraõ outras terras da Lusitania, e o que estava sujeito ao Imperio Romano, cujo estrago foy o intuito principal, a que todos estes barbaros se encaminhavaõ.

3 Cada parcialidade destas gentes tinha seu Rey, a que obedeciaõ; e por naõ se confundirem nesta assolaçaõ, os Vandalos, e Selingos com o seu Rey Gunderico, ou Mondigelesio, occuparaõ Andaluzia, que delles adquirio nome: os Alanos, e Suevos com os seus Reys Resplandiano, e Hermenerico possuiraõ a Lusitania, e Galiza, ficando Asturias, e Biscaya permanecendo na sujeiçaõ Romana.[522]

4 Morto Resplandiano se lhe seguio Atáces, o qual estribando seu atrevimento nas mayores forças por senhorear mayor parte da Lusitania, foy accommetter Hermenerico, Rey dos Suevos, a quem tomou algumas terras, especialmente Coimbra, que entaõ se achava existente no sitio de Condeixa a velha, e principiou a edificar a que agora existe, obrigando ao trafego da obra toda a qualidade de pessoas.

5 Quizera Hermenerico resistir, e castigar os atrevimentos de Atáces; convoca em seu favor a Gunderico, Rey dos Vandalos; fortifica-se no Porto, e fortifica tambem a Cidade. Chegaõ a litigar os dous exercitos, e declinando de huma parte o poder, fica Hermenerico derrotado; tudo porém se compoz logo, offerecendo Hermenerico a ElRey Atáces sua filha Cindasunda para esposa com hum thesouro por dote de riquezas consideraveis.[523] Nesta paz viveraõ socegados sogro, e genro, occupando-se unicamente em fazer algumas correrias contra os que seguiaõ o partido Romano.

6 Tinhaõ-se incorporado os Vandalos, e Suevos para maquinarem rijo accommettimento concra os Alanos, que com a soberba do seu Rey Atáces pertendiaõ usurpar as terras dos seus visinhos. Honorio havia feito pazes com os Godos, e tambem com os Vandalos; e soccorridos estes com taes auxilios, deraõ batalha, pelejarão valerosamente, e venceraõ a Atáces.

7 Recuperaõ outra vez os Alanos, e Selingos as terras perdidas, fundaõ a Villa de Alenquer, e já sem Rey, que os governasse, tornaõ a ser feudatarios ao Imperio Romano. Ajustaõ pazes com os Suevos, e com tal uniaõ se enlaçaraõ, que desde esta confederaçaõ se começaraõ os Portuguezes a chamar Suevos.[524] Passaõ os Vandalos para Africa em numero de oitenta mil, e os Alanos, e Suevos se deixaraõ ficar na Lusitania possuindo aquellas terras, que lhe couberaõ em forte.

8 Numerava já o mundo Christaõ mais de quatrocentos e cincoenta annos, quando Theodorico, Rey Godo, entrando por Hespanha contra Reciario, Rey dos Suevos, depois de o apertar com huma guerra cruenta, o venceo junto a Astorga, dissipando naquelle dia todas as grandezas, e nome Suevo, para fundar nas suas ruinas o Imperio Gotico; e deixando as terras de Portugal já sujeitas à sua obediencia, se retira a França.

9 Os Suevos vendo-se destruidos recorrem ao Rey Godo por meyo dos Bispos, supplicando-lhe a liberdade de acclamarem Rey proprio, e nacional com o reconhecimento de feudatarios. Orou nessa embaixada eloquentemente Idecio, Bispo de Lamego, por cuja efficacia, e persuasaõ lhe outorgou Theodorico com grandeza regia quanto pediaõ. Voltaõ os Prelados para Braga, e elegem a Masdra para seu Rey.

10 Alguns dos nobres mal satisfeitos da eleiçaõ, com o pretexto de naõ se acharem presentes, acclamaraõ em Lugo por seu legitimo Rey a França. Daqui principiarão a nascer muitas discordias, cujos effeitos descarregando em insultos sobre os povos, lhes fizeraõ sentir, e padecer as molestias, e os riscos daquella opposiçaõ.

11 Socegaraõ em fim com a morte de Masdra, e com o tratado de paz, que seu filho Remismundo, successor no governo, fez com o Franta; mas como a este se lhe seguisse Frumario, e persistisse na teima de ser elle o Rey legitimo, fez resuscitar as antigas contendas, que ultimamente feneceraõ com o fim dos seus dias, ficando Remismundo com todo o principado da Lusitania, e dos Suevos.

12 Para mayor segurança do seu dominio mandou Remismundo pedir ao Rey Godo Theodorico lhe quizesse confirmar o tratado das pazes, que seus antecessores tinhaõ feito, expressando-lhe a prompta fidelidade, e reconhecimento, em que vivia. Lisongeado Theodorico desta attençaõ, houve por bem suas conquistas, e lhe deu por esposa huma sua filha, a qual, como era Arriana, introduzio em Portugal esta seita, que inficionou todo o Reino,[525] na qual foraõ permanecendo outros Reys até Theodomiro, que foy quem resuscitou a Fé Catholica, e fez que abjurassem os Suevos os dogmas da perfidia Arriana, em que tinhaõ vivido noventa annos.

13 Reinava na Monarquia Gotica Leovigildo, e estimulado das tyrannias, que Andeco usava com os Suevos, em cujo governo se introduzira, voltando as armas contra elle, o cativou, e se fez senhor de todo o Reino, e dominio Suevo pelos annos 585,[526] principiando daqui para diante o governo, e Imperio dos Godos em Portugal.

14 Subordinada já nossa Peninsula ao total poder Gotico, foraõ continuando em seu governo os seus Monarcas, pondo em algumas terras Governadores com titulo de Condes, que residiaõ a arbitrio dos Reys Godos.[527] Passados annos, chegou a Monarquia a perigar na falta de successor; mas por conselho do Romano Pontifice, que para isso teve revelaçaõ divina,[528] foy escolhido Vamba, natural, e habitador de Idanha, onde o foraõ achar bem alheyo de outro governo, que naõ fosse o dispotico exercicio da sua agricultura.

15 Intimaraõ-lhe os Embaixadores o grave negocio, a que hiaõ, e elle, que teve a embaixada por equivocaçaõ, o cargo por impossivel, respondeo, e protestou, cravando a aguilhada na terra, que só entaõ seria Rey, quando aquella vara brotasse flores. Assim succedeo, pois ella começou logo a florecer, e elle sendo obrigado pela palavra, foy conduzido para Toledo, onde o ungiraõ e respeitaraõ Rey de toda Hespanha[529] na Era de 710.[530]

16 Venceo este Rey varias batalhas, promulgou leys, fez celebrar Concilios, ajustou os limites na jurisdicçaõ das Igrejas, e por hum accidente, em que o reputaraõ por morto, tornando a si, renunciou a Coroa em Ervigio, e tomando o habito de Religioso Benedictino em o Convento de Pampliega, cinco leguas entre Burgos, e Valhadolid,[531] acabou seus dias tranquillamente, deixando de si fama taõ gloriosa, que Arnoldo Ubion o poem no Catalogo dos Santos.

17 Seguio-se Ervigio, que foy jurado Rey com toda a solemnidade, depois Egica seu genro, e a este Witiza seu filho, que collocando sua Corte humas vezes em Braga, outras em Tuy, ou em Toledo, de qualquer parte lançava rayos, como astro maligno, que tudo inficionava. Chamaraõ-lhe o Nero de Hespanha: tal era seu infame procedimento.[532]

18 Com melhor esperança de que extinguisse os escandalos passados acclamaraõ os Godos a ElRey D. Rodrigo; porém depressa viraõ desvanecidos os seus conceitos, porque este Principe tudo obrava por appetite; e o Conde D. Juliaõ, que era seu Capitaõ da guarda, por conservar sua fortuna sempre prospera, executava francamente a arte da lisonja. Vivia no Paço, como era costume, huma filha do tal Conde, chamada Florinda, ou vulgarmente Cava, dama de estremada formosura: affeiçoou-se ElRey della, e para grangear melhor os seus agrados, lhe prometteo na uniaõ do Matrimonio a igualdade da Coroa; porém naõ se passou muito tempo, que repudiasse a Florinda por coroar a Eylata, ou Egilona, formosa Princeza de Africa, a quem a braveza das ondas fizera por hum incidente arribar a Hespanha.[533]

19 Sentio Florinda aquella affronta, ou violencia, e meditando com seu pay algum genero de vingança, e desaggravo proporcionado, elle se passou a Africa, se acaso naõ estava já lá, como querem outros, por ser Governador daquelles dominios posto pelo mesmo D. Rodrigo; e conciliando hum poderoso exercito de Sarracenos, vieraõ accommetter Hespanha pelas instrucções do Conde, obrando total estrago na florente Monarquia dos Godos.

20 Esta he a substancia de toda a Historia da perdiçaõ de Hespanha, que corre entre os Authores com mais vulgaridade, supposto que em algumas circunstancias haja entre elles differença. Todavia considerando outros com reflexaõ mais prudente a facilidade, com que os Mouros em dous annos conquistaraõ quasi toda a Hespanha, e a negligencia, com que os Hespanhoes a defenderaõ, naõ succedendo assim com os Fenices, nem Cartaginezes, nem Romanos, nem ainda com os mesmos Godos, pois qualquer destas Nações gastou muitos annos para entabolar o seu dominio; julgaõ que o motivo desta fatalidade se originou por haver naquelle tempo alguma guerra civil na Monarquia Gotica, e esta acharse dividida em parcialidades, das quaes a menos poderosa se foy valer dos Arabes, e que estes em lugar de soccorrer a outrem, foraõ conquistando para si, o que alcançaraõ facilmente por causa da mesma divisaõ.[534] E porque os Suevos, e Godos foraõ senhores das nossas terras, he justo que façamos delles total memoria, ainda que seja em resumida chronologia.

Catalogo Cronologico dos Reys Suevos, que reinaraõ em Portugal, e Galiza.

Ann. de Chr.
409Hermerico, ou Hermenerico. Teve guerras com os Alanos. Depois dos Vandalos passarem a Africa ficou senhoreando quasi todo o Reino de Portugal da fórma, que hoje está dividido, e ainda algum pedaço de Galiza. Morreo em Merida de huma doença, que lhe durou sete annos, e governou trinta e dous.
440Rechila, filho do antecedente. Fora Principe perfeito, se naõ seguira o Arrianismo. Com prosperidade, e paz governou sete annos.
448Reciario, filho de Rechila. Teve alguns emulos no principio do seu reinado: casou com a filha de Theodorico, Rey Godo: saqueou, e destruio os Vascões: passou a França a visitar seu sogro, e na retirada conquistou muitas terras de Hespanha. S. Balconio, Bispo de Braga, lhe fez abraçar o Christianismo. Na Cidade do Porto foy degollado por seus inimigos, e nelle se extinguio a linha verdadeira dos Suevos. Governou nove annos.
457Maldra, ou Masdra. Foy eleito na Cidade de Braga pelos Bispos, e alguma Nobreza do Reino; mas padeceo as opposições, que lhe fez Franta, que os do partido contrario introduziraõ no governo, e elle governou tres annos. Seguio-se outro tambem intruso, chamado Frumario, que reinou tyrannicamente dous annos, e a Masdra se seguio
464Remismundo, a quem Santo Isidoro chama Arismundo, filho de Masdra. Ficou prevalecendo o seu reinado entre os dous precedentes Contendores. Foy cativo, e prezo por ElRey Godo Theodorico, o qual introduzio em Galiza a heresia Arriana. Daqui para diante naõ he muy certa a successaõ dos Reys Suevos por se interromper a sua serie com a morte de Remismundo. Fr. Bernardo de Brito[535] dá por incertos a Theodulo, Veremundo, Miro, Pharamiro. Filippe de la Gandara,[536] seguindo o Chronicon de Marco Maximo, assina depois de Remismundo a Hermenerico no anno 556 com o governo de quasi cincoenta annos: a Rechila II. Reciario II. a quem S. Martinho Dumiense converteo à Fé Catholica, e a Ariamiro, ou
560Theodomiro, filho de Reciario. Converteo-se à Fé juntamente com seu pay, e foy grande defensor da Divindade de Christo. Celebrou-se no seu tempo o primeiro Concilio Bracarense. Os annos do seu governo saõ muito incertos. Santo Isidoro, a quem segue o allegado Gandara, diz que reinou vinte e quatro annos, Yañes dez, Coronelli no seu Prodromo seis, o Abbade de Valclara tambem lhe assina dez annos de governo, e parece o mais provavel. O Padre Argote lhe dá o nome de Theodomiro Junior, porque antes delle diz que houvera outro Theodomiro Senior.[537]
570Miro, ou Ariamiro. Foy excellente Principe em piedade, e Religiaõ. Fez convocar em Braga o segundo Concilio para desterrar alguns abusos, e governou treze annos. Aqui ha grande equivocaçaõ em o nome deste Rey, que alguns confundem com Theodomiro, e por isso naõ se ajusta entre os Authores a chronologia como deve ser.[538]
583Eborico, ou Eurico. Succedeo no governo ao antecedente. Foy logo despojado do Reino por Andéca, padrasto de Eburico, o qual para mais o inhabilitar para a successaõ, lhe fez tomar o habito de Religioso no Mosteiro de Dume, e professar. Esta violencia vingou pelos mesmos fios Leovigildo, Rey Godo, obrigando tambem a Andéca a se ordenar de Sacerdote; e desterrando-o para Béja, tomou posse de todas as riquezas do Reino, o qual no poder dos Suevos tinha durado em ambas as fortunas cento e setenta e sete annos.

Advertimos, que o erudito Padre Mestre Fr. Paulo Yañes produz huma serie dos Reys Suevos com diversidade desta, que temos expendido, tanto em os nomes dos Reys, como em o numero, e calculo dos annos.[539] Este Author como o seu intuito foy mostrar, e explicar o cap. 7. de Daniel nestas quatro nações barbaras, que occuparaõ Hespanha, naõ quiz incluir na serie dos Reys aquelles, que foraõ tyrannos, e intrusos, e assim exclue a Frantan, Fumario, e Andéca, numerando sómente oito Reys Suevos legitimos, e verdadeiros.

Catalogo chronologico dos Reys Godos, que governaraõ Hespanha, e Portugal.

Ann. de Chr.
411Ataulfo. Foy o primeiro Rey Godo, que teve dominio em Hespanha. Suceedeo a Alarico: casou com Gala Placidia, irmã do Imperador Honorio, aquem este deu em dote as terras de Hespanha com o designio de expellir dellas aos Vandalos, e as outras nações Septentrionaes; porém Ataulfo, portando-se com brandura no governo, foy desobedecido pelos seus, e por elles morto em companhia de sete filhos. Dizem huns que governara cinco annos, outros seis.
416Sigirico. Era valeroso Capitaõ, e por isso elegeraõ para Rey. Quiz levar as cousas pelos termos de paz; e naõ se contentando os Godos com o seu modo, tambem lhe tiraraõ a vida. Governou hum anno.
416Walia. Começou a governar com o projecto de conquistar Africa: perdeo huma grande armada: retira-se a Barcelona, faz pazes com Honorio, e depois guerra aos Vandalos, e os vence. Morre em Tolosa, tendo governado tres annos.
419Theodoredo, ou Theodorico. Fez guerra aos Romanos, e morreo na cruelissima batalha dos campos Catalaunicos, cahindo de hum cavallo. Governou trinta e tres annos.
452Thurismundo, filho de Theodoredo. Foy morto por industria de seus irmãos. Governou hum anno.
453Theuderico, irmaõ de Thurismundo. Venceo, e matou a Reciario, Rey dos Suevos, e em Braga fez grandes hostilidades. Foy morto por seu irmaõ Eurico. Governou treze annos.
466Eurico. Deu leys escritas aos Godos, expulsou aos Romanos de Hespanha, conquistou, e saqueou muitas terras de Portugal. Neste tempo se achava Hespanha dividida em tres Imperios: os Suevos tinhaõ a Galiza, parte da Lusitania: a Betica, e Catalunha era dos Godos: os Romanos eraõ senhores das Provincias de Cartagena, e Carpentana com o restante da Lusitania. Depois de algumas vitorias morreo em Arlés de França, e governou dezasete annos.
483Alarico II. filho de Eurico. Litigou com Clodoveo, Rey de França, e em huma batalha junto a Carcasona perdeo com ella a vida. Governou vinte e tres annos.
506Gesalico, ou Gesaleuco ou Gensalarico, filho illegitimo de Alarico. Foy acclamado pelos Godos na menoridade de Amalarico. Perdeo o que seus antecessores possuiaõ em França; e sendo vencido por Theodorico, Rey dos Ostrogodos de Italia, avô do herdeiro legitimo, morreo de melancolia. Governou quatro annos.
511Theudorico II. Tendo reinado dezoito annos em Italia occupou o Cetro de Hespanha. Dizem huns que como Rey verdadeiro, outros só como tutor, ou administrador de seu neto. Governou quinze annos.
526Amalarico, filho de Alarico. Teve por mulher a Crotilde, Princeza Catholica, filha de Clodoveo, Rey de França; mas como o marido era Arriano, padeceo com elle grandes trabalhos, até que os irmãos a vingaraõ, matando-o, e destruindo muitas povoações de Hespanha. Governou cinco annos.
531Theudo, ou Theudio, ou Teudis. Tinha sido tutor de Amalarico, e Governador de Hespanha: outros o fazem descendente delRey Theodorico de Italia. Acabou, e extinguio o governo dos Romanos em Hespanha quanto aos Magistrados. Foy morto em seu Palacio por hum homem, que se fingia bobo. Governou dezasete annos.
548Theudiselo, ou Theudisclo. Foy Arriano, e hum dos máos Reys dos Godos. Os seus o mataraõ em Sevilha, estando em hum banquete. Governou hum anno.
549Agila. Por eleiçaõ dos Grandes foy eleito Rey. Os Cordovezes o venceraõ. Muitos dos seus se rebelaraõ contra elle, e o mataraõ em Merida. Governou cinco annos.
554Athanagildo. De Capitaõ, que se havia rebelado, ficou com o Reino dos Godos. Morreo em Toledo, e governou quatorze annos.
567Liuva, ou Luiva. Depois de reinar hum anno cedeo o senhorio de Hespanha a seu irmaõ Leovigildo, e elle se retira às terras, que tinha em França. Governou hum anno.
568Leovigildo. Alcançou muitas vitorias dos Suevos de Galiza, recopilou as leys Goticas, foy o primeiro, que usou de insignias Reaes, throno, cetro, e coroa. Teve grandes guerras com seu filho Hermenegildo, a quem perseguio, e fez martyrizar em Sevilha depois de huma apertada prizaõ. Governou dezoito annos.
586Flavio Recaredo, filho de Leovigildo, e sobrinho de S. Leandro, e S. Fulgencio. Desterrou a heresia de Arrio das terras de Hespanha, e governou quinze annos.
601Liuva II. filho de Recaredo, que alguns querem que fosse bastardo. Foy pio, e Catholico. Witerico lhe usurpou o Reino, tirando-lhe com tyrannia a vida. Governou dous annos.
603Witerico. Renovou em seu governo a perfidia de Arrio, e por isso o mataraõ, e arrastaraõ pelas ruas publicas de Toledo, dando-lhe immunda sepultura. Governou seis annos.
610Gundemaro. Foy defensor da immunidade Ecclesiastica, e venceo aos Navarros. Governou dous annos.
612Sisebuto. No principio do seu reinado constrangeo aos Judeos a que seguissem a Ley de Christo, por cujo motivo fugiraõ muitos para França. Acabou de lançar fóra de Portugal aos Romanos, que ainda se conservavaõ neste tempo por toda a costa do Algarve, e entre os Cabos de S. Vicente, e de Espichel. Fortaleceo a Cidade de Evora, e fundou em Toledo a Igreja de Santa Leocadia. Governou oito annos e meyo.
621Flavio Suyntila, filho de Recaredo. Destruio os Imperiaes, e sujeitou ao dominio Gotico todo Portugal. Entregou-se aos vicios, e crueldades de fórma, que o Concilio Toledano IV. em que se achou Santo Isidoro, o excommungou, e a sua mulher, e filhos. Os Vice-Godos o privaraõ do Reino. Governou dez annos.
631Sisenando. Foy sublimado ao throno por favor de Dagoberto, Rey de França, a quem deu dez pezos de ouro taõ grandes, que bastaraõ para acabar o grande Templo de S. Diniz. Governou quatro annos.
636Chintila. Por votos uniformes da Nobreza foy eleito Rey; e querendo perpetuar no estado Regio sua descendencia, convocou alguns Concilios para estabelecer o seu intento. Governou tres annos.
640Tulga. Viveo pouco, porém fez obras de grande piedade, e zelo christaõ. Morreo em Toledo com grande sentimento, e saudade de todos. Governou dous annos.
642Chindasuindo. Entrou a governar por violencia, continuou com justiça de forte, que soube temperar o arduo do principio com o suave do progresso. Convocou em Toledo Concilio, fundou o Mosteiro de S. Romaõ entre Toro, e Torresilhas, onde está enterrado. Governou seis annos.
649Recesuindo, filho do antecedente. Entrou a governar sem contradiçaõ, e com justiça. Governou vinte e tres annos.
672Wamba, ou Bamba. Foy eleito, e ungido Rey milagrosamente. Ganhou muitas batalhas contra aquelles povos, que se queriaõ eximir do jugo Gotico: até dos Sarracenos triunfou. Hum accidente lhe fez mudar huma coroa por outra: repudiou o Reino, e deixando a purpura pelo habito de Religioso, acabou santamente. Governou sete annos.
680Ervigio. Obteve o Cetro por industrias, que maquinou em vida de Bamba. Governou sete annos.
687Egica, ou Egiza, genro de Ervigio. Tomou por companheiro a seu filho Witiza, e obrigou aos Nobres a que lhe jurassem fidelidade. Divide o governo entre si, e o filho, dando a este o dominio de Portugal, e Galiza, e elle ficando com o restante da Hespanha. Governou dez annos.
701Witiza. Tanto que subio ao Throno, fez estabelecer sua Corte em Braga, e dando-se a todo o genero de vicios, chegou ao extremo da maldade, e tyrannia, mandando tirar os olhos a seu irmaõ Theodofredo, que residia pacifico no governo de Cordova. Concedeo varios privilegios aos Judeos, e depois de outras muitas perversidades, que o fizeraõ aborrecivel de todos, morreo em Toledo. Governou dez annos.
711D. Rodrigo, filho de Theodofredo, e neto de Chindasuindo. Pouco se distinguio nos vicios ao antecessor. Os amores, que teve com Florinda, filha do Conde Juliaõ, foraõ causa da sua ruina e de toda Hespanha, introduzindo-se por conducta do Conde offendido no desprezo de sua filha hum grande corpo de exercito Arabe, que derrotou a D. Rodrigo, e todo o poder dos Godos, que havia durado na Hespanha mais de trezentos e oitenta annos.[540]