NOTAS DE RODAPÉ:

[520] Paul. Diac. lib. 13. Turselin. Epitom. Historic. lib. 5. pag. 113.

[521] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2.

[522] Oros. Cassiodor. e outros apud Gandar. nas Palm. e triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. l. 6. cap. 10. e 11. Saavedra Coron. Gotic. tom. 1. p. 32. Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 2. e 3.

[523] Clede, Histoire de Portug. tom. 1. liv. 3. pag. mihi 224.

[524] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 4.

[525] Morales lib. 11. cap. 33.

[526] Vasæus Chron. tom. 1. p. 39.

[527] Monarq. Lusit. liv. 6. cap. 24.

[528] Faria na Europa Portug. tom. 1. part. 3. cap. 20.

[529] Monarq. Lusit, liv. 6. cap. 25.

[530] Morales liv. 12. cap. 40. e 41.

[531] Berganç. Antig. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 6. n. 67.

[532] Castilh. liv. 2. disc. 10. Monarq. Lusit. ut supr. cap. 30.

[533] Garibay liv. 36. Clede tom. 1. liv. 3. pag. mihi 309. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 1.

[534] Argot. Memor. do Arcebispad. de Brag. liv. 5. cap. 2. num. 367.

[535] Monarq. Lusitan. liv. 5 cap. 10.

[536] Gandar Triunf. Eccles. de Galiz. part. 2. liv. 7. cap. 7.

[537] Argot. Memor. de Brag. liv. 5. cap. 1.

[538] Veja-se ao Padr. Yañes no liv. 2. cap. 27. num. 4. de la Era, y Fechas de España.

[539] Idem part. 1. cap. 19. de la España en la Santa Biblia.

CAPITULO V.
Invasaõ, e dominio dos Mouros.

1 Derrotado, e extincto o exercito dos Godos nas prayas do Guadalete em dia de S. Martinho 11 de Novembro de 714 conforme a melhor computaçaõ,[541] e refugiando-se nas terras de Portugal o infeliz Rey D. Rodrigo, onde passados alguns annos acabou com a morte os seus dias junto a Viseu,[542] entraraõ os Arabes a executar com todo o furor a conquista de Hespanha, vendo-se logo nos seguintes dous annos a mayor parte della, e do nosso Reino sujeita, e subordinada ao dominio barbaro, excepto aquellas porções de Galiza, e Asturias, que pela aspereza de suas brenhas se fizeraõ inaccessiveis às armas dos Africanos.[543]

2 O lastimoso estado, em que se achariaõ nossas terras com aquelle improviso, e accelerado cativeiro, bastantemente se faz crivel, vendo-se em taõ pouco tempo sem liberdade, afflictas, e tributarias a huma Naçaõ barbara, e contraria da Fé Catholica: as Igrejas, e Sacerdotes desprezados com desacatos, e insultos, experimentando estes golpes primeiro que outras aquellas povoações, que estavaõ mais proximas ao Oceano.[544]

3 Havia-se achado na batalha do Guadalete o Infante D. Pelayo, da antiquissma familia dos Hespanhoes Cantabros,[545] que com as breves reliquias de alguns Godos se tinha acolhido às montanhas das Asturias. Passado algum tempo, resentido da violencia, que hum Governador Mouro fizera a huma sua irmã, tomando-a por mulher, estando elle ausente,[546] com o motivo de taõ justa vingança, e de sacudir dos seus hombros, e de seus nacionaes o gravame de tal jugo, convocou, ou se lhe aggregou muita gente valerosa com armas, e petrechos proporcionados à empreza; e depois de o acclamarem Rey no valle de Cangas, ou Covadonga, noticioso Alahor, Governador Arabe, daquella sublevaçaõ, o mandou accommetter com o formidavel exercito de cento e oitenta e sete mil Mouros, aos quaes milagrosamence destruio D. Pelayo.[547]

4 Divulgada a noticia deste primeiro triunfo, respirou o animo dos Christãos dispersos ao mesmo tempo, que se abateo o furor barbaro; e concorrendo ao estrondo deste feliz successo D. Affonso, filho de D. Pedro, Duque de Biscaya, descendente do glorioso Recaredo, Rey Godo,[548] se offereceo com bom numero de Biscainhos a ElRey D. Pelayo, o qual reconhecendo animo, e valor heroico na pessoa de D. Affonso, o desposou com sua filha Ermesenda.

5 D. Affonso agradecido a elle favor, querendo explicar bem o seu zelo, e gratidaõ, entrou poderosamente em Portugal pela Provincia do Minho, e recuperando Braga, Porto, Viseu, Agueda, e outras terras deste Reino, libertando-as da escravidaõ Sarracena, se recolheo vitorioso, deixando com estes triunfos aturdidos os barbaros, que já começavaõ a tratar os nossos mais com algum respeito, e menos oppressaõ.[549]

6 O governo politico se praticava, nomeando o Governador Mouro a hum Conde Christaõ em cada Comarca, o qual sentenciava as causas ordinarias segundo as leys Goticas, excepto a sentença de morte, que só a podia dar o Alcaide dos Mouros, que pouco a pouco foraõ introduzindo, e intimando as suas leys.[550]

7 Como o Catholico Rey D. Affonso, (o qual pela morte de D. Favila, seu cunhado, havia recebido o Cetro, e a Coroa,) naõ podia nesta gloriosa conquista pela falta de gente conservar nas terras, que resgatava, aquelle presidio sufficiente, que rebatesse as sublevações dos inimigos; acontecia que humas vezes ficavaõ nossas terras na obediencia dos Christãos, outras na dos Barbaros, e nesta inconstancia de dominio permaneceo o Reino nos tempos de D. Froila, D. Aurelio, D. Silo, D. Mauregato, e D. Bermudo, todos Reys de Asturias, até que ElRey D. Affonso o Casto, reforçado com mayor poder, se avançou desde as Asturias até Lisboa, que bloqueou, venceo, e guarneceo de mayor presidio, e a outras muitas terras, que lhe ficavaõ intermedias do Minho, e Beira, por onde passara.

8 Teriaõ passado oito annos, quando os infieis, creando novos alentos, sahiraõ com poderoso exercito, que commandava Aliatan, e recuperaraõ todas aquellas terras, que reconheciaõ o nome delRey D. Affonso; porém este fazendo-lhe valerosa oppugnaçaõ, os obrigou a pactear. Em fim com este perturbado governo se foy continuando bastantes annos o estado das nossas Provincias, conforme era a fortuna, que experimentavaõ; e mudando-se para conhecida prosperidade em tempo, que governava ElRey D. Affonso VI. se vio o Imperio Christaõ em grande augmento.

9 Discorriaõ as armas Catholicas taõ felizmente, que ao pregaõ de seus gloriosos progressos vinhaõ muitos Capitães de nome, emulos do valor, e da honra, militar pelo credito da Fé à sombra das bandeiras de taõ venturoso Monarca. Entre estes veyo o illustrissimo, e valeroso Conde D. Henrique, do qual procedeo huma florentissima arvore dos soberanos Monarcas Portuguezes, que no Capitulo seguinte havemos de expôr, demorando-nos agora hum pouco, em quanto mostramos em abbreviado Catalogo a serie dos Reys de Asturias, cujo dominio reconheceo Portugal, como sua primeira, e propria conquista sobre os Arabes; e destes tambem fizera-mos Catalogo chronologico pelo que pertence aos seus Califas, ou Governadores em o tempo do imperio, que tiveraõ em Portugal, se acaso os Escritores Arabes foraõ coherentes nas suas Hegiras, ou Chronologias, cuja confusaõ nos absolve deste trabalho, podendo quem quizer mayores noticias das expedições dos Mouros, e guerras intestinas, que fizeraõ em toda Hespanha, ver a obra de Abulcacim Tarif Abenterique, traduzida em Castelhano por Miguel de Luna, e impressa no anno de 1600, ou o que se acha junto no Chronicon de Vaseu. Catalogo chronologico dos Reys de Asturias, e Leaõ, que em tempo dos Mouros começaraõ a conquistar, e governar Portugal.

Ann. de Chr.
738D. Affonso I. chamado o Catholico, filho do Duque de Biscaya. Casou com a filha delRey D. Pelayo: foy o primeiro Rey de Asturias, que depois da perda de Hespanha teve dominio sobre os Portuguezes, e conquistou aos Mouros terras de nosso paiz: fundou, e reparou muitas Igrejas. Governou dezanove annos.
757D. Froila, ou Fruela, filho de D. Affonso. Ganhou algumas batalhas aos Mouros, e lhe conquistou Béja, Setubal, e outras terras de Portugal. Com inveja de ser mais bem quisto seu irmaõ Vimarano, o matou, deslustrando com esta crueldade todas as boas obras, que tinha feito. Reformou o estado Ecclesiastico de Hespanha, e no seu tempo succedeo a vinda do corpo de S. Vicente a Portugal. Seus vassallos o mataraõ, e foy sepultado na Igreja de Oviedo, que elle fundou. Governou onze annos e meyo.
768D. Aurelio, filho de D. Fruela. Serenou com prudencia num grande tumulto de escravos, que se levantaraõ contra seus senhores. Governou seis annos.
774D. Silo. Succedeo na Coroa, por casar com Adosinda, filha de D. Affonso o Catholico. Teve paz com os Sarracenos, e só com os Gallegos teve huma guerra, em que venceo. Entrou poderosamente na Cidade de Merida, donde tirou o corpo de Santa Eulalia, e o depositou na Igreja de S. Joaõ Evangelista de Pravia, onde elle está enterrado, com huma inscripçaõ na sua sepultura em labyrintho, que diz, e se lê por todos os lados: Silo Princeps fecit. Governou nove annos.
783D. Mauregato. Obteve a Coroa por usurpaçaõ; porque a Rainha Adosinda pertendeo que os Grandes de Hespanha acclamassem por successor a D. Affonso, seu sobrinho, filho delRey D. Fruela; e sabendo isto Mauregato, filho bastardo de D. Affonso o Catholico havido em huma Moura, anhelando tambem ao Cetro, se foy valer de Abderramen, Rey de Cordova, promettendo-lhe vassalagem, se o soccorresse na sua pertençaõ. Foy o promettimento dar-lhe todos os annos cem donzellas de tributo, cincoenta nobres, e outras tantas plebeas, e se mandavaõ recolher em Asturias, Portugal, e Galiza. D. Joseph Pellizer,[551] a quem segue D. Joaõ de Ferreras,[552] quizeraõ persuadir que este Rey nem se chamava Mauregato, nem promettera ao Mouro o tributo annual das cem donzellas Christãs; porém naõ tem razaõ, segundo o que se lê na Monarquia Lusitana,[553] e o que diz o Padre Fr. Francisco de Bergança.[554] Governou cinco annos.
789D. Bermudo I. filho de D. Fruela. Sendo Diacono, e destinado à Igreja, por instancias dos Grandes do Reino entrou a governar. Naõ quiz contribuir aos Governadores Mouros com o tributo das cem donzellas. Depois de haver governado tres annos, e oito mezes, renunciou o Reino em D. Affonso, filho de seu primo D. Fruela, e passou a buscar o habito de Monge no Mosteiro de Sahagum, onde viveo muitos annos.
791D. Affonso II. chamado o Casto. Encarregando-se do governo, que lhe cedeo D. Bermudo, começou a se fazer temido dos Mouros. Recuperou Lisboa por assalto, e conquistou as Cidades de Lamego, Viseu, Coimbra, Braga, e outros Lugares. Mahamet fez pazes com elle, e o servia como vassallo. Em seu tempo se descubrio o corpo do glorioso Apostolo Santiago, a quem mandou edificar huma Igreja com magnificencia Real. Governou conforme a nossa Chronologia cincoenta e hum annos; porém a Clave Historial do Padre Fr. Henrique Flores lhe assina trinta e quatro.
842D. Ramiro I. filho delRey D. Bermudo. Logo no principio do seu reinado se levantou contra elle hum Conde das Asturias, chamado Nepociano, a quem venceo, e castigou, mandando-lhe tirar os olhos, supplicio ordinario daquelle tempo. Com fortuna igual ao seu valor ganhou aos Mouros o Porto, Lamego, Viseu, Coimbra, e Montemór o Velho. Aqui poz por Governador a seu tio o Abbade Joaõ, o qual cercado dahi a tempos pelos Barbaros, vendo que todos pereciaõ irremediavelmente por falta de mantimentos, resolveo com os mais, que se as mulheres, velhos, e meninos haviaõ ficar expostos ao furor dos tyrannos, fossem elles mesmos os que sacrificassem a innocencia por victima da sua honra: e assim cada hum degollou por suas proprias mãos a quem mais amava. Sahiraõ logo a acommetter desesperadamente aos Mouros, os quaes naõ podendo soffrer aquelle tremendo modo de pelejar, se deraõ por vencidos à custa de setenta mil que pereceraõ. No outro dia voltando alguns à Villa, se lhes offereceo novo motivo para a admiraçaõ, vendo que todos os degollados viviaõ resuscitados milagrosamente. Referem este caso nossos Historiadores,[555] e parece que o acredita a tradiçaõ de pays a filhos, que ainda permanece nesta Villa. No seu Castello está hum antiquissimo padraõ, que supposto ter já muitas letras carcomidas, bem se percebe da contextura ser narraçaõ deste prodigio. Havendo finalmente D. Ramiro governado sete annos, e oito mezes, morreo no primeiro de Fevereiro de 850, e está sepultado na Igreja de Oviedo.
850D. Ordonho I. filho de D. Ramiro, a quem succedeo com universal applauso, por ser Principe de grande valor, e talento. Serenou huma rebelliaõ dos Vascões seus vassallos, e venceo ao renegado Musa, de grande nome entre os infieis, por cuja vitoria ficaraõ muy temerosos. Ganhou Santarem, Leiria, e outras terras de Portugal. Morreo de gota, e governou dezaseis annos.
866D. Affonso III. chamado o Magno pelas grandes vitorias, que alcançou dos Mouros, e sumptuosos Templos, que edificou, e esmolas, que deu. Os seus o perseguiraõ, rebellando-se, e os Barbaros oppondo-lhe fortes exercitos; mas elle pacificou huns, e triunfou dos outros. Em Portugal reedificou muitas Cidades arruinadas, Braga, Porto, Chaves, e Viseu. Renovando-se as inquietações domesticas, e sabendo que os seus mesmos filhos queriaõ despojallo do Cetro, pelos naõ vencer a elles naquella violencia, se venceo a si, e repartindo o Imperio, deu a D. Garcia o governo de Leaõ, Oviedo, e Castella, e a D. Ordonho Galiza, e Portugal, ficando elle só com a espada contra os Mouros, de quem ainda alcançou vitorias. Governou quarenta e quatro annos.
910D. Garcia. Entrou a governar bem, explicando o seu valor na vitoria, que teve dos Mouros em Talavera, prendendo ao General Ayola, que ao depois lhe fugio. Governou tres annos.
913D. Ordonho II. Morto D. Garcia, foy acclamado Rey pelos Bispos, e Principaes do Reino. Combateo a Cidade de Béja, que era a mais opulenta, que os Mouros occupavaõ, e a ganhou matando toda a gente da guarniçaõ. Poz grande terror aos Barbaros, de fórma que ElRey de Merida lhe veyo render vassallagem. Suspeitando que os quatro Condes, que governavaõ entaõ Castella, se queriaõ rebellar, mandou-os vir a Tejares junto do rio Carrion, segurando-lhes queria tratar com elles materias importantes; mas dissimuladamente os prendeo, e os fez degollar. Governou nove annos, e meyo.
923D. Froila II. Naõ se conta deste Rey acçaõ contra os Mouros, antes o culpaõ de tyranno, mandando matar os filhos de Olimundo, e desterrar a Fronimio, Bispo de Leaõ, por terem seguido as partes do Infante D. Affonso. Por isto se fez aborrecivel dos vassallos. Morreo de lepra, e governou hum anno.
924D. Affonso IV. Entrando a governar, e conhecendo-se inutil, renunciou o dominio em seu irmaõ D. Ramiro, e elle foy buscar a vida Monastica no Convento Benedictino de Sahagum. Depois passados seis mezes, largando o habito, se foy a Leaõ, onde o admittiraõ, e intitularaõ Rey. Sabendo isto D. Ramiro, passou àquella Corte, e cercando-a, obrigou a D. Affonso a entregarse-lhe, e irado lhe mandou tirar os olhos, e prender até acabar seus dias. Os annos do seu governo, e tempo do Monacato pertendem ajustar Fr. Francisco de Bergança,[556] e Fr. Manoel da Rocha.[557]
931D. Ramiro II. Depois de prender a seu irmaõ, e seus sobrinhos, determinou fazer cruel guerra aos Mouros, como com effeito fez taõ felizmente, que sempre os venceo. Ajudando-o visivelmente Santiago, matou junto de Simancas a setenta mil Mouros. Alguns Historiadores[558] dizem, que morrera sendo Religioso. Governou dezanove annos.
950D. Ordonho III. Foy filho de D. Ramiro, e Principe valeroso, e prudente. Casou com a filha do Conde Fernaõ Gonçalves, o qual querendo rebellarse contra elle, repudiou-lhe a filha, e lha mandou a Castella. Sujeitou aos Gallegos, que se haviaõ levantado, e passando a Portugal, chegou até Lisboa, que entrou sem embaraço, saqueando os mais lugares, que estavaõ em poder dos Mouros. Governou cinco annos e meyo.
955D. Sancho I. chamado o Gordo, porque na verdade o era, e foy motivo para ser deposto do throno, e subir em seu lugar o Infante D. Ordonho, filho de D. Affonso IV. intervindo nisto o Conde Fernaõ Gonçalves, e alguns Senhores de Galiza. Passou D. Sancho a Cordova, e alcançando lá remedio à sua queixa, o buscou tambem aos seus interesses, valendo-se delRey Abderramen, que com hum exercito de Mouros fez com que D. Ordonho lhe restituisse o Reino de Leaõ. Os Condes, que governavaõ as terras do Minho, e Galiza, se conjuraraõ contra ElRey; mas elle pacificando-os, os obrigou a jurarem fidelidade, em cujo acto hum dos Condes lhe deu peçonha, de que morreo. Governou doze annos.
967D. Ramiro III. Tomou a investidura do Reino, tendo cinco annos de idade, e começou este governo pelas direcções de sua mãy, e tia. Fez pazes com ElRey de Cordova, recuperou dos Mouros o corpo do glorioso S. Pelagio, destruio pelo valor do Conde Gonçalo Sanches huma armada de Normandos, que aportou em Galiza. Tratando com pouca attençaõ aos Condes de Portugal, e Galiza, estes acclamaraõ por seu Rey ao Infante D. Bermudo, filho delRey Ordonho, a 15 de Outubro de 982. Contenderaõ ambos rijamente, e a morte de D. Ramiro decidio o argumento. Governou dezaseis annos.
985D. Bermudo II. chamado o Gotoso. Foy pouco afortunado, pois encontrou sempre muy poderoso a seu contrario Almançor. Em Portugal tudo que hia desde a corrente do Douro até o Algarve estava sujeito aos Mouros, e só a pequena Comarca de Entre Douro, e Minho com algumas terras da Beira estavaõ na obediencia delRey D. Bermudo. Unido com ElRey de Navarra, e o Conde Garcia Fernandes, venceo huma grande batalha a Almaçor, que o obrigou a fugir para Cordova, deixando-lhe no campo setenta mil Sarracenos. Morreo arrependido de suas culpas em Galiza, e governou quatorze annos.
999D. Affonso V. filho de D. Bermudo. Succedeo na Coroa, tendo cinco annos de idade. Foy Principe muy pio, e caritativo. Com intentos de destruir os Mouros passou a Viseu, onde elles tinhaõ as mayores forças, e resistencia, e os cercou apertadamente; mas chegando-se perto das muralhas, huma seta disparada das suas ameyas o atravessou, e fez levantar o sitio. Governou vinte e sete annos.
1027D. Bermudo III. filho de D. Affonso. Foy Principe de grande animo, porém infeliz, porque nas guerras, que teve com seu cunhado D. Fernando, Rey de Castella, mettendo-se na batalha do Carrion por entre as armas, lhe tiraraõ a vida. Governou dez annos.
1038D. Fernando o Magno. Por morte de seu cunhado tomou posse do Reino de Leaõ. Deveo-lhe Portugal a restauraçaõ das suas terras desde o Douro até o Mondego. Depois de muitas vitorias mereceo que o glorioso Santo Isidro lhe revelasse o fim dos seus dias; e antes de morrer repartio seus Reinos por seus filhos: a D. Sancho deixou Castella, a D. Affonso Leaõ, e a D. Garcia Galiza, e Portugal. Governou vinte e nove annos.
1067D. Garcia. No seu governo se deixou este Principe levar das lisonjas de hum seu valido, chamado Verna, que foy causa de se descontentarem os illustres Portuguezes, e Gallegos, os quaes levantando-se, tomaraõ armas, e lhe deraõ huma batalha, que elle todavia venceo. D. Sancho, seu irmaõ mais velho, o metteo em prizões, e o Reino de Portugal, e Galiza se lhe entregou, ficando por entaõ incorporado na Coroa de Castella. Governou quatro annos.
1071D. Sancho II Perseguio fortemente a seus irmãos, e querendo usurpar tambem do poder de sua irmã Dona Urraca a Cidade de Çamora, que poz em apertado cerco, hum Cavalleiro chamado Velhido Dolfos o matou com huma lança. Governou hum anno.
1072D. Affonso VI. Teve o titulo de Imperador, e reinou em Castella, Leaõ, Portugal, e Galiza. Foy hum dos mais bem afortunados Principes de Hespanha, e o que conquistou mais terras aos Mouros, aos quaes atropelou com o valor do celebrado Cid. Distribuio o governo de algumas Comarcas de Portugal por illustres pessoas. O Conde D. Sisnando governava as terras de entre Douro, e Mondego. Egas Ermigio Arouca. O Conde D. Nuno Mendes a Provincia do Minho, a quem succedeo o illustrissimo Conde D. Henrique, gloriosa origem dos Reys Portuguezes, de cujo assumpto ornaremos só como epitome o Capitulo seguinte.