NOTAS DE RODAPÉ:
[540] Veja-se Loays. nos Concil. de Hesp. Coronelli no Prodrom. part. 4. p. 465. Vasæu tom. 1. Chron p. 39. Resend. lib. 3. de Antiq. Marian. Histor. de Hesp. part. 1. Savedr. Coron. Gotica. Gandar. nas Palm y Triunf. de Galiza part. 2. Berganz. Antig. de Hesp part. 1. liv. 1. Yañes España en la S. Biblia part 1. cap. 19. pag 224.
[541] D. Rodrig, Arceb. liv. 1. cap. 255. Histor. Gen. de Hesp. part. 2. cap. 55. Moral. liv. 12. cap. 69. Berganç. Antiguid. de Hesp. part. 1. liv. 1. cap. 13. n. 212. Yañes de la Era, y Fechas de España lib. 2. cap. 29. p. 482. Chronic. Albendense seguido por Marian. part. 1. liv. 6. cap. 23. Monarq. Lusit. liv. 7 cap. 2. concorda no anno, mas discrepa no dia, porque assenta que foy no meyo de Outubro.
[542] Væseus Chron. tom. 1. p. 113. Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 3. p. 386. Aqui affirma Brito, que na Igreja de S. Miguel do Fetal, que está fóra dos muros de Viseu, vira a sepultura de D. Rodrigo, mas já naõ tinha os ossos delRey, por haver annos, que os haviaõ, trasladado para Castella, e naõ diz onde se depositaraõ.
[543] Moret. Anales liv. 3. cap. 4. e no tom. 1. Append. §. 2.
[544] Ferrer. ad ann. 713. n. 9.
[545] Fr. Franc. Sota Chron. de los Princip. de las Astur. liv. 3. cap. 42. n. 7.
[546] Isidor. Pacens. apud Brit. na Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.
[547] Monge de Silos apud Bergança nas Antiguid. de Hesp. part. 1. liv. 2. cap. 1. n. 7. Vasæus Chron. tom. 1. ad ann. 716. Marian. part. 1. liv. 7. cap. 1. Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 6.
[548] Salazar Histor. da Casa de Lara liv. 2. cap. 1.
[549] Ferrer. tom. 4. na Dedicat.
[550] Monarq. Lusitan. liv. 7. Bergança part. 1. liv. 2. cap. 1. num. 2.
[551] Pellizer Anal. p. 401.
[552] Ferrer. tom. 4. p. 108.
[553] Monarq. Lusitan. liv. 7. cap. 9.
[554] Bergança part. 1. das Antiguid. de Hesp. liv. 2. cap. 3. n. 35.
[555] Monarq. Lusit. liv. 7. cap. 14. Benedict. Lusit tom. 1. trat. 2. part. 2. cap. 6. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Port. n 52. Paes Viegas nos Princip. de Portug. liv. 6. p. 219. Agiolog. Lusit. tom. 3. p. 801. Ann. Historic. tom. 2. p. 257.
[556] Berganç. part. 1. das Antig. de Hesp. liv. 3. cap. 6. n. 65.
[557] Rocha Portug. Renascid. part. 2. n. 124. & seqq.
[558] Apud Berganç. ut supr. cap. 12. n. 138.
CAPITULO VI.
Erecção do senhorio de Portugal separado dos mais dominios de Hespanha, e estabelecimento dos soberanos Monarcas Portuguezes.
Ainda a mayor parte das nossas terras era perseguida, e infestada dos Mouros, sem ter sido bastante o grande poder dos Reys de Leaõ, e Asturias para os lançar fóra de Hespanha, quando apparecendo o Conde D. Henrique no anno de 1080 com o intento de se naturalizar na gloria das conquisquistas delRey D. Affonso, mereceo com as suas grandes proezas o premio de que este lhe désse por esposa huma sua filha, e em dote naõ só o que estava em Portugal conquistado aos Sarracenos, mas tudo inteiramente o que seu valor aspirasse a conquistar. Desse esclarecido tronco se produzio a fecundissima arvore da Casa Real Portugueza com huma uniaõ de florecentes ramos em periodo gloriosamente continuado, como já entramos a ver.
Conde D. Henrique.
2 Cinco pontos mais difficultosos exporemos primeiramente na vida deste illustrissimo Conde. O primeiro: Qual he a sua origem? Naõ menos que seis opiniões houve acerca deste verdadeiro conhecimento, que se podem ver no destro politico Duarte Ribeiro de Macedo.[559] A mais certa, e verdadeira, com que os Authores deste seculo se conformaõ, he a que faz ser ao Conde D. Henrique descendente por varonia dos Duques de Borgonha, e da Casa Real de França. Funda-se esta opiniaõ no celebre Exemplar Floriacense, que se achou em França na livraria do Convento de Fleury, donde o alcançou Pedro Piteu para o dar à impressaõ no anno de 1596. He huma Historia Genealogica de França, escrita em tempo do proprio Conde por hum Religioso de S. Bento, a qual he tida por texto indubitavel.
3 Depois de toda esta segurança, e certeza taõ recommendada tambem pelo grande Genealogico D. Antonio Caetano de Sousa,[560] fomos encontrar huma passagem no Capitulo 11. da Historia manuscrita da fundaçaõ de Santa Cruz de Coimbra por Fr. Jeronymo Romano, Religioso douto de Santo Agostinho, e de quem muitas vezes se lembra nosso Chronista Brandaõ com credito. Este pois referindo o epitafio antigo, que estava na cabeceira da sepultura do invicto Rey D. Affonso Henriques, antes que ElRey D. Manoel a mandasse reformar, diz, que se lia alli, entre outras clausulas, a seguinte:
Aqui jaze sepultado el muy poderoso, y muy excelente Principe Don Alonso Henriques, primero Rey de Portugal, el qual de parte de su Padre Don Henrique, Conde de Astorga, deciende por linea derecha de los Reyes de Aragon, y de parte de su madre de los Reyes de Castilla, &c.
4 Alguma violencia nos causa querer dar assenso à verdade deste epitafio; porque primeiramente lembrando-se delle o grande Brandaõ,[561] diz, que estava em versos Latinos, e os transcreve; mas nem em huma só palavra se conforma com o que diz Fr. Jeronymo. Mais: Accrescenta este huma reflexaõ sobre a mesma clausula da inscripçaõ, digna de reparo, dizendo: En lo que toca a ser su padre el Conde D. Henrique de linage de los Reyes de Aragon, y haver-se llamado Conde de Astorga, es muy facil de provar, y por no ser para aqui, lo dexo.
5 Chamamos reflexaõ digna de reparo, porque o mesmo Fr. Jeronymo no Capitulo primeiro da vida do infante D. Fernando deixou dito, que o Conde D. Henrique era Principe da Casa Real de França,[562] em que coincide com o Exemplar Floriacense, e se aparta da sobredita reflexaõ do epitafio. Sirva isto sómente de noticia, a qual quizemos communicar, porque esta obra, como outras tambem de Fr. Jeronymo, naõ anda impressa, supposto correrem alguns transumptos pelas mãos dos curiosos, e delle conservamos alguns Tratados. Veja-se porém Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel part. 4. cap. 72.
6 O segundo ponto difficultoso he: Se a Rainha Dona Teresa, mulher do Conde D. Henrique, foy filha legitima delRey D. Affonso VI. de Leaõ? A razaõ de duvidar vem a ser; porque ElRey D. Affonso sendo casado com Dona Ximena Nunes de Gusmaõ, da qual teve a Senhora Dona Teresa, foy depois separado deste matrimonio pelo Papa Gregorio VII. como consta da sua Carta, ou Breve, que principia: Dici non potest, escrita ao mesmo D. Affonso, por se contrahir sem dispensa do parentesco, que a dita Dona Ximena tinha com outra mulher delRey D. Affonso, o qual foy casado seis vezes.
7 Fundados nesta nullidade, affirmaraõ Authores Castelhanos, e ainda Portuguezes, que a Senhora Dona Teresa era filha bastarda, tendo por sua parte esta opiniaõ o Exemplar Floriacense,[563] objecçaõ forçosa, com que argumenta Manoel de Faria.[564] Porém isto naõ obsta; porque além de constar da contextura da Carta Pontificia, que ElRey D. Affonso tinha a Senhora Dona Ximena por legitima mulher, como tambem o dá a entender Baronio,[565] he certo que os filhos havidos de matrimonios separados por falta de dispensaçaõ de parentesco, saõ reputados filhos legitimos, e successores, como bem diz Brandaõ, e com elle Duarte Ribeiro.[566] Este ponto está taõ admiravelmente discutido pelo erudito, e infatigavel D. Joseph Barbosa, que parece escusado duvidar já na legitimidade da Senhora Infanta D. Teresa.[567]
8 A terceira difficuldade he: Saber o anno, em que entrou o Conde D. Henrique a governar Portugal, e as terras, que lhe deraõ em dote? Quanto à primeira parte, resolve o laborioso D. Joseph Barbosa[568] que entrara o Conde no anno de 1093. O fundamental Genealogico D. Antonio Caetano[569] he de parecer que viera no anno antecedente; e outros ainda anticipaõ mais esta entrada. Quanto à segunda parte, o dote foraõ as Provincias do Minho, Beira, e Tras os Montes, e em Galiza naõ comprehendia terra alguma, como affirma o Chronista Brandaõ,[570] contra o que alguns disseraõ. Este era o estado de Portugal, que o valeroso Conde augmentou depois com as outras terras, que foy ganhando aos Mouros, por onde livremente podia.
9 O quarto ponto difficultoso he: Se o Reino de Portugal foy dado ao Conde D. Henrique com alguma obrigaçaõ de feudo? Os Authores Castelhanos dizem que sim;[571] porém o certo he que foy dado independente, e sem genero algum de subordinaçaõ aos Reys de Castella. Assim o mostra, e prova com evidencia o erudito D. Joseph Barbosa,[572] e o discreto Academico Joseph da Cunha Brochado;[573] porque naõ se descubrindo em algum Archivo ou nosso, ou de Castella, copia deste contrato dotal, devemos recorrer à mais constante tradiçaõ, de que foy hum dote puro, sem imposiçaõ, ou clausula de reserva de alguma direita soberania.
10 A quinta difficuldade he: Saber em que tempo foy o Conde D. Henrique à conquista de Jerusalem, se antes, ou depois de haver entrado em Portugal? Brandaõ diz,[574] que depois, e no anno de 1103. Manoel de Faria affirma, que antes, mas em tempo, que já estava casado,[575] e que fora elle hum dos doze Capitães, que Urbano II. Author daquella expedição, nomeara para a mesma empreza. Temos por segura a sentença de Brandaõ.
11 Suppostas estas mayores duvidas, e com brevidade resolvidas, o que resta saber das acções gloriosas deste valeroso Conde, saõ as muitas vitorias, que alcançou dos Mouros. Dezassete se lhe contaõ das de mayor fama. Deu foraes a Coimbra, Tentugal, Soure, Certã, Zurara, S. Joaõ da Pesqueira, Guimarães, e a outras muitas Villas. Dotou, e enriqueceo muitas Igrejas com rendas, e beneficios, e depois de ampliar com egregios merecimentos seu grande espirito, foy chamado pelo Senhor ao descanço eterno em o primeiro de Novembro de 1112, tendo vivido setenta e sete annos, e governado mais de vinte. Jazem seus ossos, e cinzas na Sé de Braga.
D. Affonso Henriques, I. Rey.
12 Nenhum Principe mereceo mais justamente, o titulo de Heroe famoso, e o nome de primeiro Hercules Lusitano, que o preclaro, e soberano Rey D. Affonso Henriques; porque se meditarmos os preciosos trabalhos, que passou na ampliaçaõ da Fé, e estabelecimento da Monarquia Portugueza, naõ lhe fica o epitheto fabuloso, mas taõ verdadeiro, que o excede.
13 Teve o seu nascimento na Villa de Guimarães, (primeiro Solio, e Corte dos Principes Portuguezes) a 25 de Julho de 1109 conforme o melhor calculo;[576] e sendo seu nascimento festejado, assim como era util, moderou o contentamento de pays, e vassallos hum defeito corporal em sua pessoa. Dos braços de sua ama Dona Ausenda[577] passou logo à cultura, e instrucções de Egas Moniz, varaõ de maduro juizo, e destinado para seu Ayo. Este por continuas deprecações alcançou da purissima Virgem saude, e desembaraço aos pés do Principe, collocando-o por divina revelaçaõ no altar da imagem da Senhora de Carquere junto a Lamego, prodigio, que referem quasi todos os nossos Historiadores, e de que parece duvidar Mons. de la Clede.[578]
14 Corria o anno 1125, e o inclyco Principe contava dezaseis de idade, quando na Igreja Cathedral de Çamora, que por este tempo estaria sujeita à Coroa de Portugal, elle mesmo se armou Cavalleiro, tomando as insignias militares do altar do Salvador.[579] Passados dous annos, considerando-se já em idade competente de poder suster o Cetro, intentou dar principio ao seu governo. Duvidou a Rainha sua mãy, que até alli governava, entregar-lhe o dominio, e foy preciso ao filho excluilla por força de armas, e à custa de huma escandalosa batalha, que lhe ganhou no campo de S. Mamede junto a Guimarães em 24 de Junho de 1128.
15 Deste dia por diante ficou D. Affonso com absoluto senhorio de Portugal; e reclusa a Rainha no Castello de Lanhoso, mandou pedir a ElRey de Leaõ adjutorio, que prompto a veyo soccorrer, mas infelizmente, pois ficou desbaratado na Veiga de Valdevez;[580] porém tornando no anno seguinte com exercito mais poderoso, cercou a Villa de Guimarães, onde se achava o Principe D. Affonso, e a tanto aperto reduzio a Villa, que se naõ fora Egas Moniz ir occultamente ajustar com o Leonez certas condições, e estipular para isso sua palavra, ficaria D. Affonso a arbitrio de seus inimigos; porém naõ querendo o Principe depois convir nos artigos do Tratado, que Moniz havia feito, dizem,[581] que este fora a Toledo com mulher, e filhos presentarse a ElRey de Leaõ, para que tomasse nelle vingança pela falta do promettido; acçaõ, que o mesmo Rey queixoso julgou sufficiente satisfaçaõ da palavra de hum vassallo taõ fiel a seu Soberano.
16 Proseguia D. Affonso a conquista da Estremadura com a fortuna taõ prospera, que parecendo-lhe já pequenos os limites do seu Estado, passou ao Alentejo, Provincia entaõ sujeita a Ismael, Rey Arabe poderoso, e com o projecto de augmentar o seu dominio, e extinguir os Barbaros chegou ao Campo de Ourique. Aqui triunfou de cinco Reys Mouros, e quinze Regulos confederados, e unidos em hum grosso corpo de quatrocentos mil combatentes.[582]
17 Facilitou-o para taõ memoravel batalha o prodigioso apparecimento de Christo crucificado, o qual escolhendo-o para baze da Monarquia Portugueza, lhe declarou como queria nelle, e nella estabelecer para si hum Reino com as regalias de Imperio, e que para final distinctivo da sua promessa lhe dava por estendarte, e escudo as suas cinco Chagas. Animado o venturoso Principe, antes de entrar no conflicto assentio a que o acclamassem Rey em 25 de Julho, dia felicissimo do anno 1139, a cujo titulo se naõ oppoz, tanto que o soube, ElRey D. Affonso de Castella,[583] e confirmou depois o Papa Alexandre III. no anno 1179 pela Bulla, que começa: Manifestis probatum est argumentis.[584]
18 A verdade desta mysteriosa visaõ se confirma do juramento do mesmo Rey D. Affonso, que fez na presença dos Grandes da sua Corte, passados treze annos, no de 1152, e se conserva no Cartorio de Alcobaça, donde se tem extrahido alguns traslados,[585] além de hum grande numero de Authores naõ só nacionaes, mas estranhos, que deste admiravel apparecimento fazem memoria, como se póde ver nos que abaixo allegamos,[586] naõ sendo digno de se ler neste particular o Padre Mariana,[587] que a esta visaõ de Christo, e derivaçaõ das suas sagradas Chagas ao nosso escudo tem por fabulosa, contra hum taõ authentico monumento, sendo nelle taõ claros os erros, quando diz aqui mesmo, que o campo do escudo das armas de Portugal, onde estaõ as cinco Quinas, he azul, constando a todos ser branco, e que a orla dos Castellos de ouro em campo vermelho ajuntara D. Sancho II. constando por escrituras da Torre do Tombo a ajuntara D. Affonso III.
19 Como tudo neste mundo está sujeito ao juizo dos homens, se oppozeraõ os mal affectos, contradizendo esta appariçaõ, a cujos argumentos responderemos com brevidade. Dizem naõ haver noticia em Portugal de hum caso taõ celebre, e maravilhoso, antes de se descobrir a firma do juramento em tempo delRey Filippe II. Responde-se: que na Chronica delRey D. Affonso Henriques, que recopilou de outra antiquissima por mandado delRey D. Manoel o Chronista Duarte Galvaõ se diz assim no cap. 15.: E o Principe sahio fóra da sua tenda; e segundo elle mesmo deu testimunho em sua Historia, vio a Nosso Senhor em a Cruz na mesma, maneira que disse o Ermitaõ. Camões, que morreo muito antes da vinda do Rey Filippe, o cantou tambem no Cant. 3. oitava 45. e 46. O letreiro que mandou pôr ElRey D. Sebastiaõ no arco triunfal do campo de Ourique escrito em Portuguez, e em Latim pelo insigne André de Resende, como elle o confessa no liv. 4. de Antiquit. faz memoria desta appariçaõ. O mesmo affirmaõ outros muitos Escritores antiquissimos.
20 Dizem mais: que para taõ grande favor lhe faltava ao Rey competente santidade. Responde-se que he falso; pois sempre foy tido por Santo; donde Sá de Miranda na Carta 5. est. 9. disse fallando de Coimbra:
Cidade rica do Santo
Corpo do seu Rey primeiro,
Que inda vimos com espanto,
Há taõ pouco tempo inteiro,
Dos annos que podem tanto.
Confirma esta santidade a tradiçaõ constante, com que assim o nomea ainda, e publica o vulgo; fazendo-se em nossos tempos na Igreja de Santa Cruz de Coimbra com grande jubilo nova demonstraçaõ da integridade de seu corpo, para servir de huma authentica prova ao projecto, com que o Papa Benedicto XIV. o pertendia beatificar a instancias dos Reys Fidelissimos D. João V., e D. Joseph I. cujo processo ficou suspenso pelo embaraço de outros negocios politicos mais urgentes.
21 Dizem mais: que se o Rey decretou as Armas do Reino com os cinco escudos em memoria das cinco Chagas de Christo, como houve nellas tanta variedade, segundo consta de moedas antigas? Responde-se: que sem embargo de haver nas Armas Variedade no accidental, sempre conservaõ a substancia dos cinco Escudos, e trinta dinheiros contados de diversos modos, como bem mostra Manoel de Faria nos Commentarios de Camões cant. 3. desde a est. 153.
22 Hum dos fortes argumentos he ter a escritura a data da Era de Christo, que naquelle tempo naõ se usava, mas sim a de Cesar. Responde-se: que naõ só esta escritura, porém outras do mesmo Rey se achaõ com a Era de Christo, como he a em que fez o Reino feudatario a Santa Maria de Claraval, que se conserva em Alcobaça com o sello pendente do Rey, e subscripções dos Grandes daquelle tempo, segundo a transcreve Brito na Chronica de Cister livro 3. cap. 5. e outras muitas que se podem ver na mesma Chronica l. 3. c. 6. e na Monarquia Lusitan. liv. 8 c. 26. e na Historia Ecclesiast. de Lisboa part. 2. cap. 56.
23 Deixando outros argumentos, he infallivel, que reconhecendo-se D. Affonso filho obediente da Igreja, quiz expressar esta devoçaõ à Sé Apostolica, offerecendo aos Summos Pontifices, naõ por modo feudatario, mas liberal tributo, dous marcos de ouro,[588] cujo reconhecimento durou até tempo delRey D. Affonso III. O mesmo acto de vassallagem devota, e pia, fez a Santa Maria de Claraval em cincoenta escudos cada anno: e como a sua religiaõ foy igual à sua fortaleza, tudo, quanto ganhava na guerra, distribuia pelas Igrejas, edificando magestosos Templos, e tantos, que dizem chegaraõ ao numero de cento e cincoenta,[589] dando a todos rendas perpetuas com tanta opulencia, e liberalidade, que alguns delles tem hoje mais, do que entaõ rendia todo Portugal.[590]
24 Instituio as duas Ordens militares; da Aza, que se extinguio; e de Aviz, que permanece: admittindo tambem em seu Reino os Cavalleiros de S. Joaõ de Malta, e Santiago, com quem distribuia donativos cortados com maõ naõ só liberal, mas prodiga. Perseguio fortemente os Mouros, e libertou do seu jugo impio muitas terras da Estremadura, Alentejo, e Algarve em hum progresso continuado de triunfos, que alcançou de vinte Reys, e dous Imperadores.
25 No anno de 1146 casou com a Rainha Dona Mafalda, filha de Amadeo III. Conde de Saboya, e Moriana, cujo Real consorcio Deos fecundou com a producçaõ de tres filhos, e quatro filhas. Contando finalmente setenta e seis annos de idade, quatro mezes, e doze dias, exhalou o espirito aos 6 de Dezembro de 1185, estando em Coimbra, havendo governado cincoenta e sete. Jaz seu corpo inteiro no Convento de Santa Cruz de Coimbra com grande veneraçaõ, obrando Deos por elle alguns prodigios, como se podem ver no argumento 10. do Apparato Historico, que para a Beatificaçaõ deste veneravel Rey imprimio em Roma no anno de 1728 o Doutor Joseph Pinto Pereira, o qual lhe tece vinte e sete elogios fabricados pelos testimunhos das pessoas mais conspicuas em virtude, que bem acreditaõ os indicios de serem os merecimentos deste santo Rey premiados com a eterna felicidade.
D. Sancho I. segundo Rey.
26 Nasceo D. Sancho em Coimbra a 11 de Novembro de 1154, e creado com os exemplos, e instrucções de taõ grande pay, logo nos primeiros annos mostrou os affectos de valor na propensaõ, que tinha ao exercicio das armas. Ainda naõ contava quatorze annos de idade, quando se achou na jornada, ou batalha do Arganhal, em que capitaneando o exercito Portuguez contra o delRey de Leaõ, deixou ao menos indecisa a vitoria, e defendido seu pay.[591] De vinte e hum annos casou com Dona Dulce, filha de D. Ramon, Principe de Aragaõ, e logo no anno de 1178, tendo vinte e quatro de idade, atravessou com hum exercito de doze mil homens por Castella dentro, até se pôr à vista de Sevilha, Cidade a mais bem presidiada dos Mouros, e até alli impenetravel às armas christãs.
27 Os Barbaros olhando-nos com desprezo, e como quem se offendia da nossa confiança, sahiraõ raivosos em tom de batalha, mas foraõ taõ fatalmente cortados pelas nossas lanças, que a grande copia do sangue derramado dos corpos fez sensivelmente mudar a cor às aguas do Guadalquivir.[592] Com este glorioso triunfo mais qualificado ainda com a opulencia dos ricos despojos, se recolhia D. Sancho a Portugal, quando noticioso do novo, e apertado cerco, em que os Mouros tinhaõ posto a Elvas, voou a soccorrer a necessidade daquella Praça; e desassombrando-a da oppressaõ, que padecia, continuou a jornada, vindo primeiro satisfazer grato ao Ceo as vitorias recebidas com as liberaes offertas, que tributou ao Mosteiro de S. Joaõ de Tarouca, de quem se prezou ser seu especial bemfeitor.[593]
28 Succedeo a morte delRey seu pay, e passados os tres dias das honras funebres, foy D. Sancho acclamado, e coroado Rey em Coimbra aos 9 de Dezembro de 1185, anno em que contava trinta e hum de idade, como bem diz Brandaõ,[594] e naõ trinta e oito, como dizem outros.[595] Logo solicito em introduzir a paz no seu reinado, cuidou em convertella em utilidade publica: fez guarnecer muralhas, reparar edificios, fundar Villas, reedificar Cidades, e cultivar as terras, acções, que lhe grangearaõ os honrosos cognomes de Povoador,[596] e Pay da Patria,[597] manifestando-se muito mais a sua piedade, e grandeza com os donativos, que offerecia às Ordens Militares com tanta prodigalidade, que naõ contente de dar a Deos o que possuia, fazia offerta até do que ainda esperava ter.[598]
29 Com o soccorro de huma poderosa armada do Norte, que caminhando em direitura das terras da Palestina, mas forçada de hum rijo temporal veyo abrigarse na foz do Tejo à sombra de Lisboa, foy D. Sancho conquistar o Algarve; e fundando na Cidade de Silves Igreja Cathedral com Bispo, continuou a conquista de outras terras daquelle Reino, intitulando-se Rey tambem do Algarve desde o anno 1188 até 1190.[599] Porém no anno seguinte 1191 entrando Miramolim Aben Joseph pelas terras de Portugal com hum poderosissimo exercito, assolou tudo, e recuperou no Algarve o que tinhamos adquirido, sem ser possivel a D. Sancho resistirlhe, por nos ter naquella occasiaõ huma grande peste, e fome attenuado muito as forças.[600]
30 Persuadido em fim que a vista do Principe concilia o amor dos povos, por se fazer amavel, e estimado, visitava as terras mais populosas do Reino, e ainda as que o naõ eraõ, fazendo a todas naõ só a honra da sua presença, mas as mercês da sua generosidade,[601] sendo primeiramente soccorridos os Lugares sagrados com fabricas, e esmolas, experimentando-o especialmente o sumptuoso Convento de Alcobaça, e outros mais da Ordem de S. Bernardo, de quem foy particular bemfeitor,[602] acabando todos de ver o governo, e a piedade deste Rey nas clausulas do seu testamento, pelo qual deixou grandes sommas de ouro, prata, joyas, e tapeçaria repartido por seus filhos, amigos, pobres, Hospitaes, e Igrejas com taõ boa formalidade, que o Papa Innocencio III. lho confirmou por huma Bulla, que se conserva no Mosteiro de Lorvaõ.[603] Depois de reinar vinte e seis annos, deixou em Coimbra no fim de huma grave doença os alentos vitaes para sempre em 27 de Março do anno de 1211, contando cincoenta e sete de idade. Jaz em Santa Cruz de Coimbra.
D. Affonfo II. terceiro Rey.
31 Suspenderaõ-se as mal enxutas lagrimas, que se haviaõ derramado na morte de D. Sancho, com a festiva acclamaçaõ de seu filho D. Affonso no mesmo dia 27 de Março de 1211, contando vinte e seis annos de idade, e havendo já dez que era casado com a Senhora Dona Urraca, por se ter recebido no anno 1201.[604] Havia nascido em Coimbra a 23 de Abril de 1185, e padecendo na infancia a continuada molestia de hum achaque perigoso, foy livre delle milagrosamente pela virtude de Santa Senhorinha, a quem D. Sancho foy em pessoa supplicar à sua Igreja de Basto a melhoria, gratificando-lhe depois aquelle beneficio com o liberal donativo de muitas terras, e privilegios para ellas.[605]
32 Apenas D. Affonso subio ao throno, expressou logo o seu animo generoso, dando a Villa de Aviz aos Cavalleiros da Ordem militar deste nome, que haviaõ residido em Evora; e como pelos annos 1212 se havia alterada a paz estabelecida entre ElRey D. Affonso IX. de Castella, e Mahomet IV. intentando este a conquista de Hespanha, e empenhando todas as forças, foy tambem preciso a ElRey de Castella valerse, além de outros, do adjutorio delRey de Portugal, que lhe mandou grande numero de soldados, os quaes tiveraõ grande parte no triunfo, que dos Arabes alcançou ElRey de Castella na celebre batalha chamada das Navas, por se appellidar assim sitio, onde se deu, junto à serra Morena a 16 de Junho de 1212.[606]
33 Pouco affavel, e conforme se mostrou D. Affonso com seus irmãos, e assim intentou tirar as Villas, e terras a suas Santas Irmãs, que seu pay lhes havia deixado, de que resultaraõ graves litigios, que em parte fez serenar o Pontifice com censuras, e ElRey de Leaõ com as armas; e temendo igual perseguiçaõ seus irmãos, D. Fernando, desamparando a patria, passou-se para Castella, e D. Pedro para Marrocos.[607]
34 No anno de 1217 haviaõ partido de varios portos do Norte differentes náos para a expediçaõ, e conquista da Terra santa, as quaes chegando a incorporarse na altura do Algarve, compunhaõ huma fortissima armada de trezentas vélas. Quizeraõ voltar o Cabo de S. Vicente, e levantando-se furiosa tormenta, vieraõ demandar o abrigo da barra de Lisboa, de cuja vinda aproveitando-se o Bispo della D. Sueiro, (e naõ D. Mattheus, como nossos Historiadores dizem, sem reflectirem no reparo do insigne Chronista Brandaõ),[608] ajudado com outros Commendadores das Ordens Militares, e das reclutas de gente, que ElRey havia mandado conduzir, foraõ todos expugnar a Villa de Alcaçer do Sal, Praça de armas fortissima, presidiada dos Mouros, e huma das mais importantes, que elles conservavaõ na Hespanha. Naõ obstante a grande resistencia, que faziaõ ao nosso sitio com resoluçaõ, e esforço auxiliado dos Reys de Cordova, Sevilha, Jaen, e Badajoz, ficaraõ finalmente rendidos depois de repetidos assaltos, e porfiada peleja.
35 Parece que o aspecto desta vitoria, que alcançámos, taõ formidavel para os Arabes, os devia intimidar; porém elles mais irritados, renovando numerosos esquadrões, entraõ por Portugal com intentos de ganharem Elvas, a quem ElRey com felicidade promptamente soccorreo, e venceo; e penetrando por Andaluzia vitorioso, poz grande terror aos Mouros. Outras muitas batalhas ganhou nosso Monarca sempre em grande credito das armas christãs, até que completando trinta e oito annos de idade, e doze de reinado, concluio seus dias em Coimbra aos 25 de Março de 1223. Jaz no Mosteiro de Alcobaça.
D. Sancho II. quarto Rey.
36 Foy Coimbra patria de D. Sancho, onde nasceo a 8 de Setembro de 1202, padecendo logo na sua infancia as disposições de pouca saude. Entrou a governar a 25 de Março de 1223, e mostrou que naõ degenerara do valor de seus predecessores, nem nos desejos de dilatar a Fé, nem de extinguir os Arabes; pois ainda que o mayor numero dos nossos Chronistas o infamaraõ de pouco cuidadoso para o governo, sabemos que no anno de 1225 entrara pelo Alentejo na frente de hum poderoso exercito assolando o poder Ismaelita com tanto valor, que mereceo por esta acçaõ os publicos, e honrosos elogios, que o Papa Honorio III. lhe mandou.[609]
37 Continuou a guerra contra os Mouros sempre vitorioso até o anno de 1242, recobrando delles à força de armas muitas Praças, e Villas do Alentejo, e Algarves, Elvas, Jurumenha, Serpa, Aljesur, Mertola, Cacela, Ayamonte, e Tavira. Fez porém ElRey diminuir estes prosperos successos, consentindo na oppressaõ, que se fazia ao estado Ecclesiastico, de que resultaraõ gravames, queixas, e censuras Pontificias. Outros attribuem estas desordens à demasiada introducçaõ dos validos nas cousas do governo, e nimia frouxidaõ delRey, procedida tambem da sua bondade, como diz o Plataõ Portuguez.[610] Porém vendo o Pontifice que as suas admoestações eraõ inuteis quanto ao vexame do Clero, Innocencio IV. o depoz do throno pelo Decreto, que anda inserto no livro 6. das Decretaes cap. 2. que principia Grandi non immerito,[611] substituindo em seu lugar por Governador a seu irmão D. Affonso, Conde de Bolonha, que entaõ se achava no Reino de França.
38 Chegou o Infante Regente novamente nomeado, e aceito por commum consentimento dos Tres Estados do Reino, e vendo-se D. Sancho infelizmente deposto do governo, se valeo de seu primo ElRey D. Fernando de Castella, o qual formando hum exercito em seu favor, marchou contra Portugal; mas intimando-se aos Generaes Castelhanos as censuras, e Decretos Pontificios contra os que embaraçassem a regencia de D. Affonso,[612] desenganado D. Sancho da sua pertençaõ, se recolheo a Toledo, onde entregue a obras pias, executou acções dignas de eternos elogios; porque naõ satisfeito de ter declarado a sua generosa virtude com a erecçaõ de alguns Templos em Portugal, mandou fazer a Capella dos Reys na Sé de Toledo, onde se mandou enterrar. Acabou finalmente cheyo de desgostos, e merecimentos para alcançar a verdadeira coroa da eternidade feliz em 4 de Janeiro do anno de 1248, tendo quarenta e seis de idade, e vinte e cinco de governo.
D. Affonso III. quinto Rey.
39 Era D. Affonso irmaõ segundo delRey D. Sancho, e havia casado no anno de 1235 em França com Matilde, Condesa proprietaria de Bolonha, sendo chamado para governar Portugal pelos defeitos, que inventaraõ, ou criminaraõ a D. Sancho. Jurou primeiramente em França na presença de certos Prelados Portuguezes, que lá se achavaõ a 6 de Setembro de 1245, alguns artigos pertencentes ao bom governo. No anno seguinte entrou no Reino com intento de conquistar o Algarve, empreza, que no anno de 1250 o conseguio quasi plenamente,[613] e em que se distinguio muito o insigne D. Payo Peres Correa, Mestre da Cavallaria de Santiago.
40 Como as conquistas de Portugal, e todas as mais terras de Hespanha occupadas pelos Mouros eraõ sem limite, e ficavaõ no dominio daquelles Principes Christãos, que primeiro as ganhavaõ, intentou D. Affonso depois de sujeitar o Algarve reduzir tambem a seu dominio algumas terras de Andaluzia, como com effeito subordinou as Villas de Aroche, e Arecena, que ao depois passaraõ para o senhorio de Castella.[614]
41 Proseguia D. Affonso com tranquillidade no seu governo, estabelecendo leys muy uteis para o bom regimen;[615] porém no meyo de tanta paz elle mesmo se constituio causa de hum geral escandalo, e perturbaçaõ do Reino com o repudio, que fez de sua legitima esposa a Condessa Matilde, casando segunda vez com Dona Brites, filha bastarda delRey D. Affonso Sabio de Castella no anno de 1253, motivo de haver tanto disturbio com as censuras Ecclesiasticas, que opprimiraõ o povo, e naõ tiveraõ fim, senaõ com a morte da Condessa sua primeira mulher. Entaõ pedindo os Bispos de Portugal ao Pontifice quizesse dispensar com ElRey no segundo matrimonio, tudo concedeo o Papa Urbano IV. e ficou o Reino aliviado dos terriveis effeitos daquella Regia contumacia.[616]
42 Alguns Escritores se enganaraõ[617] em dizer que o Reino do Algarve fora dado em dote a D. Affonso III. e tal naõ foy, como doutissimamente provaõ D. Joseph Barbosa, e outros,[618] porque só consta que os Reys de Castella eraõ usufructuarios do Algarve desde o anno 1253 até o de 1264, em que se commutou em cincoenta lanças, com que Portugal havia de ajudar a Castella em caso de necessidade. Depois no anno de 1267 se tirou esta pensaõ em agradecimento de hum grande soccorro, que o Infante D. Diniz levou a D. Affonso o Sabio contra os Mouros.
43 Vendo-se ElRey desassombrado das guerras, e censuras Pontificias, tornou a meter o Reino em novas oppressões com o máo tratamento, que dava ao Sacerdocio Portuguez. Os Prelados, querendo defender o seu respeito, queixaraõ-se ao Papa, que entaõ era Clemente IV. o qual reprehendendo-o, e continuando as violencias no estado Ecclesiastico, continuaraõ tambem os Pontifices successores Grerio X., e Joaõ XX. ou XXI. com repetidas censuras, a que finalmente ElRey mostrou querer obedecer, e sujeitarse às determinações do Papa.[619]
44 Naõ obstante esta contumacia, pela qual talvez nosso Poeta[620] equivocadamente lhe chamasse Bravo, foy ElRey D. Affonso de notavel governo: adiantou o commercio, reedificou muitos Lugares do Reino, fundou alguns Conventos, como o de S. Domingos de Lisboa, o de Elvas, e Santa Clara de Santarem.[621] Alimpou o Reino de facinorosos, estabeleceo feiras publicas, e morreo em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1279 com trinta e dous annos de reinado, e sessenta e nove de vida. Foy depositado seu corpo no Convento de S. Domingos de Lisboa, e daqui se trasladou para o de Alcobaça no anno de 1289, onde agora jaz.
D. Diniz sexto Rey.
45 Nasceo em Lisboa a 9 de Outubro do anno 1261. Conferio-lhe o Sacramento do Bautismo o Bispo do Porto D. Vicente Mendes, e foy seu padrinho D. Egas Lourenço da Cunha, hum dos principaes Cavalheiros desta nobilissima familia, e privado delRey D. Affonso III. Teve por ayos a Lourenço Gonçalves Magro, neto do grande Egas Moniz, e a Nuno Martins de Chacim, que ambos concorreraõ para pulirem o precioso, e Regio animo de D. Diniz, unidos com os desvelos de seu Mestre D. Aymerico, que depois foy Bispo de Coimbra.[622]
46 A primeira acçaõ notavel de D. Diniz, sendo ainda menino de quatro annos e meyo, foy quando seu pay ElRey D. Affonso III. o mandou a Sevilha com hum poderoso exercito soccorrer a ElRey de Castella seu avô[623] contra os Mouros Africanos, que invadiraõ no anno 1266 a Hespanha, e correndo o de 1279 em 16 de Fevereiro, dia, em que morreo D. Affonso III. foy acclamado Rey com todas as ceremonias costumadas em Lisboa, tendo dezoito annos de idade menos oito mezes, e começando a governar em companhia da Rainha sua mãy, naõ consentio muito tempo o novo Rey esta coadjutoria, e assim a excluio com respeito, mas naõ sem mágoa, e sentimento da Rainha.
47 Constituido D. Diniz Senhor do Reino, principiou a visitallo, como era costume, sendo o Alentejo a primeira Provincia, que logrou esta honra da sua presença, da qual tambem participou a Beira, e Estremadura com a confirmaçaõ dos seus foros, e privilegios, fortificaçaõ das fronteiras, e boa administraçaõ da justiça, experimentando tambem as mesmas honras as outras Comarcas do Reino nos annos seguintes.
48 No de 1282, estando ElRey em Trancoso, recebeo por sua mulher a Rainha Santa Isabel em 24 de Junho, dia de S. Joaõ Bautista, e neste mesmo anno compoz as controversias, que havia no estado Ecclesiastico, e estabeleceo leys muy uteis para a Republica, especialmente remediando a dilaçaõ nas demandas, e assinando modo facil para se processarem as causas, e que a justiça nos pobres tivesse mais segurança. Este cuidado experimentaraõ tambem as povoações, as quaes ElRey melhorou, mudando algumas para sitios mais defensaveis, e accommodados, como foy Mirandela, e outros.
49 Huma das acções suas bem considerada, e que os Historiadores louvaõ, foy revogar todas as doações inofficiosas, que tinha feito em dispendio dos bens da Coroa logo no principio do seu reinado, incorporando outra vez com melhor acordo, e conselho de pessoas doutas ao Padroado Real todas as terras, e fazendas, que inconsideradamente doara; e costumava dizer, quando lhe fallavaõ nesta materia: Que justamente se tirava o que injustamente se concedera.[624] Passou esta Ley em Coimbra a 26 de Dezembro de 1283, na qual revogaçaõ exceptuou unicamente o Chanceller Mór D. Domingos Annes Jardo, Bispo de Evora, e Lisboa, pelos grandes serviços, que tinha feito ao Reino.
50 Naõ causou pequenos cuidados a ElRey D. Diniz o orgulho de seu irmão D. Affonso, porque andando com o projecto de lhe usurpar o Reino, pois dizia que a elle lhe pertencia, por nascer depois que o Papa revalidara o matrimonio de seu pay com a Rainha Dona Brites, e D. Diniz ter nascido antes, e por isso illegitimo,[625] com este motivo chegaraõ a pegar em armas, e D. Diniz cercando-o em Arronches apertadamente, o fez convir em composições, intervindo tambem na reconciliaçaõ dos dous irmãos a Rainha Santa Isabel, e a Rainha de Castella Dona Maria, ajustando-se as pazes em Badajoz, onde tambem se acharaõ a nossa Rainha Dona Brites, e sua filha a Infanta Dona Branca aos 13 de Dezembro de 1287.
51 Alcançou D. Diniz do Papa Nicolao IV. no anno 1288 o poder separarse a Ordem Militar de Santiago da sujeiçaõ dos Mestres de Castella; e como era muy amante das letras, e que sabia cultivallas, instituio em Lisboa a primeira Universidade, que houve no Reino, por Bulla do mesmo Nicolao IV. expedida em Roma a 13 de Agosto de 1290,[626] e continuando os estudos publicos em Lisboa com grande fruto, e aceitaçaõ, considerados todavia alguns inconvenientes, ordenou o mesmo Rey que se transferisse para Coimbra no anno 1308.
52 Entre algumas leys notaveis, que fez promulgar, foy huma, em que prohibio as Religiões herdarem bens de raiz, acudindo nisto à eminente ruina do estado dos Nobres, e mais povo, se continuassem as Igrejas nas heranças, como bem adverte o Chronista Brandaõ;[627] e porque esta limitaçaõ nos bens Ecclesiasticos naõ fosse interpretada por acçaõ menos pia, desmentio o minimo conceito contra a sua generosidade, dispendendo na fabrica de Templos, e erecçaõ de Conventos muito cabedal, bastando para prova da sua devota grandeza, e justificarse de naõ desaffecto aos bens da Igreja, a fundaçaõ do Real Mosteiro de S. Diniz de Odivellas no anno de 1295, e o de Santa Clara de Coimbra, e Villa do Conde, dotados tambem em seu tempo, ainda que naõ foraõ estes dous participantes da sua liberalidade.
53 Foy ElRey D. Diniz Principe insigne em muitas virtudes, e em tres excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, na Justiça, Verdade, e Liberalidade. Pela primeira foy eleito Juiz arbitro em companhia delRey de Aragaõ para sentenciar a causa delRey D. Fernando de Castella, e D. Affonso de Lacerda sobre a Coroa de Castella, e Leaõ, em cuja causa deu sentença na Cidade de Tarragona de Aragaõ sem queixa de nenhuma das partes, e compoz outras differenças, que havia entre os Reys de Castella, e Aragaõ.
54 A sua liberalidade foy tanta, que a D. Fernando, hum dos mesmos dous Reys, pedindo-lhe grande somma de dinheiro emprestado, D. Diniz lho deu gratuitamente com grande magnificencia, e ainda mais do que pedia, porque lhe deu hum milhaõ de escudos, e huma copa de huma finissima esmeralda, que se avaliou em onze mil e tantos cruzados,[628] e naõ houve Cavalheiro de ambos os Reinos, que delle naõ alcançasse dadivas, e mercês grandiosas; e com tudo deixou, quando morreo, muita riqueza a seu filho sem offensa de seus vassallos.
55 Elle foy o primeiro, que introduzio no Paço rezarem-se as Horas Canonicas, e ter para isso Capella permanente. Instituio a Ordem Militar de Christo dos bens dos Templarios, que se extinguiraõ no seu tempo. Da Agricultura teve hum especial cuidado, donde obteve o cognome de Lavrador, aos quaes chamava nervos da Republica, e por este augmento, e diligencia mereceo chamarem-lhe tambem Pay da Patria. Teve desavenças com ElRey D. Fernando de Castella, e entrou por seu Reino com poderoso exercito, porém com casamentos serenou a guerra.
58 Em seus ultimos annos padeceo alguns desgostos com seu filho o Infante D. Affonso, procedidos da dura condiçaõ do Infante, e inveja, que tinha dos favores, que ElRey fazia a D. Affonso Sanches, seu meyo irmaõ. Houve guerras civis com grande disturbio do Reino, e cessaraõ com as supplicas da Rainha Santa Isabel, e de S. Raimundo. Morreo em fim este glorioso Rey em Santarem a 7 de Janeiro de 1325, tendo vivido sessenta e tres annos, e tres mezes, reinado quarenta e cinco, dez mezes, e vinte dias.[629] Jaz seu corpo no insigne Mosteiro de Odivellas em soberbo mausoleo.
D. Affonso IV. setimo Rey.
57 Começou a empunhar o Cetro ElRey D. Affonso IV. desde 7 de Janeiro de 1325 em idade de trinta e tres annos, e onze mezes, menos hum dia, contados desde 8 de Fevereiro de 1291 de seu nascimento em Coimbra, conforme a exactissima, e verdadeira Chronologia do Academico Francisco Leitaõ Ferreira.[630] Desde a primeira idade mostrou o aspero natural, de que era dotado. Casou em Mayo de 1309[631] com a Senhora Dona Brites, filha delRey D. Sancho o IV. de Castella, e em Lisboa se celebraraõ os desposorios com grande fausto, e pompa.
58 Com o novo estado, que o fez separar de casa, e governo, foy dando entrada a muitas occasiões de o perverterem homens estragados, fazendo capricho de os amparar; e dando-se todo ao exercicio da caça, tomava por occupaçaõ o que só devia ser divertimento, e este excesso lhe causou alguns desgostos. Como o animo, e condiçaõ delRey era aspero, de fórma que por elle grangeou o epitheto de Bravo, emprendeo acções arduas, e teve grandes discordias com seu pay, e seu sobrinho D. Affonso Rey de Castella, com bastante damno de ambos os Reinos.[632]
59 Todavia estas desavenças naõ foraõ sufficientes para deixar de ajudar com sua pessoa, e vassallos a ElRey seu genro na famosa batalha do Salado contra Ali-Boacem, Rey de Marrocos, e ElRey de Granada, cujos exercitos rompeo, desbaratou, e venceo com grande credito do valor Portuguez em 30 de Outubro de 1340.[633] Fez por duas vezes mudar os Estudos geraes, que seu pay instituio; a primeira de Coimbra para Lisboa no anno de 1338, a segunda de Lisboa para Coimbra no de 1354,[634] concedendo-lhe, e ampliando-lhe varios privilegios.
60 Obrou algumas acções de piedade regia, como foy o edificio da Sé com erecçaõ de Capellas, e renda fixa para os Capellães cantarem; hospitaes, e outras acções pias. O que lhe causou mayor affronta na sua memoria, foy além das discordias, e desobediencia, que temos dito, o consentir que no anno 1355 tirassem a vida com tanta crueldade à formosa D. Ignez de Castro, que clandestinamente estava casada com o Principe D. Pedro seu filho. Falleceo na Cidade de Lisboa em 28 de Mayo de 1357 com sessenta e seis annos de vida, tres mezes, e vinte dias, e de reinado trinta e dous anos, quatro mezes, e vinte e hum dias. Jaz na Basilica de Santa Maria, que foy a antiga Metropole de Lisboa, da parte do Evangelho, e na Capella Mór[635].
D. Pedro I. oitavo Rey.
61 O dia do nascimento delRey D. Pedro I. he calculado com muita variedade pelos nossos Escritores. O diligentissimo Academico Francisco Leitaõ Ferreira depois de referir todas as opiniões, que ha neste ponto, conclue, e assina por mais certo o dia 18 de Abril na antemanhã de huma Sesta feira em o anno do Senhor 1320.[636] Tanto que este Monarca tomou posse do governo, que foy a 28 de Mayo de 1357, tendo entaõ de idade trinta e sete annos, hum mez, e nove dias, cuidou logo em se vingar dos que foraõ complices na morte de Dona Ignez. Tinhaõ elles fugido para Castella, e como em Portugal andavaõ tambem refugiados tres Hespanhoes facinorosos, contratou ElRey com o de Castella que lhos entregaria, com condiçaõ de lhe dar a Alvaro Gonçalves, Meirinho Mór, Pedro Coelho, e Diogo Lopes Pacheco, que eraõ os aggressores daquella innocente morte.
62 Fez-se o contrato com grande escandalo, porque dizem que elle havia promettido com juramento a ElRey seu pay de perdoar aos executores da morte de Dona Ignez. Na Villa de Santarem se poz por obra a vingança, e D. Pedro mandando justiçar a dous, (porque Diogo Lopes salvou-se a beneficio de hum pobre, que o avisou antes de prenderem os outros,) com fera, e terrivel execuçaõ lhes mandou tirar os corações a hum pelas costas, a outro pelos peitos, e depois queimallos.[637] Parece que este excesso, com que castigava os delictos, lhe adquirio o epitheto de Justiceiro, que o vulgo com menos respeito, e mais ignorancia mudou para o cognome de Cruel, de que os deixou desenganados o Plataõ Portuguez Sá de Miranda, quando disse delle:[638]
Pedro, que amores teve com a Justiça Real, e naõ cruel inclinaçaõ.
63 Socegada a indignaçaõ delRey, passou a mostrar ao Reino com toda a legalidade como Dona Ignez de Castro tinha sido sua legitima mulher, fazendo depois de morta que a reconhecessem como Rainha, e ordenando lhe humas honras funebres nunca até aquelle tempo vistas com tanto apparato, e pompa. Como era taõ amante da Justiça, fez leys para a boa administraçaõ della, que com temor, e reverencia se observava, administrando-a elle muitas vezes, como se fora particular Ministro. Ordenou que naõ houvesse Letrados, que advogassem, e assim evitou as dilações, que costuma haver nos litigios por causa delles.
64 Admiraõ-se com razaõ os nossos Chronistas, quando caracterizaõ o genio delRey D. Pedro; porque sendo por huma parte muy severo, por outra era muy affavel, amigo de festas, e alegrias; muy liberal, de fórma que lhe parecia dia perdido aquelle, em que naõ fazia mercês: e unidas estas boas qualidades com a paz, que conservou no seu reinado, soube infundir em seus vassallos hum tal amor, que depois da sua morte diziaõ, que taes dez annos, como os de seu governo, nem os tinha visto Portugal, nem esperava de os tornar a ver. Achando-se na Villa de Estremoz, faleceo aos 18 de Janeiro de 1367 em huma segunda feira pela madrugada. Viveo quarenta e seis annos, e nove mezes justos; reinou nove annos, sete mezes, e vinte e hum dias. Está sepultado em Alcobaça junto de sua amada esposa a Rainha Dona Ignez de Castro.
D. Fernando, nono Rey.
65 Em huma segunda feira, que se contavaõ 31 de Outubro de 1345, vespera de todos os Santos, nasceo em Coimbra ElRey D. Fernando, conforme a Chronologia mais bem averiguada.[639] A natureza o dotou de taõ gentil, e regia presença, que ainda disfarçado entre muitos era logo conhecido como Rey pela magestade da pessoa.[640] O genio, e condiçaõ era muy suave, e branda: froxo, e remisso lhe chamou Camões,[641] e totalmente diverso do rigor delRey D. Pedro. Esta brandura ajudada com o assenso, que deu a validos, o fizeraõ arruinar, e correr quasi a mesma fortuna delRey D. Sancho II.
66 Subio ao throno em o mesmo dia, que faleceo seu pay, contando vinte e dous annos de idade, e começando a governar o mais rico, e opulento Rey, que até alli conheceo Portugal, pelos grandes thesouros, que tinhaõ junto seu Pay, e Avós.[642] Cuidou logo em reedificar as Fortificações do Reino, e guarnecer as Praças com o preciso, fazendo mercês com profusa liberalidade.
67 Mal aconselhado intentou a conquista de Castella por morte de D. Pedro o Cruel, tendo por injusto possuidor a ElRey D. Henrique, como bastardo, e fratricida, e pertendendo D. Fernando aquella Coroa como bisneto delRey D. Sancho. Para esta guerra fez liga com ElRey de Granada, e tambem com ElRey D. Pedro de Aragaõ, a quem pedio sua filha Dona Leonor por mulher; e durando algum tempo a guerra com mortes, e damnos de parte a parte, veyo a cessar por intervençaõ do Papa Gregorio XI. fazendo-se o Tratado de paz com Castella na Cidade de Evora no ultimo de Março de 1371.[643]
68 Esquecido ElRey de huma taõ ratificada promessa, rendendo-se ao forte amor de Dona Leonor Telles de Menezes, mulher de Joaõ Lourenço da Cunha, Senhor de Pombeiro, taõ cegamente se namorou della, que buscando pretextos para lhe annullar o matrimonio, a usurpou, e recebeo por mulher propria, atropelando todos os inconvenientes, e naõ fazendo apreço da murmuraçaõ do povo amotinado.[644] Joaõ Lourenço da Cunha se passou para Castella, e de lá se oppoz quanto pode a ElRey, já militando nas tropas inimigas, já intentando darlhe peçonha, por cujos crimes lhe foraõ confiscados seus bens, que tinha neste Reino.
69 Recebido ElRey D. Fernando, e vendo o de Castella a falta da sua palavra, o repudio, que havia tambem feito da sua filha, e a infracçaõ da paz, porque novamente aliado com o Duque de Lencastro, filho delRey Duarte III. de Inglaterra, que por ser casado com Dona Constança, filha delRey D. Pedro o Cruel, se intitulava Rey de Castella, e pertendia a Coroa, por todos estes motivos estimulado ElRey D. Henrique delRey D. Fernando, ao mesmo tempo que esperava delle satisfaçaõ, entrou por Portugal com grande exercito, dizendo, que naõ embainharia a espada, sem que vingasse primeiro os aggravos recebidos.
70 Chegou até Lisboa, deixando primeiramente devastadas muitas povoações da Provincia da Beira com igual ruina, e estrago dos moradores de tal fórma, que, como bem diz Camões,[645] esteve perto de destruirse o Reino totalmente. ElRey de Castella se alojou no Convento de S. Francisco, e a Cidade, e seus habitadores padeceraõ tanta oppressaõ, que já como desesperados pozeraõ fogo a parte della, e os Castelhanos ajudaraõ a executar, e augmentar o incendio.[646] Achava-se ElRey D. Fernando neste tempo na Villa de Santarem muy socegadamente, vendo correr para Lisboa as bandeiras inimigas, e subir ao Ceo o fumo, e as lavaredas de huma boa parte desta Cidade queimada, e elle com tanto descuido, como diz Manoel de Faria,[647] sem dar providencia, ou remedio a tanta ruina, e insultos, que os Castelhanos commettiaõ já com soberba descuberta por falta da opposiçaõ.
71 Quiz Deos que o Papa Gregorio XI. que neste tempo ainda residia com toda a Curia Romana em Avinhaõ de França, atalhasse com sua intervençaõ promptamente tantas hostilidades, expedindo para ajustamento de pazes ao Cardeal de Santa Rufina Guido de Monforte, que fez a composiçaõ entre ElRey Henrique de Castella, e o nosso D. Fernando pacificamente aos 19 de Março de 1373, avistando-se ambos os Monarcas no meyo do Tejo defronte de Santarem com grande, e vistosa comitiva de pequenas embarcações, e jurando nas mãos do Cardeal Legado a observancia dos artigos das pazes, e o ajuste dos casamentos da irmã, e filha de D. Fernando.[648]
72 Toda a frouxidaõ, e infelicidade, que ElRey tinha nas emprezas militares, emendou no governo da paz, executando acções muy benemeritas de o constituirem por este lado glorioso. Mandou cercar de novos muros muitas Cidades, e Villas: os de Lisboa, que principiando-se no ultimo de Setembro de 1373, se viraõ de todo acabados no mez de Julho de 1375. Santarem, Obidos, Ponte de Lima, Viana, Almada, Torres Vedras, Leiria, Almeida, com outros muitos Castellos, e fortificações por todas as Comarcas do Reino. Promulgou tambem leys muy uteis; e para que houvesse mais Letrados, tornou a mudar a Universidade de Coimbra para Lisboa no anno de 1377, em razaõ de que alguns Lentes, que mandara vir de Reinos estrangeiros, naõ queriaõ ler senaõ em Lisboa.[649] Inventou novos arbitrios sobre a utilidade do commercio,[650] e fez varias mercês com liberalidade regia.
73 Porém novamente inquieto, renovando a liga com Inglaterra, e rompendo a paz, continuou a guerra contra Castella no anno 1381, e padeceo Portugal tanto damno dos amigos Inglezes, como dos inimigos Castelhanos,[651] concluindo-se finalmente com o casamento de Dona Brites, filha delRey D. Fernando, com ElRey de Castella D. Joaõ I. que se effeituou no anno 1383, e neste mesmo anno faleceo ElRey na Cidade de Lisboa nos Paços do Limoeiro aos 22 de Outubro, tendo de idade trinta e oito annos, menos nove dias, e de governo dezaseis annos, nove mezes, e quatro dias. Jaz no Coro novo do Convento de S. Francisco de Santarem.
D. Joaõ I. decimo Rey.
74 Com a morte delRey D. Fernando se originaraõ no Reino grandes inquietações pela falta de Principe legitimo, que succedesse na Coroa. A mayor parte dos Portuguezes receava muito que o Reino fosse recahir no dominio dos Castelhanos; e ainda que a Rainha D. Leonor ficou por Governadora, e Regente de Portugal, em quanto sua filha Dona Brites, que havia casado com ElRey de Castella, naõ tinha filho capaz de empunhar o Cetro, ella usando de toda a jurisdiçaõ, e poder, mandou acclamar, ainda que infaustamente, em algumas Cidades, e Villas do nosso Reino a ElRey de Castella, e sua mulher por legitimos successores.[652]
75 Por esta causa se fez a todos odiosa a Rainha, e muito mais pela grande attençaõ, que ella dava ao Conde de Ourem Joaõ Fernandes Andeiro, seu escandaloso valido, por cujas mãos corriaõ todos os negocios, naõ sem murmuraçaõ do povo, e inveja dos Grandes, os quaes julgando o valimento culpa, e os grandes favores, que a Rainha fazia ao Conde, infamia da Magestade, induziraõ ao Infante D. Joaõ, Mestre de Aviz, irmaõ do Rey defunto D. Fernando, e filho natural delRey D. Pedro, que havia nascido em Lisboa aos 11 de Abril de 1357, a que obviasse as fatalidades, tropeços, e perigos, em que se via titubear a Monarquia, matando ao Conde Joaõ Fernandes Andeiro, pedra de tanto escandalo, como com effeito executou o Infante dentro dos proprios Paços da Rainha, (que hoje servem de Limoeiro) em 6 de Dezembro de 1383.[653]
76 Executou-se esta fatal acçaõ com grande alvoroço, e contentamento do povo, o qual estava taõ affeiçoado ao Infante Mestre de Aviz, que publicamente, e com grandes vivas o declarou Defensor, e Governador do Reino em 16 de Dezembro do mesmo anno de 1383. Este honroso emprego começou a exercer o Infante com muita felicidade, sem embargo de ter contra si a mayor parte da Nobreza, que toda estava pela Rainha, e o grande poder de Castella, o qual intentando opprimir a liberdade do nosso Reino, entrando com violencia pelas suas fronteiras, e pondo sitio a Lisboa por mar, e por terra, foy obrigado a se retirar sem fazer nada depois de perder bastante gente.[654]
77 Com esta retirada dos Castelhanos, e conseguindo os Portuguezes algumas vitorias, em que teve grande parte o invencivel valor do famoso Heroe Nuno Alvares Pereira, estando na Cidade de Coimbra o Infante Regente D. Joaõ Mestre de Aviz, foy em acto de Cortes acclamado Rey de Portugal em huma quinta feira, que se contavaõ 6 de Abril de 1385 pelas nove horas da manhã,[655] tendo entaõ de idade o novo Rey vinte e sete annos, menos cinco dias, conforme o calculo de alguns,[656] ou vinte e oito, conforme outros,[657] ou, o que temos por mais certo, vinte e sete annos, onze mezes, e vinte e seis dias, concorrendo tambem muito para esta acclamaçaõ o talento do insigne Jurisconsulto Joaõ das Regras com as efficazes razões, que allegou neste caso.[658]
78 Depois de taõ gloriosa exaltaçaõ, occupado ElRey com mayores cuidados da guerra, e de segurar na cabeça a Coroa, distribuindo primeiro algumas mercês pelos benemeritos, passou o seu valor a occupar aquellas Praças fortes, que conservavaõ o partido de Castella, reduzindo-as à sua antiga obediencia; e ainda que ElRey de Castella continuando os seus projectos veyo atacar Portugal com hum formidavel exercito, o novo Rey lhe desfez inteiramente as forças na celebre, e grande batalha de Aljubarrota, em que triunfou de mais de oitenta mil homens, sendo os nossos em numero taõ desproporcionado, que por isso ajudaraõ a augmentar no mundo a fama de vitoria taõ celebrada, e gloriosa em todas as memorias,[659] e succedida a 14 de Agosto de 1385, vespera da Assumpçaõ gloriosa da Senhora.
79 Na Cidade do Porto, e em 2 de Fevereiro de 1387 se recebeo com a Senhora Dona Filippa, filha do Duque de Lencastre em Inglaterra, e com esta alliança pode recuperar todas as Povoações, e Praças, que nos tinha usurpado ElRey de Castella, com o qual ajustando o Duque hum tratado de paz, houve tambem entre nós, e os Castelhanos huma suspensaõ de armas, que interrompida depois com alguns successos, se veyo finalmente a segurar a paz no anno 1399 entre os dous Reinos.
80 Desta sorte restabelecida a tranquillidade em Portugal, se resolveo ElRey ir pessoalmente expugnar Ceuta, Cidade famosa de Africa, para cuja gloriosa facçaõ mandou compôr huma armada de duzentas e vinte vélas, que com grande estrago dos Mouros, e credito da Naçaõ Portugueza conseguio por augmento da Fé o fim de taõ santa idéa dentro de hum dia, que foy 21 de Agosto de 1415, accrescentando depois aos titulos de Rey de Portugal, e do Algarve o de Senhor de Ceuta.[660]
81 Para evitar a confusaõ, que havia em contar os annos, pondo-se muitas vezes a Era de Cesar juntamente com o anno de Christo, de que resultavaõ embaraços, e duvidas nos documentos, e escrituras publicas, mandou esquecer, e supprimir aquella antiga, e praticada computaçaõ da Era de Cesar, e que se usasse em todas as escrituras calendar o anno pela Epoca do Nascimento de Christo Senhor nosso, passando para isto huma Ley escrita em 22 de Agosto de 1420,[661] que parece só teve pleno effeito do anno 1422 por diante, conforme o daõ a entender quasi todos os Escritores.[662] Nisto imitou o exemplo delRey D. Joaõ I. de Castella, que tambem havia seguido o delRey de Aragaõ, como dizem Yañes, e o erudito Gerardo Casteel na Controversia 1.
82 Continuando ElRey na boa administraçaõ da Justiça, dando com igualdade o premio, e o castigo a quem o merecia, promulgou leys muy uteis, e mandou observar as que havia feito em lingua vulgar o celebre Joaõ das Regras.[663] Para testimunhas da sua grande devoçaõ sublimou à dignidade Metropolitana a Cathedral de Lisboa por Bulla, que o Papa Bonifacio IX. passou à sua instancia em 10 de Novembro de 1394,[664] servindo de iguaes monumentos da sua piedade a erecçaõ de edificios sacros, como foy o Regio Convento da Batalha, o Mosteiro de Penha-Longa da Ordem de S. Jeronymo, o de S. Francisco de Leiria, o de Santa Clara do Porto, o da Carnota junto de Alenquer, a insigne Igreja de Nossa Senhora da Oliveira em Guimarães, a Igreja de Nossa Senhora da Escada junto à de S. Domingos de Lisboa, e outras muitas fundações, para que concorreo com magnifica generosidade, admittindo tambem no Reino os Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, chamados commummente os Loyos.[665]
83 Além de obras taõ santas fez outras, ainda que profanas, magestosas, e taes foraõ os Palacios de Lisboa, Santarem, Cintra, e Almeirim. Instituio o tribunal da Relaçaõ, e fez outras doações, e mercês, que depois revogou naõ sem escandalo.[666] Finalmente no dia 14 de Agosto de 1433, a tempo que a terra padecia hum tenebroso eclypse do Sol, exhalou o espirito, deixando de si feliz memoria, e tendo vivido setenta e seis annos, quatro mezes, e tres dias, e reinado quarenta e oito annos, quatro mezes, e oito dias.[667] Foy seu corpo depositado na Igreja da Sé, onde esteve dous mezes, e dez dias, e a 25 de Outubro foy transferido com pompa magestosa em hum carro triunfal até o Convento da Batalha, onde jaz em sumptuosa sepultura, que elegantemente descreve Fr. Luiz de Sousa.[668]
D. Duarte, undecimo Rey.
84 Era o Senhor D. Duarte filho terceiro delRey D. Joaõ I. e havia nascido em Viseu a 31 de Outubro de 1391. Os dotes naturaes, e adquiridos foraõ nelle taõ excellentes, como mal logrados. Foy destrissimo, e singular no exercicio nobre de andar a cavallo; muy eloquente, e vigilante da Religiaõ Christã; grande favorecedor dos homens doutos, como particular professor, e amante das boas letras, em cujo estudo se aproveitou de modo, que pudera ser Mestre. Delle existem alguns Tratados, e fragmentos, irrefragaveis provas do seu juizo, e sciencia.[669]
85 Succedeo a ElRey seu pay, tendo de idade quarenta e hum annos, nove mezes, e quatorze dias,[670] e foy acclamado aos 15 de Agosto de 1433 nos Paços do Castello de Lisboa. Havia casado a 22 de Setembro de 1428 com a Rainha Dona Leonor, Infanta de Aragaõ; e subindo agora ao throno, começou a governar com tanta prudencia, que se dizia delle, (talvez por influxo de lisonja) entendia melhor a arte de reinar, que ElRey seu pay.[671] Mandou reduzir a hum só tomo todas as Leys, que andavaõ dispersas, para facilitar a sua liçaõ: promulgou tambem Leys contra o luxo, embaraçando os excessivos gastos dos Grandes, aos quaes ordenou fossem residir nas suas terras para os livrar da assistencia da Corte, que os obrigava a empenhos,[672] excepto aquelles Fidalgos, que por turno lhe haviaõ de assistir por obrigaçaõ de seus cargos.
85 Neste Monarca naõ houve que desejar senaõ melhor fortuna, porque os unicos cinco annos, que reinou, foraõ todos cheyos de desgraças; e bastava para fazer infausto o tempo do seu reinado o cativeiro do Infante D. Fernando seu irmaõ; porque emprendendo os Infantes D. Henrique, e D. Fernando conquistar aos Mouros a Cidade de Tangere, e ficando vencidos, e prisioneiros no anno de 1437, para salvarem as vidas prometteraõ aos Mouros entregarlhe Ceuta, de cuja palavra ficou em refens dos mais o Infante D. Fernando; porém como os Conselheiros de Portugal foraõ de parecer, que naõ convinha entregar todo hum povo Christaõ ao furor dos barbaros pela liberdade de hum só homem, de cujo acordo dizem que tambem fora o Papa, e o mesmo Infante generoso,[673] determinou-se em Cortes, que para isso fez convocar em Leiria ElRey D. Duarte, ficasse o Infante no cativeiro, onde morreo depois de falecer o mesmo Rey, que todavia no seu testamento mandava se resgatasse o Infante seu irmaõ por todo o dinheiro, e ainda a troco da mesma Cidade de Ceuta.[674]
87 Mons. de la Clede[675] accrescenta, que ElRey D. Duarte sem embargo do que determinaraõ as Cortes, excitado do affecto de seu irmaõ cativo, e da justa paixaõ de se vingar dos barbaros, com o desejo de procurar tambem a liberdade dos Portuguezes, que os infieis retinhaõ em suas infames prizões, mandara pedir ao Papa huma nova Bulla da Cruzada, que se publicou pelas Provincias do Reino, e ajuntando tropas, e apparelhando náos para a expediçaõ desta grande interpreza, foraõ todos os preparos inuteis por causa da peste, que sobreveyo ao Reino, occupando-o de lamentavel consternaçaõ, como bem o descreve Vasco Mousinho no canto 5. do seu admiravel Poema; pois derrubando todas as idéas delRey, o obrigou a andar vagando de Villa em Villa, naõ só para consolar os povos em aperto semelhante com a sua presença, mas para evitar aquelle contagio; até que achando-se na Villa de Thomar, e abrindo huma carta, que vinha inficionada da corrupçaõ venenosa, poz fim aos dias de sua vida afflicta aos 9 de Setembro de 1438, tendo vivido quarenta e seis annos, dez mezes, e nove dias, e reinado cinco annos, e vinte e seis dias.[676] Jaz no Convento da Batalha.
D. Affonso V. duodecimo Rey.
88 Havia nascido o Principe D. Affonso nos Paços de Cintra aos 15 de Janeiro de 1432, e quando morreo seu pay ElRey D. Duarte, contava seis annos, sete mezes, e vinte e cinco dias, e desta idade foy acclamado logo herdeiro da Coroa na Villa de Thomar; porém o governo ficou à disposiçaõ da Rainha Dona Leonor sua mãy, e tutora com a assistencia do Infante D. Pedro, irmaõ delRey D. Duarte, com o titulo de Defensor do Reino, da qual regencia foy depois a Rainha exclusa, e o governo entregue ao Infante D. Pedro, de que se originaraõ tantas perturbações, e de que existem memorias taõ lastimosas.[677]
89 Continuava o Infante o manejo dos negocios, e regencia do Reino com applauso commum, quando fazendo quatorze annos ElRey, e sendo preciso entregarse-lhe o Cetro, seu tio Regente o fez com a Solemnidade de Cortes no anno 1446, e ElRey lhe agradeceo muito o bem, que o servira, de cujos louvores existe huma carta delRey escrita ao Infante cheya de grandes, e honrodas expressões,[678] encommendando-lhe, acabado o acto da entrega, que fosse continuando na mesma fórma, dimittindo de si totalmente o regimen, e ratificando o casamento, que tinha feito com a Senhora Dona Isabel, filha do mesmo Infante D. Pedro.
90 Porém a inveja dos emulos fazia taõ máos officios para arruinar a felicidade do Infante, que lhe maquinou, e conseguio a desgraça delRey, o qual intempestivamente passado hum anno mandou dizer ao Infante, que o dava por absoluto, e desobrigado da incumbencia do governo, que lhe encarregara. Daqui procedeo recolherse o Infante às suas terras, nas quaes, declarado ElRey seu inimigo por crimes falsos, que imputaraõ ao Infante, inconsideradamente o foy buscar com maõ armada, e pondo-se o Infante em defensa, foy morto em o sitio de Alfarrobeira a 20 de Mayo de 1449.[679]
91 Desejando depois ElRey expressar o seu animo zeloso da Fé no convite, que o Papa Calixto III. lhe propoz, e tambem a outros Principes Christãos de ir contra o Turco, para o que mandou para este Reino a Bulla da Cruzada no anno 1457, começou ElRey a fazer para esta empreza huns grandes preparos. Escusaraõ-se os outros Principes; porém ElRey naõ resfriando da santa idéa, transferio a guerra para Africa, onde parece que a voz do justo D. Fernando ainda clamava vingança; e encaminhando primeiramente as proas de duzentas embarcações cheyas de gente para as prayas de Alcacer, o mesmo foy chegar, que vencer no anno de 1458 em Sabbado 30 de Setembro. Com a mesma felicidade ganhou a Praça de Arzila em 24 de Agosto de 1471, e se lhe entregou a de Tangere, cujas gloriosas vitorias lhe adquiriraõ a antonomasia de Africano, e aos titulos da sua grandeza accrescentou elle o daquem, e dalém mar em Africa.
92 Morto ElRey de Castella Henrique IV. que tinha sido casado com a Rainha Dona Joanna, irmã do nosso Rey D. Affonso V. lhe ficou huma unica filha, chamada Dona Joanna, herdeira daquelle Reino. Com ella se dispoz casar ElRey D. Affonso V. seu tio já neste tempo viuvo da Senhora Dona Isabel. Para isto passou a Castella com hum exercito de vinte mil homens, porque assim o pediaõ as contradições, que sobre esta successaõ se levantaraõ, e em Placencia se desposou com sua sobrinha no anno de 1475. Os Castelhanos, que disseraõ naõ era a Senhora Dona Joanna filha delRey Henrique, e que por isso naõ lhe pertencia a herança da Coroa, nomearaõ herdeira a Dona Isabel, irmã delRey Henrique, e a casaraõ com D. Fernando de Aragaõ.
93 Daqui nasceraõ muitas calamidades em Castella. e Portugal; porque nosso Rey D. Affonso, querendo defender o que era seu, como de sua sobrinha, e esposa, foy justamente demandar a D. Fernando de Aragaõ para litigarem este ponto em argumento de armas. Naõ o levou a ambição, como lhe attribue Camões,[680] mas sim razão justificada, sem embargo de ficar desbaratado na baralha de Toro, em que o ajudou valerosamente seu filho o Principe D. Joaõ.
94 Depois desta memoravel batalha succedida em Mayo de 1476, passou ElRey logo a França no mez de Agosto, onde se deteve até Outubro do seguinte anno de 1477; e vendo frustrada a negociaçaõ, a que lhe faltou ElRey Luiz XI. com pouca fé, se resolveo ElRey D. Affonso a deixar o mundo, e ir peregrinando até Jerusalem. Desta resoluçaõ deu parte a seu filho por huma carta, em que lhe ordenava se fizesse logo jurar Rey de Portugal, que em cumprimento della assim o fez em Santarem a 10 de Novembro do proprio anno.[681]
95 Teriaõ passado quatro dias depois desta solemnidade, quando sabendo o Principe Regente que seu pay tornava outra vez para Portugal, porque ElRey de França lhe embaraçara politicamente a jornada, o foy buscar a Oeiras, e com solemne procissaõ entrou em Lisboa, e continuou a governar como de antes, sem o generoso Principe se intrometer em cousa alguma, proseguindo D. Affonso em executar acções de liberalidade Regia, e tantas, que affirmou hum Escritor nosso[682] fora entre os Reys de Portugal o que fez mayores mercês a seus vassallos, assim de honra, como de fazenda; em tal modo, que dizia o Principe seu filho. quando lhe succedeo: Meu pay me deixou feito Rey das estradas, e caminhos de Portugal; porque quasi todos os Lugares, e terras tinha dado.
96 O Real genio deste Monarca tambem se deixava ver na grande propensaõ, e amor das sciencias, applicando-se aos estudos, e favorecendo aos estudiosos. Elle foy o primeiro, que no Palacio de Evora ajuntou copiosa livraria, e o que determinou se escrevessem na lingua Latina as Historias Portuguezas, mandando para este effeito vir de Italia a D. Fr. Justo Baldino, Religioso Dominico, e insigne Latino,[683] que morreo sem fazer cousa alguma por embaraços de molestia. Finalmente vendo ElRey que os negocios das suas pertenções se naõ concluiaõ, e achando-se quasi obrigado a convir em hum Tratado de paz, que se publicou em Outubro de 1479, e com o justo sentimento de ver a Senhora Dona Joanna sua esposa com huma honesta violencia da parte de Castella obrigada a entrar em Religiaõ com o unico tratamento de Excellente Senhora, se retirou melancolico a Cintra, e alli na mesma casa, onde nascera, enfermou, e morreo aos 28 de Agosto de 1481, em numa Terça feira, contando de idade quarenta e nove annos, sete mezes, e treze dias, e de reinado quarenta e dous annos, onze mezes, e dezanove dias.[684] Jaz no Mosteiro da Batalha na Casa do Capitulo.
D. Joaõ II. decimo terceiro Rey.
97 Nasceo ElRey D. João II. na Cidade de Lisboa nos Paços da Alcaçova a 3 de Mayo do anno 1455, e a 25 de Junho do mesmo anno foy jurado Principe herdeiro do Reino com todas as ceremonias costumadas. Teria quinze annos, quando, na Villa de Setubal a 12 de Janeiro de 1471 recebeo por esposa a Senhora Dona Leonor de Lancastre sua prima com irmã, e a 15 de Agosto acompanhou seu pay ElRey D. Affonso na gloriosa conquista de Arzilla, onde obrou acções mayores que a sua idade promettia.[685]
98 Depois da morte de seu pay, achando-se em Cintra, e passados os tres dias de nojo, foy acclamado Rey em 31 de Agosto do anno de 1481, e foy esta a segunda acclamaçaõ, que teve. Cuidou logo em dar cumprimento aos legados de seu pay, e applicando-se a conhecer as pessoas, que se sabiaõ distinguir pela sua capacidade, e talento, as honrava, e premiava de sorte, que se fez amar, e estimar de todos, especialmente do povo.
99 No principio de seu reinado aconteceraõ grandes desasocegos nascidos da altivez dos Nobres, que sahindo da brandura delRey D. Affonso, e dando na integridade do filho, mal sabiaõ viver em taõ desconformes extremos, de que procederaõ conjurações contra elle, que severamente punio, e com grande excesso no Duque de Bragança D. Fernando II. mandando-o degollar na praça de Evora em 21 de Junho de 1483, tragedia reputada horrivel, como effeito da causa, cujas circunstancias naõ mereciaõ tanto rigor,[686] sendo na verdade o Duque Cavalheiro, conforme o juizo de todos, merecedor de melhor fortuna, como bem adverte o elegantissimo Marquez de Alegrete.[687]
100 Foy ElRey D. Joaõ Principe de coraçaõ intrepido, como o deu a conhecer em varias occasiões;[688] de hum engenho muy vivo, e desembaraçado, que nunca se deixou governar de outrem, parecendo-lhe que naõ merecia chamarse Rey aquelle, cuja vontade pendia de arbitrio alheyo. Nunca tardou em fazer mercês, e remunerar serviços, e o que havia de dar, o dava logo, e muitas vezes sem lho pedirem, trazendo occultamente hum livro com os nomes das pessoas benemeritas. As mesmas dadivas mandava distribuir por outras pessoas de outros Reinos, que lhes serviaõ de promptas, e diligentes espias, ardil, que lhe grangeou a sciencia politica de muitos negocios, e segredos reconditos.[689]
101 Attendeo muito ao bem publico, e por conta desta conservaçaõ desfez muitos abusos, e fez com que se evitassem as casas de jogo, mandando queimar huma, onde concorria mais gente, em cuja acção deixou aos vindouros hum exemplo mais digno de se imitar, que imitado.[690] Publicou tambem leys, em que prohibia todo o excesso de galas, e tudo o que podesse causar destruiçaõ na fazenda, e bons costumes de seu povo. Deu muitas provas da verdade, com que amava a Religiaõ Christã: fez todo o excesso, para que os Judeos, que se vieraõ refugiar em Portugal, se reduzirem à Fé de Christo, obrando a generosa acção de lhes mandar dar embarcações para se irem os que não quizeraõ converterse.
102 As fundações dos Templos saõ tambem sufficiente prova da sua Religiaõ. Elle deu principio à magnifica Igreja do Hospital Real de Lisboa, e lançou a primeira pedra nos alicerces do Mosteiro de Jesus de Setubal, e deu nova Casa às Commendadeiras de Santos no Convento, onde hoje existem em Lisboa. Dispoz que na sua Capella Real se rezassem em Coro as Horas Canonicas, estabelecendo rendas para isso. Aspirando à gloria de fama perduravel, descubrio com suas frotas o Reino do Congo, e nelle fundou Igreja, onde se bautizou o Rey com seus filhos, e bastante parte do povo. Abrio o caminho à navegaçaõ das Indias Orientaes, e solicitou descubrir incansavelmente por mar, e por terra a costa de Africa até aquelle tormentoso Cabo, a que chamou de Boa Esperança, pelas que se abriaõ do descubrimento da India.
103 Taõ grandes brados tinha dado a fama das suas acções, que alguns Principes estrangeiros vieraõ a Portugal de proposito somente para o ver; porque sem duvida na liberalidade, na justiça, na piedade, na generosidade, e na Religião foy singularissimo, recto, admiravel, pomposo, e Catholico, e assim acabou com a fama de Principe perfeito em 25 de Outubro de 1495 na Villa de Alvor com suspeitas de lhe terem dado veneno. Viveo quarenta annos, cinco mezes, e vinte e dous dias: reinou quatorze annos, hum mez, e vinte e cinco dias. Foy sepultado na Sé de Sylves, donde passados quatro annos, ElRey D. Manoel lhe trasladou seu corpo para o Convento da Batalha, onde se conserva incorrupto, sinal, que alguns pertendem attribuir aos que saõ predestinados.[691]
D. Manoel decimo quarto Rey.
104 Parece, como bem disse o nosso Homero,[692] que Deos tinha escolhido a ElRey D. Manoel para ser Monarca entre os de Portugal o mais venturoso. Logo no seu nascimento começou a experimentar o Ceo propicio; porque achando-se na Villa de Alcochete sua mãy a Infanta Dona Brites vencida das dores de parto, e com evidente perigo, quasi milagrosamente o deu à luz no mesmo ponto, que lhe passava pela porta o Santissimo Sacramento na Procissaõ solemne do Corpo de Deos, por cuja mysteriosa causa se lhe impoz o nome de Manoel, e por cuja notavel circunstancia de Festa, e Procissaõ infere, e assina judiciosamente o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira,[693] que o verdadeiro dia natalicio deste Monarca foy no primeiro de Junho de 1469, porque a letra Dominical daquelle anno, que foy A, assim o insinua, prova irrefragavel, que convence a contraria opiniaõ de todos os que collocaraõ este feliz nascimento no ultimo de Mayo do mesmo anno.
105 Era D. Manoel Duque de Béja, e de Viseu, filho do Infante D. Fernando, e neto delRey D. Duarte; e com haver nascido sem esperança de reinar, succedeo no Reino depois de ver como para conseguir esta felicidade lhe hiaõ fazendo lugar com a morte algumas pessoas, a quem tocava a successaõ. Subio finalmente ao Throno em 27 de Outubro de 1495, estando em Alcacer do Sal, donde veyo logo a celebrar Cortes na Villa de Montemór o Novo, dando principio ao governo mais feliz, que vio o Reino com a reforma, que fez dos Ministros, e Officiaes de Justiça, e boa arrecadaçaõ da fazenda.[694]
106 Como bom Catholico se lembrou logo da obediencia à Igreja, e assim despedio para Roma promptamente hum Embaixador, para dar noticia ao Pontifice da sua investidura do Reino de Portugal, mandando tambem pedir ao mesmo Papa, que era Alexandre VI. a impetra, para que os Cavalleiros das Ordens Militares podessem casar, como com effeito lhes concedeo,[695] e com a mesma protecçaõ augmentou a Ordem de Christo em gloria, e renda.
107 Imitando o louvavel exemplo dos Reys de Castella, mandou expulsar fóra do seu Reino aos Mouros, e Judeos, excepto os que se quizeraõ converter à Fé de Christo;[696] e logo em Outubro do anno 1497 recebeo por mulher a Senhora Dona Isabel, viuva do nosso Principe D. Affonso, filho delRey D. Joaõ II. e ella filha dos Reys Catholicos D. Fernando, e Dona Isabel.
108 Se pertendessemos narrar todas as acções memoraveis deste Monarca, fariamos hum grande volume; sirva ao menos a expressaõ desta impossibilidade, segundo a ligeireza do estylo, que guardamos, para provar a sua grandeza. O certo he, que na regencia delRey D. Manoel foy o Reino de Portugal elevado ao mayor gráo do seu esplendor. Então se viraõ quebrantadas as forças dos Reys Africanos; entaõ se acabou de descubrir a navegaçaõ da India Oriental, que ElRey D. João II. havia premeditado, sendo o inclyto Heroe Vasco da Gama o primeiro, que no anno de 1497 logrou a gloria de abordar as prayas de Calecut, e introuduzir o commercio das suas preciosas especiarias em Portugal, naõ obstante a grande resistencia, e embaraço, que a isso fizeraõ os Venezianos.[697]
109 Accrescentou D. Manoel a seu Imperio naõ pequena parte da Ethyopia, Persia, India, dentro, e fóra do rio Ganges, o Brasil, e innumeraveis Ilhas do Oceano até alli incognitas. Sujeitou, muitos Reys; e estando taõ apartados por tanto espaço de mar, e terra, os fez tributarios: outros se fizeraõ confederados, e amigos. Venceo muitas vezes na India as armadas do Soldaõ de Babylonia, e de outros poderosissimos Reys Orientaes. Plantou a Religiaõ Christã na Ethyopia, India, e outras partes do mundo ainda naõ allumiadas com a luz do Evangelho, favorecendo, e amparando aos convertidos. Libertou o estado Ecclesiastico de tributos, e pensões, e dos mesmos aliviou aos mais vassallos, dando novos foraes às terras, de que mandou formar cinco livros, que se conservaõ na Torre do Tombo.
110 Para mayor augmento da sua felicidade se vio jurado Rey de Castella em 28 de Abril de 1498,[698] cuja posse, e titulo brevemente possuio pela intempestiva morte da Rainha Dona Isabel sua esposa, herdeira daquelle Reino. Fundou Templos, que podem competir com os melhores de Roma.[699] Fez nadar em ouro o Reino, e quasi chover em Portugal perolas, e diamantes; em tal fórma, que se chamou idade de ouro a em que reinou D. Manoel como bem mostra Manoel de Faria.[700] Agradecido aos continuados beneficios com que Deos lhe dilatava o Imperio, quiz religiosamente gratificallos ao Senhor, mandando ao Papa Leaõ X. entaõ reinante, offerecerlhe, e tributarlhe como a Vigario de Christo na terra, as primicias das riquezas da India, e Etiopia. Para isso dispoz huma Embaixada, que a 12 de Março de 1514 fez Tristaõ da Cunha com tanta magestade, pompa, e grandeza, que nunca se vio semelhante em Roma.[701] Em fim naõ houve prosperidade, que elle naõ abraçasse, parecendo ser disto auspicio a grandeza dos braços, que tinha mayores que nenhum outro homem. Tambem amparou as letras grandemente;[702] e cheyo de taõ heroicas acções fechou o gyro de seus dias aos 13 de Dezembro de 1521 pelas nove horas da noite, achando-se em Lisboa nos Paços da Ribeira, tendo de idade cincoenta e dous annos, seis mezes, e dous dias, dos quaes reinou vinte e seis annos, hum mez, e dezoito dias. Jaz no Real Convento de Belém extra muros de Lisboa, que elle mandou edificar para seu jazigo.
D. Joaõ III. decimo quinto Rey.
111 Succedeo no Throno a ElRey D. Manoel seu filho D. Joaõ III. que havia nascido em Lisboa a 6 de Junho de 1502, dia memoravel pela horrivel tempestade, que houve no Reino de trovões, rayos, e coriscos.[703] Foy acclamado a 19 de Dezembro de 1521, fazendo-se o acto à porta do Convento de S. Domingos de Lisboa. Os principios do seu reinado foraõ tecidos com egregias acções de piedade, clemencia, e generosidade, adquirindo-lhe estas virtudes amor de seus vassallos, e a estimaçaõ de todos os Principes da Europa.
112 Foraõ os seus primeiros cuidados proseguir logo vivamente as conquistas da India, em que os Portuguezes obraraõ façanhas de eterna memoria, e este mayor projecto lhe fez relaxar aos Mouros de Africa quatro Praças principaes, Alcacer, Arzila, Çafim, e Azamor, de que tanto se lamenta Manoel de Faria,[704] e a cujo consentimento attribue o mayor desacerto deste Rey, ou de seus Conselheiros. Melhorou esta acçaõ, impetrando do Papa Clemente VII. o veneravel Tribunal da Inquisiçaõ para este Reino. Reformou muitas das Religiões, que hiaõ descahindo da sua primitiva observancia. Admittio em Portugal a Religiaõ denominada da Companhia de Jesus, e lhe instituio em diversas partes do Reino Collegios; devendo-se a este Monarca a gloria da conversaõ da gentilidade em taõ continuados progressos na Asia, Africa, e America, que naquelles primeiros tempos souberaõ plantar com zelo aquelles Religiosos.
113 Descubrindo ElRey alguns inconvenientes de haver na Corte estudos publicos, removeo a Universidade outra vez para Coimbra no anno de 1534 conforme dizem huns,[705] e segundo outros no de 1537,[706] mandando vir a este respeito, e com grandes dispendios os melhores Mestres de letras, que havia na Europa,[707] de sorte que restabeleceo em Coimbra a mais florente Academia das sciencias; e extendendo-se este louvavel affecto para as Conquistas, mandou estabelecer tambem na India escolas para as artes, e sciencias.[708]
114 Por sua instancia se erigiraõ no Reino os tres Bispados de Leiria, Portalegre, e Miranda, e outros nas Conquistas; e levantando em Metropolitana a igreja Cathedral de Evora, reedificou o sumptuoso aqueducto desta Cidade, que se hia arruinando. Continuou o edificio Regio de Belém, e fez outros de novo em publica utilidade, como foy a Alfandega, as Tercenas, os Armazens, e a Torre do Tombo.[709] Para a boa administraçaõ da Justiça instituio o Tribunal da Mesa da Consciencia, e Ordens, e para os mais Tribunaes teve o dom de saber escolher Ministros proporcionados. Amou muito a paz, e por isto dizia, que mais perdia no que se gastava na guerra, ao que lucrava com o que alcançava na vitoria. Finalmente assim nas cousas da paz, como nas da guerra foy ElRey D. Joaõ Principe admiravel, nascido para beneficio dos homens, amparo dos humildes, e estranhos, verdadeiro conservador do culto Divino, e propugnaculo da Religiaõ Catholica. Morreo em Lisboa aos 11 de Junho de 1557, e aos cincoenta e cinco annos, e cinco dias da sua idade, e de governo trinta e cinco annos, e seis mezes. Jaz no Convento de Belém junto de seu grande Pay. Foraõ muitas as lagrimas, que o povo derramou na sua morte, a qual foy tida por termo, que o Ceo punha às felicidades do Reino.
D. Sebastiaõ, decimo sexto Rey.
115 Foy ElRey D. Sebastiaõ filho do Principe D. Joaõ, e da Princeza Dona Joanna, e neto delRey D. Joaõ III. Nasceo em Lisboa posthumo a 20 de Janeiro de 1544, e dahi a tres annos, morrendo seu Avô, ficou herdando o Cetro, mas sujeito à tutoria da prudentissima Rainha Dona Catharina, e aos preceitos de seu Ayo D. Aleixo de Menezes, e dos do Padre Luiz Gonçalves da Camera, ambos Fidalgos illustres, os quaes em toda a sua educaçaõ lhe inspiraraõ o amor da justiça, e o zelo da Religiaõ Christã.
116 Como os espiritos deste Principe eraõ generosos, e cheyos de hum grande, e admiravel desejo de aquirir gloria, começou logo a idear emprezas verdadeiramente temerarias para a sua idade; de sorte, que chegando aos quatorze annos, se resolveo tomar posse do governo em 20 de Janeiro de 1568, e entaõ dando-se todo ao aspero exercicio das armas, e da caça, fazia brio de se mostrar intrepido, e destemido em todas as occasiões. Quando os ventos, e as ondas andavaõ mais irados, então sahia fóra da barra a lutar com a tempestade; e em fim as suas acções eraõ todas imagens de seu precipicio, como bem diz Manoel de Faria.[710]
117 Tanto confiava em seu valor, que tinha para si podia conquistar todo o mundo; e como sempre sahia bem dos perigos, em que se mettia, se lhe augmentavaõ cada vez mais os desejos de principiar pela conquista de Africa. Este santo intento trouxe quasi do berço, e para o executar se dirigiaõ os seus cuidados, e pensamentos, que assoprados com a lisonja dos que se queriaõ conformar com o seu fogoso genio, mais lhe accendiaõ no peito deliberações temerarias. Praticou-as, passando primeiramente no anno de 1574 a discorrer pelas terras de Tangere, e Ceuta, onde fazendo differentes correrias, e escaramuças, assustou os barbaros, mas vio a difficuldade, a que a sua ambiçaõ aspirava.
118 Todavia succedendo despojar Muley Maluco dos Reinos de Marrocos, e Fez a seu sobrinho Muley Hamet, este se veyo valer do nosso Rey, offerecendo sua pessoa, e os que o seguiaõ. Preparou-se D. Sebastiaõ para soccorrer a Hamet, e atropellando todos os conselhos prudentes, que lhe dissuadiaõ esta perigosa, e incauta jornada, sahio do porto de Lisboa em 24 de Junho de 1578, anno, e dia taõ infaustos para Portugal.[711] Compunha-se o exercito delRey de dezoito mil homens, dos quaes eraõ tres mil Castelhanos, tres mil Alemães, novecentos Italianos, e os mais Portuguezes, gente a mais luzida, e lustrosa, que havia no Reino, mas sem exercicio militar.
119 Chegou a Arzila, e logo achou aqui na mostra, que mandou passar, diminutos os Regimentos, que naõ passavaõ de doze mil homens. Constava porém o exercito inimigo de cento e cincoenta mil, a mayor parte de cavallo, de cujo fatal numero opprimidos os nossos ficaraõ vencidos a cinco de Agosto do mesmo anno de 1578, dia de Nossa Senhora das Neves, eclipsando-se nesta infeliz, e lastimosa batalha toda a gloria, e lustre Portuguez nos campos de Alcacere, os quaes ficaraõ memoraveis pelos tres Reys, que alli morreraõ. Bem he verdade que ninguem verifica ter visto morrer na batalha a ElRey D. Sebastiaõ, nem depois com certeza o tornaraõ a ver, donde tomaraõ alguns motivo para esperar por elle, delirio, que com teimosa tradiçaõ permaneceo bastante tempo, pertendendo os seus sequazes em taõ fanatica esperança fazer verdadeiramente crer, que este lamentavel Monarca fosse entre os homens outra ave Fenix, da qual dizem que existe, mas ninguem a vio. Mons. de la Clede assenta,[712] que ElRey naõ morrera no conflicto de Alcacere, mas sim no Castello de San Lucar de Barrameda, opiniaõ, que os nossos Escritores naõ admittem.
120 A noticia desta fatalidade trouxe a Portugal grande confusaõ; porque depois della naõ se via, nem ouvia em todos mais que lagrimas, e impaciencia pela perda geral de hum Reino sem successaõ, e de hum Rey extincto na flor da sua idade, e com elle a flor da Nobreza, vindo-se a concluir todo este catastrofe com as exequias, que se celebraraõ com a possivel expressaõ de sentimento, até que passados quatro annos chegou a Lisboa, mandado pelo Xarife, o corpo, que diziaõ ser delRey D. Sebastiaõ, e se mandou sepultar no Convento de Belém, onde jaz todavia com a incerteza, que indica a inscripçaõ do seu epitafio,[713] o qual dia assim:
Conditur hoc tumulo, si vera est fama, Sebastus,
Quem tulit in Lybicis mors properata plagis.
Nec dicas falli Regem qui vivere credit,
Pro lege extincto mors quasi vita fuit.
D. Henrique, decimo setimo Rey.
121 Tanto que a triste nova da perda delRey D. Sebastiaõ chegou a Portugal, elegeraõ, e acclamaraõ os Tres Estados do Reino ao Cardeal D. Henrique, filho delRey D. Manoel, que entaõ se achava na avançada idade de sessenta e seis annos, contados desde 31 de Janeiro de 1512 em que nasceo. Era elle ornado de excellentes dotes, e virtudes, muy pio, e temente a Deos, e em tudo mostrou quanto era capacissimo para o Baculo, e para o Cetro. Amou as sciencias, amparou a orfandade, soccorreo a pobreza, confundio as heresias, restaurou Templos, e em fim foy Pastor, e Rey sem embaraçar com as desculpas de Monarca os empregos de Sacerdote.[714]
122 Acclamado porém a 28 de Agosto de 1578 por legitimo Rey, e successor de Portugal, cuidou logo no resgate dos Fidalgos, e mais gente, que ficaraõ cativos na fatal batalha de Alcacere, em que dispendeo muito dinheiro; porém como os achaques, e a idade já decrepita lhe diminuiaõ as forças attenuadas, e comprimidas tambem pelas negociações, e governo de huma Monarquia decadente pela falta de successaõ, muitos Principes da Europa estavaõ attentos naõ só ao fim, que por instantes esperavaõ haver no Reino, mas como se Portugal fora herança, que a todos lhes pertencesse.
123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D. Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.
| ElRei D. Manoel entre outros filhos teve | A Infanta Dona Isabel Imperatriz, que casou com Carlos V. Imperador, e teve a | Filippe II.Rey de Castella 1. pertendente | |
| A Infanta Dona Brites, que casou com D. Carlos Duque de Saboya, e teve a | Manoel FilisbertoDuque de Saboya, e Principe de Piemõte 2. pertendente. | ||
| O Infante D. Luiz Duque de Béja naõ casou, mas de Violante Gomes, chamada a Pelicana, teve a | D. Antonio Prior do Crato, 3. pertendente. | ||
| O Infante D. Duarte Duque de Guimarães casou com Dona Isabel filha de D. Jayme Duque de Bragança, e teve a | D. Maria, q casou com o Principe de Parma, de quem teve a | Rainucio Principe de Parma, e 4. pertendente. | |
| D. Catharina que casou com D. Joaõ Duque de Bragança 5. pertendente. | |||
Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego; de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona Catharina.
124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa, veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da Bemaventurança.
125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.
126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.
127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.
128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa consciencia.[718]
D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos.
129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até alli se tinha visto.[719] Começou a tratar os Portuguezes com muita affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13 de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado, e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos, governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.
130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay. Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou a morte, que lhe sobreveyo em Madrid no ultimo de Março de 1621 com quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz no Convento do Escurial.
131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de 1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas; porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas, que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ Escritores, que as referem.[720]
132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina, filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se vivera, havia de ser Rey,[721] mas tambem por ser o Serenissimo Duque natural do Reino, e o mayor Senhor delle, a quem por suas qualidades verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das oppressões, que padecia.
133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,[722] ambos interessados na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos exorbitantes.
134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo, se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV., acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.
D. João IV. vigesimo primeiro Rey.
135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724] sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.[725]
136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender, e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o Reino à sua obediencia.[726]
137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França, Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados, experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas, que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do Reino.
138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos; sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D. Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos, foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.
139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo, estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta cruzados cada anno,[728] e em 25 de Março do proprio anno jurou, e declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.[729]
140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias. Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.
D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey.
141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21 de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay; mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.[730]
142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim se vio nas celebres batalhas do Amexial, do Canal, e de Montes claros, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu valor, e sciencia militar.
143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a Bahia.
144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha pelas razões forçosas, que allegaraõ,[731] e que para evitar mayores damnos na Monarquia avocasse a si o governo.
145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen, ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D. Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27 de Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no Convento de Belem.[732]
D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey.
146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino, cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D. Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.
147 Naõ custou pouco determinarse ElRey para segundo casamento; mas em fim se completou com a Serenissima Princeza Dona Maria Sofia, filha do Eleitor Palatino do Rhim, em 11 de Agosto de 1687, e nessa ditosa uniaõ augmentada com a felicidade da paz foy continuando ElRey o seu governo com grande gosto dos vassallos; porque além de possuir da natureza dotes muy especiaes na soberana, robusta, e galharda presença exterior, nos costumes, e prendas do animo excedeo a todos os Monarcas do seu tempo, porque era muy pio, devoto, compassivo, liberal, benigno para com todos, e amante das pessoas virtuosas.
148 Com grande acerto levantou muitas judicaturas de novo para bom regimen da justiça, em que era exacto, se bem na punitiva propendia mais para a clemencia. Erigio tambem muitos Bispados, o de Pernambuco, Rio de Janeiro, Maranhaõ, Pekim, Nankim, e o da Bahia elevou à dignidade de Arcebispado, e teve a fortuna de possuir Ministros em todos os empregos de grande experiencia.
149 Corria o anno de 1701, quando ElRey fez huma liga offensiva, e defensiva com França, e Hespanha contra a Casa de Austria, a qual se desfez depois a 16 de Mayo de 1703, entrando ElRey D. Pedro no Tratado da grande alliança com o Imperador Leopoldo I., Inglaterra, e Hollanda, a fim de meterem de posse de Hespanha o Archiduque Carlos filho segundo do Imperador,[732a] o qual havia de entrar pelas nossas terras, e por este ajuste se prometteraõ grandes conveniencias a Portugal. Chegou aqui ElRey Carlos a 7 de Março de 1704, e fazendo huma publica, e pomposa entrada, depois de assistir algum tempo na Corte, partio com elle ElRey D. Pedro para a Provincia da Beira, por onde se havia de introduzir em Castella.
150 Poz-se ElRey Filippe V. em campanha contra Portugal; porém o nosso exercito, de que era General o Marquez das Minas, fez render varias Praças de Castella, como foraõ Valença, Coria, Albuquerque, Alcantara, Placencia, e Ciudad Rodrigo, e sujeitando-as à obediencia delRey, penetrou até Madrid, onde fez acclamar Rey de Hespanha a Carlos III. em 2 de Julho de 1706.[733]
151 Havia-se ElRey D. Pedro restituido a Portugal em 17 de Novembro de 1704, e depois de ouvir com grande alvoroço, e celebrar com plausivel contentamento a feliz acclamaçaõ delRey Carlos III. passados cinco mezes, achando-se na quinta de Alcantara, o accommetteo hum pleuriz legitimo com perigo manifesto da vida; e no dia 9 de Dezembro de 1706, tendo recebido com grande edificaçaõ o Santissimo Viatico, e o Sacramento da Extrema-Unçaõ, deu a alma a Deos pela huma hora depois do meyo dia, deixando por suas singulares virtudes eterna saudade a seus vassallos. Viveo cincoenta e oito annos, sete mezes, e treze dias: reinou como Principe Regente mais de quinze annos, e como Rey mais de vinte e tres. Jaz sepultado no Convento de S. Vicente de Fóra.