NOTAS DE RODAPÉ:
[151] Duarte Nun. Descripç. de Port. cap. 28. Joaõ de Barr. na Descripç. do Minho cap. 6. Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. a. 4. Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. Geograf. Blavian. Cost. Corogr. Port. tom. 1. c. 1. Lim. Geogr. Histor. tom. 1. pag. 2.
[152] Far. no Epitom. part. 4. cap. 5. n. 4. Maced. Flor. de Hesp. cap. 1. excel. 6.
[153] D. Franc. Man. Epanafor. 4. p. 518.
[154] Joaõ Salgad. de Arauj. nos Success. Milit. liv. 1. cap. 1. pag. 3. vers.
[155] Far. Epitom p. 4. cap. 17.
[156] Nun. Descripç. de Portug. cap. 28. e 29. Vasconcell. in Descript. Lusitan.
[157] Estaç. Antig. de Portug. cap. 72.
[158] Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 1.
[159] Joaõ Salgad. Success. Milit. pag 3. vers.
[160] Maced. Flor. de Hesp. cap. 2. excel. 3. Barbos. de Potestat. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8. Gil Gonsal. de Avil. no Theatro de las grandez. de Madrid. p. 500.
[161] Arauj. Success. Milit. liv. 1. cap. 1.
[162] August. Barb. de Potest. Episcop. part. 1. tit. 3. cap. 8.
[163] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 2. cap. 2. Lim. Geogr. Histor. tom. 2. pag. 3.
[164] Corograf. Portug. tom. 1. p. 313. Padilha. Histor. Eccles. cent. 1. cap. 16. Monarq. Lusitan. part. 3. liv. 8. cap. 32. Rodrig. Mend. da Silv. na Descripç. de Portug.
[165] Colmenar. Delices du Port. tom. 4. pag. 713. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p. 61.
[166] Arauj. Success. Milit. p. 68. vers.
[167] Brit. na Geograf. Lusitan. cap. 4. Fr. Man. da Esper. na 1. part. da Histor. Serafic. liv. 4. cap. 13.
[168] Poyar Diccionar. Geogr. p. 76. Lim. Geograf. Histor. tom. 2. p. 83.
[169] Fr. Man. da Roch. Portug. renascid. part. 1. p. 109.
[170] Histor. Genealog. da Casa Real Port. tom. 8. p. 354.
[171] Far. Europ. Port. tom. 3. pag. 3. cap. 2.
[172] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.
[173] Geograf. Blavian. Mendes da Silv. Mons. de La Clede tom. 2. pag. mihi 59. Corograf. Portug. tom. 3 Lim. Geogr. Histor. tom. 2. p. 136. Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. p. 160.
[174] Far. Europ. Portug. tom. 3. part. 3. cap. 2. Rodrig. Mend. da Silv. na Descripç. de Portug. Geograf. Blavian. tom. de Hespanh. pag. 403.
[175] Abbad. de Per. Success. Milit. p. 179.
[176] Sousa de Macedo nas Flor. de Hespanh. cap. 3. excel. 3.
[177] Cam. cant. 3 est.62.
[178] Colmen. Delices de Hesp. tom. 4. p. 809.
[179] Monarq. Lusit. liv. 16. cap. 4.
[180] Rodrig. Mend. da Silv. Descripç. de Hesp.
CAPITULO VI.
Dos Montes, Promontorios, e Serras de mayor nome.
1 Quasi todos os principaes montes, e serranias, que fortalecem, e ornaõ este nosso Continente, saõ ramos, e esgalhos dos celebres Pyrineos, que dividem França de Hespanha, os quaes, entrando por varias partes do Reino, adquirem o nome conforme as terras por onde se vaõ descubrindo; e com tal elevaçaõ em alguns sitios, que justamente lhes chamou Athlantes o famoso Caramuel,[181] pois com sua altivez pertendem coroarse de estrellas, e suster os Ceos em seus hombros. Dos mais affamados daremos a breve informaçaõ, a que o nosso methodo nos obriga.
2 Abelheira. Descobre-se esta serra no termo da Villa de Moura em o Alentejo, e participa da serra da Adiça, communicando-se tambem com a dos Machados, que lhe fica meya legua distante. Dá pastos a muitos gados, e cria-se nella caça de todo o genero, e muitas hervas de grande virtude medicinal. Ha outra serra deste mesmo nome na Provincia de Tras os Montes no sitio da Igrejinha, onde se descobrem ruinas de edificios Arabes.
3 Aboboreira. Fica na Provincia do Minho perto do Concelho de Gouvea. He inculta, e inhabitavel em todos os quatro mil passos de ambito, que occupa o seu terreno, posto que naõ he esteril para a muita caça que alli se cria.
4 Achada. Começa esta serra desde a ribeira de Cascaes, e se vay unir com a de Montejunto. Participa de aspero temperamento, naõ obstante admittir cultura pelas suas raizes.
5 Açor. Há no Reino duas serras com este mesmo nome; huma na Beira, que principia no termo da Villa de Coja, e acaba na de Arganil, occupando o espaço de quasi sete legoas de comprido, e duas de largo, e lança varios braços por diversos sitios. A outra serra jaz no Algarve.
6 Albardos. Serra aspera da Estremadura, lançada desde o termo de Santarem até Porto de Mós. He de clima destemperado, e nella nascem alguns rios, e canteiras de pedra fina. Os Religiosos de Alcobaça saõ Senhores de todos os limites desta serra.
7 Alcaçovas. Está junto da Villa do seu mesmo nome na Comarca de Evora. Levanta-se em desmedida altura, pois do cimo della se descobrem povoações muy distantes. O insigne Fr. Luiz de Sousa diz[182] ser provavel haver aqui no tempo dos Romanos algum edificio nobre, segundo se collige de algumas moedas que se tem descoberto, e de outros vestigios de antiguidade, que refere o Diccionario Geografico do Padre Cardoso. A ribeira chamada Odiege, ou Diege, que discorre por esta serra, fertiliza grandemente aquellas porções, que se deixaõ cultivar, e onde se cria abundancia de caça, e de gado.
8 Alcubertas. Fica no termo da Villa de Alcanede, onde se descobre huma grande concavidade, e dentro della huma casta de pedra brilhante, que parece cristal; e outras, que congeladas da neve com a mistura da terra saõ muy galantes, e procuradas para ornar embrechados, e grutescos.
9 Aleidões. Apparece no Alentejo, e no termo de Grandola, estendendo-se até Santiago de Cacem. Participa de ares saudaveis, e consta de muitas carvalheiras, dando pasto a bastante gado, que alli se cria, e a innumeraveis colmeas para a produçaõ de mel.
10 Algáres. Principia esta serra a descobrirse huma legua distante da Villa de Grandola para a parte do Levante, e continuando contra o Nascente, vay acabar onde chamaõ o Castello velho pelo espaço de duas leguas. He quasi toda minada por baixo, e foy de donde os Romanos extrahiraõ bastantes riquezas. Fica sobranceira ao rio Corona, que separa pelo meyo os termos de Grandola, e Alvalade. A Corografia Portugueza no tom. 3. pag. 336. refere outras circunstancias desta serra, da qual naõ trata o Diccionario Geografico.
11 Alpedreira. Fica no Arcebispado de Evora, e se communica com a serra de Portel. He secca, e esteril. Cria muito lobo pelas concavidades que tem; e em algumas partes se cultiva com trabalho para sementeira de centeyo.
12 Alqueidaõ. He da Estremadura, e fica no territorio de Leiria. A sua temperie he fria, e em parte se cultiva trigo, milho, e linho. Cria tambem alguma caça miuda.
13 Altar de Trevim. He huma serra que fica no termo da Louzã, demasiadamente aspera, e empinada, de cuja eminencia se avistaõ muitas Villas, e Lugares, que causaõ aos olhos agradavel perspectiva. Tem muita caça, e cria porcos montezes, e lobos, naõ sem prejuizo dos gados que por alli pastaõ.
14 Alvaõ. Na Provincia Transmontana, e na Comarca de Guimarães. He fria, e no inverno cheia de neve. Cria muito lobo, e muito mato rasteiro; cultiva-se em partes, e tem caça de perdizes, coelhos, e lebres.
15 Alvayazere. Fica junto à Villa de seu nome no Bispado de Coimbra. He serra aspera, e pedregosa, com quatro legoas de comprido. Cria muito alecrim, e por isso o muito mel que as abelhas fabricaõ da sua flor, he o mais estimavel. Está aqui huma grande gruta muy espaçosa, onde se entra, e onde nasce agua capaz de se beber. Suppoem-se que seria habitaçaõ dos Romanos, segundo vestigios que no cimo da serra se descobrem.
16 Airó. Esta serra, que fica a hum lado da Villa de Barcellos, tem bastante eminencia, e no mais alto se estende huma planicie banhada por diversas fontes de bella agua, onde ha huma Ermida com huma devota imagem da Senhora da Fé. Em outro tempo se denominava Monte aureo, de que se derivou o nome, que tem presentemente a serra. Em pouca distancia da dita Ermida ainda existem as ruinas de outra dedicada a S. Silvestre, obra do servo de Deos Joanne o Pobre natural de Catalunha, Varaõ penitente, e virtuoso, que alli viveo solitario, e morreo com sinaes de predestinado.
17 Na raiz desta serra encostado ao Norte está o Convento de Villar de Frades, hoje dos Conegos Seculares de S. Joaõ Evangelista, e antigamente dos Monges de S. Bento, onde aconteceo aquelle prodigioso caso a hum Monge, que reflectindo sobre as palavras de David no Psalmo 89. onde diz: Que mil annos diante de Deos saõ como hum dia, que passou, se foy contemplando a trás da armonia de hum passarinho, que com a suavidade da sua voz o enterteve extatico na cerca do Convento o espaço de sessenta annos, sem ser visto, nem achado de ninguem; dando-lhe Deos a entender pelo engodo transitorio daquella ave canora, quanto na sua adoravel presença as eternidades de gloria parecem instantes, como bem diz o Doutor Villasboas, que refere este caso na Nobiliarquia Portugueza cap. 9. e o Agiologio Lusitano tom. 1. Toda esta serra he fertil de pastos, e arvores, em que se dá o melhor vinho de enforcado, que deste genero ha no Reino.
18 Amarella. He serra do Minho muy despenhada, e quasi principio da do Gerez. Descobrem-se da sua mayor altura muitas povoações distantes, e do mar Oceano quanto a potencia da vista póde alcançar; alargando-se tambem a vista até grande parte de Galiza, que lhe serve de termo. Cria muito lobo cervaz, e javalizes, que damnificaõ os gados, por cujo motivo os moradores dos Concelhos alli proximos lhes vaõ fazer montaria em tempos determinados, por obrigaçaõ.
19 Amoreira. Fica na Provincia da Estremadura, e nos limites de Odivellas, de cujo cume se descobrem por todas as partes muitas povoações. Todo o seu mato saõ fetos, e consta de excellentes pedreiras negras para alvenaria, donde se extrahe muita parte para varias obras de primor.
20 Anciam. Tem seu assento na Beira entre as Villas do Rabaçal, e Pombal, e corre de Thomar até Coimbra. Em algumas partes he mais eminente que em outras, mas sempre de vista alegre, pois cria muito alecrim, e variedade de boninas, e outras flores, que servem de pasto aos muitos enxames de abelhas, de que fabricaõ excellente mel. Dizem que fora habitada pelos Mouros, de que ha ainda alguns vestigios. Aqui se vê huma grande lapa chamada Algar da agua aberta em hum penhasco taõ espaçosamente, que podem caber dentro quinhentos homens. Cria tambem abundancia de perdizes, coelhos, lebres, e rapozas. O Author da Corografia chama a esta serra a Carreira.[183]
21 Araceli. He huma serra do Alentejo no Arcebispado de Evora, que tem meya legua de comprido, despovoada, e que em algumas partes admitte cultura. O seu mato he rasteiro, e nelle se criaõ hervas medicinaes, a agrimonia, a douradinha, e com especialidade o arbusto Daro, de cujas bagas se faz azeite muito bom para as luzes, e tambem para o prato, e tem particular virtude para as dores de flatos. Ha aqui muita caça de toda a casta, e muitas colmeas de abelhas, de que se tira bastante mel. No cimo da serra se logra huma boa vista desafogada, e se adora a imagem da Senhora com o titulo de Araceli, que deu nome à serra.
22 Arada. Serra junto ao Concelho de Lafões, que terá tres leguas de comprido. Tem grandes despenhadeiros, e perigosos. Na planicie da sua mayor altura, que he espaçosa, está o Lugar da Coelheira. Consta toda esta serra de mato real, onde se cria muita caça, até aguias, e hervas medicinaes.
23 Arga. Chama Ptolomeu a esta serra Promontorio Avaro.[184] Divide ella os termos de Viana, Ponte de Lima, Coura, e Caminha, e deu terreno antigamente a hum Convento Benedictino entre as densas matas do seu ambito, o qual hoje he Paroquia, cujo Reitor assiste em Filgueiras. Tem esta serra cousas muito especiaes, que mais extensamente se podem ver na Corografia Portugueza, e no Diccionario Geografico.[185]
24 Arrabida. He esta serra huma aspera montanha da Estremadura, que corre direita de Nordeste a Sudueste no mais desabrido della pelo espaço de duas leguas, e continúa mais tres até o Cabo de Espichel por sitio menos agreste fazendo varias quebradas. Fica-lhe na raiz para a banda do Norte o sitio de Azeitaõ; para a parte do Sul as prayas do Sado. Olhando de cima para o mar Oceano, se vê Cezimbra à maõ direita, e Setubal à esquerda: e desta mesma parte, quasi no meyo da serra, está o Convento dos Padres Arrabidos da mais estreita observancia Franciscana, muy penitentes, e onde viveo muitos annos S. Pedro de Alcantara.
25 Conforme diz Gaspar Barreiros[186] o nome de Arrabida he derivado da antiga Arabriga, que Ptolomeu, e Ortelio situaõ com igual demarcaçaõ perto da dita serra; e mostra ter mais probabilidade, que o que dizem o Doutor Alvaro Gonçalves de Camões, a quem seguem Fr. Antonio da Piedade, e Joaõ de Brito de Mello,[187] os quaes a derivaõ do nome Errabundus; porque os que subiaõ a esta serra, sempre erravaõ o caminho. O Padre Fr. Francisco Gonzaga diz,[188] que os Mouros, quando aqui habitaraõ, lhe pozeraõ este nome, que no seu idioma significa o mesmo que Oratorio, ou lugar solitario, e proprio de fazer penitencia.
26 Os Romanos chamaraõ a esta serra Promontorio Barbarico; ou porque os seus habitadores, chamados Sarrios, levaraõ daqui para Roma muita grã, de que a serra abunda, com a qual os Romanos tingiaõ os seus vestidos, a cuja cor encarnada davaõ o nome de barbara, e aos conductores barbaros, como diz André de Resende;[189] ou porque os povos, que primeiramente aqui viviaõ, tinhaõ costumes barbaros, e rusticos, como observa Fr. Bernardo de Brito, e Floriaõ do Campo.[190]
27 Na bella descripçaõ desta serra, que vem no Diccionario Geografico, se diz, que à sua vertente onde se erigio a torre de Outaõ, se chamou antigamente o Promontorio de Neptuno; e que se presume havia alli templo dedicado àquella falsa divindade, segundo huma estatua de bronze, com varias inscripções, e outros nobres vestigios, que se descobriraõ, e hoje se naõ achaõ pela barbaridade dos que fizeraõ pouco caso dellas.
28 De muitas cousas notaveis he fertil todo o corpo desta montanha, que os estreitos limites a que me cingi, me naõ permittem relatar com miudeza. Os desejosos de mayores noticias podem ver o primeiro tomo da Chronica da Arrabida do Padre Fr. Antonio da Piedade, que no cap. 5. faz huma descripçaõ desta serra extensamente, posto que em estylo mais poetico, do que historico. Excede a todas as descripções, a que vem no primeiro tomo do Diccionario Geografico de Portugal feita pelo Padre Antonio dos Reys, da Congregaçaõ do Oratorio, e que publicou seu irmão o Padre Luiz Cardoso. Naõ nos esqueçamos porém da admiravel circunstancia de ser toda a serra limpa de bichos venenosos; nem da pedra, que daqui se extrahe, salpicada de cores diversas, que à maneira de remendinhos pardos, brancos, vermelhos, e negros a esmaltaõ, e matizaõ galantemente. Della se fabricou o exquisito retabulo, ou frontaria exterior da Igreja do Hospital Real no rocio de Lisboa, presentemente arruinado, e extincto.
29 Atalaya. Ha no Reino tres serras com este nome; duas na Estremadura, e huma na Beira. A que fica no termo do Pombal, consta de canteiras de excellente pedra, e admitte cultura, e criaçaõ de alguma caça. A que se vê junto da Freguezia de Santo Estevaõ das Galés, tem hum quarto de legua de comprido, e toda de admiravel vista. He regada com algumas fontes, que nascem alli mesmo, e dá terreno para habitaçaõ de dous lugares, e pasto para os seus gados. Cria com especialidade muita herva medicinal, e outros varios frutos, e caça. A da Provincia da Beira fica no termo de Trancoso, e he muy destemperada, mas abundante de lenha, e caça miuda.
30 Barregudo. He huma serra, que fica no termo de Torres Vedras, e que na distancia de tres legoas caminha a entestar com a de Montejunto. Adquire nomes differentes segundo os sitios. No de Penedos negros se encontraõ varias pedrinhas miudas, muy resplandecentes; e huma casta de areya muy brilhante. Dá passagem ao rio Sizandro, e se deixa cultivar com utilidade, produzindo tambem caça rasteira, e do ar.
31 Barris. He hum braço da serra da Arrabida, que fica ao Poente da Villa de Palmella. Abunda de aguas com boa qualidade, e cria muitas hervas medicinaes, e a finissima grã, sendo todo o seu terreno hum admiravel composto de alegre divertimento para os passageiros, a quem suavisaõ tambem muito a continua armonia dos passaros que por alli se criaõ.
32 Besteiros. He huma serra aspera, e cheia de penedia escabrosa pela distancia de huma legua no Bispado de Viseu, onde se acha huma fonte de agua taõ fria, que naõ se póde aturar nella a maõ. Cria mato rasteiro, e se lhe cultiva centeyo, e milho, que o produz em abundancia. Pastaõ nella muitos rebanhos de gado miudo, e grosso.
33 Bornes de Monte mel fica no termo de Braga, e tem duas leguas de comprido. Recebe muita neve em tempo de inverno. O mais especial della he ser taõ alta, que se descobrem do sitio chamado Miradouro, povoações de treze Bispados.
34 Borralheira. Daõ este nome a huma serra, que com bastante eminencia se levanta junto da Villa da Ponte, Comarca de Pinhel. No mais alto está huma Ermida de Santa Barbara, que a Camera da Villa mandou edificar por causa dos muitos rayos, e coriscos que alli cahiaõ, os quaes depois da Ermida erecta nunca mais offenderaõ o sitio, nem atemorisaraõ aos moradores.[191] O Diccionario Geografico, naõ fazendo mençaõ desta serra, dá noticia de outra com o mesmo nome na Provincia de Tras os Montes, e na Freguezia de S. Pedro de Paradella, e naõ tem cousa notavel.
35 Bussaco. Jaz esta famosa serra na Provincia da Beira, e he parte da serra da Estrella. Dista de Coimbra tres legoas para o Nordeste, e meya da Villa de Vacariça. Lança-se de Nascente a Poente pelo espaço de tres leguas, e do seu cume se descobre grande parte do Reino; porque para o lado Oriental se avistaõ as serras da Estrella, e a de Castello Rodrigo, que lhe ficaõ na distancia de trinta leguas. Para a parte do Meyo dia se vem as serras de Minde, e de Marvaõ, que lhe ficaõ quarenta leguas distantes. Para o Norte se divisa a serra de Grijó, affastada quinze leguas; podendo-se livremente da sua altura apontar com o dedo para terras de sete Bispados, estando os dias claros.
36 Tres etymologias assina Fr. Joaõ do Sacramento[192] ao nome desta serra, das quaes a mais verosimil he, por haver na sua raiz hum Convento de Religiosos Benedictinos, erecto em memoria da cova de Sublaco, que aquelle grande Patriarca escolhera para sua primeira habitaçaõ, e que de Sublaco vieraõ a alterar a palavra, vertendo-a em Bussaco.
37 Nesta alta montanha se criaõ finissimos marmores, toda a casta de arvoredo, plantas, flores, e hervas medicinaes, regadas com muitas fontes de excellente agua artificiosamente conduzida, e repartida por engenhosa industria do memoravel Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello. Sobre tudo dá terreno ao devotissimo Convento de Carmelitas Descalços, que exercitaõ aqui, como os Anacoretas da antiga Thebaida, a vida contemplativa.[193]
38 Cabreira. Fica na Provincia de Tras os Montes, e tem duas leguas de comprido. He demasiadamente fria por causa da muita neve, que recebe de inverno. Della nascem varios regatos, de que se fórma o rio Ave. Avistaõ-se da sua mayor altura as prayas do Oceano para a banda de Faõ, e Esposende. Ha no Reino outras serras deste nome, de menos consideraçaõ, que se podem ver no Diccionario Geografico do Padre Luiz Cardoso.
39 Cantaro. No mais alto da serra da Estrella se levanta huma eminente pyramide formada de rochedos calvos, e escarpados, a que chamaõ serra do Cantaro; porque, segundo diz o Padre Carvalho na sua Corografia,[194] costumavaõ os antigos Senhores da Villa de Carvalho, que lhe fica situada nas suas raizes, ter prompto hum cantaro de agua para beberem os passageiros, que por alli passavaõ. Cria-se nesta montanha a herva Argenciana, ou Argenteira, boa para as febres. O mais que ha nesta serra, diremos quando tratarmos da lagoa Escura.
40 Caramullo. Fica esta serra quatro leguas distante de Viseu, e diz o Author da Corografia Portugueza, que alguns lhe daõ o nome de Besteiros, e antigamente lhe chamavaõ o Monte de Alcoba. No mais alto deste oiteiro, que he todo composto de penedos huns sobre outros, ao modo de columna, está huma planicie em que podem caber trezentos homens, e delle se descortina quanto a vista póde alcançar, excepto para o Oriente, que lha embaraça a serra da Estrella, donde dista doze leguas. Em tempo claro se vem as embarcações no mar, e se ouvem os tiros de artelharia na barra de Aveiro, estando distante oito leguas.
41 Carpento. Fica esta montanha no Algarve, de quem se denominou o Lugar de Moncarapacho. He aspera por natureza, composta de grandes penedias, e habitaçaõ de muitos bichos, e lobos. Na raiz deste monte está hum sitio chamado o Abismo. He huma cova como hum poço de quatro varas de profundo. A este sitio descem os curiosos, os quais dizem, que se descobre lá hum boqueiraõ, pelo qual se entra, e caminha por huma mina muito profunda, sem se saber até hoje o seu fim, porque ninguem até agora se animou a descobrillo.
41 Cintra. Esta serra que dista de Lisboa cinco leguas, he huma das mais famosas do Reino pela composiçaõ rara com que a natureza a organizou; pois consta de calháos taõ grandes, que alguns tem vinte pés de diametro, postos huns sobre outros, como se fossem montes de nozes; mas com tal ligaçaõ, que parecendo estarem ameaçando eminente ruina, elles se sustentaõ no seu natural equilibrio. No cume da serra se descobrem vestigios de antiga fortificaçaõ com cinco torres arruinadas, que se suppoem ser fabrica de Mouros. Em tempo dos Romanos foy chamada esta serra Promontorio da Lua, donde Camões veyo a dizer:
E nas serras da Lua conhecidas
Subjuga a fria Cintra o duro braço.
43 Teve principio este nome desde que os habitadores Gentios desta serra determinando dedicar a Octaviano Augusto hum templo, que o Imperador naõ quiz aceitar, elles o offereceraõ como idolatras ao Sol, e à Lua; e porque a esta chamavaõ Cynthia, se derivou della o nome de Cintra.
De Cynthia tomou Cintra celebrada
O nome que em rochedos he famosa.
Disse Gabriel Pereira; e Francisco Botelho no seu Alfonso:
Diola nombre un gran templo, que aun expone
De Cynthia tan magnifico, y notable,
Que ser pudo d’el risco ala oportuna
Casa del Sol el templo de la Luna.
44 Disto ha memoria em varios cippos, que neste sitio se descobriraõ, referidos pelos nossos escritores, de que daremos noticia, quando tratarmos desta Villa. Só quero advertir, que o insigne Damiaõ de Goes naquella admiravel Descripçaõ de Lisboa, que fez em Latim, confunde o Montejunto com a serra de Cintra.[195] E o nosso grande Poeta Francisco Botelho erradamente dá a esta serra o nome de Promontorio Artabro,[196] o qual, conforme o melhor parecer dos Geografos, he o Cabo de Finis terræ. Quem quizer mais largas informações desta serra, lea os Authores abaixo nomeados.[197]
45 Estrella. Existe esta serra na Provincia da Beira, e foy antigamente conhecida com o nome de monte Herminio, que queria dizer aspero, e intratavel.[198] Hoje conserva o de Estrella, porque dizem ter no mais alto hum penedo do feitio de estrella. He esta serra hum ramo dos Pyrineos, deduzido daquelle grosso, e grande braço, que aparta Castella velha de Castella nova: está continuamente cuberta de neve, que por isso disse hum nosso Poeta:[199]
Que he de Herminia senhor serra nevada,
Onde o quente Veraõ nunca começa.
46 Para a parte do Poente se despenha com escabrosos precipicios sobre as Villas de S. Romaõ, Valezim, Loriga, e Arouca da Serra, que lhe fica nas raizes: da parte do Sul fica a Villa da Covilhã: do Sueste as de Manteigas, e Balhelhas: do Nascente a Cidade da Guarda: do Norte as Villas de Linhares, Mello, Gouvea, Santa Marinha, e Cea. Desta serra nascem os tres celebrados rios Zezere, Alva, e Mondego, perto huns dos outros, e se encaminhaõ a tres differentes partes.
47 Falperra. Fica esta serra servindo de atalaya à Villa de Aguiar da Penha, que lhe nasce das raizes, e se utiliza das fertilidades do ameno valle, em que existe.[200]
48 S. Gens. Pouco distante da Cidade de Braga corre esta serra, que tomou o nome de huma Ermida antiga, a qual ainda está no alto della, da invocaçaõ do mesmo Santo, e que dizem fora edificada por Theodomiro Rey Suevo. Ao pé desta serra se vê o Convento de Tibães de Religiosos Bentos. Ha outra serra com este mesmo nome no Alentejo, que he parte da serra de Ossa, e summamente alta.[201]
49 Gerez. Os antigos chamaraõ a esta serra Juressum, que Antonio de Sousa de Macedo[202] diz ser deduzido dos tres celebres Geriões, que alli habitaraõ; fabula, a que naõ devemos dar credito. Principia algumas leguas distante de Braga para a parte do Norte, e caminhando encostada ao Oriente, entra por Galiza. He de summa elevaçaõ, e por algumas partes taõ aspera, que he intratavel: sómente a habitaõ cabras montezes, javalis, e lobos, sendo que por algumas partes he aprazivel. O Padre D. Jeronymo Contador de Argote faz deste monte dous especiaes capitulos.[203]
50 Guardunha. Em distancia de cinco leguas da serra da Estrella, e em sete de Idanha a velha fica esta montanha cercada de muitas povoações, arvores, fontes, hervas, e frutas deliciosas. A palavra Guardunha he Arabiga, e significa refugio, ou guarda da Idanha; porque sendo os moradores desta povoaçaõ expulsos pelos Mouros, se foraõ refugiar a esta serra para se defenderem delles.[204]
51 Hermello. He montanha do Minho, que tem huma legua de alto, e no cume ainda apparecem vestigios da Cidade do Maraõ, quartel de Decio Bruto.
52 Labruja, ou laboriosa pelo trabalho, que causa aos caminhantes. Fica esta serra na estrada real, que vay de Ponte de Lima para Valença.[205]
53 Louzã. He ramo da serra da Estrella, e muita parte do anno está cuberta de neve.[206]
54 Maraõ. Esta serra he huma uniaõ de montes altos, que se vaõ abraçando huns aos outros. Chega ao Douro, e lança o monte de Teixeira, e o Entrilho, povoado bastantemente de feras, onde está o grande penedo, que huma criança póde fazer bulir, e tange quando se bole.[207] Consente o Maraõ que o rio Douro o atravesse; e posto já na Provincia da Beira, se chama Serra de Almofala, Monte de muros, Serra de Touro, Serra de Pera, Serra de Fragoas, de Manhouce, de Besteiros, de Cantaro, de Miranda, do Espinhal, e montes de Penela, onde se une com a serra da Estrella; e chamada serra de Anciaõ, e de Albardos, se precipita no mar desde a rocha de Cintra.[208]
55 Marvaõ. Esta serra he o Herminio menor, onde ha minas de ouro, e de chumbo, e ainda se vem ruinas da Cidade Meidobriga, se havemos de dar credito a Resende.[209]
56 Minde. Na Villa de Porto de Mós se prolonga esta serra do Norte para o Sul, e da parte Meridional nasce hum pequeno rio, que faz sua corrente para o Norte. Fr. Bernardo de Brito[210] naõ distingue esta serra de outra chamada Albardos, de que tambem se lembra Manoel de Faria.[211]
57 Monchique, ou Monsico. Levanta-se no Algarve com eminencia tal, que excede à de Cintra. He fertil, e aprazivel, com abundancia de agua admiravel. Corre de Oriente a Poente, donde se descobre a mayor parte do campo de Ourique, e do Oceano, servindo de final aos navegantes para demandarem seguramente a nossa barra; de sorte que principia de Castro-Marim, e finaliza junto de Aljezur. Alguns Authores lhe daõ o nome de Sico, ou seco por antifrase. Resende diz que he braço da Serra Morena.[212]
58 Monte do figo. No Algarve junto do Lugar de Moncarapacho existe esta montanha meya legua distante para o Norte. He de aspera subida, em que se gastaõ algumas horas, por ter quasi hum quarto de legua. Em cima tem huma admiravel planicie com muitas aguas, e arvores de todas as castas silvestres, e frutiferas. Sobre esta planicie se levanta outro monte, a que se sobe com mayor dificuldade, e no cume está huma Cruz, e huma cova donde se tira muita terra por devoçaõ, e para remedio de varias enfermidades; porque affirmaõ que apparecera alli o Arcanjo S. Miguel, o qual he venerado em huma Ermida do seu nome, que por este motivo os Fieis lhe edificaraõ. He este monte o primeiro que avistaõ os navegantes, que vem das Indias de Castella, muitas leguas ao mar, por ser de immensa altura.
59 Montejunto. Duas leguas e meya de Alenquer contra o Norte se extende esta serra, a que antigamente chamavaõ monte Tagro, de que talvez se originaria o nome de Tagarro a huma povoaçaõ edificada nas suas vizinhanças.[213] Dizem alguns,[214] que he a mais alta serra de Portugal, e que terá de circuito mais de quatro leguas, e de altura meya legua. No alto he terra fertil, e ha duas lagoas de boa agua. Venera-se huma Ermida de Nossa Senhora das Neves, e o primeiro Convento dos Relgiosos Dominicos neste Reino, que fundou o Veneravel Fr. Sueiro Gomes.[215]
60 Das eguas, que por esta montanha pastavaõ, e concebiaõ do zefiro, escreveraõ maravilhas os antigos, e ainda modernos,[216] e em outra obra[217] nós o reprovamos, como fabula originada da grande velocidade, e ligeireza, com que correm os cavallos, que por esta serra se criaõ. O mais certo he haver aqui canteiras de finissima pedra, e minas de azeviche.[218]
61 Monte do Minhoto. Junto ao rio Zezere está esta serra, muy alta, e povoada de grandes penhascos bastantemente debruçados para a parte do rio. Em cima ha huma Ermida de Nossa Senhora da Estrella, e hum poço de agua admiravel, porque nunca se seca. Dizem[219] que antigamente houvera aqui huma azinheira, que em lugar de bolotas dava humas contas a modo de azeviche, as quaes pizadas serviaõ de remedio para muitas enfermidades.
62 Monte-Muro. Está junto a Evora, e he parte da serra de Besteiros: os antigos lhe chamaraõ Mons Maurus. Toma grande distancia de terra, mas em si he aspero; e da mesma grosseria, e rusticidade participa a gente, que o habita.
63 Ossa. Fica esta famosa serra entre Evora, e Estremoz pelo espaço de sete leguas de comprido, e duas e meya de largo. Compoem-se de muitos oiteiros, que parecem montes de ossos, donde talvez lhe viria o nome. Manoel de Faria lhe buscou derivaçaõ poetica.[220] Comprehende em si muitas terras, o Canal, Evoramonte, Terena, Alandroal, Pomares, Borba, e Villa-Viçosa, regadas todas pela mayor parte das perennes fontes, que della procedem.
64 No mais alto deste monte, donde se descobre quasi todo o Alentejo, e parte das duas Estremaduras Portugueza, e Castelhana, está a Ermida de S. Gens em numa planicie taõ eminente, que às vezes se vê chover pelas abas da serra, e ella ficar enxuta. Descendo a hum valle ameno, estaõ fundados os dous celebres Conventos dos Eremitas de S. Paulo, e Val de Infantes verdadeira Thebaida Portugueza.
65 Tem esta serra tantas fontes, que só em huma herdade do Convento se contaõ mais de oitenta. Ha no meyo da serra pé de limeira, que chegou a dar dez mil limas, segundo affirma Joaõ Salgado de Araujo na Descripçaõ desta Provincia pag. 173. v. Descobrem-se tambem nesta serra minas de pedra de cores escuras, pedras de afiar, enxofre, e almagre.
66 Pomares. Antigamente se chamou Monte de Venus. Está junto a Evora, onde agora se chama o Lugar de Pomares. Foy muy celebre pelos trofeos, que o famoso Viriato nelle levantou.[221] Da sepultura de Lucio Silo Sabino, de que Resende lib. 3. de Antiq. e a Evora gloriosa pag. 17. fazem memoria, já hoje naõ ha noticia alguma.
67 Sandonho. Fica dominando Villapouca de Aguiar, e fronteira de outra serra chamada Falperra.
Estes saõ os montes, que ha no Reino de mayor fama. Póde ser que ainda encontremos occasiaõ no discurso desta obra, em que demos noticia de outros.