NOTAS DE RODAPÉ:

[181] Caram. no seu Philip. Prud. Proem. §. 1. n. 3.

[182] Sousa na Histor. de S. Domingos part. 3. liv. 3. cap. 20.

[183] Monarq. Lusit. tom. 1. na Geogr. Resende liv. 1. de Antiq. Corograf. Port. tom. 2. pag. 89.

[184] Ptolom. lib. 2. Geogr. tab. 2. Corograf. Portug. tom. 1. p. 282. Argote de Antiq. Bracar. lib. 1. cap. 3. e nas Memor. de Braga tom. 1. lib. 1. cap. 10.

[185] Corograf. loc. supr. citat. Cardoso Diccion. Geogr. tom. 1.

[186] Barreir. na Corograf. pag. 62. Santuar. Marian. tom. 2. pag. 465.

[187] Piedad. Chron. da Arrab. part. 1. liv. 1. cap. 5. Brito de Mello Chron. da Arrab. m. s. p. 1. c. 6.

[188] Gonzag. de Origin. Relig. Seraph. part. 3. pag. 1123.

[189] Resende lib. 1. de Antiquit. pag. mihi 37.

[190] Monarq. Lus. liv. 1. c. 28.

[191] Santuar. Marian. tom. 3. pag. 255.

[192] Chron. dos Carmel. Descalç. part. 2. liv. 4. c. 13.

[193] Idem tom. 2. pag. 76. Bened. Lusit. tom. 2. pag. 283. Corogr. Port. tom. 2. pag. 69. Diccion. Geogr. de Cardos. tom. 2.

[194] Corograf. Portug. tom. 2. pag. 76.

[195] Mons vero Tagrus, cujus Varro meminit, meo quidem judicio ille idem est, quem nos Sintreum vocamus, & à, quo Lunæ promontorium in mare prorumpit millia passuum ab Olisipone plus, minusve, quod nostris hodie Rocham appellari placuit, &c. Goes tract. de Olisipone.

[196] Botelho no Alfonso l. 1. est 7. da impress. de Roma.

[197] Resende lib. 1. de Antiq. Monarq. Lus. liv. 1. c. 22. e liv. 5. c. 15. Duart. Nun. Descripç. de Portug. c. 10. Faria sobre a Ode 1. de Cam. Franc. d’Almeida Jordaõ em especial Relaçaõ que imprimio desta serra no an. de 1748.

[198] Monarq. Lus. t. 1. liv 4. cap. 1. Esperança tom 1. da Chronic. p. 421. Resende de Antiq. lib. 1.

[199] Maced. no Olisip. cant. 4. est. II.

[200] Carv. Corogr. Portug. tom. 1. p. 171.

[201] Corograf. Portug. tom. 1. pag. 168. & tom. 2. pag. 447.

[202] Maced. Olisip. cant. 2. est. 18.

[203] Argot. Antiguid. de Brag. p. 372.

[204] Santuar. Marian. tom. 3. p. 59. Corograf. Portug. tom. 2. p. 412.

[205] Corograf. Portug. tom 1. p. 204.

[206] Leit. nas Miscelan. pag. 15.

[207] Joaõ Salgad. nos Success. Militar. p. 106.

[208] Sousa, Chronic. de S. Dom. part. 3. pag. 189.

[209] Resend. liv. 1. de Antiquitat.

[210] Monarq. Lusitan. liv. 11. cap. 30. e na Geogr. cap. 2.

[211] Far. Europ. Port. tom. 3. part. 3. cap. 6.

[212] Resend. lib. 1. Antiquit. Vide Agiolog. Lusit. tom. 2. pag. 654. Far. no Epitom. part. 4. cap. 9. Diccionar. Geogr. tom. 1. verb. Algarve.

[213] Fr. Luiz de Sous. Histor. de S. Dom. part 1. liv. 1. cap. 12.

[214] Far. na Europ. Portug. part. 3. tom. 3. cap. 6.

[215] Santuar. Marian. tom. 2. p. 215.

[216] Plin. Columel. e outros apud Mayol. part. 1. colloq. 7. Fonseca na Medic. Lusit. disp. 2. cap. 5.

[217] Recreaçaõ Proveit. part. 1. colloq. 4. p. 254. Veja-se tambem Gerundens. no Paralipoemn. da Histor. de Hesp. lib. 1. pag. 6. Kormanni tract. de Virgin jure cap. 12. Resend. lib. 1. Bernard. Florest. tom. 4. p. 267. Maced. Flor. de Hespanh. cap. 3.

[218] Brit. Geograf. Lusitan. cap. 2.

[219] Santuar. Marian. tom. 3. p. 425.

[220]

Es nombre desta horrifica montaña
El de la que fue patria de Centauros,
Que contra el Cielo puestos en campaña
Amontonaron Oëtas, Pindos, Tauros.
El nombre desta finalmente es Ossa,
Que aun aora escalar los Cielos osa.
Faria na 4. p. da Fonte de Aganipe Eglog. 5.

CAPITULO VII.
Dos Rios, Ribeiras, e Lagoas mais consideraveis.

1 He tanta a abundancia de rios, que fertilizaõ, e regaõ nossas Provincias, que por este motivo deu Estrabo à Lusitania o titulo de feliz.[222] Dos capitaes, e de alguns, que se diffundem nelles, faremos huma succinta, e hydrografica narraçaõ pelo mesmo estylo, que vamos observando.

2 Abbadia. Passando por Alcobaça, vay inundar os campos da Villa de Mayorga.

3 Abrancalha, ou Abrancuida. He ribeira, que corre distante de Abrantes huma legua para o Norte, fertilizando com suas aguas muitos pomares, e hortas deliciosas.

4 Abrilongo. Entra no rio Sévera, ou Xévora junto da Villa de Ouguella, e cria muy gostoso peixe, por serem suas aguas frigidissimas. Veja-se o que dizemos do Botova.

5 Agualva. Ribeira, que passa junto da Villa de Bellas.

6 Agua santa. He hum grande ribeiro, que nasce da serra de Ossa, e se mete no rio Tera.

7 Aguas livres. He huma formosa ribeira de abundantes aguas, que corre pela Freguezia de Bellas, termo de Lisboa. Em algumas partes he caudalosa, e naõ se passa sem ponte, como he no lugar chamado Ninha a Pastora, e no forte da Cruz quebrada. Saõ conduzidas estas aguas para Lisboa em soberbo, e forte aqueducto, que por ora descreveremos brevemente.

8 Tem elle o seu primeiro manancial nesta ribeira em distancia de boa meya legua da ponte, a que alguns chamaõ de Bellas. A abundancia de agua neste nascimento por si só vence os tres principaes chafarizes de Alfama, que ha na Cidade. Manifestou-se pois este famoso aqueducto para se pôr prompto em 6 de Agosto de 1732; e logo ao principio da ribeira em distancia de 1800 palmos se lhe introduzio huma boa fonte, a que chamaõ a Fonte santa do Leaõ; e continuando o aqueducto ao lado direito da ribeira, (que logo a atravessou junto ao nascimento, que fica à parte do Poente) caminha até avistar a ponte de Caranque, e aqui se aparta da mesma ribeira para o Lugar da Porcalhota, encostando-se ao oiteiro de S. Braz.

9 Neste progresso vay mais para diante recolher a agua, que lança a fonte chamada de S. Braz para a parte da Porcalhota, e logo atravessa por baixo da estrada junto à quinta do Galvaõ proximamente à Ermida de Santo Antonio da mesma quinta, donde salvando sobre huma ponte a ribeira, que passa por dentro da dita quinta, se inclina a buscar a raiz do Lugar da Fragoza; e continuando pela mesma encosta até o Lugar de Calhariz, fronteiro à Freguezia de Bemfica, se vay prolongando por defronte do Convento de S. Domingos até o monte, que chamaõ das tres Cruzes, donde se passa a ribeira de Alcantara para se introduzir no Bairo alto, recolhendo por este caminho (que he o da mais baixa nivelaçaõ, que permittia o calice, em que a agua deve cahir no dito bairro) varias fontes, que se vaõ encontrando, e descubrindo nos alicerces da mesma obra.

10 A fórma deste aqueducto he de hum corredor, ou mina artificial de sete palmos de largo, e quatorze de alto, a que naõ chegou algum dos aqueductos Romanos. Tem pelo meyo hum passeyo de tres palmos de vaõ, fabricado de finissimo lagedo, e a cada lado hum encanamento de marmore, que recebem ambos quarenta e duas manilhas de agua em palmo e meyo de boca, e palmo e quarto de alto.

11 Huma das cousas singulares deste aqueducto he vir correndo a agua horizontalmente por estes encanamentos sem declividade alguma; mas esta se lhe vay dando a certas distancias por linhas perpendiculares, como por degráos de escada, para total segurança, e conhecimento do quanto se sóbe, ou desce; cousa, que tambem naõ se acha executada em aqueducto algum. Desta sorte conduzidas à custa do povo, ainda que perdem o antigo nome de aguas livres, mereceraõ outro mayor, e mais conhecido na utilidade pública de huma taõ populosa Cidade, e na graça de hum taõ inclyto Monarca, para cujo ardor em solicitar a commoda conservaçaõ de seus vassallos ainda he pouco todo o manancial desta ribeira.

12 Os Romanos, quando Lisboa era seu Municipio, intentaraõ introduzirlhe estas aguas por aqueductos subterraneos, abrindo a este fim muitos rochedos; e entre as penedias asperissimas de dous montes, que naquelle sitio existem, fizeraõ hum muro larguissimo, e forte, que lhe servia para reprezar a agua de hum valle em huma lagoa, em que traziaõ batéis, como diz Francisco de Ollanda em hum tratado manuscrito, intitulado: Fabrica, que falta a Lisboa, o qual vimos, e se conserva na Livraria do Excellentissimo Conde do Redondo.

13 Tambem o Senhor Rey D. Manoel determinou encaminhar estas aguas para Lisboa, e que corressem na praça do Rocio. Para isso mandou fazer ao allegado Francisco de Ollanda o desenho de hum chafariz, que nós vimos, e constava da figura de Lisboa em cima de huma columna cercada de quatro elefantes, que pelas trombas expulsavaõ a agua. Estes desejos naõ tiveraõ effeito, nem ainda em tempo do Infante D. Luiz, que tanto appeteceo conduzir esta agua para a ribeira das Náos, em fórma que as da India della fizessem as suas aguadas. Consta tambem pelo que diz Luiz Marinho de Azevedo, que o Senado de Lisboa tinha junto para a obra desta conduçaõ mais de seiscentos mil cruzados, os quaes se divertiraõ nas festas, que se fizeraõ com a entradada de Filippe III. Todos estes embaraços estiveraõ esperando pela providente resoluçaõ delRey D. Joaõ V. para fazer mais feliz o seu reinado, escolhendo, e approvando para a sumptuosidade desta fabrica o risco, e desenho do Brigadeiro Manoel da Maya, que por sua sciencia, engenho, e outros attractivos de bondade merece imortaes elogios.

14 Agueda. Neste Reino ha dous rios deste proprio nome: hum, que passa por Agueda, e este he o Emineum dos antigos, que vay morrer em Aveiro: outro, que divide Portugal de Castella na Comarca de Riba-Coa. Nasce na serra da Estrella, passa pela Ciudad Rodrigo, vay à ponte da Villa de S. Felizes, donde a pouco espaço por entre altos montes em Vilvestre entra no Douro.

15 Aguilhaõ. Nasce na serra do Maraõ formado de tres fontes, e com arrebatado curso se mete no rio Corgo. Cria muitos, e gostosos peixes, especialmente bordallos, que se apanhaõ aos cardumes. Pelas margens ha copia de arvoredos, e vinhas, que fazem toda a sua corrente agradavel, e amena; dando que fazer a mais de vinte açudes, deixa-se atravessar por tres pontes de páo, e huma de cantaria.

16 Alborrel. Nasce na serra de Portalegre. Vem circulando Aremanha, e divide Portugal de Castella. Nelle se pescaõ gostosos barbos.

17 Alcantara. Esta formosa ribeira quasi que cerca Lisboa, e se mete no Tejo pela parte do Poente. Luiz Mendes de Vasconcellos no livro, que compoz, intitulado: Sitio de Lisboa, mostra de quanta utilidade seria communicarse este rio com o de Sacavem, do qual naõ dista mais que legua e meya para que ficando dentro deste circulo Lisboa, conseguisse o mais seguro, e fertil terreno, que houvesse no mundo. Neste sitio está a fabrica Real da Polvora reedificada por Antonio Cremer.

18 Alcaraviça. He ribeira, que corre pela Aldea chamada dos Gallegos no termo da Villa de Borba, onde tem seu nascimento em duas fontes taõ abundantes de agua, que fazem moer muitas azenhas.

19 Alcarabouça. Provê este rio de bastante peixe a Villa de Ficalho, por onde corre quatro leguas distante de Serpa.

20 Alcarapinha. Corre junto a Elvas, e nasce na serra de Aviz. Suas aguas augmentaõ muito a ribeira de Coruche.

21 Alcarque. Conforme a Geografia Blaviana he rio, que no seu Mappa vem assinado na Provincia do Alentejo.

22 Alcarrache. He huma Ribeira, que nasce em Castella na serra de Santa Maria, e vem sahir ao termo de Mouraõ, trazendo de jornada quinze leguas; até que engrossada sua corrente com as aguas de outros ribeiros, e fazendo trabalhar muitos moinhos, vay morrer no Guadiana. Pescaõ-se nelle excellentes, e grandes barbos, e outros peixes mais miudos: e se vadea por duas boas pontes de pedra.

23 Alcoa, antigamente Coa. He o que unindo-se com o chamado Baça, deu nome ao sitio de Alcobaça, onde os Religiosos Bernardos tem o famoso, e magnifico templo, que alli fez edificar o Santo Rey D. Affonso Henriques.

24 Alcofra. He rio caudaloso da Beira no termo de Lafões, e que se mete no Alfusqueiro. As suas margens estaõ cheias de carvalhos, e castanheiros enlaçados com muitas vides, de que se faz o bom vinho de embarrado. Cria saborosas trutas, e se deixa vadear por quatro pontes de páo.

25 Alenquer. Nasce ao pé da serra de Montejunto, e caminhando Norte Sul o espaço de huma legua vem buscar nome à Villa de Alenquer. Aqui fertiliza as suas quintas, e hortas com a abundancia de suas aguas saudaveis, e aos seus moradores com a copia das suas trutas, barbos, e bogas; até que incorporado com o rio de Ota se mete no Tejo junto de Villanova da Rainha.

26 Alferradede. He ribeira, que rega muitos pomares, e hortas do termo da Villa do Sardoal, e vay morrer ao Tejo.

27 Alfusqueiro. Passa este rio junto do Lugar dos Ferreiros, termo da Villa de Vouga, e tem huma grande ponte de hum só olhal, muito alta, fabricada de cantaria. Discorre tambem pela Villa de Assequins, e vay descançar no rio Vouga.

28 Algés. Nasce este rio em hum oiteiro, que fica defronte do Lugar de Monsanto, termo de Lisboa; e augmentado com as aguas de hum regato, que brota por cima de Outorella, entra a fertilizar a quinta das Romeiras até ir mergulharse no mar pelo pé do forte da Conceiçaõ, onde está huma ponte de pedra, que parte com a nobre quinta do Duque de Cadaval.

29 Algodea. Banha, e fecunda esta ribeira as hortas, e pomares, que ficaõ fóra da Villa de Setubal: depois entra no Sado.

30 Alja, ou Alje. He huma caudalosa, e arrebatada ribeira, que discorre pela Villa de Arega, cinco leguas de Thomar, e se vay esconder no rio Zezere. Pescaõ-se nelle excellentes trutas, e outros peixes muy gostosos. Os antigos lhe chamavaõ ribeira fria.

31 Almaceda. He rio, que cerca a Villa de Sarzedas, e entra no Ocreza sempre arrebatado.

32 Almansor. Divide esta ribeira do Alentejo os limites da Freguezia de Nossa Senhora da Repreza, dos de Santa Sofia; e chegando até o termo de Montemor o Novo, onde troca o nome pelo de Canha, se esconde no Tejo perto de Benavente; deixando com a benignidade das suas aguas ferteis os pomares, e as terras por onde passa.

33 Almonda. Tem sua origem este rio na serra d’Aire, legua e meya da Villa de Torres Novas. Saõ as aguas no seu nascimento, e matriz, taõ claras, e he tanto o peixe, que se cria nellas, que ainda que o pégo he fundo, se está vendo de cima das barreiras andarem a saltar: por isso he aqui muy aprazivel a pescaria. Os Romanos acharaõ neste rio muita semelhança com o Mondego, por cuja causa lhe chamaraõ Alius munda, donde se originou com pouca corrupçaõ Almonda. Mete-se no Tejo junto do Lugar da Azinhaga, como bem o diz o Reverendo Padre Luiz Cardoso no Diccionario Geografico, emendando-me.

34 Alpiaça. He rio da Estremadura, que nasce perto da Villa de Ulme; de inverno corre arrebatado, e cria excellentes barbos, e fataças. Mete-se no Tejo.

35 Alpreade. Nasce esta ribeira na serra da Gardunha, e correndo sempre desasocegada, vay acabar no rio Ponsul, passando por quatro pontes de pedra, e fazendo trabalhar trinta e quatro azenhas, tres lagares, e hum pizaõ. Cria muitas trutas, e bordallos.

36 Alva. Este rio tem o nascimento na serra da Estrella; e fazendo logo seu caminho ao Poente por baixo de hum monte, discorrendo em algumas partes muy claro, vem cercar as Villas de Arganil, Coja, Pombeiro, Penalva, Sandomil, Villa Cova de Subavó, e S. Romaõ, onde tem duas pontes, huma chamada de Peramol, pela qual vay o caminho de Veraõ para a Covilhã, outra de cantaria lavrada, na estrada, que vay para Valezim. Pescaõ-se nelle boas bogas, trutas, lampreas, e saveis. Finalmente entrando no Mondego rico de outras ribeiras, acaba no Oceano.

37 Alvar. Nasce esta ribeira na serra de Montemel pela parte do Lugar de Covellas; e passando junto da Villa da Alfandega da Fé, vem ao Lugar de Santa Justa, donde caminhando quatro leguas, desagua na ribeira Vellarva.

38 Alvaro. No termo da Villa de Alvaro pela banda do Sul tem seu nascimento esta ribeira; que dá o nome à Villa; e passando por duas pontes de pedra, rodea o monte da Villa, e se mete no Zezere, fazendo parecer aquella povoaçaõ huma peninsula.

39 Alviella. A boa opiniaõ que fiz da Corografia Portugueza composta pelo Padre Antonio Carvalho, me obrigou seguirlhe as pizadas em muitas noticias, que delle tirey, e a elle me refiro. Entre ellas foy a maravilhosa voragem, ou sorvedouro que diz acontecer nos olhos de agua em a nascente deste rio de Alviella; mas como o Reverendo Padre Luiz Cardoso, natural de Pernes, pode examinar melhor esta particularidade, e a reconhece agora no Diccionario Geografico por fabulosa, he justo que eu nesta segunda impressaõ do meu Mappa, agradecendo-lhe a advertencia, melhore a noticia.

40 Nasce pois este rio nas vertentes da serra do Patello junto do Lugar da Louriceira, debaixo de hum grande rochedo; e logo em seu nascimento vem com abundancia de peixes, especialmente bordalos, engrossando-se com varios ribeiros até desembocar no Tejo junto ao Lugar do Reguengo. Cria outras muitas castas de peixes saborosos em todo o tempo: faz moer muitos moinhos, e lagares de azeite; e as suas ribeiras, e margens estaõ cheias de arvoredo silvestre, e frutifero, que as fazem vistosissimas. Sujeita-se porém a oito pontes; e dá abrigo a bastante caça miuda de arribaçaõ.

41 Almioso. He huma ribeira da Estremadura que nascendo pobre no Troviscal, vay desaguar caudaloso no fim da cerca dos Religiosos Capuchos da Certã. Cria muitos peixes miudos, e admitte algumas pontes. As suas margens saõ incultas por fragosas, mas entre as suas areas se acha ouro.

42 Analoura, ou Anhaloura. Nasce entre as Villas de Borba, e Villa Viçosa, rega a Villa de Veiros, e misturada com a ribeira de Fronteira, vay engrossar a de Sauzel, e entraõ ambas por Aviz, até desembocar no Sorraya.

43 Ancora. As aguas deste rio que nascem na serra de Arga, dividem o Concelho de Caminha do de Viana. Dizem que adquirira o nome, que possue, desde que ElRey Ramiro II. lançara nelle sua mulher Dona Urraca atada em huma ancora para ir mais depressa ao fundo. Authores ha que tem isto por fabula. Morre finalmente no mar junto de Caminha, onde fórma huma pequena barra com o fortim da Lagarteira.

44 Anços, antigamente Anceo. Vem da Redinha banhar a Villa de Soure, e dar nome a Villanova de Anços; e junto com outras correntes se mete no Mondego a baixo de Coimbra.

45 Aravil. Nasce junto de Castellobranco, e morre no Tejo. Pelo Inverno corre arrebatado, e no Veraõ secca. He constante levar nas suas correntes algum ouro, e por isso procurado de gandaeiros.

46 Arcaõ. Nasce no celebre olho de agua Borbolegaõ na Villa de Grandola, e se mete no Sado acima de Alcacer.

47 Ardila, ou Ardita. He huma ribeira furiosa da Villa de Moura. Fazem-na opulenta as enchentes das ribeiras Brunhos, e Lavandeira. Desemboca no Guadiana, passando primeiro pela Villa de Noudar, que a deixa quasi reduzida a Ilha, juntando-se, com a ribeira da Murtiga.

48 Arestal. He huma lagoa profunda, que fica na Beira, e na serra do seu mesmo nome. Em todo o anno lança agua para todas as partes, e faz nascer della dous ribeiros. Dizem que se communica com o mar.

49 Arunca. Nasce na ribeira de Gaya, e augmentando-se com as aguas de outras ribeiras, vay correndo até à Villa de Pombal pelo espaço de tres leguas, fertilizando de caminho muitos pomares, e quintas. Antes de se meter no Mondego, passa pelas Villas de Soure, e Villanova de Anços. No tempo de Inverno se enfurece, e corre com tanto impeto, que leva comsigo searas, e edificios. Os antigos lhe chamaraõ Tapiço.[223]

50 Asturãos. Rio do Minho, que nasce no sitio de Azevosa com muita humildade, e continuando com a mesma brandura, vay acabar no Lima, deixando de si saudades nas deliciosas, e frescas margens por onde passou.

51 Ave. Procede da serra de Agra, e de huma ribeira, a que chamaõ da Lage; e unindo-se com hum regato ao pé da serra de Cabreira, já com bastante cabedal separa o Concelho de Vieira das montanhas de Barrozo, e quatro leguas antes de entrar no Oceano, divide o Arcebispado de Braga do Bispado do Porto. Rega os Conventos de Bairaõ, e de S. Tyrso, e os campos do Lugar Celeiró. Tendo recebido abaixo de Guimarães o Vizella, ou Avizella, que passa por Pombeiro, caminha apressadamente por baixo de varias pontes muito boas, e finalmente vay sepultarse no mar por entre a Villa de Conde, e Azurara. O Padre Vasconcellos, como traductor de Duarte Nunes, o faz erradamente, como elle, nascer junto de Guimarães, como bem repara Fr. Leaõ de Santo Thomaz.[224] Em algumas partes corre com tanta doçura, e suavidade, que obrigou a cantar delle Manoel de Faria:[225]

De donde ouvindo estava o som divino,
Que faz correndo o Ave crystallino.

Todas as terras, por onde este rio passa, e vay regando, saõ deliciosas, e elle abundante de barbos muy grandes, e saborosissimos.

52 Aviz. He huma ribeira, que nasce acima de Monforte, e passando pela Villa de Fronteira, e outras terras, em que recebe varios riachos, com que se engrossa, chega à Villa de Aviz onde adquire o nome, e passa por huma ponte de boa fabrica, até ir acabar ao Tejo incorporado com o Sorraga, e Divor.

53 Azibo. Com forças medianas discorre pelos limites da Villa de Chacim, sete leguas de Moncorvo. Principia no Lugar de Podense, termo de Bragança, e depois de caminhar quasi sete leguas, vay introduzirse no rio Sabor por cima da ponte de Remondes, limite da Villa de Castro-Vicente.

54 Baça. Este rio, juntando-se com outro chamado Coa, nasce da parte Oriental de Alcobaça, e fazendo volta para o Occidente, rega por grande espaço os fertilissimos campos de Mayorca, e Abbadia, até que junto da Villa da Pederneira se mergulha no Oceano.

55 Balocas. Ribeira, que se mete no rio Alva.

56 Balsemaõ. Em distancia de quatro leguas da Cidade de Lamego nasce este rio na serra da Rosa, mas elle o naõ parece; porque tanto que póde correr, caminha furioso, rompendo, e lavrando pedras com tal estrondo, que ensurdece ainda pelo Veraõ, quando leva menos agua. Vay à ponte de Lamego, atravessando o sitio da mayor fertilidade, a que chamaõ da Ribeira, e se mergulha impetuoso no Douro juntamente com o Baroza com quem se havia communicado. Antigamente lhe chamavaõ Unguio.

57 Barcarena. Nasce esta ribeira nos limites de Bellas termo de Lisboa, e fertilizando os Lugares da Agualva, e de Laveiras, aqui se esconde no Tejo por baixo do Convento da Cartuxa. Faz trabalhar com a sua agua no sitio de Barcarena a magestosa fabrica da polvora reedificada no anno de 1729 pelo Hollandez Antonio Cremer.

58 Baroza. Nasce este rio de dous principios: hum he no monte de S. Joaõ de Tarouca, e nasce muy bravo, mordendo pedras até a ponte de Mondim, que muitas vezes derruba. Mais para baixo lhe entra outro braço, que nasce em Barcia da Serra, donde chega a Lazarim à ponte de Baroza. Baixa aos campos de Tarouca muito brando, mas com a aprasivel serenidade solapa nocivo terras, e campos muito bons, e os leva. Unido vay a Ucanha adornar a nobre ponte da Torre, muy grandiosa, e adiante lhe entra a ribeira de Salzedas, com que em fim morre no Douro.

59 Barroco. Nasce este rio na serra da Arada em a Beira, e fazendo varias voltas, e passagens, se precipita por entre penhas no escuro pego do Vouraõ até ir acabar no Vouga. As suas margens saõ deliciosas pelas grandes sombras de arvoredos com que convida aos passageiros.

60 Basegueda, ou Besadega. Tem o seu nascimento este rio na serra Marvana, tres leguas distante de Penamacor, onde tem huma ponte de cantaria com cinco olhaes. A sua corrente he muy socegada, excepto no Inverno, que corre arrebatada. Cria excellentes trutas, e rega pelas suas margens vistosos, e frescos arvoredos; e deixando-nos saudades com as suas areas de ouro, vay morrer Castelhano em o rio Erga.

61 Beça. He rio do Minho, e nasce em Tras os Montes; corre sempre arrebatado, e furioso por penedia, e por isso he infrutifera a sua corrente. Depois de caminhar seis leguas, se mete no Tamega com bastante copia de boas bogas, e trutas.

62 Bezelga. Nasce junto da Villa de Ourem; e correndo mais de legua e meya, vay descançar no rio Nabaõ por entre Thomar, e Cinceira.

63 Biturim. Entra no Douro pela Provincia do Minho.

64 Borbolegaõ. He este hum celebre olho de agua, que nasce na Villa de Grandola, e passa pela natural ponte dos Aivados, que suas mesmas aguas formaraõ galantemente em huma rocha. Mais para baixo vaõ taõ violentas no sitio chamado Diabroria, que fazem moer a hum moinho entre dia, e noite moyo e meyo de trigo. Neste olho de agua, que será do tamanho de huma roda de carro, se lança de alto hum homem a pique, e cravando-se nelle até os peitos, o impeto das aguas o faz vir pouco a pouco para cima, até que arremeça com elle na margem com tanta furia, como se fora huma leve cortiça. O mesmo faz a qualquer pezado madeiro, que lhe lançaõ. Dentro nelle se ouve estrondo como o que faz na costa o mar bravo. Finalmente vay morrer no Oceano pela Villa de Sines.

65 Botova. O nascimento deste rio he nas serras de Albuquerque, e se augmenta com as enchentes do Xévora, que nascendo ao pé da serra de S. Mamede, e correndo pelos penhascos do monte chamado dos Sete, passa por S. Juliaõ da Codiceira, onde recolhe as aguas do Abrilongo. Desta sorte juntos vaõ communicarse com o Guadiana à vista da Cidade de Badajoz. Deste rio faz mençaõ Antonino em o seu Itinerario com o nome de Budua.

66 Brescos. Na Freguezia de Santo André, termo da Villa de Santiago de Cacém, existe esta lagoa que tem de circuito meya legua, cujo especial peixe, que delle se tira em abundancia, se arrenda todos os annos. Muitas pessoas distinctas vaõ fazer alli por divertimento suas pescarias. Devemos esta noticia ao M. R. Padre Fr. Francisco de Oliveira Dominicano, que por carta nos communicou.

67 Briteiros. Nasce no Minho na Freguezia, e Coito de Pedralva, e fenece no Ave. No seu principio he pobre, mas enriquecido com varias levadas, se faz rio opulento, cheyo de muitas trutas, e escalhos saborosissimos.

68 Bugaõ. Tem este rio a sua origem na Freguezia de Santiago de Villa-Chã, termo da Villa da Barca, e se mete no Lima arrebaradamente. Todo o peixe, que nelle se cria, he de admiravel gosto.

69 Cabraõ. He hum pequeno regato, que corre pela Freguezia de S. Lourenço, termo da Villa dos Arcos de Valdevez. Com a pouca enchente, que leva, caminha com arrebatada furia, e passando pela ponte de cantaria, a que chamaõ do Rodalho, divide as aguas do Lima, onde finaliza. Criaõ-se nelle boas trutas, porém tambem naõ lhe faltaõ sanguisugas.

70 Cabrella. He ribeira do Alentejo, que nasce nas Silveiras termo de Montemor. Recolhe as correntes de outras duas ribeiras chamadas da Safira, e S. Romaõ, que lhe ficaõ ao Nascente, e da parte do Norte se engrossa com outras duas, e se mete no mar com o nome de Marateca. O seu curso em partes he furioso, pelo embaraço que lhe fazem as penedias por onde corre.

71 Cachoeiras. Nasce na Comarca de Alenquer formado de varios regatos, e vay acabar no Tejo entre a Villa nova da Rainha, e a Castanheira. Tem duas pontes huma de páo, outra de pedra no Lugar do Carregado.

72 Cadavai. He ribeira, que fertiliza as hortas no termo da Villa do Sardoal, e se mete no Tejo.

73 Caldo. Corre pela Villa de Monte alegre na Provincia Transmontana, provendo de peixe os seus habitadores.

74 Cambas. He pequeno rio, que entra no Zezere.

75 Campanhaõ. Entra no Douro.

76 Campilhas. Entra no rio Sadaõ muy corpulento em Alvalade.

77 Caná. Faz delle mençaõ Macedo.[226]

78 Canal. He ribeira da serra de Ossa, donde procede, e enriquece a ribeira de Tera.

79 Canha. Rega esta ribeira os valles, e os campos de Montemór o novo, e se submette a duas pontes, huma chamada de Alcacere, e outra de Evora, e fenece no Tejo. A esta ribeira foy parar o corpo da gloriosa Virgem, e Martyr Santa Quiteria, da qual a lançaraõ os barbaros com huma mó de moinho ao pescoço pelos annos 300 pouco mais, ou menos depois de Christo, cujo corpo sendo achado pelos Christãos, o foraõ occultar em huma cova no sitio de Monfurado, para baixo de hum monte, onde está huma Ermida da invocaçaõ de S. Christovaõ; mas até agora está taõ occulto, que ninguem tem dado com elle. Nos fins de Julho de 1738 correo a noticia que hum tal Manoel da Costa Pedreiro, natural da mesma Villa, achara muito por acaso a mó; com que a Santa foy lançada no mesmo rio. Tinha de diametro dous palmos, e de altura seis dedos, e era de pedra branca com salpicos pretos; mas naõ se assentou em cousa certa. Veneraõ-se hoje tres imagens de Santa Quiteria na Provincia do Alentejo. Huma em Montemór o novo na Igreja de S. Joaõ de Deos: outra na Ermida de S. Christovaõ; e outra em a nova Igreja dos Monges das Covas no Altar collateral da parte da Epistola, collocada no anno de 1759.

80 Carbuncas, ou Cabruncas. Nasce na serra de Freixedas do Bispado de Leiria. Diffunde-se até a Villa de Pombal, onde adiante com o Danços caminha a Soure, e vay finalizar no Mondego.

81 Carcedo. Faz mençaõ deste rio Macedo nas Flores de Hespanha, sem dizer onde nasce, ou por onde corre.

82 Cardeira. Nasce esta ribeira das vinhas de Béja, e correndo de Norte a Sul, depois de passar pela ponte de hum arco, expira no Guadiana em a Freguezia de Santa Catharina de Quintos, termo da mesma Cidade de Béja.

83 Carnide. He huma ribeira que nasce no termo de Leiria, e vay buscar o Louriçal, onde tem huma ponte, e depois de andar seis leguas, vay morrer no Mondego por cima da barra da Figueira.

84 Castelãos. Nasce no Lugar de Cadraço, que fica no Concelho de Guardaõ, e correndo por entre montes, e penhascos, vem a formar o rio Crins, que se mete no Mondego.

85 Cávado, a quem os Romanos chamavaõ Celando, e Ptolomeu appellida Cavus. Nasce nas Asturias, conforme alguns, ou na Serra do Gerez, segundo outros; e precipitando-se ao Valle para receber outras ribeiras, especialmente o chamado Homem, cerca, e poem em Peninsula as mesmas terras, por onde passa huma legua de Braga. Rega com suas aguas frigidissimas as Villas de Prado, onde tem ponte; os muros de Barcellos, onde tem outra formosa ponte, e vay acabar no mar por entre Faõ, e Esposende; e de Faõ até a barra dá huma volta para o Norte quasi do feitio de hum C, e nesta volta quebraõ muito sua força as marés. Vejaõ os curiosos as perguntas, e respostas, que acerca deste rio fez o Reverendo Padre Argote.[227] Pescaõ-se neste rio muitos salmões, relhos, e outra variedade de peixe, e se achaõ tambem nelle amethystos, jacinthos, e crystaes muy finos. Entre todas as pontes por onde se deixa vadear, he muy famosa, e magnifica a que existe na Freguezia de S. Thomé de Perozelo; pois consta de doze arcos de cantaria, obra Romana; e por aqui fazia transito huma das vias militares que sahiaõ de Braga para Astorga.

86 Cá-vay. Este rio passa pelo termo de Castellobranco naõ muy distante da Igreja de Nossa Senhora de Mercoles.

87 Caya. Nasce em Castella na serra de S. Mamede junto do monte chamado dos Sete, termo da Villa de Marvaõ; e correndo pelo meyo dos soutos da Villa de Alegrete, e perto de Arronches, vem separar Campo-Mayor da Cidade de Elvas, e passa pela celebrada ponte de Caya antes de entrar no Guadiana proximo a Badajoz. He esta ribeira muy conhecida, porque sobre a ponte, que alli se levanta, se costuma fazer a entrega das Pessoas Reaes de Portugal, e Castella, que por casamento mudaõ de Reino: assim o vimos em 19 de Janeiro de 1729 nas Reaes entregas das Serenissimas Princezas do Brasil, e das Asturias.

88 Cayde. He hum ribeiro, que nasce no monte de Santo Antonio perto da Vila de Guimarães, e se mete no Celho.

89 Ceife. Ribeira, que corre pela Freguezia de Santa Margarida do termo da Villa de Proença a velha.

90 Cellinho. Desde o Lugar do Reboto junto a Guimarães corre com o Celho, e se esconde no Lugar dos Sumes, e torna a surgir no Lugar de Sercedelo para se intrometter com o Ave.

91 Celano. O mesmo que o Cávado.

91 Celho. Tem seu nascimento na fonte de S.Torcato perto de Guimarães, e conduzido com o augmento de outros riachos, vay passando triunfante pelos arcos de diversas pontes, a da Madre de Deos, a de Caneiros, a do Miradouro, a do Soeiro, e se vay esconder no rio Ave por baixo da ponte de Servás, conservando sempre o mesmo nome. No Lugar de Penouços deraõ as aguas deste rio de beber às Tropas Portuguezas, e Castelhanas, que se acharaõ na batalha da Veiga das Favas.

93 Ceiça. Ribeira, que entra no Nabaõ, e nasce no termo da Villa das Pias.

94 Cerdeira. Ribeira, que corre pela Villa de Coja, e entra no Alva.

95 Ceras, antigamente Ceres. Entra no Nabaõ.

96 Cértoma. Nasce no Couto da Vacarissa perto do Bussaco, e vay acabar no Agadaõ muy soberbo. As suas aguas antigamente eraõ pessimas: depois que tiveraõ a felicidade de beber dellas Santa Isabel, ficaraõ com tal virtude, que até os gados que alli bebem, saõ as suas carnes de melhor sabor que os de outra parte.[228]

97 Ceira. Rega as Villas de Goes, e Cerpins, fertilizando seus campos, e enriquecendo seus moradores de grãos de ouro, que suas correntes levaõ.

98 Chança. Esta ribeira fica distante meya legua da Villa de Ficalho, e divide por esta parte o nosso Reino do de Castella.

99 Chinches. Corre ao Norte da Cidade de Elvas por hum amenissimo valle povoado de fresquissimo arvoredo, hortas, e pomares, e repartindo os montes de Nossa Senhora da Graça, e do Castello. Visto este rio da Cidade, faz huma agradavel perspectiva.

100 Chileiros. Nasce este rio na lagoa de Malveira, Lugar da Freguezia de Alcainça, termo da Villa de Cintra; e discorrendo pelas margens do monte Malhamartello, passa por baixo da estrada Real de Mafra, onde se augmenta com os riachos Sexeira, e Pinheiro, que lhe daõ forças para cortar com mayor efficacia o alto monte chamado de Moncharro. Depois entra pelas terras da Freguezia da Igreja nova, e passa pelos Lugares de Moinhos, Granja, Lage, e Farello, onde recebe as aguas do ribeiro Bocco da banda do Sul, e da mesma parte recolhe outro, que nasce na fonte de Danços. Daqui vay caminhando até o moinho das Peras pardas, onde se lhe introduzem as correntes do rio Mouraõ, e as do Almargem do Bispo. Alli faz hum salto, de cujo impulso formaõ as aguas hum profundo poço, que está sempre provido de muito, e bom peixe; e metendo-se pelas Freguezias de Chileiros, e Carvoeira, vay até à Igreja de Nossa Senhora do Porto occultarse no mar. Tem este rio mais de quatro leguas de comprido, em cuja distancia fertiliza boas terras, que todas se fabricaõ. Da Mouxeira para baixo vay banhando deliciosas planicies cheias de muitas vinhas, que só a Freguezia da Carvoeira dizima hum anno por outro trezentas pipas de vinho. Criaõ-se nelle muitos bordallos, mugens, e fataças, que entraõ pela foz, quando se rompe com as cheias.

101 Chouchou. He ribeira, que banha a Villa de Serpa.

102 Coa. No Reino temos dous rios deste nome: hum, que corre junto de Alcobaça, e que se préza de dar nome à dita Villa; outro, que nasce na serra de Xalma, porçaõ da Gata, e entra em nosso Reino por Folgosinho. Outros lhe daõ o nascimento mais perto de Alfayates, e concordaõ em se meter no Douro em Villa nova de Foscoa. Os Romanos lhe chamavaõ Cuda, e aos povos, por cujas terras passava, davaõ o nome de Cudanos, e Transcudanos. As aguas deste rio saõ boas para tingir lãs, e caldear ferro; porém pessimas para se beber, porque causaõ melancolia, e dores de cabeça.

103 Cobres. Nasce esta ribeira pouco abaixo de Castro-Verde, e unindo-se com o Terges, se vaõ incorporar ambos com o Guadiana, onde perdem o nome.

104 Corgo. Nasce perto da Villapouca, discorre pelos limites de Villa-Real, e vay sepultarse no Douro abaixo de Canellas, e Poyares. Os Romanos lhe chamavaõ Corrugo.

105 Corona. Em distancia de huma legua de Grandola corre este rio pelas raizes da serra dos Algares, e serve de linha divisoria dos termos de Grandola, e Alvalade.

106 Coura. Corre este rio de Nascente para o Poente, e cerca juntamente com o Minho a Villa de Caminha, e se metem no mar ambos, formando duas barras, e a ilha Insoa.

107 Criz. He hum rio composto de muitas ribeiras, o qual passando pela Villa de Santa Comba Daõ, se mete no Mondego.

108 Daõ. Nasce na serra de Carapito pela parte do Sul, ficando-lhe da parte do Norte a serra da Estrella; e dando volta ao Poente, vay ao Castello de Penalva com furia bastante. Faz as extremas dos Bispados de Viseu, e Coimbra pelas terras do Concelho de Besteiros, e por baixo da Villa de Santa Comba Daõ, a que dá o nome, se mete no Mondego.

109 Danços. Tem sua origem junto da Igreja de Nossa Senhora da Estrella por cima da Redinha, Bispado de Coimbra. Mistura-se com o Mondego.

110 Davino. Tem seu nascimento na serra, que fica para a parte do Sul da Villa de Grandola, e corre do Poente para o Nascente; e junto da Villa, atravessa huma formosa varzea de vinhas, e muitas arvores de fruta, que fazem deliciosa vista, dando por aqui passagem sobre ponte de pedra para o Algarve, e Campo de Ourique.

111 Degebe, ou Odigebe. Nasce este rio na herdade do Passo, Freguezia de S. Bento do Mato do Alentejo. Atravessaõ-no tres pontes em outros tantos braços no caminho de Estremoz. Tem outra ponte por onde passaõ os que vaõ de Monte de trigo, termo de Portel, para a Villa do Redondo. No Veraõ corre pouco, e conserva a agua só em alguns pégos, ou poços, por cuja causa os Mouros lhe deraõ o nome que tem, que na sua lingua significa fosso, ou cisterna.[229]

112 Deste. Nasce acima de Braga huma legua pouco mais, ou menos para a parte do Nascente: rega os arrebaldes de Braga: tem huma ponte de pouca fabrica, e logo adiante se ajunta com o Ave. Antigamente se chamava Aleste.

113 Diabroria. He huma lagoa, que ha no termo da Villa de Grandola por baixo do olho de agua chamado Borbolegaõ, de que já fallamos, a qual se fórma de huma corrente de agua, que se despenha de huma altissima rocha; e sem já mais ter diminuiçaõ em tempo algum, nem se lhe achar fundo, cria muitos safios, eirozes, e outras castas de peixes, que se pescaõ à cana. Chama-se esta lagoa Diabroria por causa de hum moinho que alli ha, o qual moe entre dia, e noite dous moyos e meyo de paõ.[230]

114 Douro. Conforme as melhores informações nasce este grande rio nas montanhas de Cantabria junto à Cidade de Soria, cujos povos antigamente eraõ chamados Duraços. Surte de huma portentosa lagoa, e descendo por alcantiladas penedias, discorre pelo Reino de Leaõ, onde se lhe agregaõ o Pisuerga, Carrion, e Tormes. Com este augmento chega a Çamora, e daqui se introduz em Portugal, passando primeiro por Miranda, e Freixo. Logo desce ao Porto, e recolhe os rios Coa, Tua, Pinheiro, Barroza, Tamega, Ferreira, Sousa, e outros, até ir lançarse no mar em S. Joaõ da Foz. He taõ grande a magestade deste rio, que quando nelle se introduzem as aguas dos outros, posto que opulentos, naõ fazem demonstraçaõ alguma na sua entrada.

115 Em Portugal he dos que naõ admittem ponte, porque sempre corre precipitado, e por isso nunca lha puderaõ fazer. Só nas Caldas abaixo de Lamego, onde chamaõ os Piares, estaõ sinaes de arcos de ponte, e por naõ se poderem proseguir, deixaraõ a empreza. Fertiliza muito as terras, por onde corre, com frutos de todo o genero muy excellentes. Pescaõ-se nelle grande numero de saveis, e lampreas, que na Primavera sahem do mar, e desovaõ pelo rio acima vinte leguas até S. Joaõ da Pesqueira, onde no meyo está hum fragoso cachaõ, que embaraça a passagem para diante. Em tempo de André de Resende intentou o Desembargador Martinho de Figueredo desimpedir este precipicio, e fazer navegavel o Douro mais para cima; porém encontrou taes contratempos, e resistencia na inveja dos homens, mais duros que o mesmo rochedo, que se deixou da empreza começada.

116 Tem fama de trazer areas de ouro, e de facto ha pessoas, que no lugar, onde o Tua entra no Douro, vaõ alli gandaiar, e naõ debalde, como affirma o grande Argote.[231] O Doutor Francisco da Fonseca Henriques, fallando deste rio, diz, que as suas aguas tem virtude deobstruente, porque passaõ por muita tamargueira, e assim saõ uteis para os opilados do baço. Tambem se affirma, que a vista das suas aguas causa melancolia, e dores de cabeça.

117 Elja, ou Elga. Corre direito ao Sul, e passa por entre Valverde, e Castello das Eljas. Divide por dez leguas Portugal de Castella, e se diffunde no Tejo entre Rosmaninhal, e Alcantara.

118 Enfesta. Pequeno ribeiro, que desagua no Minho.

119 Enguias. Corre esta ribeira por hum Lugar do seu nome, que fica no termo da Villa de Belmonte.

120 Enxarrama, ou Xarrama, nasce do ribeiro do Louredo, e se junta depois com o da Lage perto do Convento do Espinheiro de Evora. Tem sete pontes pequenas, e huma grande. A primeira da Cidade para o Espinheiro: a segunda no caminho que conduz para Villa Viçosa: a terceira na estrada para Béja: a quarta da quinta do Sande: a quinta a dos fornos da cal: a sexta a que vay para Portel: a setima do Louredo: a oitava grande, e sumptuosa, que fica da parte do Norte da Villa do Torraõ. Por ella passa quem vay para Alcacer do Sal, e para Alcaçovas, ficando no meyo desta o grande ribeiro das Banhas. Depois finalmente que desagua na ribeira do Sado, vay com ella o Enxarrama meterse no rio de Alcacer do Sal.

121 Enxurro. Corre perto da Villa da Pederneira este ribeiro, que lhe serve de grande utilidade.

122 Erra. Rega esta ribeira os campos de Coruche, e nella se mete a do Odivor.

123 Escura. He huma lagoa assim chamada, e muy celebre no mais aspero da serra da Estrella, que tem muitos passos de circuito, e consta de aguas tristes, e verdenegras, a que nunca se lhe achou fundo, nem cria cousa alguma. Quando o mar anda bravo, se embravece tambem a agua da lagoa, dando bramidos a modo de trovaõ, que se ouvem dalli muitas leguas; donde querem dizer os naturaes que se communica com o mar, naõ obstante estar delle muito affastado, e serem doces as suas aguas; porque affirma Joaõ Vaseu teremse-lhe achado mastros de navio. Perto desta lagoa nascem os celebres rios Mondego, Zezere, e Alva.

124 Mons. Marvellú, que teve a curiosidade de ver, e observar o melhor deste Reino para a sua Historia natural que intentava compor, escreve nas suas Memorias,[232] que subindo, e penetrando a altura desta serra, e fazendo lançar dentro da lagoa Escura hum moço atado com huma corda, observara este, que tendo andado cento e cincoenta passos, sentira que as aguas puxavaõ fortemente por elle; donde se póde inferir, que as aguas, que alli formaõ aquelle lago, tem alguma abertura, ou voragem por onde desaguaõ impetuosamente.

125 Esporaõ. Nasce na Povoa da Margem da parte do Sul do Concelho de Guardaõ, e se mete no Criz.

126 Fervença. Banha a Cidade de Bragança.

127 Figueiró. He ribeira, que se diffunde pela Villa de Niza, e nasce na serra de Portalegre.

128 Filvida. Corre pelo Concelho de Sever, e faz parte da divisaõ dos Bispados de Viseu, e Coimbra.

129 Folques. He huma ribeira de Arganil, que entra no Alva.

130 Freixiandas. Discorre por Alvayazere.

131 Freixo. Atravessa este grande ribeiro a mata da Bardeira da Villa do Vimieiro. Passa por entre Selmes, e Cuba, Aldeas no termo de Béja. Corre sempre por penedias, de que procede criar singulares bordalos.

132 Fresno. Mantem, e fertiliza este rio a Cidade de Miranda, a quem cerca pela parte do Occidente, e onde he recebido em ponte de pedra lavrada. Ha aqui proxima huma fonte, cuja agua vem por arcos conduzida do Lugar de Villarinho.

133 Fulias. Desagua no Minho.

134 Gafaria. Entra no Douro.

135 Garcia menino. He hum celebre pego, cujas aguas enriquecem o rio Sadaõ, e onde se acha em todo o anno muito peixe, especialmente as nomeadas tainhas de boca vermelha.

136 Germunde. Entra no Douro.

137 Gobe. Entra no Guadiana da parte de Portugal.

138 Grefões. D. Francisco Manoel cuida que he o Celando, que nós appropriamos ao Cávado. Veja-se o Padre Poyares no Diccionario pag. 347.

139 Gogim. Faz este rio com suas aguas, que banhaõ a Freguezia do Salvador de Sabadim, Comarca de Viana, augmentar grandemente o rio Vez, com o qual se incorpora.

140 Guadiana. Nasce quatro leguas de Montiel em huma lagoa chamada Roidera na terra de Alhambra; e sumindo-se junto de Argamansilha, resurge dalli sete leguas perto de Daimiel, onde chamaõ os olhos do Guadiana; e correndo do Oriente para Poente, entra em Estremadura. Chegando a Medalhim, muda seu curso para Meyo dia até chegar huma legua antes de Merida, donde torna ao Poente, banhando seus muros, e os do Castello de Lobon, e Cidade de Badajoz, a huma legua da qual, e duas da Cidade de Elvas, divide os termos de ambas por huma parte, e o rio Caya por outra.

141 O nome proprio antigo de Guadiana foy Ana, derivado, conforme a opiniaõ de alguns, de Sic-ano, que dizem ser Rey de Hespanha; porém, segundo Samuel Bocharto,[233] he palavra Syriaca, a qual significa ovelha, porque nas margens deste rio se apascentaõ grandes rebanhos desse gado. Os Mouros lhe chamaõ Guad-hana, que quer dizer cousa, que se esconde. Entra em fim em Portugal abundante de aguas de outros menores rios, que se lhe introduzem, e perdem nelle o nome. Continúa seu curso, dividindo a antiga Betica da Lusitania, e se lança no Oceano Athlantico entre Ayamonte, e Castro-Marim.

141 Enobrecem-no tres formosas pontes, a de Merida, Badajoz, e Olivença. Nesta ponte mandou ElRey D. Joaõ II. edificar huma torre de tres sobrados com suas janellas, e seteiras, que defendiaõ a passagem do rio. Depois a mandou reedificar ElRey D. Manoel, ficando huma das mais galhardas, e formosas pontes de todo o Reino por sua fortaleza, arquitectura, e fabrica, a qual assenta sobre os penhascos do rio, que naquella parte corre alcantilado sobre dezoito arcos, e tudo he passo importantissimo para soccorrer Olivença, em que os passageiros pagavaõ certo direito, que já naõ permanece. No principio das ultimas guerras de Castella, que aconteceraõ o anno de 1709, a arruinaraõ os Castelhanos. Fr. Bernardo de Brito na Geografia de Portugal, fallando das aguas deste rio, diz, que costumaõ fazer negra a farinha do trigo, que com ellas se moe. Tem ellas virtude diuretica, e deobstruente, como nos diz o Aquilegio Medicinal.

145 Herdeiro. Corre este rio chegado aos muros de Guimarães. Traz sua origem da fonte do Bom-Nome, que está no Casal, que chamaõ d’Entre as vinhas, na Freguezia de S. Pedro de Azurey. Tem huma só ponte de pedra lavrada, que chamaõ de Santa Luzia, mais magestosa do que convinha à pobreza das suas aguas. Vay acabar no rocio de S. Lazaro, aonde ajudando-o outro regato, vaõ ambos incorporarse com o Celho no Lugar do Reboto.

144 Homem. Tem seu berço na serra do Gerez, e no sitio chamado Lamas de homem. Dalli correndo direito ao Poente precipitado por entre penedias, vay engrossando com os cabedaes de outras ribeiras até se despenhar estrondosamente na Portela de Homem; donde voltando a corrente para o Meyo dia dentro do espaço de meya legua, torna a enriquecerse com as aguas de treze rios, com as quaes muito mais poderoso vay desembocar no rio Cávado a huma legua de Braga.

145 Jarda. Ribeira bem conhecida no termo de Lisboa, e na Freguezia de Bellas, por onde corre.

146 Inha. He huma ribeira muy impetuosa, que corre de altos precipicios, e onde se criaõ aguias. Mete-se no Douro.

147 Jocete. Mete-se no Guadiana.

148 Isna. Divide os termos das Villas da Certã, e Abrantes.

149 Junqueira. Rio, que desagua na enseada da Villa de Sines.

150 Lamas. A Geografia Blaviana o assina no Alentejo.

151 Lampas. Entra no Guadiana da parte de Portugal.

152 Laurede. Tambem entra no Guadiana da mesma parte.

153 Lavandeiras. Corre pela Villa de Moura, e faz hum profundo fosso a hum dos seus baluartes, a que dá nome, e se mete no Ardila para ir desembocar no Guadiana.

154 Leça. Principia doze leguas acima da foz do Douro. Outros lhe descobrem a origem no monte Corva, e concordaõ em que elle depois de discorrer pelo termo da Cidade do Porto, se vay lançar no mar em Matozinhos, fazendo apraziveis os campos, por onde passa. Deste rio tomou nome o Mosteiro de Leça, da Ordem de S. Joaõ de Malta, e foy muy celebrado na lyra do insigne Sá de Miranda. Ha nelle tres pontes de pedra boas, e grandes, em Matozinhos, no Mosteiro de Leça, e em Alfena. Alguns Authores equivocaõ este rio com o Celando, especialmente Manoel de Faria, e ainda com o Lethes, chegando a dizer naõ só na Europa Portugueza tom. 3. p. 3. cap. 7. mas na Fonte de Aganippe part. 2. Poema 8.

El Leça, que por hondo, y fresco valle
Corriendo con sociego grave, y blando
Occupa, angosta, y tortuosa calle
Con los nombres de Lethes, y Celando;
Pero si del olvido se appellida,
Quien una vez le vê, já mas le olvida.

Equivocaçaõ, em que tambem cahio Resende, como bem notaõ Joaõ Salgado de Araujo, e o incansavel Academico D. Jeronymo Contador de Argote na Geografia de Braga.

155 Lena. Nasce perto da Villa de Porto de Mós, e caminhando até Leiria, se incorpora com o Lis, e ambos se vaõ esconder no Oceano.

156 Lima. He rio de grande fama. Nasce nas Asturias, conforme Estrabo, vem por Galiza passar a Portugal pela ponte da Barca, e Ponte de Lima até ir fazer foz propria em Viana. Pescaõ-se nelle, além de outros peixes, os grandes salmões, e solhos. Fr. Bernardo de Brito[234] deduz o nome deste rio da terra, onde nasce, que he Limia em Galiza, a qual se chama assim por causa dos muitos lamarões, e lagoas, que tem, chamadas em Grego Lymnas, e em Latim Lymum, donde se derivou Lima em Portuguez.

153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou Belion e depois Lethes. Assim cantou o mellifluo Bernardes na Eglog. 7.

Junto do Lima claro, e fresco rio,
Que Lethes se chamou antigamente.

A causa deste nome Lethes, que significa esquecimento, foy pela sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.

158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio Lethes. De tudo vimos a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio Lima fosse em algum tempo chamado Lethes, nem por isso tem dependencia com o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os Authores abaixo;[235] porque este nome Lethes se acha imposto a outros rios illustres, como diz Claudiano:[236] e todos os rios, que tem adquirido semelhante nome, he porque houve nelles motivos, ainda que incognitos, de especial esquecimento, e taes saõ os que sinala Estrabo[237] em Macedonia, e em Candia, sem que por este principio haja dependencia, que faça perverter o certo com o fabuloso.

159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio Floro,[238] que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo, crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos era elle o verdadeiro Lethes; respondemos, que este conceito era futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava, para lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma, para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores: e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento; no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229. contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que no Prologo do seu Filippe Prudente, fallando do Lima, attribue às suas aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a fabula. O certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só parece que corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, que o vem, de que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse D. Francisco Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne Botelho, e o Padre Reys.[239]

160 Liria. He ribeira de Castellobranco.

161 Lis. Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica numa legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a Cidade, e o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde estaõ os arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena.

161 Lixosa. Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre, fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa, porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra pelo Crato, onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento. Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada.

163 Lobos. Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a Mirandella.

164 Lousaõ. He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte do Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie.

165 Locía. He hum pequeno regato, que passa pelo meyo da Villa de Amarante.

166 Lucefece. Nasce na serra d’Ossa, e correndo junto da Villa de Terena da parte do Norte, fertilizando o Alandroal, e Redondo, se vay meter no Guadiana.

167 Maçaõ. Nasce perto da serra chamada Teixeira, e entra no Douro.

168 Maratéca. He huma das grandes ribeiras do Alentejo naõ muito longe da Agualva. Por ella se passa para a Moita.

169 Marcabron. Serve esta ribeira de separar os termos de Villa Alva, e o de Villa de Frades. Por outra parte divide os limites de Béja dos de Villa Ruiva, e Alvito: mete-se no de Odivellas, que vay parar ao Sado.

170 Marnel. Discorre pelo lado meridional da Villa de Vouga.

171 Mendo-Marques. No termo de Arrayolos, e no sitio da Freguezia de S. Gregorio corre esta ribeira.

172 Mente, ou Rabaçal. He rio, que nasce perto de Pentes, Lugar de Galiza, e rega o termo da Villa de Monforte, donde caminha para o Tua, no qual se mergulha junto ao Lugar de Chellas em Mirandella depois de caminhar doze leguas. Pescaõ-se nelle boas trutas.

173 Merce. He huma ribeira, que nasce junto do Lugar de Val de Prados, termo de Bragança; e correndo perto da Villa de Cortiços, passa por huma ponte de dous arcos, para se ir incorporar com o Tua.

174 Minho. Para diante do Lima tres leguas ao Norte corre o Minho quasi taõ opulento como o Douro. Estrabo lhe dá o nome de Benis. Nasce perto da Cidade de Lugo, e caminhando o espaço de trinta e seis leguas, rega em Portugal as Villas de Melgaço, Monçaõ, Valença, Cerveira, e vem fenecer no mar entre a Cidade de Tuy, e a Villa de Caminha. Dizem que o chamarse Minho he por causa da cor, que as suas aguas recebem do fundo, que tiraõ hum pouco a vermelho: outros o attribuem ao vermelhaõ, que nasce nelle; porém Joaõ Salgado na Hydrografia deste rio diz, que se deriva da fonte Minhaõ, onde nasce, quatro leguas ao Norte de Lugo. Fallaõ deste rio os Authores abaixo allegados.[240]

175 Mondego. Tem sua origem na serra da Estrella; e discorrendo pela Cidade de Coimbra, lhe communicaõ suas aguas fecundidade, e recreyo nos campos, e nos bosques; e depois de banhar todo o terreno, e passar pela famosa, e formosa ponte, vay concluir seu curso, e formar o porto de Buarcos. Da serenidade do seu progresso se lembrou Camões, quando cantou:[241]

Vaõ as serenas aguas
Do Mondego descendo,
E mansamente até o mar naõ paraõ.

Falla o Poeta de quando elle corre no tempo do Estio; porque no Inverno se precipita furioso, causando muitos estragos, e ruinas; donde Vasco Mousinho veyo a dizer:[242]

Mondego no Veraõ sereno, e brando,
Turvo no Inverno, bravo, e dissoluto.
Té lá onde na foz, que vay buscando,
Paga de suas aguas o tributo.[243]

176 Montijo. He rio da Villa de Aldea-Gallega. Nasce em hum bom porto, huma legua antes que se sepulte no mar: he muy espaçoso, e navegavel quasi com todo o vento: com baixamar espraya, mas nem por isso (se for preciso) deixaráõ a toda a hora de receber os seus canaes com segurança as embarcações, que vaõ de Lisboa.

177 Mós. He huma pequena ribeira, que corre perto da Villa de Mós. Caminha quatro leguas antes de se meter no Douro: hum quarto de legua afastado da Villa tem ponte de tres arcos.

178 Murtigaõ. Ribeira, que passa junto ao Convento da Tomina.

179 Nabaõ, antigamente chamado Nava de Juncoso.[244] Corre este venturoso rio pela Villa de Thomar; e damos-lhe o nome de venturoso, naõ só porque deu fama, e nome à insigne Cidade de Nabancia, que esteve aqui fundada, e foy regada com suas aguas, mas porque ellas tiveraõ a fagrada prerogativa de conduzirem até Santarem o bemaventurado corpo da gloriosa Santa Iria, que junto dellas martyrizou o cruel Banaõ por ordem de Britaldo, filho do Governador de Nabancia; donde Fr. Joaõ Felix disse:[245]

Præcipitat Naban, Irenes Virginis olim,
Qui sacra mærenti corpora vexit aqua.

Nasce elle na fonte do Agroal junto da foz da ribeira das Pias; e entrando com arrogancia pela Villa dentro de Thomar, e pela ponte da Granja, sahe por outra, que fica para o Sul, chamada das Ferrarias; e engrossado com outros riachos, se occulta no Zezere para entrarem ambos no Tejo junto à Villa de Punhete.

180 Neiva. Este rio sahe das montanhas de Avoim, e vem fertilizando os campos da Ponte da Barca, e Ponte de Lima; e depois de se sujeitar a quatro pontes, entra no mar Oceano pela foz, que naõ dista muito de Viana. Duarte Nunes diz,[246] que este rio se mete no Cávado, para ambos entrarem no mar entre Faõ, e Esposende; porém outros[247] emendaõ esta equivocaçaõ com a noticia mais certa, que temos expendido; porque as duas povoações de Faõ, e Esposende ficaõ para a parte do Norte muito mais adiante, donde o rio desemboca.

181 Niza. Cerca por hum lado a Villa de seu nome, e nasce na serra de Portalegre.

182 Noeime. Nasce junto da Guarda com dous braços: hum delles na fonte Dorna, que corre ao Poente, vira para o Norte, e depois continúa ao Nascente; o outro principia no Lugar de Porcas pela parte do Sul, e se mete no rio Coa por baixo da Miuzella: he a informaçaõ, que nos dá Joaõ Salgado de Araujo pag. 108.

183 Obidos. No termo desta Villa está a celebre lagoa, que tem de Norte a Sul huma legua de comprido, de Nascente a Poente tres quartos de legua, desorte que faz a fórma de numa Cruz com os braços de mar que humas vezes se lhe communica, e outras naõ. Serve de pé a esta Cruz a barra a que chamaõ Foz, a qual com os ventos Nortes se entupe tanto de area, que divide o mar da mesma lagoa. Nella entraõ tres rios, dous pelo Sul, e hum pelo Nascente: os dous saõ os que passaõ pelo arrabalde de Obidos, e pelo lugar da Amoreira, onde chamaõ Aboboriz: o terceiro vem das Caldas.

184 Quando esta lagoa está communicavel com o mar, he fertil de toda a qualidade de peixe; pescando-se nella muitas douradas, robalos, solhos, tainhas, safios; e até excellente marisco, de ostras, amejoas, berbigões, e admiraveis camarões; de cuja fertilidade se utilisaõ as duas Villas de Obidos, e Caldas, e mais terras circumvisinhas; tomando todos o deleitavel divertimento de fazerem alli repetidos lanços; e juntando-se às vezes na lagoa mais de vinte bateiras para esse effeito.

185 No sitio a que chamaõ da Cabana, memoravel naõ só pela Ermida da Senhora do Bom Successo, de muita devoçaõ; mas pelo ameno, e delicioso do lugar povoado de grande arvoredo, o Senhor Rey D. Joaõ IV. teve o gosto de jantar alli, como consta de hum padraõ aberto em lamina de pedra, que diz: O Serenissimo, e feliz Restaurador deste Reino ElRey D. Joaõ IV. jantou nesta Cabana: a 14 de Setembro de 1645 foy feita. Em outro padraõ está outro letreiro, que diz assim: O Magnanimo Monarca D. Joaõ V., e os Serenissimos Infantes D. Antonio, e D. Manoel jantaraõ nesta Cabana aos 14 de Abril de 1714.

186 Acha-se no meyo deste bosque huma mesa de pedra lavrada, simplesmente inteiriça, que tem duas varas e meya de comprido, e vara meya de largo: por ambos os lados ha dous bancos tambem de pedra do mesmo comprimento, e nas cabeceiras outros dous. Defronte da mesa corre huma fonte de cinco bicas de agua perenne, que faz o lugar mais aprazivel. Aqui se divertiraõ na caça dos galeirões, e ades em Outubro de 1761 o Fidelissimo D. Joseph I. com a Rainha Nossa Senhora, o Serenissimo Infante D. Pedro, a Serenissima Princeza, e mais Pessoas Reaes com a mayor parte da Corte.

187 Ocreza. He huma ribeira, que corre junto da Villa de Sarzedas.

188 Odemira. Banha Villa nova de Mil fontes no Algarve, e a pouco espaço se mete no mar.

189 Odiége. Fórma-se de duas ribeiras nas Freguezias de S. Brissos, termo de Montemór o novo, e de S. Sebastiaõ da Gesteira, termo de Evora. Tem ponte, e passada ella, se vê no alto de hum oiteiro da parte do Sul a milagrosa fonte da Senhora da Esperança das Alcaçovas, de que fallaõ o Santuario Mariano tom. 6. pag. 320. e o Diccionario Geografico de Cardoso tom. 1. pag. 143.

190 Odivelas. Nasce na serra de Portel, e vay regar a Villa de Alvito. Tem duas pontes, huma da banda do Sul no caminho que faz o correio desta Villa para Béja, donde dista cinco leguas: outra em Villa Ruiva na estrada por onde se vay desta Villa para Evora: esta ponte foy fabrica dos Romanos, por ser transito da via militar de Evora para Béja. Para diante da Aldea de Alfundaõ separa o termo de Béja do Torraõ, e incorporado com a ribeira do Marcabron, vay morrer ao Sado.

191 Odivor. Fertiliza pela parte do Norte os campos da Villa das Aguias; e discorrendo pelo termo de Arrayolos, tem na Freguezia de Santa Anna duas pontes, e dá movimento a sete moinhos. Esta ribeira he a mesma que a de Arrayolos.

192 Olivença. Passa esta ribeira pelo termo da Villa de seu nome. Alguns dizem, que nasce nas serras de Salvaterra, outros na de Salva Leon; mas sempre concluem, que tem sua origem em Castella, cujas correntes fazem apartar aquelle Reino do nosso: mete-se no Guadiana.

193 Olho de Pedralva. He huma pequena ribeira, que nasce de huma fonte no Lugar de Pedralva, termo da Villa de S. Lourenço do Bairro, Bispado de Coimbra.

194 Orãos. He hum dos rios, que banhaõ a Villa de Soure, e vem da Villa de Pombal para se meter no Mondego.

195 Paiva. Nasce este rio em o sitio de Nossa Senhora da Lapa; e chegando à Freguezia de S. Martinho do Gafanhaõ, divide o Bispado de Lamego do de Viseu: depois correndo até o Castello de Paiva, perde o nome, entrando no Douro cançado de ter andado doze leguas. Escreve delle Jorge Cardoso,[248] donde tirou o que diz a Corografia Portugueza.[249]

196 Palhas. He hum rio, que corre por Villar-Mayor, conforme vemos no Mappa de Joaõ Bautista Lavanha.

197 Paul. Rio, que entra no Zezere.

198 Pega. Ribeira, que corre perto da Villa de Pinhel, e desagua no Coa.

199 Pedonde. Nasce em Arouca abundante de gostosas lampreas, e acaba no Douro.

200 Pera. He rio menor que o Zezere onde se embebe; cerca a Villa de Pedrogaõ, e utiliza a de Figueiró com a copia de seu peixe. Deste rio se lembra Camões.[250]

201 Pera-manca. Tem seu nascimento nas vinhas de Evora, e corre junto da cerca dos Capuchos de Valverde, e se mete no Odiege depois de passar por huma ponte.

202 Pernes. Esta famosa ribeira deu o nome, ou o tomou do Lugar, que fica no termo de Alcanede: he abundante de agua, e assim a communica por muitos moinhos, que anima, e a muitas hortas, e pomares, que fertiliza. A agua da levada, que corre mais junto da ponte, dizem, que por intercessaõ de hum Bispo, que por alli passara, lhe infundio virtude para sarar toda a casta de chagas. Cria bom peixe, e desagua no Tejo.

203 Pias. Dá esta fertilissima ribeira nome a huma Villa, e nasce em hum lago junto da Ermida de S. Marcos dentro da quinta chamada da Figueira de huns formosos olhos de agua; e costeando a serra de Monchite, se mete no Nabaõ, fertilizando em tal fórma as terras, por onde corre, que lhes faz duplicar dentro de hum anno todo o genero de frutos.

204 Piodaõ. Corta pelo meyo o Concelho de Vide de Foz de Piodaõ, e entra no Alva.

205 Pipa. Rega pela parte do Norte a Villa da Arruda.

206 Pisco. Pela parte do Oriente da Villa de Langroiva corre este rio, que fertiliza seus campos de paõ, azeite, e frutas.

207 Ponsul. De tal fórma cerca a Villa de Idanha a velha, que a reduz a Peninsula. Em distancia de huma legua para o Nascente de Castellobranco tem ponte.

208 Pontega. Passa pelas Freguezias de S. Gregorio, e Nossa Senhora da Consolaçaõ, termo de Arrayolos, e se mete no Odivor.

209 Quarteira. Este rio he do Algarve, e corre junto a Faro.

210 Rabaçal. He o mesmo que o rio Mente.

211 Ramalhoso. Ribeiro, que passa pela Villa de S. Vicente, e seu termo.

212 Regalvo. Desagua na enseada da Villa de Sines.

213 Rezes. Ribeira do termo do Sardoal.

214 Riba-Pinhel. Nasce perto da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa: começa sua corrente pelo termo da Guarda encaminhado ao Sul: passa ao termo de Jarmelo direito ao Nascente, e torna a voltar para o Norte por entre Jarmejo, e Castello-Mendo. Vay à ponte de Pinhel, e huma legua adiante entra no Coa.

215 Ribeira de Freixas. He hum pequeno rio, que corre meya legua distante da Villa de Trancozo.

216 Ribeira dos Gallegos. Corre pelo termo da Villa de Vinhaes, e junto da Freguezia de Santa Cecilia dos Casares, onde se pescaõ muitas, e boas trutas.

217 Ribeira da Murta. No termo de Alvaiazere discorre esta ribeira pela Freguezia de S. Pedro do Rego, e divide este termo do da Villa das Pias.

218 Rio das Maçãs. He huma ribeira, que corre junto à Villa de Collares.

219 Rio Mourinho. Passa pelo termo de Montemór o Novo, e por junto do Convento dos Religiosos Paulistas, que os provê de grandes pardelhas.

220 Rio Tinto. Corre huma legua distante do Porto. Chama-se tinto, porque quando foy a geral destruiçaõ de Hespanha, mataraõ os Cidadãos do Porto tantos Mouros, que o sangue chegou a tingir a agua.[251] Mete-se no Douro.

221 S. Romaõ. Nasce na Freguezia de S. Martinho das Amoreiras, termo de Ourique. Corre pelas Villas de Alvalade, Garvaõ, e termo de Panoyas, até desaguar no porto delRey, termo da Villa de Alcacer do Sal.

222 Sabor. Nasce por cima do Lugar de Rabal, que fica na raya de Galiza, mas he termo de Bragança, donde dista duas leguas. Discorre sempre por altas, e alcantiladas penedias, até chegar aos confins da Villa de Castro Vicente; e depois de ter andado dezaseis leguas, e obedecer a cinco pontes, algumas de cantaria, e de perfeita arquitectura, com orgulho desagua no Douro.

223 Sacavem. Este rio, que discorre pelo Lugar de seu nome duas leguas distante de Lisboa, desemboca no Tejo, e faz huma profundissima foz, na qual podem entrar os mayores navios deste porto; e ficando quasi ao Norte da Cidade, volta contra o Noroeste, navegando-se até a Mealhada, e da sua ribeira se levantaõ huns montes, que a cultura tem feito apraziveis, os quaes se vaõ estendendo com huma larga volta contra o Poente, levando sempre ao pé hum fundo valle aberto por muitas partes com regatos, que por elle correm. Por ordem delRey D. Joaõ. V. se reformou a barca da passagem deste rio pela admiravel idéa do nosso insigne Maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os passageiros.

224 Sadaõ, ou Sado. O nascimento deste rio foy ignorado por Duarte Nunes na Descripçaõ de Portugal; porém Joaõ Salgado de Araujo diz, que nasce nas faldas da serra de Monchique junto à Villa de Almodovar, e passando por Ourique, recebe as ribeiras de Aivados, Gracido, Ferrarias, Campilhas, Figueira, Roxo, e Garcia menino, onde faz hum grande lago, e mais para diante outro, que chamaõ de Santa Margarida, até que copioso vay acabar em Setubal. André de Resende ignorando-lhe tambem o principio, e dando-lhe o nome de Callipode, que o tirou de Ptolomeu, diz que depois de se ajuntarem as torrentes do Enxarrama, Santa Detença, e Odivellas acima de Porto de Rey, he que se começa a chamar Sado; nome que usurpa pela demora que faz no esteiro de Alcacere, antigamente Salacia; e por naõ viver muito tempo soberbo, e desvanecido com tanto roubo, morre dahi a pouco em Setubal, formando-lhe huma grande foz, e bahia. He navegavel este rio por doze leguas até Porto de Rey; e as terras por onde passa, adornadas de muitas fontes, e arvoredos, ficaõ ferteis, e e cheias de nata para corresponderem abundantes na breve producçaõ dos seus frutos.

225 Safrins. Corre em distancia de meya legua da Villa de Ferreira, e a provê de bordalos taõ bons, que se mandaõ dar aos doentes.

226 Sarmenha. He huma ribeira, que dista do rio Douro duas leguas, e nasce nas raizes da serra do Maraõ.

227 Sarrazola. Caudalosa ribeira, que banha Benavilla, huma legua distante de Aviz.

228 Seda. Nasce esta ribeira nas serras de Portalegre, e rega a Villa, a que dá o nome.

229 Sertima. Rio, que corre pelo termo da Villa de S. Lourenço do Bairro, e que se augmenta com muitos ribeiros, que fertilizaõ o mesmo termo.

230 Sequa. Divide, ou corta pelo meyo a Cidade de Tavira, o qual nascendo do sertaõ, faz este transito por huma boa ponte de sete arcos.

231 Sever, ou Severa. Tem sua origem na serra de S. Mamede no Alentejo, e com as fontes, que se despenhaõ das serras de S. Braz, e Portalegre, se faz copioso. Desta sorte correndo pela Villa de Ouguela, paga seu tributo ao Tejo junto a Villa Velha, onde se pescaõ as mais excellentes trutas. O Padre Poyares no Diccionario Geografico lhe dá o fim no Guadiana à vista de Badajoz.

232 Silveira. Pequena ribeira, que se despenha da serra d’Ossa da banda do Sul.

233 Sizandro. Principia a descubrirse na Sapataria de huma fonte chamada Sizandro, e vem cercar Torres-Vedras, que para mayor commodidade se atravessa com cinco pontes.

234 Sobrena. He huma ribeira do Alentejo, que nasce entre Viana, e Villa nova da Baronia, a qual regando os seus pomares, se mete em Odivellas.

235 Sorraya. He huma ribeira, que pela parte do Sul banha a Villa de Erra.

236 Sor. He huma caudalosa ribeira, que banha a Villa da Ponte de Sor pela banda do Oriente, e se mete no Tejo ao pé de Coruche. Os Romanos fundaraõ aqui huma grandissima ponte, para por ella fazerem a estrada de Santarem para Merida.

237 Sordo. Na Freguezia de Santa Eulalia da Comieira do Concelho de Penaguiaõ corre este rio da parte do Norte; e passando pelo Lugar de Relvas, se vay esconder no Corgo.

238 Sozeis. Dista esta ribeira duas leguas de Evora no caminho de Béja, e se recolhe no Enxarrama.

239 Sousa. Nasce junto à Igreja de Moura entre o Mosteiro de Pombeiro, e o de Cramos; e daqui descendo a fertilizar todas as terras, a que vay dando nome por espaço de oito leguas, vay acabar no Douro defronte do Lugar de Arnelas, duas leguas acima do Porto.

240 Soberbo. Deixou este rio de ser Tavora por ser Soberbo, depois que o ultimo Marquez daquelle titulo Francisco de Assiz padeceo no caes de Bellem a 13 de Janeiro de 1759 a injuriosa morte pela conjuração em que entrou contra o Fidelissimo D. Joseph I. E porque naõ corresse mais com o nome de Tavora, cujo appellido recebia, tanto que fazia alto na venda do Cepo, daquelle dia por diante se mandou chamar o rio Soberbo. Origina-se elle de huma fonte chamada de Joaõ Duraõ perto de Trancoso, e do Mosteiro de S. Francisco. Augmentado com outros pequenos rios alcança nome; e caminhando para o Norte até a ponte do Abbade, divide os dous Bispados de Viseu, e Lamego. Avista Sernancelhe, e o Mosteiro da Ribeira, que he de Freiras de Santa Clara, e com ponte de madeira se vay indo direito Nornordeste ao Villar, e por ponte de pedra se diffunde a Fonte Arcada; e voltando outra vez para o Norte, marcha por entre Paredes, e Castello de Cabriz até descer ao Mosteiro de S. Pedro das Aguias. Estende-se a Espinhosa, e vay buscar sua ponte de pedra, onde he chamado o Poço do fumo. Visita a Villa de Tavora, e o Lugar de Taboaço, e daqui caminha para o Douro.[252]

241 Sul. Rega a Villa de S. Pedro do Sul, a que deu nome, e consente vadearse com duas pontes de pedra, que mandou fazer o Infante D. Luiz, que foy Senhor do Concelho de Lafões.

242 Tamega. He dos principaes rios do Reino. Nasce em Galiza junto da serra do Larouco na fonte, a que chamaõ Tamega, de que herdou o nome. Atravessa grande parte do Minho de Norte a Sul, até que entra pela Villa de Chaves por huma excellente ponte feita pelos naturaes da Villa em tempo, que governava o Imperador Trajano, como consta do letreiro, que se lê esculpido em hum pilar della, o qual transcreve Grutero, e Argote,[253] e vem a ser:

IMP. CÆS. NERVÆ.
TRAIANO. AUG. GER.
DACICO. PONT. MAX.
TRIB. POT. CONS. V. P. P.
AQUIFLAVIENSES
PONTEM LAPIDEUM.
D. S. F. C.

Quer dizer: Imperatori Cæsari Nervæ Trajano Augusto Germanico Dacico Pontifici Maximo Tribunitiæ Potestatis Consuli quinto Patri Patriæ Aquiflavienses Pontem lapideum de suo fieri curarunt.

243 O Doutor Joaõ de Barros infere, que esta ponte devia ser feita antecedentemente de madeira, porque a inscripçaõ diz: Pontem lapideum; e como aquella estrada era muy frequentada dos Romanos para Braga, mandaraõ fabricalla de pedra. O certo he, que esta ponte tem já dezaseis seculos de duraçaõ, e he toda de cantaria muy forte com noventa e tres passos de comprido, vinte e seis de largo, e trinta e dois de alto.

244 Passa este rio pela Villa de Canavezes, e de Amarante, onde tem outra ponte feita, e ordenada pelo glorioso S. Gonçalo. Chegando em fim à Villa de Entre ambos os rios, se mete ao Douro, seis leguas pouco mais, ou menos acima do Porto; e duas leguas para baixo de Amarante ha outra ponte de cantaria nobre sobre o mesmo rio, à qual chamaõ de Canavezes, que mandou fazer a Rainha D. Mafalda, filha delRey D. Sancho I. Tem mais a ponte de Cavez muy alta com cinco arcos. Chama-se de Cavez, porque o Arquitecto que a fabricou, assim se chamava. Consta de hum monumento, onde jaz o seu corpo, que he no fim da ponte, em que se lem as letras da Era, em que se acabou de fazer, que foy pelos annos de Christo 1226. Ha mais a ponte de Mondim, que parece mais moderna do que as outras; e porque o rio he nesta parte fundo, se vay damnificando pouco a pouco.

245 No anno de 1109 aconteceo neste rio hum admiravel prodigio, que referem a Monarquia, e a Benedictina Lusitana,[254] e foy dividirem-se suas aguas pelo mez de Dezembro para darem passagem ao sagrado corpo do glorioso S. Giraldo, e a toda a mais gente, que o acompanhava, quando lhe foraõ dar sepultura na Cidade de Braga.

245 Taveiró. He ribeira, que banha as Villas da Bemposta da Beira, e de Castello-Novo, e entra no Ponsul.

247 Tedo. Nasce em Caria, onde chamaõ Granja do Tedo. Recebe o ribeiro de Leomil, avista a Villa de Nagoza, e vay ao Douro por baixo de Santo Adriaõ.

248 Teja. Provê esta ribeira de peixe a Villa de Nomaõ.

249 Tejo. Entre Escritores Gregos, e Latinos foy sempre muy celebrado o Tejo, e por isto alguns lhes daõ a primazia entre os mais rios do Reino. Nasce nas serras de Molina junto da Cidade de Cuenca: outros o fazem natural de Mancha de Aragaõ: outros das serras de Albarracin; e discorrendo pelo Reino de Castella a nova, e Provincia da Estremadura Castelhana, rega os povos de Zurita, Aranjuez, Toledo, Talavera de la Reyna, Almaraz, e Alcantara, em cujo progresso recebe as correntes de muitos rios, principalmente o Henares, Xarrama, Mançanares, e Guadarrama; e com cento e vinte leguas de jornada vem por Santarem descançar em Lisboa, fazendo na melhor Cidade o melhor porto de mundo: e se a vulgar fama dos antigos, que lhe attribuia areas de ouro,[255] nos serve sómente hoje de admiraçaõ, e naõ de experiencia, fica semelhante falta bem supprida com os avanços das copiosas riquezas, que todos os annos lhe estaõ entrando pela sua famosa barra nas opulentas frotas do Brasil.

250 E quando nem isso fora, bastava para estimaçaõ, e riqueza encerrar em si o preciosissimo thesouro do glorioso corpo de Santa Iria, sepultado debaixo de suas aguas defronte de Santarem. Duas vezes foy visto milagrosamente: a primeira, quando o tio da Santa, chamado Celio, com a mayor parte do povo de Nabancia, assim Ecclesiasticos, como seculares, o foraõ ver por permissaõ de Deos, fazendo com que se separassem as aguas, e Celio chegou a abrir o sepulchro, e tirar da Santa parte de seus cabellos, e pedaços da tunica: a segunda no anno 1324 pela Rainha Santa Isabel, e ElRey D. Diniz, em cuja occasiaõ se abriraõ tambem as aguas para dar passagem à Santa Rainha, e tempo a se fazer hum padraõ de pedra, que indica o sitio do sepulchro,[256] que o Senado de Santarem mandou aperfeiçoar no anno de 1644. Do Tejo escrevem os Authores abaixo allegados.[257]

251 Temitólas. Nasce em Lumiares, e pela Villa de Armamar se vay direito ao Douro.

252 Tera. Tem seu nascimento na serra d’Ossa naquella parte, que olha para Estremoz, e corre junto da Villa de Pavía: tem ponte, por onde se vay para Aviz, e paga seu tributo ao Guadiana.

253 Terena. Esta ribeira he a mesma que a Lucefece: dá nome a huma Villa, e mete-se no Guadiana.

254 Tinhella. Nas serras de Carrezedo de Monte-Negro, termo da Villa de Chaves, tem este rio o seu berço. Fertiliza a Villa de Murça de Panoya, e depois de caminhar oito leguas vay desaguar no Tua.

255 Tourões. Esta ribeira nasce perto do Lugar de S. Pedro do Rio Seco, termo da Villa de Almeida; e vindo separando o Reino de Leaõ, entra no Agueda abaixo de Escarigo.

256 Trancaõ. He huma ribeira no termo de Lisboa, que passando pelo Milharado, Sapataria, e Bussellas, vem regar, e fertilizar a grande quinta dos Conegos Regulares de S. Vicente acima do Tojal, entrando-lhe pelo meyo della; e correndo por penedias furioso no tempo de Inverno vay buscar Unhos para morrer no Tejo; fazendo primeiro trabalhar muitas azenhas, e lagares com as suas correntes precipitadas.

257 Trogalha. Corre entre Sarzedas, e Castellobranco, e entra no Tejo.

258 Trovella. Fertiliza os Coutos de Correlhã, e o da Feitosa pouco distante de Ponte de Lima.

259 Tua. Nasce em Galiza proximo ao Lugar de Pias: corre por Mirandella, onde he recebido em ponte de dezanove arcos de cantaria; e fertilizando muitas terras, vay fenecer no Douro no porto de Foz-Tua.

260 Vade. Fertiliza com saborosas trutas o termo da Villa da Ponte da Barca.

261 Val de Abrahaõ. Pequena ribeira, que nasce, e desce da serra d’Ossa da parte do Sul.

262 Val de Lobos. Ribeira, que passa por hum Lugar da Freguezia de Bellas, e faz animar muitas azenhas, e fertilizar muitos pomares.

263 Valdouro. Corre esta ribeira huma legua distante da Villa de Ferreira, e a enriquece de grandes bordalos, e pardelhas.

264 Valla. Discorre junto da Villa de Mayorga, e com prejuizo de hum formoso campo, que pelo Inverno padece suas inundações.

265 Varche. Meya legua distante da Cidade de Elvas corre este ribeiro pelo valle de seu mesmo nome.

266 Varzeas. Faz dividir Melgaço de Galiza pela parte do Oriente, e desagua no Minho.

267 Vascaõ. Corre por Alcoutim, e entra no Guadiana, separando o Reino do Algarve de Campo de Ourique.

268 Vez. Banha este rio primeiramente o Val de Poldros, termo da Villa dos Arcos, onde nasce nas montanhas de Penella; e continuando seu caminho pelos campos de Valdevez, a que dá nome, vay logo perdello dahi a huma legua, por se misturar com o Lima junto de S. Pedro do Souto, posto que já caudaloso com os muitos regatos, que entraõ nelle.

269 Vellarva. He huma ribeira, que rega o Lugar de Santa Justa, que fica no termo de Alfandega da Fé, onde desagua a ribeira Alvar.

270 Velariça. Nasce na serra de Montemel acima do Lugar da Burga, termo de Bragança. Despenha-se pela serra até parar em hum valle, a que dá o nome, e por elle detido o espaço de seis leguas, fertiliza todo aquelle terreno bastantemente. Depois vay pagar o tributo ao Sabor meya legua acima do Douro.

271 Vereza. No cimo da serra da Gardunha nasce esta ribeira, e vem logo refrescando o Lugar do Louriçal, que fica no termo da Villa de S. Vicente, e vay avistar Castellobranco, passando por boa ponte.

272 Videgaõ. Passa esta ribeira naõ muy distante da Villa de Cabeço de Vide, fertilizando muitas hortas, e pomares.

273 Vide. Cerca esta ribeira a Villa de Castello de Vide.

274 Vizella. Fórma-se de tres regatos, que nascem no Concelho de Monte-Longo; e lavando com suas aguas a Aldeya de Arricanha, se mistura com o Ave, e perdem ambos o nome, mergulhando-se no mar pela Villa do Conde. Alguns lhe chamaõ Avizella. Delle cantou Manoel de Faria:[258]

Corre el Visela amado
Progresso sonoroso,
O crystalino parto de una peña,
A ser favor de un prado.

275 Unhaes. Pequeno ribeiro, que passa pelo pé da Villa de Alvares, e se mete no Zezere.

276 Voliarça. Nasce esta ribeira na Freguezia de S. Brissos, termo de Béja, e correndo de Poente a Nascente, se mete no Guadiana, passando primeiro entre Béja, e Cuba, da qual dista huma legua.

277 Vouga. Assinaõ o nascimento deste rio na fonte da Senhora da Lapa, ou na serra de Alcoba. Daqui vem descendo ao Mosteiro de S. Bento, que ha em Ferreira de Aves, pela parte do Poente; rega muitos Lugares, até que misturado com os rios Sul, e Agueda, entra em Aveiro com bastante soberba, segundo diz Fr. Joaõ Felix na Isagoge:

Amnibus innumeris, Agathoque superbus in æquor
Piscoso latè gurgite Vacca fluit.

Tem huma grandiosa ponte, acabada no anno de 1713 por ordem do Fidelissimo Rey D. Joaõ V.

278 Xever, Xevera, Xeverete, e Xola. Saõ ribeiras, que procedem da serra de Portalegre.

279 Xudruro. Ribeiro, que nasce na fonte Freja do Concelho do Guardaõ, e fertiliza muito o Lugar de Janardo.

280 Zacharias. Com este nome corre huma ribeira pelo termo da Villa de Alfandega da Fé sujeita a huma ponte de quatro arcos, e tem seu nascimento na serra de Sambade, que outros chamaõ de Montemel. Tendo corrido seis leguas, vay acabar no rio Sabor junto do Lugar dos Picões.

281 Zezere. A este rio chama Camões caudaloso, e na verdade o he com as enchentes de outros, que entraõ nelle. Nasce na serra da Estrella sobre a Villa de Manteigas pela parte de Levante; e dando volta ao Poente, recebendo varios rios, e ribeiros, enfadado da jornada se vay a Sudoeste, e se torna para o Sul receber outros riachos, e dá entrada ao Nabaõ, que com o ribeiro da Cortiça, e regatos daquelles montes fertiliza Thomar. Na Aldea da Mata se deixa atravessar com a barca da Esteveira: e pela famosa ponte do Cabril, que faz a divisaõ dos termos de Pedrogaõ grande, e pequeno. Vay finalmente acabar em Punhete, mergulhando-se no Tejo com tanto impeto, que na distancia de mil e quinhentos passos ainda conserva a mesma cor azul, e sabor doce das suas aguas, como bem advertem Resende, e outros.