IV
NOIVADO
CORO
—Oh que mulher tão perfeita
A que vem além andando!
Vem espalhando um perfume
E é tão airosa a andar!
Parece quando se deita
Incenso e myrrha no lume
Que se vai desenrolando
Aquella nuvem no ar.
2.º CORO
—Realmente é de invejar;
Mas haja alguem que se afoite...
Sessenta homens armados
Dos mais desembaraçados
Manda Salomão ficar
De vigia toda a noite.
CORO
—É tudo á satisfação
E gosto de Salomão.
O andor onde elle sai,
De tudo de que é composto,
Cedro do Libano, olhai,
É a coisa mais barata:
Pernas e braços de prata,
De oiro o mais fino o encosto;
Onde põe os pés velludo:
Não fallando em diamantes
E pedras as mais brilhantes
Que lá isso excede a tudo.
2.º CORO
—Além vem já Salomão:
Lá vem elle já coroadoCom a corôa do noivado
Que a mãi lhe poz na cabeça
Pela sua propria mão.
Hoje é o dia fallado:
Moços, moças de Sião!
Assomai-vos já depressa.
SALOMÃO
—Que enlevo, que formosura!
A pomba não tem de certo
No olhar tanta doçura:
E fóra o que anda encoberto.O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular;
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad
Que lhes rola pelo chão
Em ellas indo a andar.Os dentes, em tu abrindo
A tua boca, que lindo!
Nem um rebanho d'ovelhas
Todas brancas e parelhas
Quando, em sendo tosquiadas,
Veem saindo do banho
D'uma em uma, enfileiradas,
E atraz d'ellas, cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.Pois a bocca é comparada
A uma fita encarnada.
A voz ouvil-a é um gosto:
Parte a romã pelo meio
Verás as rosas do rosto;
E fóra no que eu receio
Fallar que me não é dado.O pescoço, pensa a gente,
Em o vendo de collares,
Que é a torre exactamente
De David, n'esses ares,
De baluartes, e toda,
Lá cima, escudos á roda.Os peitos é um casal
De corcinhas, que o seu pasto
São açucenas do val:
Nada mais timido e casto.
E deitam um cheiro á goma,
Da myrrha mais do incenso,
A ponto que ás vezes penso
Que elles são duas collinas
Por onde aquellas resinas
Espalham aquelle aroma.És formosa sem senão,
Amada do coração!
E que fazias tu lá
Pelo Libano, pombinha!
Deixa o Libano, anda cá.
Vaes ser coroada rainha
No mais alto d'Amaná
Ou d'Hermão ou de Sanir,
Onde ha leões e onde ha
Leopardos... deves vir.Trespassou-me o coração
O teu olhar; o cabello
Prendeu-me como um grilhão.
O teu peito, basta vêl-o,
Para embebedar d'amor.
E só o cheiro que exhala
O teu corpo, não ha flôr,
Não ha rosa, não ha cravo
Capaz de cheirar melhor.A tua bocca é um favo
De doçura quando falla;
A tua lingua, uma sopa
De leite e mel; essa roupa
Cheira a incenso, regala.Não ha nada comparado:
Agua a mais pura e suave
De fonte fechada á chave,
Não é mais suave e pura.
Esse rosto, essa figura...
E só o bem que tu cheiras!
Não me parece senão
Um jardim todo plantado
De romeiras e maceiras,
Canfora, nardo, assim como
Açafrão, canna de cheiro
Aloes, myrrha e cinnamomo:
O que ha no Libano em fim;
Não ha fruta nem aroma,
Que se ahi não cheire e coma.
És a fonte d'um jardim
Toda pureza e frescura:
Torno d'agua que rebenta
Inda mais viva e mais pura
Lá no Libano, e ninguem
Lhe tem mão nem aguenta
A força com que ella vem.Fizesse já sul e norte
No meu jardim, de tal sorte
Que alegretes e pomares
Andasse tudo nos ares.
A SULAMENSE
—É natural que tu comas
Da fruta do teu jardim.
SALOMÃO
—E que duvida que sim?
Vamos primeiro aos aromas;
O mel em favo depois
E mais o vinho e o leite.
Hoje é dia de banquete,
Amigos do coração!
É comer-lhe por quem sois
E beber-lhe até mais não.