SONHO
A SULAMENSE
—Não sei bem que sonho tive
Esta noite, que acordei
Sobresaltada, e que estive
Ainda apalpando a cama
Á busca de quem me ama
E a quem ama; não achei:
Levantei-me, rodeei
A cidade toda em roda,
Corri a cidade toda,
Busquei tudo, não achei.
Na rua pergunto á ronda:
O meu amante que é d'elle?
Não ha ninguem que responda.
Vou andando; a poucos passos
Vi vir um vulto: é aquelle.
Chega e digo-lhe depois
De o apertar nos meus braços:
Quem se ama como nós dois,
Só em mudando de estado
É que vive descançado.
Anda d'ahi, vamos pois
Ao quarto mesmo onde dorme
Minha mãi que me gerou
(Que eu tua ainda não sou,
Nem tu és meu, meu amigo!)
A pedir a nossos paes
A sua benção, conforme
Costumam fazer os mais,
E é já um costume antigo.
SALOMÃO
—Pela corça e o veado,
Moças de Jerusalem!
Não a acordeis, cuidado,
Deixai dormir o meu bem
Um somno bem socegado.