I
Era a collina sancta, e em volta a gran-cidade!
Revolvera o cabeço uma audaz tempestade
De granito e de bronze, arremeçando aos ceus
Por ondas bastioens, por vagas coruchéus!
Era nova Babel, soberba e formidavel;
Tudo o que é oppressor; tudo o que é implacavel;
Das impostas pendendo os anneis dos grilhoens;
Sétteiras nos jardins; nos eirados canhoens;
Cem vigias de pedra em cada miradoiro;
Ao rez grades de ferro; em cima tectos d'oiro;
Uma pompa violenta, uma anciosa mansão,
Que dirieis romper da bocca d'um vulcão!
A espaços, coroando a tétrica cerviz
D'um torreão firmado em rudes alcantis,
Metalico zimborio esplende ao astro esquivo,
Como o élmo que aperta a fronte de um captivo.
Emmaranham-se á vista arcadas e quarteis,
E os grossos revelins, e os rendados maineis.
A um tempo Europa e Asia, opprobrio e maravilhas;
N'um reducto um bazar; as áras nas bastilhas;
Abrolhando o recinto um selvoso espessor
De agudos campanis—e no todo o terror!
Era a suspeita armada, eterna sentinella,
Por dentro Pantheon, por fóra cidadella!
Era, ao dubio alvorar que precede a manhan,
O poema d'Igôr em torno á cruz d'Ivan;
Revolta construcção d'um Encélado novo;
Garra adunca e brutal sobre o peito d'um povo;
Funesta allegoria, affronta da razão,
Que intenta dizer: gloria! e diz: escravidão!
Era a ameaça feroz na túrbida grandeza;
Templo, ergástulo, paço, erario, e fortaleza!
Era o alcaçar do Norte, o seu sanctuario, emfim
A acrópole augural do Scytha—era o Kremlin!