II

No mais alto mirante um vulto grave e mudo,
Todo nevoas o ceu, na terra immovel tudo,
Contempla vagamente as vagas solidoens.
De força e de grandeza inda não satisfeito,
Aspira o espaço e a noite—a dextra sobre o peito
Como para conter a furia das paixoens.
A metrópole immensa, adormecida ou morta,
O immenso pedestal, que rendido o supporta,
As planuras que ao longe ondulam como um mar,
As hostes, os tropheus, a conquista, os portentos,
Nada d'isto ja vê; taes são seus pensamentos,
Tam alta a mente foi, tam fundo é seu scismar.
Quem é elle? O que faz? D'onde vem? Com que fito?
Incansavel obreiro interroga o infinito;
Paz não tem; lei não quer; vai, vai; não conta os sóes;
E se instantes parou, quando a fortuna o prova,
É para meditar alguma audacia nova,
Na attitude que toca aos Numes e aos heróes!
D'onde vem? Attentae. Correi; segui-lhe o rasto.
Nunca sulco mais fundo em terreno mais vasto!
Manda: o Occidente afflue.—Que estrugir! Que avançar!
Que longo! Que voraz! Que enorme! Que terrivel!
Esta chamma? Hontem era um castello invencivel.
Esta cinza? Era ha pouco arrogante solar.
O facho precursor alonga um ermo aberto.
Investe a legião, defende-se o deserto.
D'Átilla a grande sombra, ao ver os capitaens
Violar da patria selva os não cursados trilhos,
Pensativa procura, afastando seus filhos,
Um tumulo que sirva aos filhos dos Titaens
Quem é? O homem-cratéra; emblema, sphinge, arcano;
Tanto como um propheta, e mais que um soberano.
Um dia o viu reinar mal outro o viu surgir.
Sam-lhe os povos degraus; o imperio foi-lhe ensaio;
Na larga fronte um Deus; nos olhos d'aguia um raio;
Pelas trevas se entranha, e elabora o porvir.
De Karl, o Invicto, o Magno, o Imperador espectro,
Tomou nas fortes mãos o gladio, o globo, o sceptro;
Co'a tunica viril das desprendidas greys
Tam amplo manto fez, que esconde, dilatado,
D'um lado os Pyrenéus, os Alpes d'outro lado,
E nas sobras talhou dez purpuras de reis.
Quem é? Seu grande nome o espanto e o ardor espalha,
Como o som d'um clarim n'um dia de batalha.
Ha muito o Austro o acclama. Hoje o Septemtrião
Atérrito o escutou no horror de Borodino...
A Historia escreverá: «chamava-se o Destino!»
Á voz dos seus canhoens troou: «Napoleão!»
No humilhado frontal das basilicas nuas
Levantam-se-lhe aos pés, velando, as aguias suas,
As aguias triumphaes, as aguias d'Austerlitz.
Volve acaso o semblante. Olhou. Mira a victoria
Nos amados pendoens, que inflamma tanta gloria,
E o coração trasborda, e rompe o verbo, e diz: