III
—«Eis-me. Cheguei. Mais fúlgido
Meu astro se alevanta:
No coração do Tártaro
Encosto o ferro e a planta.
Eis-me. O leão da Córsega
Emfim vos empolgou,
Ó capital das cúpulas,
Ó torres de Moskow!
Eu sou o Ajax authentico,
A authentica epopéa,
Aurora apoz crepusculo,
Espada feita idea.
Fadou-me Arcóle e Rívoli
Marengo, e Lodi, e as mais;
Rompi d'um canto homerico
Em dias immortaes.
O mesmo sou, que os seculos,
De tanto ousar pasmados,
No cimo das pyramides
Mostrei aos meus soldados.
Fiz n'essa terra, symbolo
De olympicos avós,
Estremecer nos tumulos
Os velhos Pharaós;
N'essa, ao potente estrépito
Do arrojo e das victorias,
Cubri co'as palmas ínclitas
As maximas memorias;
N'essa, mysterio pávido
Onde o passado rue,
N'essa, de assombros pródiga,
Maior assombro eu fui.
Era Alexandre o prólogo.
Tentou-me. Em cem combates
Arremessei, seu émulo,
O Nilo sobre o Euphrates.
No turbilhão phantástico
Dos rapidos corseis,
Ardentes vi cercárem-me
Os esquadroens dos Beys;
Vi mais—ceára horrifica
De alfanges e trabucos!—
Os marciaes Janizaros,
Os feros Mamelukos;
E a densa turba innúmera,
Ao breve aceno meu,
Sombra tornada, súbito
Ás sombras se volveu.
No pó de heroicas épochas
Ficaram meus vestigios;
A par das lendas bíblicas
Tracei novos prodigios.
Aos vãos chegou do Libano
Meu bellico trovão,
E do Thabor aos pincaros,
E ás margens do Jordão.
Sobre os dispersos idolos
Meus batalhoens marcharam;
De feito a feito alçândo-se,
Ovantes acamparam
De Thebas entre os pórticos,
Em Memphis sem rival...
Fêz-se ás gigânteas fabulas
A minha historia egual.
E o proseguir esplendido
Da triumphal carreira,
Quando a meus pés atónita
Prostrei a Europa inteira!
Quando, as cohortes férvidas
Dispondo a meu sabor,
Ao fim de um dia tragico
De universal terror,
Em vindo a erguer-se o Véspero,
Surgia da metralha
Nas mãos trazendo, incólume,
Um reino e uma batalha!
Meu curso meteórico
Não pára; a lucta é van:
Succedem-se fatidicas
Iêna, Eylau, Wagram.
Sou vencedor, sou árbitro
Aos curvos hemispherios;
«Surgi» ordeno, e surgem-me,
Quaes os desejo, imperios.
Triumphos e catastrophes,
Estados, leis, naçoens,
Os fulgurantes prestitos,
As bastas legioens,
Confundem-se, ennovellam-se
Na cerração turbada
D'um cahos, ao relampago
Que vibra a minha espada.
Quiz Deus tornar-me o Génesis,
Que em breve ha de accender
Nos homens novo espirito,
Nas eras novo ser.
A evolução recôndita
Avança d'hora em hora:
Trabalho sobre a íncude
A humanidade agora.
O herdeiro dos Apostolos
Ungiu-me entre os christãos,
E eu mesmo a c'roa altissima
Cingi com estas mãos.
Deixei submisso, trémulo
Como exorando as Parcas,
Aos meus humbraes um séquito
De palidos monarchas.
Este diadema unico
D'estrellas constellei;
Em nova, summa Ilíada
Sou já de reis um rei.
E aqui!... aqui rodêam-me,
Activos serviçaes,
Os meus ministros-principes,
Meus duques-marechaes!
Fervem do Sena ao Vistula
Os arraiaes em peso,
Como nas veias tumidas
Um sangue em febre accêso!
Olhae! Conduzo unânimes,
Mais fortes cada vez,
Germanos, frankos, ítalos,
O proprio portuguez;
O portuguez, que intrépido
Sabe ir, honrando os lares,
Descortinar o incógnito
Vencendo terra e mares!
Quem ha-de pois com exito
Meus planos impedir?
Aos orbes posso o âmbito,
Com braços taes medir!...
Moscow, teu solo as máculas
D'escravo teve; apague-as:
Venci o repto altisono
Das aguias contra as aguias.
E tu, rival maritimo,
Aqui te enfreio a acção!...
Ó Russia, emfim pertences-me!
Emfim és meu, Bretão!»